Fundamentos destruídos

Áurea Emanoela

Fundamentos destruídos

“No SENHOR me refugio. Como dizeis, pois, à minha alma: Foge, como pássaro, para o teu monte? […] Ora, destruídos os fundamentos, que poderá fazer o justo?” (Salmos 11.1,3).

Perseguido e ameaçado por seus inimigos, instado por seus amigos a fugir, a não resistir, a procurar um lugar que lhe abrigasse daqueles que demandavam contra a sua vida, o salmista reafirma sua confiança em Deus.

Em uma época de inversão vergonhosa de valores, qual é o fundamento da nossa fé? Sobre quais pilares temos edificado as nossas vidas? De que maneira temos vivido? Como somos vistos pelo mundo?

Durante alguns anos de sua vida, mesmo depois de ter sido ungido rei (pelo decreto soberano de Deus), Davi se viu obrigado a fugir da fúria assassina de Saul, e é nesse contexto, de perseguiçãoversus fuga, que o salmista, contrariando o conselho dos seus amigos, deposita sua confiança em Deus.

O cristão e o mundo

Como reagimos diante de uma sociedade que exalta os relacionamentos passageiros, o prazer em lugar do amor, a legalização de vícios e comportamentos lascivos, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a mentira em detrimento da verdade e tantas outras formas de corrupção humana?

Talvez, do mesmo modo como aconteceu a Davi, sejamos instados a fugir ou mesmo nos conformar com a degradação que nos cerca. Todavia, o apóstolo Paulo nos adverte:

“[…] não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.” (Romanos 12.2)

Em meio a uma sociedade adúltera, devemos transparecer os valores de Cristo, colocando-nos contra todas as distorções daqueles que pervertem a justiça e corrompem a glória de Deus.

“Não devemos ser como caniços agitados pelo vento, dobrando-nos diante das rajadas da opinião pública, mas tão inabaláveis quanto pedras em uma correnteza.” (John Stott)

O exemplo de Davi

Os companheiros de Davi deram-lhe bons motivos para buscar refúgio em outro lugar, de maneira que pudesse estar seguro das investidas de Saul:

“Porque eis aí os ímpios, armam o arco, dispõem a sua flecha na corda, para, às ocultas, dispararem contra os retos de coração” (Salmos 11.2)

Aqueles homens acreditavam que, se o salmista fugisse, deixando por algum tempo o lugar em que estava, certamente encontraria descanso para sua alma. Os companheiros de Davi descreveram a maneira sutil e covarde como agem os ímpios, arremetendo contra “os retos de coração”.

Embora a olhos humanos Davi tivesse bons motivos para “bater em retirada”, não é essa a sua decisão. Contrariando seus conselheiros, o salmista busca salvação em Deus:

“No SENHOR me refugio. Como dizeis, pois, à minha alma: Foge, como pássaro, para o teu monte?” (Salmos 11.1)

O salmista exalta a soberania de Deus, o seu cuidado para com os filhos dos homens, Davi afirma que coisa alguma passa despercebida aos olhos cuidadosos do Deus Todo-Poderoso. O Senhor perscruta todas as coisas e de maneira alguma está indiferente ao que acontece sobre a face da terra. Os amigos de Davi apenas olhavam para as coisas terrenas, mas o salmista fitava seus olhos nas celestiais, sabendo que Deus jamais cessou de reinar.

“O SENHOR está no seu santo templo; nos céus tem o SENHOR seu trono; os seus olhos estão atentos, as suas pálpebras sondam os filhos dos homens” (Salmos 11.4)

Davi reconhece que o Senhor põe à prova também ao justo, todavia não o condenará.

“O SENHOR põe à prova ao justo e ao ímpio; mas, ao que ama a violência, a sua alma o abomina” (Salmos 11.5).

O Senhor, do alto da sua soberania, permite a ação inescrupulosa dos homens, mas não retarda o seu juízo. As ações humanas limitam-se à vontade de Deus.

