Fundamentos destruídos

Áurea Emanoela

Fundamentos destruídos

“No SENHOR me refugio. Como dizeis, pois, à minha alma: Foge, como pássaro, para o teu monte? […] Ora, destruídos os fundamentos, que poderá fazer o justo?” (Salmos 11.1,3).

Perseguido e ameaçado por seus inimigos, instado por seus amigos a fugir, a não resistir, a procurar um lugar que lhe abrigasse daqueles que demandavam contra a sua vida, o salmista reafirma sua confiança em Deus.

Em uma época de inversão vergonhosa de valores, qual é o fundamento da nossa fé? Sobre quais pilares temos edificado as nossas vidas? De que maneira temos vivido? Como somos vistos pelo mundo?

Durante alguns anos de sua vida, mesmo depois de ter sido ungido rei (pelo decreto soberano de Deus), Davi se viu obrigado a fugir da fúria assassina de Saul, e é nesse contexto, de perseguiçãoversus fuga, que o salmista, contrariando o conselho dos seus amigos, deposita sua confiança em Deus.

O cristão e o mundo

Como reagimos diante de uma sociedade que exalta os relacionamentos passageiros, o prazer em lugar do amor, a legalização de vícios e comportamentos lascivos, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a mentira em detrimento da verdade e tantas outras formas de corrupção humana?

Talvez, do mesmo modo como aconteceu a Davi, sejamos instados a fugir ou mesmo nos conformar com a degradação que nos cerca. Todavia, o apóstolo Paulo nos adverte:

“[…] não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.” (Romanos 12.2)

Em meio a uma sociedade adúltera, devemos transparecer os valores de Cristo, colocando-nos contra todas as distorções daqueles que pervertem a justiça e corrompem a glória de Deus.

“Não devemos ser como caniços agitados pelo vento, dobrando-nos diante das rajadas da opinião pública, mas tão inabaláveis quanto pedras em uma correnteza.” (John Stott)

O exemplo de Davi

Os companheiros de Davi deram-lhe bons motivos para buscar refúgio em outro lugar, de maneira que pudesse estar seguro das investidas de Saul:

“Porque eis aí os ímpios, armam o arco, dispõem a sua flecha na corda, para, às ocultas, dispararem contra os retos de coração” (Salmos 11.2)

Aqueles homens acreditavam que, se o salmista fugisse, deixando por algum tempo o lugar em que estava, certamente encontraria descanso para sua alma. Os companheiros de Davi descreveram a maneira sutil e covarde como agem os ímpios, arremetendo contra “os retos de coração”.

Embora a olhos humanos Davi tivesse bons motivos para “bater em retirada”, não é essa a sua decisão. Contrariando seus conselheiros, o salmista busca salvação em Deus:

“No SENHOR me refugio. Como dizeis, pois, à minha alma: Foge, como pássaro, para o teu monte?” (Salmos 11.1)

O salmista exalta a soberania de Deus, o seu cuidado para com os filhos dos homens, Davi afirma que coisa alguma passa despercebida aos olhos cuidadosos do Deus Todo-Poderoso. O Senhor perscruta todas as coisas e de maneira alguma está indiferente ao que acontece sobre a face da terra. Os amigos de Davi apenas olhavam para as coisas terrenas, mas o salmista fitava seus olhos nas celestiais, sabendo que Deus jamais cessou de reinar.

“O SENHOR está no seu santo templo; nos céus tem o SENHOR seu trono; os seus olhos estão atentos, as suas pálpebras sondam os filhos dos homens” (Salmos 11.4)

Davi reconhece que o Senhor põe à prova também ao justo, todavia não o condenará.

“O SENHOR põe à prova ao justo e ao ímpio; mas, ao que ama a violência, a sua alma o abomina” (Salmos 11.5).

O Senhor, do alto da sua soberania, permite a ação inescrupulosa dos homens, mas não retarda o seu juízo. As ações humanas limitam-se à vontade de Deus.

