O caminho da salvação (Parte 3)

Áurea Emanoela

(Leia a Parte 1 e a Parte 2)

O caminho da salvação

Não se encoraja aos que recebem a salvação, em trecho algum da Bíblia, que “abusem” da graça de Deus. Pelo contrário, os eleitos são advertidos a tornar seguro seu chamamento e eleição (cf. 2Pedro 1.10) e a evidenciarem sua salvação com temor e tremor (cf. Filipenses 2.13). A igreja deve ser a “comunhão dos envolvidos”, isto é, um povo que propaga a Palavra de salvação vivendo condignamente.

O conceito de “uma vez salvo, sempre salvo” pode levar aqueles que o defendem a uma maneira de pensar quietista. Isso significa que eles podem pensar que têm pouco ou nenhum papel a cumprir em manter sua salvação e que Deus faz tudo por eles. Embora uma pessoa não seja salva por obras (como creem os católicos romanos) e não se mantenha salvo por causa das obras (como acreditam algumas igrejas), Deus salva somente aqueles que perseveram na fé. (1)

Nas Institutas da Religião Cristã, em uma seção intitulada “A perseverança é uma obra exclusiva de Deus; não é uma recompensa nem um complemento de nosso ato individual”, João Calvino expõe:

Sem dúvida, a perseverança deve ser considerada um dom gratuito de Deus, quando não prevalece o erro comum de afirmar que ela é dada conforme o mérito humano, à medida que cada indivíduo se mostra receptivo à primeira graça. Mas, visto que esse erro surgiu do fato de que homens achavam que tinham o poder de rejeitar ou aceitar a graça de Deus, quando esta opinião é aniquilada, aquela ideia anterior também se destrói a si mesma. Contudo, aqui há um erro duplo. Pois, além de ensinarem que nossa gratidão pela primeira graça e nosso uso legítimo dela são recompensados por dons subsequentes, eles dizem que a graça não opera em nós por si mesma, ela apenas coopera conosco.

A perseverança é o resultado incontestável da obra do Espírito na vida dos crentes. É uma obra que nos capacita a continuarmos crendo, como bem afirmou o apóstolo Pedro: “[…] sois guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação preparada para revelar-se no último tempo.” (1Pedro 1.5). Portanto, Deus não pode crer por nenhum de nós, pelo contrário, somos “guardados” pela fé. Como expõe Jay Adams, é esse o ensino que podemos extrair de João 15:

Se alguém não permanecer na videira, será “lançado fora, à semelhança do ramo, e secará”, e, por fim, será queimado (v. 6). Por isso Jesus ordenou: “Permanecei no meu amor” (v. 9b). Os apóstolos tiveram de perseverar na fé, ou seriam lançados fora, à semelhança de um ramo quebrado de videira; e isso se aplica a todos os crentes verdadeiros. Cristo, a Videira, exige que todo aquele que professa ser cristão permaneça nEle por meio da fé genuína ou, do contrário, seja lançado no fogo. Portanto, a perseverança é o resultado da verdadeira fé, nutrida e mantida pelo Espírito. (2)

Se a salvação verdadeiramente está operando nos crentes, sua própria comunhão no Espírito aumentará, e a operação “vertical” do poder salvador de Deus os constrangerá a perceber as repercussões “horizontais” da posse da salvação sobre a sociedade. Aqueles que possuem a salvação devem ser luzeiros do mundo, sal da terra, cidades construídas sobre montes. A história da igreja demonstra como os crentes têm aprendido e como precisam continuar aprendendo a testificar de sua salvação, profeticamente, em cada época.

Todas as coisas à nossa volta se opõem às promessas de Deus. Ele prometeu imortalidade; estamos cercados de mortalidade e corrupção. Declarou que nos reputa como justos; estamos cobertos de nossos pecados. Ele testifica que é propício e bondoso para nós; os julgamentos exteriores ameaçam a ira divina. Então o que devemos fazer? Com olhos fechados, temos de deixar de lado a nós mesmos e todas as coisas associadas conosco, para que nada nos impeça ou nos prive de crer que Deus é verdadeiro. (3)

As Escrituras prometem a destruição final do mal, apocalíptica ou escatologicamente: o livramento da criação que atualmente geme sob a escravidão da corrupção, para a gloriosa liberdade dos filhos de Deus (cf. Romanos 8.21s.) por ocasião da “adoção”, a “redenção do corpo”, a “regeneração” (cf. Mateus 19.28), e a criação dos “novos céus e nova terra, nos quais habita justiça”, onde Deus será contemplado face a face.