“Fará chover sobre os perversos brasas de fogo e enxofre, e vento abrasador será a parte do seu cálice. Porque o SENHOR é justo, ele ama a justiça; os retos lhe contemplarão a face” (Salmos 11.6-7)

O mundo caminha para a destruição dos alicerces, todavia, à semelhança de Davi, nossa confiança deve estar alicerçada no fato de que Deus reina eternamente e, ainda que todos os fundamentos se desfaçam:

“podemos sofrer com alegria, esperar com bom ânimo, aguardar pacientemente, orar fervorosamente, crer de maneira confiante e, finalmente triunfar” (Spurgeon)

Por: Áurea Emanoela Holanda Lemos | PreciosoCristo | Original aqui.
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Meditações em Filipenses (IV): Tudo coopera para a glória de Deus

Vinícius S. Pimentel

Meditações em Filipenses

Quero ainda, irmãos, cientificar-vos de que as coisas que me aconteceram têm, antes, contribuído para o progresso do evangelho; de maneira que as minhas cadeias, em Cristo, se tornaram conhecidas de toda a guarda pretoriana e de todos os demais; e a maioria dos irmãos, estimulados no Senhor por minhas algemas, ousam falar com mais desassombro a palavra de Deus. Alguns, efetivamente, proclamam a Cristo por inveja e porfia; outros, porém, o fazem de boa vontade; estes, por amor, sabendo que estou incumbido da defesa do evangelho; aqueles, contudo, pregam a Cristo, por discórdia, insinceramente, julgando suscitar tribulação às minhas cadeias. Todavia, que importa? Uma vez que Cristo, de qualquer modo, está sendo pregado, quer por pretexto, quer por verdade, também com isto me regozijo, sim, sempre me regozijarei. (Filipenses 1.12-18)

Introdução

Tendo concluído a sua oração de gratidão e súplica pelos filipenses, o apóstolo Paulo passa a falar aos crentes a respeito das últimas notícias relacionadas à sua prisão.

Aparentemente, o encarceramento de Paulo havia provocado na igreja de Filipos uma certa tristeza e ansiedade. Pelo que podemos inferir das Sagradas Escrituras, os irmãos estavam preocupados que a prisão de Paulo atrapalhasse o avanço do evangelho no mundo e, ao mesmo tempo, temiam que o apóstolo acabasse sendo condenado à morte pelas autoridades do Império Romano.

A passagem que vai do versículo 12 ao versículo 26 nos revela de maneira muito forte a tranquilidade e, mais do que isso, a alegria do coração de Paulo em meio a todas essas circunstâncias adversas. O apóstolo escreve aos crentes em Filipos para dizer-lhes que não havia motivo de preocupação, pois, qualquer que fosse o desfecho do seu encarceramento, o nome de Deus seria glorificado.

Com efeito, podemos dividir esta seção em duas partes principais. Na primeira delas (v. 12-18), Paulo tranquiliza os filipenses no tocante à sua preocupação de que o encarceramento do apóstolo pudesse resultar no fracasso do evangelho e na derrota da igreja. Na segunda parte (v. 19-26), ele procura dissipar o temor dos irmãos de que a sua prisão terminasse por levá-lo à própria morte.

Nesta meditação, cuidaremos de estudar a primeira parte do discurso de Paulo. Observaremos a maneira como o apóstolo aborda as suas tribulações e a confiança que ele possui em relação ao progresso e ao triunfo do evangelho no mundo.

A prisão de Paulo e a glória de Deus

Meditemos, em primeiro lugar, na maneira como o apóstolo contempla o seu próprio sofrimento. Ouçamos as suas palavras e guardemos a riqueza de ensinamento prático contida nesta declaração: “Quero ainda, irmãos, cientificar-vos de que as coisas que me aconteceram têm, antes, contribuído para o progresso do evangelho” (v. 12).

Há duas lições extremamente importantes a serem consideradas aqui.

Primeiro, aprendemos que os sofrimentos os quais enfrentamos não são mais importantes que a glória de Deus.

Como já temos demonstrado, o apóstolo Paulo estava preso, e o risco de que o seu cárcere terminasse numa condenação à morte era bastante real. Numa situação como essa, que tipo de pensamento dominaria a nossa mente? Tristeza? Solidão? Medo de morrer?

Paulo era um homem sujeito às mesmas fraquezas que nós e, talvez, pensamentos assim tenham passado pela sua cabeça. Todavia, quando meditamos na declaração que acabamos de ler, vemos com muita clareza que o apóstolo não estava dominado por esses temores. Nada disso estava consumindo a sua mente; muito pelo contrário, ao invés de preocupar-se com o seu próprio bem-estar, Paulo estava pensando no avanço do evangelho e no bem-estar da igreja. A sua atenção, portanto, estava voltada para a glória de Deus.