“Fará chover sobre os perversos brasas de fogo e enxofre, e vento abrasador será a parte do seu cálice. Porque o SENHOR é justo, ele ama a justiça; os retos lhe contemplarão a face” (Salmos 11.6-7)

O mundo caminha para a destruição dos alicerces, todavia, à semelhança de Davi, nossa confiança deve estar alicerçada no fato de que Deus reina eternamente e, ainda que todos os fundamentos se desfaçam:

“podemos sofrer com alegria, esperar com bom ânimo, aguardar pacientemente, orar fervorosamente, crer de maneira confiante e, finalmente triunfar” (Spurgeon)

Por: Áurea Emanoela Holanda Lemos | PreciosoCristo | Original aqui.
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Meditações no Salmo 1 (III): Dois destinos inconfundíveis

Vinícius S. Pimentel

Meditações no Salmo 1

Bem-aventurado o homem que não anda no conselho dos ímpios, não se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores. Antes, o seu prazer está na lei do SENHOR, e na sua lei medita de dia e de noite.

Ele é como árvore plantada junto a corrente de águas, que, no devido tempo, dá o seu fruto, e cuja folhagem não murcha; e tudo quanto ele faz será bem sucedido. Os ímpios não são assim; são, porém, como a palha que o vento dispersa.

Por isso, os perversos não prevalecerão no juízo, nem os pecadores, na congregação dos justos. Pois o SENHOR conhece o caminho dos justos, mas o caminho dos ímpios perecerá. (Salmo 1)

No Salmo 1, o salmista contempla a diferença radical entre a vida do justo e a vida do ímpio. Ele nos chama a observar que a vida do justo é caracterizada por um evidente amor aos mandamentos de Deus (a Lei) e, ao mesmo tempo, nos anuncia que a verdadeira felicidade na vida (bem-aventurança) está apenas com o homem justo, e não com o ímpio.

Se atentarmos à voz de Deus na boca do salmista, encontraremos um caminho seguro para vivermos de uma maneira que o Senhor seja completamente glorificado e nós, completamente felizes. (Leia a Parte I e a Parte II)

Meditemos, em terceiro lugar, na felicidade eterna do justo ao lado de Deus, em contraste com a ruína e a condenação inevitável do ímpio.

Aqui o profeta nos mostra algo que só pode ser verdadeiramente compreendido por aqueles que têm a mente de Deus. Quando o homem natural, sem Deus, olha para a vida do justo e para a vida do ímpio, ele pensa que o ímpio é feliz e o justo, miserável, um pobre coitado que não sabe aproveitar os verdadeiros prazeres da vida. “Que coisa estranha”, diz o ímpio, “esses crentes passam a vida inteira estudando um livro ultrapassado, falando com um Deus que não vêem e seguindo um Salvador que foi crucificado, ao invés de desfrutarem com intensidade as alegrias que este mundo nos oferece”.

Sem dúvida, essa é a mentalidade do homem sem Deus. Ele pensa, na sua loucura, que é realmente feliz na sua impiedade. Mas o salmista nos mostra, com um argumento triplo, que a felicidade do ímpio não passa de ilusão.

Árvore ou palha?

Primeiro, o profeta nos ensina, por meio de uma parábola, que a felicidade do justo é firme e eterna, ao passo que a felicidade do ímpio é ilusória e passageira. Eles são “como a palha que o vento dispersa”. Mas o justo é como uma árvore sólida, firme, plantada no lugar certo, perto do ribeiro de águas que lhe fornece todos os nutrientes necessários – isto é, a lei de Deus, que sustenta a sua vida. Esse homem, diz o salmista, é quem é verdadeiramente feliz. Somente o justo tem felicidade verdadeira e duradoura; o ímpio desfruta apenas de uma felicidade ilusória, que logo desaparecerá.

No celeiro ou no fogo inextinguível?

Segundo, o profeta nos faz olhar para o dia do juízo. Ele nos lembra de que, naquele dia inevitável, os justos serão reunidos a Deus, mas os ímpios não prevalecerão e serão lançados no fogo inextinguível.

Se nós olharmos apenas para esta vida, diremos que “muitas são as aflições do justo” e que os ímpios “não têm preocupações”; de fato, seríamos obrigados a concluir que os justos são “os mais infelizes de todos os homens”. Porém, aqui o salmista nos lembra da razão pela qual apenas o justo pode ser considerado verdadeiramente feliz. E essa razão é que existe um Deus justo e existe um dia para o julgamento de todos os homens, e naquele dia Deus irá finalmente tornar claramente visível a separação radical que Ele faz entre os justos e os ímpios. O que acontecerá com os justos? Eles serão “congregados”, isto é, reunidos por Deus para estarem, para sempre, ao Seu lado. E o que acontecerá com os ímpios? O salmista diz claramente que eles “não prevalecerão”.