Pois, em Cristo, Deus oferece toda a felicidade em lugar de nossa miséria, toda a riqueza em lugar de nossa necessidade; nEle se abrem para nós os tesouros celestiais, para que todo a nossa fé contemple seu amado Filho, toda a nossa expectativa dependa dEle, e toda a nossa esperança se apegue e descanse nEle. Este é, de fato, aquele segredo e aquela filosofia escondida que não pode ser extraída de silogismos. Mas aqueles cujos olhos Deus abriu aprendem-na certamente com o coração, para que em sua luz vejam a luz [Sl 36.9]. (4)

Notas:
(1) ADAMS, Jay E. Uma herança garantida. In: PARSONS, Burk (ed.). João Calvino: Amor à devoção, doutrina e glória de Deus. São José dos Campos/SP: Fiel, 2010, p. 210.
(2) Idem, p. 211.
(3) John Calvin, Commentaries on the epistle of Paul the apostle to the Romans. Trad. John Owen. Grand Rapids: Baker, 1996, p. 180.
(4) John Calvin , Institutes of Christian Religion.

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O caminho da salvação (Parte 2)

Áurea Emanoela

(Leia a Parte 1)

O caminho da salvação

Por toda a revelação bíblica, é o próprio Deus que, movido por santo amor, provê a salvação. A ênfase, aqui, recai sobre a salvação que Deus, em Cristo, preparou em lugar do pecador, e, apesar de não haver separação aqui, é salutar indicar como Ele opera a salvação do homem.

É pelo Espírito Santo que a salvação se torna uma realidade. A experiência de salvação, por parte do homem, tem um tríplice aspecto temporal. Pode ser escrita em termos de passado, presente e futuro; possessiva, progressiva e futuristicamente (1); o homem está salvo, está sendo salvo, e será salvo (cf. Mateus 10.22; Romanos 5.9-10; 8.24; 1Coríntios 1.18; Efésios 2.8).

Possessivamente: O homem, pela fé nele instalada através do Espírito Santo, recebe uma nova posição em Cristo; já está justificado e absolvido por causa de Cristo. Assim como em sua posição “pré-justificada” o homem não podia merecer a salvação, semelhantemente, após haver sido justificado (não por qualquer justiça própria) agora não pode “desmerecer” a salvação ou “desfazer” a sua justificação no sentido de desfazer aquilo que Deus fez por ele. Está redimido, reconciliado, perdoado, purificado (João 13.10), já passou da morte para a vida, e recebeu a certeza, pelo testemunho do Espírito junto a seu próprio espírito, de que é filho de Deus (cf. Romanos 8.16), co-herdeiro juntamente com Cristo, possuidor da vida que é eterna em sua qualidade e duração, e que de uma vez para sempre despedaçou as correntes da escravidão ao temor da morte (cf. Hebreus 2.15).

Progressivamente: A graça de Deus, que traz a salvação (cf. Tito 2.11), é o poder transmitido pela pregação da cruz àqueles que “estão sendo salvos” (cf. 1Coríntios 1.18). Ensina a necessidade da operação santificadora do Espírito, a exteriorização da salvação que Deus operou no homem (cf. Filipenses 2.1-12), evidenciando a negação à impiedade e as concupiscências mundanas, e produzindo uma vida sóbria, reta e piedosa no mundo presente. Assim como a fé é o fato operativo na salvação, concebida possessivamente, semelhantemente é o amor, na exteriorização da salvação. Mediante o amor implantado pelo Espírito, a vida do homem é conservada, o remido atinge sua verdadeira personalidade ao refletir a imagem de Deus dessa nova maneira, e se faz verdadeiramente presente em sua pessoa para aqueles que ainda necessitam da salvação.