É impossível deixar de reconhecer o caráter sobrenatural e celestial desse tipo de pensamento. Nós somos naturalmente inclinados a pensar em nós mesmos antes de todas as coisas; nossa natureza carnal e pecaminosa nos impulsiona a considerarmos a nossa vida mais preciosa do que tudo o mais. Porém, não foi isso que Cristo nos ensinou. Ele nos disse que desprezar esta vida terrena é o único caminho para possuir a verdadeira vida, aquela que é eterna e celestial: “Porquanto, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por minha causa achá-la-á” (Mateus 16.25).

Aqui, neste texto, nós vemos o apóstolo Paulo atendendo ao chamado de Cristo de uma maneira bastante real e concreta. A sua vida está por um triz, mas ele não demonstra estar preocupado; pelo contrário, ele está feliz com o fato de que os seus sofrimentos estão resultando em mais frutos para o evangelho e mais glória para Deus!

Você é capaz de ver as suas lutas, tribulações e dificuldades dessa maneira? Você consegue alegrar-se no sofrimento, à medida que percebe que as nossas aflições enquanto cristãos apenas servem para que Deus realize os Seus bons propósitos e glorifique o Seu grande nome?

Segundo, aprendemos que as nossas limitações pessoais não impedem o cumprimento dos planos e promessas de Deus.

Paulo era “o apóstolo dos gentios”. Ele havia sido soberanamente chamado por Deus para levar o Evangelho às nações além de Israel. No momento de sua primeira prisão, o apóstolo já tinha fundado inúmeras igrejas por grande parte do Império Romano; entretanto, ainda havia muitas cidades onde o evangelho precisava ser anunciado, muitas nações onde Cristo ainda não era conhecido.

A prisão de Paulo, portanto, podia levantar a seguinte dúvida: O que acontecerá com o progresso do evangelho? Será que a fé cristã deixará de avançar? Será que o crescimento do evangelho estagnará e, por fim, a Igreja morrerá?

O apóstolo responde a essa inquietação com um sonoro “Não!”. Obviamente, Paulo estava ciente de que absolutamente nada pode impedir o avanço do reino de Deus: nem a oposição dos incrédulos, nem a fúria de todos os demônios, nem as limitações pessoais dos ministros da nova aliança. Absolutamente nada pode evitar que Deus cumpra a Sua promessa de fazer o Seu nome conhecido em toda a terra e ajuntar, de todas as nações, um povo para Si mesmo. O apóstolo certamente conhecia as palavras de Jesus: “Sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mateus 16.18).

Paulo tinha certeza, portanto, de que a sua prisão não constituía um entrave ao progresso do evangelho. No fim de sua vida, ele escreveria estas palavras ainda mais ousadas: “[…] estou sofrendo até algemas, como malfeitor; contudo, a palavra de Deus não está algemada” (2Timóteo 2.9). Os homens podem prender os ministros do evangelho, algemá-los, calá-los e até matá-los. Mas eles não podem fazer isso com Deus nem com a Sua palavra. Portanto, como certa vez asseverou o missionário William Carey, podemos estar confiantes de que “a causa de Deus triunfará”.

Há algo ainda mais interessante aqui. O apóstolo não apenas tem confiança de que a sua prisão não resultará no fracasso do evangelho, mas ele também enxerga que aquela circunstância efetivamente contribui para o progresso da causa de Cristo no mundo.

De um lado, Paulo vê que a sua prisão lhe permitiu pregar para os soldados do imperador e de muitos outros que estavam entrando em contato, direta ou indiretamente, com a fé evangélica. Ele diz: “[…] as minhas cadeias, em Cristo, se tornaram conhecidas de toda a guarda pretoriana e de todos os demais” (v. 13). A prisão de Paulo, de fato, havia sido o meio usado por Deus para que o evangelho chegasse ao exército romano.

De outro lado, o apóstolo observa que o seu encarceramento havia despertado em muitos irmãos uma coragem ainda maior para pregar o evangelho. Nós lemos que “[…] a maioria dos irmãos, estimulados no Senhor por minhas algemas, ousam falar com mais desassombro a palavra de Deus” (v. 14). Isso é muito interessante. Tanto na narrativa bíblica como na história da Igreja, nós vemos que a perseguição aos cristãos nunca inibe a pregação da Palavra; pelo contrário, Deus usa os sofrimentos de alguns para estimular os demais a serem ainda mais firmes e ousados no desafio de anunciar o nome de Jesus.