Conhecido ou desprezado por Deus?

Terceiro, o profeta nos chama a contemplar, sobre todas as coisas, a fidelidade do Deus da aliança: o justo é objeto do cuidado do Senhor, mas o ímpio é desprezado por Deus.

De um lado, é dito que o Senhor conhece o caminho dos justos. A palavra “conhecer”, quando se referindo ao relacionamento de Deus com o homem, aponta para a eleição eterna, para a aliança de Deus com o Seu povo escolhido (cf., por exemplo, Jeremias 1.5). Ela expressa a idéia de que Deus ama, guarda, protege e vigia a toda a vida de cada membro do Seu povo, de maneira que o justo não precisa se angustiar diante das dificuldades do presente nem temer o seu destino futuro. Afinal, “se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Romanos 8.31).

Em um claro contraste com o cuidado pactual de Deus pelo Seu povo, o salmista afirma que “o caminho dos ímpios perecerá”. As palavras usadas aqui nos levam a enxergar o ímpio como alguém completamente desamparado por Deus. O ímpio não é objeto do cuidado pactual de Deus; ele não é abençoado com o mesmo amor que Deus dispensa aos Seus filhos, ao povo da aliança. No Salmo 5, o profeta é ainda mais expresso e nos ensina que Deus “odeia a todos os que praticam a iniquidade” (v. 5). O ímpio é descrito, neste salmo e em toda a Bíblia, como um inimigo de Deus, como alguém que será finalmente derrotado por Deus no Dia do juízo e expulso, para sempre, da presença de Deus. Não importa o quão felizes e abençoados os ímpios pareçam estar agora: naquele grande e terrível Dia, eles serão separados do meio do trigo de Deus e lançados num fogo que jamais se apagará.

Conclusão

Portanto, finalizemos com um apelo àqueles que ainda são ímpios e um desafio àqueles que já são justos.

Se você ainda é um ímpio, converta-se a Cristo imediatamente. Você não é verdadeiramente feliz, por mais que pense o contrário, porque o amor e o cuidado de Deus não estão em você. Arrependa-se dos seus pecados, creia em Jesus Cristo e seja batizado.

Se você já foi justificado pela fé em Cristo, confirme a sua justificação empenhando-se em guardar os mandamentos de Deus. Afaste-se dos companheiros ímpios com a sua maneira ímpia de viver. Perceba o quão feliz você é por estar debaixo do amor e do cuidado paternal de Deus, e por ser guardado pelo Espírito Santo para a salvação. Apegue-se à promessa de que, em breve, receberemos na glória a alegria eterna, e descanse na fidelidade de Deus à Sua palavra.

Por: Vinícius Silva Pimentel | PreciosoCristo | Original aqui.
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Meditações no Salmo 1 (II): O viver separado do justo

Vinícius S. Pimentel

Meditações no Salmo 1

Bem-aventurado o homem que não anda no conselho dos ímpios, não se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores. Antes, o seu prazer está na lei do SENHOR, e na sua lei medita de dia e de noite.

Ele é como árvore plantada junto a corrente de águas, que, no devido tempo, dá o seu fruto, e cuja folhagem não murcha; e tudo quanto ele faz será bem sucedido. Os ímpios não são assim; são, porém, como a palha que o vento dispersa.

Por isso, os perversos não prevalecerão no juízo, nem os pecadores, na congregação dos justos. Pois o SENHOR conhece o caminho dos justos, mas o caminho dos ímpios perecerá. (Salmo 1)

No Salmo 1, o salmista contempla a diferença radical entre a vida do justo e a vida do ímpio. Ele nos chama a observar que a vida do justo é caracterizada por um evidente amor aos mandamentos de Deus (a Lei) e, ao mesmo tempo, nos anuncia que a verdadeira felicidade na vida (bem-aventurança) está apenas com o homem justo, e não com o ímpio.

Se atentarmos à voz de Deus na boca do salmista, encontraremos um caminho seguro para vivermos de uma maneira que o Senhor seja completamente glorificado e nós, completamente felizes. (Leia a Parte I)

Meditemos, em segundo lugar, no visível contraste existente entre a maneira como vive o justo e o modo como vive o ímpio.

