Romanos 8 e a nossa santificação

Vinícius S. Pimentel

Romanos 8 e a nossa santificação

Como todos nós sabemos (ou deveríamos saber), a santificação é um elemento absolutamente essencial na vida cristã. Essa é uma afirmação que aparece, de modo latente ou patente, por toda a Escritura, e em poucos lugares ela é apresentada tão claramente quanto em Hebreus 12.14: “Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor”. Isso significa que um crente é, por definição, um homem santificado.

Ao mesmo tempo, porém, todo cristão verdadeiro sabe, por sua própria experiência, quão desafiador, lento e até doloroso é – muitas vezes! – o processo de santificação. É uma realidade universal, no que concerne aos crentes genuínos, que nós estamos sempre prontos a reconhecer a importância da santidade, mas nem sempre encontramos em nossa alma a mesma disposição para praticar a santidade. Por causa da nova vida que temos, em Cristo Jesus, nós de fato desejamos andar como homens santos; todavia, por causa da carne que ainda milita em nosso ser, nós encontramos imensos obstáculos à medida que procuramos caminhar por modo digno do Senhor, para o Seu inteiro agrado.

O crente é, por assim dizer, um “homem dividido”: no recôndito mais profundo do seu ser, naquilo que é mais essencialmente verdadeiro a seu respeito, o cristão ama e busca a santidade; contudo, em muitos aspectos de sua vida (eu arriscaria dizer em todos eles), ele ainda é obrigado a reconhecer a presença de “resquícios de pecado” que mancham o seu testemunho e o fazem corar de vergonha. A realidade desse “homem dividido” – que tem prazer na lei de Deus, mas fatalmente descobre que o mal ainda reside em seu ser – é aquilo que faz Paulo exclamar com profunda dor: “Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” (Romanos 7.24).

Com efeito, o texto de Romanos 7.14-25 é uma das passagens mais agonizantes de toda a Escritura. Ali, o apóstolo Paulo, o maior exemplo de fé e vida que encontramos no Novo Testamento, expõe a si mesmo como um homem dividido, um homem que muitas vezes é obrigado a reconhecer em si mesmo a sua própria desconformidade em relação à Lei de Cristo. E, mesmo quando o apóstolo é capaz de erguer os seus olhos e gritar “Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor”, as suas últimas palavras no capítulo ainda são de contagiante lamento: “De maneira que eu, de mim mesmo, com a mente, sou escravo da lei de Deus, mas, segundo a carne, da lei do pecado” (v. 25).

Entretanto, no capítulo 8, Paulo passa a discorrer a respeito do motivo de sua gratidão a Jesus Cristo, no que diz respeito à santificação. Aquela afirmação tímida do capítulo 7, “Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor” é aqui reiterada e expandida, de modo que o tom de lamento dá lugar a uma explosão de alegria, confiança, segurança e firmeza, em razão daquilo que Deus fez por nós, Seus filhos, em Cristo Jesus.

Ao que nos parece, o ponto de Paulo pode ser resumido como segue: uma vez que a obra de Jesus Cristo em favor do Seu povo é plena e perfeita, ela nos assegura não apenas a nossa justificação, mas também a nossa santificação e tudo o mais que nos seja necessário nesta vida, de maneira que, quando finalmente estivermos diante do trono do julgamento, nada nos faltará, em virtude de tudo o que Cristo conquistou para nós, e seremos plenamente livrados da ira de Deus. Ou, como o apóstolo nos diz em outro lugar: “Mas vós sois dele, em Cristo Jesus,o qual se nos tornou, da parte de Deus, sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção” (1Coríntios 1.30)

O que nós encontramos em Romanos 8, portanto, é um pleno tesouro de conforto, encorajamento e segurança para a nossa vida de santificação. Vale a pena, então, meditar com mais cuidado nas verdades ali ensinadas:

1. O Evangelho inclui as boas notícias de que Cristo adquiriu a nossa santificação pessoal. Se a falta de santificação pode impedir um homem de ver a Deus, então a obra de salvação consumada pelo Senhor Jesus deveria incluir a nossa santidade – do contrário, jamais seríamos salvos. Mas, de fato, “nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1), e isso “porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, [nos] livrou da lei do pecado e da morte” (v. 2). Paulo explica que essa santificação operada em nós pelo Espírito Santo é resultante da obra de Cristo, a quem Deus enviou “em semelhança de carne pecaminosa e no tocante ao pecado” (v. 3), “a fim de que o preceito da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito” (v.4).

2. A habitação do Espírito Santo nos assegura a santificação no presente, bem como a ressurreição no futuro. A santificação é um assunto sério, e lutar pela santificação é nosso dever. Aqueles que “estão na carne não podem agradar a Deus” (v. 5-8). Porém, todos os verdadeiros crentes estão em Cristo, e todos os que estão em Cristo são a morada do Espírito Santo (v. 9). Sendo assim, o nosso corpo ainda pode exibir resquícios de pecado e consequências da corrupção humana, “mas o espírito é vida, por causa da justiça” (v. 10). E esse mesmo Espírito, que é a fonte e o penhor de nossa nova vida, certamente permanecerá agindo eficazmente em nós até o fim, quando Ele então “vivificará também o [nosso] corpo mortal” (v. 11).