Você consegue enxergar as suas próprias limitações dessa maneira? Você consegue perceber como Deus usa as dificuldades e aflições que enfrentamos para tornar o Seu nome ainda mais divulgado no mundo? Que o Senhor nos conceda tal visão celestial!

A pregação interesseira e a glória de Deus

Meditemos, em segundo lugar, na maneira como o apóstolo lida com a pregação interesseira do evangelho. Depois de afirmar que a sua prisão estava estimulando muitos irmãos a pregarem a Palavra de Deus, ele observa que nem todos esses pregadores tinham em seu coração a motivação correta. Alguns de fato estavam proclamando a Cristo “de boa vontade”; outros, porém, estavam levando a Palavra “por inveja e porfia [rivalidade]” (v. 15). Alguns tinham sincero amor por Deus e pelo apóstolo Paulo, e desejavam sinceramente contribuir para que a sua prisão não atrapalhasse o avanço do evangelho entre as nações (v. 16). Porém, outros nutriam terrível inveja do ministério de Paulo e estavam aproveitando a situação para, de alguma maneira, roubar o lugar que o apóstolo tinha na igreja, pela graça de Deus (v. 17).

A maneira como Paulo reage a esses pregadores invejosos e interesseiros é de fato surpreendente. Porém, para que possamos entendê-la melhor, precisamos fazer algumas considerações antes de meditarmos efetivamente na reação do apóstolo.

Devemos observar, por um lado, que o pecado desses ministros não estava no conteúdo da mensagem pregada, mas na intenção do seu coração. Se o problema estivesse na mensagem anunciada, a reação de Paulo seria, sem dúvida, bastante diferente: ele iria fazê-los calar (Tito 1.11), ordenaria aos irmãos que se afastassem daqueles falsos mestres (Romanos 16.17-18) e pronunciaria sobre eles uma terrível maldição (“Seja anátema!”, Gálatas 1.8-9). Paulo jamais tolerou ou toleraria o falso ensino na Igreja de Deus, uma vez que o falso evangelho leva os homens à condenação eterna. Porém, aqui, os ministros estão anunciando o evangelho de forma correta, e muitos ouvintes estão sendo salvos; é a motivação deles que está errada e, por isso, é apenas a eternidade deles (os ministros) que está em jogo.

Isso nos leva, por outro lado, a uma segunda observação: nós não podemos ultrapassar o que está escrito e achar que Paulo está ensinando não haver problema na motivação invejosa daqueles pregadores. Ao contrário: em outra parte desta epístola, Paulo dirá explicitamente que o destino dos pregadores interesseiros é a perdição (Fp 3.19).

Tendo estabelecido essas observações, meditemos de fato na reação do apóstolo diante desses pregadores invejosos. Será que Paulo ficou preocupado em perder espaço? Será que ele teve medo de que um líder mais carismático tomasse o seu lugar, ganhando o amor e o cuidado das igrejas que ele havia fundado e discipulado? Será que ele se aborreceu com tais pregadores, pelo fato de eles estarem tentando usurpar a sua autoridade apostólica?

A Escritura nos mostra que Paulo não teve nenhuma dessas reações pecaminosas. Ele não retribuiu a inveja dos ministros com mais inveja, pois ele mesmo costumava ensinar os cristãos a vencerem o mal com o bem (Romanos 12.21). Diversamente, o apóstolo mostra mais uma vez que a sua preocupação primordial não é consigo mesmo, mas com a causa de Cristo. Se ele não estava temeroso quanto ao seu bem-estar e à sua liberdade, como já vimos, tampouco ele estaria temeroso quanto à sua reputação no ministério ou o seu espaço na igreja!

A resposta de Paulo expressa claramente o seu interesse exclusivo no progresso do evangelho, em detrimento do seu prestígio pessoal. “Todavia, que importa? Uma vez que Cristo, de qualquer modo, está sendo pregado, quer por pretexto, quer por verdade, também com isto me regozijo, sim, sempre me regozijarei” (v. 18). De fato, ao invés de expressar ciúme ou amargura, o apóstolo demonstra intensa alegria. Ele estava sinceramente feliz com aquela situação – não exatamente com o fato de haver ministros invejosos na igreja, mas sim porque Deus estava usando a motivação pecaminosa daqueles homens para tornar o evangelho de Cristo ainda mais conhecido no mundo e crido entre as nações.