Conforme nos ensina o salmista, a conduta do justo é inconfundível com a conduta do ímpio. O justo e o ímpio vivem de maneiras radicalmente distintas, e isso deve nos levar à mais séria consideração. Se nossas vidas não são marcadas por uma diferença, por uma separação radical em relação à vida dos ímpios, então podemos ter certeza de que algo está muito errado conosco.

Não sejais cúmplices

Primeiro, somos ensinados que o homem justo não se associa com os ímpios. O homem verdadeiramente justo não se cerca de companheiros ímpios, porque ele sabe do perigo de ser seduzido pela poluição de sua conduta.

Obviamente, isso não significa que um crente não deva relacionar-se em qualquer sentido com os incrédulos, pois, nesse caso, teríamos de sair do mundo (cf. 1Coríntios 5.10). Entretanto, o próprio Novo Testamento nos apresenta diversas exortações para que os crentes se mantenham distantes da poluição do mundo e dos homens mundanos (por exemplo, 2Coríntios 6.14-18). O ponto aqui é que o justo se afasta radicalmente dos ímpios em suas impiedades; ele não aprova tais coisas nem participa delas; pelo contrário, ele as reprova e condena, como Paulo também nos ensina em Ef 5.3-11:

Mas a impudicícia e toda sorte de impurezas ou cobiça nem sequer se nomeiem entre vós, como convém a santos; nem conversação torpe, nem palavras vãs ou chocarrices, coisas essas inconvenientes; antes, pelo contrário, ações de graças. Sabei, pois, isto: nenhum incontinente, ou impuro, ou avarento, que é idólatra, tem herança no reino de Cristo e de Deus. Ninguém vos engane com palavras vãs; porque, por essas coisas, vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência. Portanto, não sejais participantes com eles. Pois, outrora, éreis trevas, porém, agora, sois luz no Senhor; andai como filhos da luz (porque o fruto da luz consiste em toda bondade, e justiça, e verdade), 5.10 provando sempre o que é agradável ao Senhor. E não sejais cúmplices nas obras infrutíferas das trevas; antes, porém, reprovai-as.

Um novo pensar, um novo sentir

Segundo, somos ensinados que o homem justo não tem a mesma mente nem o mesmo coração dos ímpios. O homem justo não é apenas aquele que vive de maneira correta, mas é aquele que também pensa e sente de maneira correta, isto é, que tem a sua mente e o seu coração renovados pelo Espírito Santo para apreciar o que Deus aprecia e detestar o que Ele detesta.

Vejamos com cuidado que o profeta afirma que o justo “não anda no conselho dos ímpios”. Isto é, ele não aceita a maneira como os ímpios definem o que é certo e o que é errado, o que é bom e o que é mau, o que é justo e o que é injusto. Ele não aceita que os ímpios exerçam influência e autoridade sobre a sua mente, porque ele reconhece que apenas Deus possui tal prerrogativa.

Essa é uma questão particularmente difícil no tempo em que vivemos. Podemos citar diversas influências ímpias que lutam para exercer domínio sobre a mente dos justos. O governo civil, a ciência e a escola são algumas delas. Mas, sem dúvida, nenhuma dessas influências tem sido tão bem-sucedida na tentativa de poluir a mente dos homens quanto a televisão. Penso que não estou exagerando em afirmar que a TV tem sido a grande arma de satanás para fazer os homens andarem no conselho dos ímpios, afastando-os da verdadeira felicidade em Deus.

A TV ensina as nossas mulheres a se vestirem de maneira a atrair o olhar dos homens para o seu corpo; a TV ensina os nossos homens a buscarem um prazer inútil e ilusório na pornografia e na masturbação; a TV ensina os nossos jovens a desprezarem a sabedoria dos mais velhos; a TV ensina aos nossos casais que, se eles têm problemas no relacionamento, a melhor solução é sempre o divórcio; a TV ensina à nossa sociedade que a desonestidade é mais proveitosa do que o trabalho árduo, que o homossexualismo é tão lícito quanto o relacionamento de um homem com uma mulher, que a única coisa com a qual você deve se preocupar no sexo é em estar seguro e que, se por acaso a sua irresponsabilidade e depravação resultarem numa gravidez, fazer um aborto é a melhor opção. A TV ensina que acreditar em Deus é legal, mas que viver de acordo com a Palavra de Deus e ensinar outros a fazerem o mesmo é abusivo e intolerante.