Futuristicamente: A salvação, em sua plenitude, deverá ser realizada somente no futuro. O homem é salvo em esperança. Ao crente é apontado a obtenção da salvação total (cf. 1Tessalonicenses 5.9; 2Tessalonicenses 2.13; 2 Timóteo 2.10; Hebreus 1.14). A salvação total está prestes a ser revelada no último tempo (cf. 1Pedro 1.5). Essa salvação está “agora mais perto do que quando no princípio cremos” (Romanos 13.11). Para aqueles que esperam em Cristo, Ele aparecerá segunda vez, não para novamente tratar do pecado, mas, sim, “para a salvação” (Hebreus 9.28). Por ocasião da derrota definitiva do mal, a voz celeste proferirá as palavras: “Agora é vinda a salvação” (cf. Apocalipse 12.10).

(Leia a Parte 3 – em breve)

Notas:
(1) DOUGLAS, J.D. (ed.) [editores assistentes BRUCE, F.F. et al.; editor da edição em português SHEDD, Russell P.]. Novo dicionário da Bíblia. 3 ed. rev. São Paulo: Vida Nova, 2006.

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O caminho da salvação (Parte 1)

Áurea Emanoela

O caminho da salvação

A Bíblia nos conduz a uma profunda reflexão a respeito da condição do homem – como indivíduo e na sociedade -, coloca-nos frente à nossa desesperada necessidade de salvação. Encontramo-nos em um “círculo vicioso”, numa perigosa posição de culpa e impotência. Nossa culpa nos desqualifica para recebermos, por merecimento, o único recurso que porventura poderia tirar-nos de nossa incômoda posição. Nenhum poder humano pode solucionar esse problema, tirando o homem do círculo vicioso em que está. Se o homem tiver de ser salvo, Deus precisa tomar a iniciativa.

Como afirma James Montgomery Boice,

isso não quer dizer que todas as pessoas são tão más quanto elas poderiam ser. Significa, antes, que todos os seres humanos são afetados pelo pecado em todo campo do pensamento e da conduta, de forma que nada do que vem de alguém, separado da graça regeneradora de Deus, pode agradá-lo. À medida que nosso relacionamento com Deus é afetado, nós somos tão destruídos pelo pecado que ninguém consegue entender adequadamente Deus ou os caminhos de Deus. Tampouco somos nós que buscamos Deus, e, sim, é ele quem primeiramente age dentro de nós para levar-nos a agir assim.

Existem várias descrições sobre a horrenda sorte do homem – fracasso, destruição, vazio, alienação, escravidão, rebelião, enfermidade, corrupção, imoralidade e morte. Igualmente variadas são as fúteis tentativas humanas de remediar essa situação – iluminação intelectual da ignorância, reforma moral, esforços ascéticos, tratamento médico ou psicológico, melhoramento social pelo emprego dos recursos tecnológicos, estratagemas os mais variados possíveis e, acima de tudo, técnicas religiosas criadas pelo homem.

Desde bem cedo em sua história, o homem teve de perceber, como continua tendo de ver, que não pode produzir a sua própria salvação, por causa da natureza radical de seu pecado e egocentrismo. Mais do que isso, as suas tentativas de salvar a si mesmo são a pior afronta a Deus, e fazem com que incorramos em Seu julgamento. A Bíblia expõe-nos Deus em santo amor, a conceber e a desdobrar um “plano de salvação” e o ponto crucial dessa salvação é a cruz de Cristo (Romanos 1.16; 1Coríntios 1.18).

É na morte de Seu Filho que Deus realiza o ato focal da salvação que oferece ao homem. Por toda a revelação bíblica, é o próprio Deus quem, movido por santo amor, provê a salvação. Os “retratos” são variados, mas o quadro daí resultante exibe a majestade, o mistério, o poder e a misericórdia de Deus em ação: o pecado, que é uma afronta à santidade de Deus, é removido em Cristo; condições legítimas de paz com Deus são ratificadas por Cristo, o qual estabeleceu a paz por meio de Sua cruz e fez expiação pelo homem alienado de seu Criador; um resgate foi pago para redimir ou libertar o escravo de sua escravidão; a absolvição, perante o “tribunal de justiça”, é declarada, visto que Deus, em Seu Filho, já suportou o julgamento e sofreu a pena imposta ao homem, ao identificar-se com o pecador em seu pecado; a honra de Deus fica satisfeita pela perfeição de Cristo, apresentada em obediência; Cristo une em Si mesmo a humanidade e a leva em Seu sacrifício até o Pai; Cristo é supremamente vitorioso em sua morte.

(Leia a Parte 2 e a Parte 3 – em breve)

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