Em suma, ao meditarmos em toda esta passagem vemos que Paulo deposita a sua alegria e confiança inteiramente em Deus. Todo o seu interesse está na causa do reino, de maneira que tudo o que coopera para o avanço do evangelho é visto pelo apóstolo como uma razão para se alegrar – ainda que seja a perda da sua própria liberdade. Ao mesmo tempo, toda a confiança de Paulo está no Deus soberano; o apóstolo está certo de que absolutamente nenhuma circunstância pode impedir que o Senhor cumpra os Seus planos e promessas estabelecidos de antemão.

Que possamos ter também semelhante coração, que se alegra inteiramente na vinda do reino e confia inteiramente na providência do Deus todo-poderoso!

Por: Vinícius Silva Pimentel | PreciosoCristo | Original aqui.
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A soberania de Deus e a vontade dos homens (uma ilustração de Stuart Olyott)

Vinícius S. Pimentel

Semana da Reforma Protestante 2011

No post Conselhos para os jovens reformados: Confirmem a eleição de vocês, nós falamos um pouco sobre a doutrina da eleição incondicional.

Uma das questões mais complexas concernentes ao assunto dos “decretos de Deus” é a relação entre a soberania de Deus e a responsabilidade humana. A teologia reformada, em sua formulação histórica, sempre adotou uma posição compatibilista. Em outras palavras, os reformados entendem que Deus decreta todas as coisas (Ele é absolutamente soberano), sem, com isso, violar a vontade dos homens ou anular a sua responsabilidade. Firme nesse sentido, a Confissão de Fé de Westminster afirma:

Desde toda a eternidade, Deus, pelo muito sábio e santo conselho da sua própria vontade, ordenou livre e inalteravelmente tudo quanto acontece, porém de modo que nem Deus é o autor do pecado, nem violentada é a vontade da criatura, nem é tirada a liberdade ou contingência das causas secundárias, antes estabelecidas. (CFW, III.I)

Essa perspectiva é, claramente, paradoxal. Mas, de fato, é assim que as Escrituras nos ensinam, sem nos dar quaisquer detalhes que nos ajudem a resolver o paradoxo. Portanto, como servos da verdade revelada, nós nos curvamos diante dos insondáveis caminhos de Deus em reverente adoração.

Em seu maravilhoso livro Ministrando como o Mestre, Stuart Olyott nos apresenta uma interessante ilustração acerca do nexo entre a soberania de Deus e a vontade dos homens. Como o próprio autor reconhece, trata-se de uma imagem bastante imperfeita, mas talvez tenha utilidade para alguns:

Posso usar uma ilustração bem imperfeita? É imperfeita porque sugere uma idéia de controle que não é paralela à forma como Deus controla os pecadores, mas talvez alguns leitores a considerem útil. Imagine uma formiga correndo na página que você está lendo. Ela vai para a direita, vai para a esquerda, diminui a velocidade, aumenta a velocidade ou pára – ela faz exatamente o que a agrada. Agora trace uma linha imaginária na superfície da mobília mais próxima. Se quiser, você pode fazer a formiga seguir aquela linha precisamente. Como ela corre por todos os lados da página, tudo que você tem a fazer é segurar o livro sobre a linha e manobrá-lo apropriadamente. Com um pouco de prática você pode fazer o inseto ir exatamente aonde você deseja que ele vá, embora ele esteja correndo por onde quer! Você é soberano mas a formiga está fazendo uma escolha real. (Stuart Olyott. Ministrando como o Mestre: Aprendendo com os métodos de Cristo. São José dos Campos: Fiel, 2005, p. 42-43.)

“Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro? Ou quem primeiro deu a ele para que lhe venha a ser restituído? Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!” (Romanos 11.33-36).

Deus está no comando?

Áurea Emanoela

Deus está no comando?

Foi esta a indagação com a qual me deparei há alguns dias, enquanto “passava os olhos” rapidamente pela página inicial de uma dessas redes sociais. Aquele questionamento me pareceu desafiador e, embora em tímidas letras minúsculas, “saltou” aos meus olhos como se houvesse sido escrito em letras garrafais: Deus está no comando?”