Obviamente, isso não significa necessariamente que você não deveria ter uma TV em casa. Talvez você não deva, mas apenas o Espírito Santo pode orientar o seu coração a fazê-lo; eu não posso pôr sobre você um jugo que o próprio Deus não coloca em sua Palavra. Porém, eu preciso recomendar a você e exortá-lo a ter discernimento, a não usar a TV de maneira indiscriminada. Não permita que os seus filhos sejam educados pela televisão; não deixe que a mentalidade da sua esposa seja moldada pela televisão; e não permita, sob hipótese nenhuma, que os seus próprios pensamentos sejam governados pelos conselhos dos ímpios veiculados na TV.

Como eu amo a Tua lei!

Terceiro, somos ensinados que o homem justo ama a lei de Deus. Essa é uma declaração verdadeiramente notável. Qual é a característica mais importante para definir se um homem é justo? A resposta dada a nós pelo Espírito Santo é: o justo é distinguido pelo seu amor à lei de Deus.

Observemos, aqui, que a expressão “a lei do SENHOR” faz os nossos olhos se voltarem para a Palavra escrita de Deus. Não há margem para discussões aqui; o salmista está dizendo que o justo nutre um amor especial pela Escritura Sagrada, por este Livro maravilhoso através do qual Deus decidiu comunicar-se de maneira infalível com o homem que Ele criou. Portanto, precisamos nos examinar quanto a essa questão. Amamos, de fato e de verdade, a Palavra escrita de Deus?

É preciso dizer, porém, que a expressão “a lei do SENHOR” também dirige a nossa atenção para o aspecto prescritivo, diretivo da Escritura Sagrada. Em outras palavras, o profeta está querendo dizer que o amor do homem verdadeiramente justo está voltado para os mandamentos de Deus. O prazer do justo não vem das curiosidades que ele encontra na Bíblia; também não tem a ver com um mero estudo teórico, com aquele tipo de atitude racionalista, intelectualista e mórbido que alguns demonstram para com a Palavra de Deus. Não, isso não é “amor à lei”. O verdadeiro “prazer na lei do SENHOR” está em deleitar-se, em alegrar-se com os mandamentos de Deus, com as ordens de Deus, com as exigências de Deus. Se eu sou verdadeiramente justo, eu não leio a Bíblia apenas com o interesse de conhecer as histórias ali apresentadas, mas eu busco na Escritura a direção para obedecer a Deus e viver de maneira agradável a Ele.

Agora, notemos ainda que a relação do justo com a lei é uma relação de amor e prazer. No seu comentário deste salmo, João Calvino assim escreveu:

“A partir desta caracterização do homem piedoso como aquele que se deleita na lei do Senhor, nós podemos aprender que a obediência forçada ou servil não é, de maneira alguma, aceitável a Deus, e que apenas são estudantes dignos da lei aqueles que vêm a ela com uma mente alegre, e de tal maneira satisfeitos nas suas instruções, que consideram não haver nada mais desejoso ou delicioso do que fazer progresso nelas”

De fato, por toda a Bíblia o homem de Deus é descrito não apenas como aquele que obedece a Deus, mas como aquele que obedece de coração, com amor (1Jo 5.3).

É a minha meditação, todo o dia!

Quarto, somos ensinados que o homem justo demonstra o seu amor pela lei ao meditar nela. De fato, se acompanharmos as palavras do profeta, teremos de dar um passo adiante e afirmar, aqui, que o prazer do justo na lei de Deus não é algo abstrato; antes, é demonstrado na dedicação e atenção que tal homem dá à Palavra de Deus.

Eu diria, à luz deste salmo, que nós demonstramos prazer na lei do Senhor de duas maneiras. De um lado, fazemos isso gastando tempo no estudo diligente das Escrituras. De outro, provamos nosso amor pela Lei empregando todo o nosso esforço para pôr em prática os mandamentos da lei de Deus. Se alguém estuda a Bíblia com dedicação e empenha-se em obedecer aos comandos de Deus que nos são dados em sua Palavra, tal pessoa dá evidências de ser verdadeiramente justa. Porém, se negligenciamos a leitura sistemática da Palavra ou se não empregamos o devido esforço para sermos obedientes a Deus, então com isso apenas mostramos que não somos justos de maneira alguma.