A pergunta, em tom incisivo, remetia a Belo Monte, um projeto de aproveitamento hidrelétrico em terras indígenas. Segundo detalhes do próprio vídeo, caso venha a ser construída, Belo Monte ocupará o “status” de terceira maior hidroelétrica do mundo, chegando a gerar até 11.182 megawatts. A vida nos arrabaldes do rio Xingu está ameaçada pelos interesses capitalistas daqueles que são incapazes de olhar para as necessidades do seu próximo, sequiosos pela ganância que se esconde por trás dos discursos de progresso.

Belo Monte deveria, sem dúvida, chamar a nossa atenção e despertar um senso de indignação que a maioria das pessoas só costuma ter quando alguém, com ou sem justificativas, lança mão do que não lhe pertence.

Todavia, confesso que, dessa vez, algo me chamou mais atenção do que “Belo Monte”… Aquela pergunta que tão nitidamente transferia para ELE toda a culpa pelos problemas trazidos pelo “progresso”.

Não é incomum ouvir indagações como essa nos diálogos que as pessoas estabelecem, nas “rodas de amigos”, no tom jocoso daqueles declaradamente céticos ou mesmo nas redes sociais (tão ovacionadas pela forma como têm sido usadas para conclamar o povo à “revolução”). Já vi outras indagações desafiadoras, tais como “Deus se preocupa?” estampando a foto de uma mulher vítima de agressão. Confesso que meu coração salta dentro do peito embalado por uma mistura de tristeza e outros tantos questionamentos.

Gostaria que, igualmente, as pessoas fossem capazes de olhar para o passado ao menos por um instante e procurassem direcionar sua visão cerca de dois mil anos atrás. Fosse assim, certamente os seus questionamentos acerca de Deus seriam plenamente respondidos e suas dúvidas, consequentemente redirecionadas.

Se porventura conseguissem fazer isso, seus olhos contemplariam a pequena cidade de Belém (cf. Lucas 2.1-7), onde veriam o Filho de Deus, Jesus Cristo, o prometido das nações, nascendo em uma manjedoura. Veriam Maria e José, pessoas simples escolhidas para receber o Cristo; veriam ambos tendo que esconder a pequenina Criança da fúria de Herodes, o qual tencionava tirar a Sua vida porque de maneira nenhuma queria colocar em risco o seu trono (cf. Mateus 2.13-15). Seus olhos pasmariam ao ver milhares de meninos de 0 a 2 anos de idade sendo mortos (cf. Mateus 2.16-18) – afinal de contas, o rei humano precisava assegurar a estabilidade de seu trono, mesmo que isso custasse o sangue de muitas crianças e as lágrimas de muitos pais.

Tais pessoas seriam transportadas no tempo e veriam um Menino de apenas doze anos de idade em meio a doutores, ouvindo-os e interrogando-os, “e todos os que o ouviam muito se admiravam da sua inteligência e das suas respostas” (Lucas 2.47). À semelhança dos pais terrenos de Jesus, ficariam maravilhadas com a sabedoria do Menino que, sem “atropelar” qualquer estágio de Seu desenvolvimento, “crescia […] em sabedoria, estatura e graça diante de Deus e dos homens” (Lucas 2.52).

Em seguida, ouviriam as palavras de João Batista conclamando o povo ao “arrependimento para remissão de pecados” (Lucas 3.3), desfiando a multidão corrupta a produzir “frutos dignos de arrependimento” (Lucas 3.8). Contemplariam a humildade com que João testemunhara dAquele que viria após ele (cf. Mateus 3.11-12) e participariam do batismo de Jesus (cf. Mateus 3.13-17; Marcos 1.9-11; Lucas 3.21-22; João 1.32-34). Seriam levados ao deserto e presenciaram a astúcia mordaz de satanás, em contraste com a fidelidade absoluta de Jesus a Deus (cf. Mateus 4.1-11; Marcos 1.12-13; Lucas 4.1-13).

Veriam um homem humilde – “pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homem; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz” (Filipenses 2.6-8) -, que andou entre os pecadores, publicanos e fariseus (cf. Mateus 9.10-13; Marcos 2.15-17; Lucas 5.29-32); que pregou a pessoas que a sociedade tinha como desprezíveis (cf. Lucas 10.21); que livrou uma mulher, pega em adultério, de ser apedrejada por homens perversos e cheios de justiça própria (cf. João 8.1-11). E, ao contrário do que muitos de nós faríamos, Ele não colocou o dedo em riste e lhes mostrou asperamente suas falhas; pelo contrário, levou-os humildemente à reflexão: “aquele que dentre vós estiver sem pecado seja o primeiro que lhe atire pedra” (João 8.7).