Como fica evidente, à luz das palavras colocadas na boca do salmista pelo Espírito Santo, a vida do homem de Deus é notoriamente distinguível da maneira como vive o ímpio. Uma vez que o justo é alguém que nasceu de novo, recebendo do Senhor uma nova mente e um novo coração, esse homem não pode mais viver da mesma maneira que vivia antes. Ele, embora ainda seja um pecador, já não é mais um ímpio: a fonte de sua felicidade, que antes eram os prazeres transitórios do pecado, agora é a lei de Deus.

Diante de tão elevados pensamentos, não podemos fazer outra coisa senão examinarmos a nós mesmos: somos justos ou somos ímpios?

Por: Vinícius Silva Pimentel | PreciosoCristo | Original aqui.
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Meditações no Salmo 1 (I): O justo e os ímpios

Vinícius S. Pimentel

Meditações no Salmo 1

Bem-aventurado o homem que não anda no conselho dos ímpios, não se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores. Antes, o seu prazer está na lei do SENHOR, e na sua lei medita de dia e de noite.

Ele é como árvore plantada junto a corrente de águas, que, no devido tempo, dá o seu fruto, e cuja folhagem não murcha; e tudo quanto ele faz será bem sucedido. Os ímpios não são assim; são, porém, como a palha que o vento dispersa.

Por isso, os perversos não prevalecerão no juízo, nem os pecadores, na congregação dos justos. Pois o SENHOR conhece o caminho dos justos, mas o caminho dos ímpios perecerá. (Salmo 1)

J.C. Ryle escreveu certa vez que, assim como entre as estrelas há diferença de esplendor, algumas passagens das Escrituras brilham mais do que outras, revelando-nos com mais clareza e intensidade a glória do Deus a quem adoramos.

Se o bispo de Liverpool estiver certo (como eu penso que está), o Salmo 1 certamente é um dos capítulos mais importantes de toda a Bíblia. Além de servir como uma introdução ao Saltério, este salmo se apresenta para nós como uma belíssima síntese de como deve ser a vida do homem que vive por Deus e para Deus.

No Salmo 1, o salmista contempla a diferença radical entre a vida do justo e a vida do ímpio. Ele nos chama a observar que a vida do justo é caracterizada por um evidente amor aos mandamentos de Deus (a Lei) e, ao mesmo tempo, nos anuncia que a verdadeira felicidade na vida (bem-aventurança) está apenas com o homem justo, e não com o ímpio.

Se atentarmos à voz de Deus na boca do salmista, encontraremos um caminho seguro para vivermos de uma maneira que o Senhor seja completamente glorificado e nós, completamente felizes. Continuar lendo

Nossa suficiência em Deus

Áurea Emanoela

Nossa suficiência em Deus

Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo; o teu bordão e o teu cajado me consolam. (Salmo 23.4)

Há algum tempo o Senhor tem-me inquietado, tem-me feito refletir acerca de algumas questões, e todas elas convergem para uma mesma direção: Em que está firmada a nossa confiança?

Tenho ouvido pregações a respeito da bondade de Deus, das suas promessas, das suas benesses, afirmações de que Deus vai fazer isso e aquilo outro… De fato, Deus é bom, faz promessas (e as cumpre), exalta e abate, fere e sara, Ele é soberano sobre todas as coisas (Deuteronômio 32.39). O evangelicalismo tem crescido, é cada vez maior o número de pessoas que professam a fé em Deus como Senhor e Salvador de suas vidas; todavia, uma indagação é recorrente: em que tipo de Deus temos crido?

Já faz algum tempo que venho meditando nesse versículo do Salmo 23, e me perguntando por que, não raras vezes, esse versículo é suprimido das pregações. Falamos dos verdes pastos, do refrigério da alma, da mesa preparada na presença dos nossos inimigos… Contudo, suprimimos das nossas pregações – ou mesmo da nossa meditação individual – o “vale da sombra da morte”. É inato ao ser humano evitar o sofrimento, embora a Bíblia, ao longo dos seus Livros, nos mostre que as lutas, e mesmo os sofrimentos, fazem parte do caminhar cristão (2Timóteo 3.12; Mateus 16.24; 1Pedro 3.17), e é justamente nesse sentido que o salmista se dirige a Deus, em sua oração no Salmo 23.4.

A suficiência de Davi estava centrada em Deus. No versículo 1º, o salmista declara que “O SENHOR é o meu pastor; nada me faltará”. Dois versículos abaixo, Davi expressa sua confiança no Deus que é o mesmo, ainda que ele se encontre no mais terrível lugar em que um homem possa estar, “no vale da sobra da morte”. Em outras palavras, o que Davi disse foi: “Porque o SENHOR é o meu Pastor, nada me faltará. Ele estará comigo em todas as situações, desde as melhores até a pior situação da minha vida, porque em Deus não há variação“.

"Deus estará comigo em todas as situações, porque Nele não há variação."

Vendo por esse espectro, é mais fácil compreender a expressão de confiança do salmista no Salmo 42.5 (“Por que estás abatida, ó minha alma? Por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei, a ele, meu auxílio e Deus meu.”). Aqui o salmista mostra seu anseio, aflito, pela presença de Deus; ele não esconde o quão abatida se encontra sua alma, clama, “grita” como se o Senhor o tivesse esquecido e traz à memória as maravilhas que Deus realizara no meio de seu povo. O autor do salmo não esconde o seu descontentamento; todavia, em meio a essa “enxurrada” de sentimentos, o salmista começa a doutrinar sua própria alma, fazendo-lhe perguntas: “Por que estás abatida, ó minha alma? Por que te perturbas em mim?” O salmista sabia que Deus o estava assistindo, então responde à sua alma: “Espera em Deus, pois ainda o louvarei, a ele, meu auxílio e Deus meu“. A suficiência do salmista estava firmada em Deus, portanto, não importava em que situação ele estivesse, o Senhor estaria com ele!

Outra expressão de confiança em Deus encontra-se no livro de Jó – e essa, acredito eu, é uma das mais belas declarações de fé na suficiência do Todo-Poderoso. No capítulo 13, Jó declara: “Ainda que ele me mate, contudo nele esperarei” (v. 15a RAC). Jó sofrera grandes perdas nas áreas da vida que mais afetam os seres humanos: familiar, física e financeira. Poderíamos dizer que Jó era o mais miserável dos homens. Todavia, mesmo diante de todas as calamidades que se abateram sobre a sua vida, ele reforça a sua confiança no Senhor. Ele sabia que o Deus em quem ele cria e em cujos caminhos andava (Jó 1.1) não o abandonaria, e era exatamente esse o Deus em quem Jó esperava.

Em Filipenses 4.4, Paulo declara: “Alegrai-vos sempre no Senhor; outra vez digo: alegrai-vos”. O apóstolo não nos faz um convite, ao qual podemos ou não aceitar; pelo contrário, a expressão, no imperativo, ecoa como uma ordem, um dever que deve ser seguido por todos os cristãos e em todas as situações, quer no manancial, quer no vale da sobra da morte (“Regozijai-vos sempre no Senhor”). O significado da palavra regozijo é alegria, contentamento, e é isso que Paulo nos manda fazer, em todo tempo (ver também 1Tessalonicenses 1.6). Ah, mas uma ordem como essa pode soar fácil para Paulo, não para minha vida ou para sua… certo? Não! Paulo, ao escrever a carta à igreja em Filipos, não gozava de uma situação de conforto ou segurança; pelo contrário, estava preso e não sabia o que seria do dia de amanhã, se seria mais um dia na sua vida ou o último dia da sua peregrinação. Contudo, o apóstolo sabia que, embora ele estivesse preso, “a palavra de Deus não está algemada” (2Timóteo 2.9). A suficiência de Paulo estava no Senhor, não importava o que houvesse; a sua alegria não dependia da situação em que ele se encontrava, mas se Deus estava com ele.

"A suficiência de Paulo estava no Senhor, não importava o que houvesse."

Assim como Davi, Jó e Paulo, outros homens “comuns”, sujeitos às mesmas inquietações e medos que nós, viveram dessa maneira, confiando suas vidas a Deus, crendo na Sua suficiência por mais difícil que fosse a situação em que se encontravam, tendo por certo que nada foge aos olhos atenciosos de JEOVÁ e descansando na certeza de que “os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós” (Romanos 8.18).

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