Contemplariam Jesus alimentando multidões (cf. Mateus 14.13-21; Lucas 9.10-17; João 6.1-13.). Nessa mesma ocasião, veriam Seus discípulos propondo ao Mestre que despedisse a multidão para que procurassem alimento para si; todavia, não os condenem, eles eram apenas homens imperfeitos.

Iriam contemplar outros tantos milagres (cf. Mateus 15. 21-28; Marcos 6.45-52); curas (cf. Mateus 21.14-17; Marcos 5.21-34; Lucas 18.35-43); libertação (cf. Marcos 5.1-14); vidas transformadas (cf. João 4.1-30); amor sem medida (cf. João 13.1). Veriam um homem perfeito, na essência da palavra, e, quando julgarem já ter visto tudo, seriam surpreendidas novamente. Ficariam atônitas com as cenas que estavam prestes a presenciar e, naquele exato momento, todas as suas indagações iriam mudar e, se fossem capazes de verdadeiramente ver, suas vidas nunca mais seriam as mesmas.

Veriam a maior maldade que os seus olhos jamais presenciaram: Jesus sendo crucificado. Elas estariam presentes em cada momento, desde o julgamento, quando o povo gritava: “Crucifica-o! Crucifica-o!” (cf. Marcos 15.13-14). Vê-lo-iam ser açoitado, cuspido, zombado (cf. Marcos 15.16-20; João 19.1); veriam a coroa de espinhos sendo colocada bruscamente na Sua cabeça (cf. João 19.2); veriam-no carregando a cruz (cf. João 19.17); ouviriam o ruído dos cravos perfurando Sua carne; veriam homens perversos dando-lhe vinagre quando Ele teve sede e lhes pediu água (João 19.28-30). Então, acompanhariam com olhos atentos a comitiva de soldados que vinha quebrar-lhe as pernas (cf. João 19.31), caso Ele ainda não tivesse morrido (afinal de contas, os judeus estavam para comemorar a Páscoa e aqueles corpos precisavam ser retirados da cruz). Todavia Ele já havia entregue seu espírito ao Pai (cf. Lucas 23.46), mas, ainda assim, cravaram-lhe uma lança no dorso (cf. João 19.34).

Depois de acompanhar tudo isso, certamente não ficariam admirados em ouvi-lo clamando ao Pai para que perdoasse os responsáveis por toda aquela atrocidade (cf. Lucas 23.34). Mas não poderiam, em absoluto, deixar de perceber que toda essa maldade fora praticada por homens que anteriormente haviam-no recebido com brados de louvor (cf. Mateus 21.1-11; Marcos 11.1-11; Lucas 19.28-40; João 12.12-15). O que mudou na mente desses homens? Não perceberam? As perguntas já começaram a mudar.

Concluiriam que Deus está no comando de todas as coisas desde a fundação do mundo. Exultariam, renderiam graças ao Senhor porque Ele “firmou o mundo para que não se abale” (1Crônicas 17.30). Compreenderiam, inequivocamente, que Deus sempre esteve presente, e não abandonou o seu Filho quando Ele foi levado pela mão de homens. O Dono de todas as coisas sempre esteve no comando.

Por fim, chegariam à única conclusão possível: a maldade que habita em corações não regenerados, a rebelião do homem contra Deus, o pecado que cega e alimenta as más inclinações não somente levou Jesus ao calvário, como continua incitando o homem contra o Senhor, tornando-o incapaz de compreender que “a ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça” (Romanos 1.18). O ápice de toda essa dureza de coração é atribuir ao Criador a culpa pelo mal que habita nos corações humanos e se revela em suas praticas.

A única afirmativa que nos caberia, portanto, seria esta: O pecado que habita no coração do homem leva-o a fazer coisas terríveis; todavia “é certo que não dormita, nem dorme o guarda de Israel” (Salmos 121.4).

É certo que não dormita, nem dorme o guarda de Israel

Por: Áurea Emanoela Holanda Lemos | PreciosoCristo | Original aqui.
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