3. A habitação do Espírito Santo nos constrange à santificação – não pelo temor de que sejamos condenados por Deus, mas pela certeza de que Ele nos salvou e nos aceitou em Sua família, como filhos amados. A presença do Espírito em nós faz com que nos sintamos “devedores” de Deus (v. 12), de maneira que somos constrangidos, impulsionados, amorosamente pressionados a nos engajarmos numa verdadeira guerra contra o pecado: “se, pelo Espírito, mortificardes os feitos do corpo, certamente, vivereis” (v. 13). Mas a grande motivação para estarmos nessa guerra não é tanto o medo de sermos lançados no inferno, e sim a certeza de que “todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (v. 14). Essa doce certeza nos dá a alegre ousadia de chamarmos Deus de “Paizinho” (“Aba, Pai”, v. 15), pois “o próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus” (v. 16). Ora, “se somos filhos, somos também herdeiros” (v. 17): por mais árdua e sangrenta que seja a nossa luta contra o pecado, temos a plena segurança de que possuímos na eternidade uma vida superior e um reino inabalável, e nisso está a nossa alegria e glória.

4. A constante luta contra o pecado nos faz ansiar ainda mais pela eternidade. Os sofrimentos resultantes da guerra pela santificação frequentemente nos fazem pensar na vaidade desta vida. Ora, se esta existência fosse tudo que tivéssemos, os crentes seriam mesmo os mais miseráveis de todos os homens, como o apóstolo diz em outro lugar (1Coríntios 15.19). Porém, nós temos a certeza de uma vida futura e, quando meditamos nessa vida e contemplamos o Dia que já vem raiando, podemos afirmar com ousadia que “os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós” (v. 18). Sim, naquele Dia, até a criação como um todo será redimida do cativeiro de corrupção e inutilidade no qual hoje se encontra (v. 19-22). Mais do que isso, os filhos de Deus experimentarão a redenção de seus corpos: todo resquício de pecado ainda presente será completamente removido e extirpado, de maneira que eles ingressarão numa vida de completa santidade, para sempre (v. 23). Essa é mesmo uma esperança magnífica! E é por isso que nós a aguardamos com tanta paciência, em meio às lutas do presente (v. 24-25).

5. Mesmo nos momentos de maior fraqueza, nós contamos com a ajuda sobrenatural e poderosa do Espírito Santo. “Também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza” (v. 26). Essa ajuda divina é intensa e poderosa, de maneira que, quando não conseguimos sequer orar por nós mesmos, o Deus Espírito intensifica as Suas intercessões por nós perante o Pai, e faz isso “sobremaneira, com gemidos inexprimíveis” (v. 26). Ora, se o Pai e o Espírito são um só Deus, podemos ter certeza absoluta de que tal oração será infalivelmente ouvida e prontamente atendida! “E aquele que sonda os corações sabe qual é a mente do Espírito, porque segundo a vontade de Deus é que ele intercede pelos santos” (v. 27).

6. Mesmo nos momentos de maior fraqueza, nós contamos com a providência de Deus em nosso favor – e isso nos assegura que a Sua obra em nós não pode ficar inacabada. É significativo que a afirmação mais sublime acerca da providência de Deus esteja encravada neste contexto, no qual Paulo apresenta a segurança do crente em meio aos sofrimentos da luta contra o pecado. “Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (v. 28). Um crente, por causa de suas fraquezas e tropeços, é frequentemente assaltado por dúvidas e frustrações, mas aqui está um remédio poderoso: nada, absolutamente nada, escapa do controle do Deus que escolheu um povo para Si e que ordena todos os acontecimentos do universo para a Sua glória e para o benefício eterno daqueles por quem Ele se afeiçoou. Esse povo a quem Deus amou foi predestinado para ser semelhante ao Senhor Jesus, e nada pode impedi-los de alcançar o seu destino (v. 29). Em Cristo, Eles foram amados, eleitos, justificados e glorificados – e absolutamente nada pode quebrar essa “cadeia de ouro”, pois é o próprio Deus que a mantém (v. 30).

7. Em Cristo, Deus se tornou favorável a nós – e absolutamente nada pode mudar isso. O apóstolo faz uma série de perguntas destinadas a confirmar no coração dos crentes o fato de que eles são amados por Deus e, sendo assim objeto do cuidado paternal de Deus, eles podem ter a confiança de que a sua aceitação diante do Pai é garantida para sempre, apesar de suas fraquezas no presente.

“Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (v. 31) – os nossos maiores inimigos e obstáculos são como poeira diante do Deus Todo-Poderoso, e aquilo que parece uma muralha intransponível para nós não é para Ele mais alto do que um meio-fio!

“Aquele que não poupou o seu próprio filho, antes, por todos nós o entregou, porventura não nos dará graciosamente com ele todas as coisas?” (v. 32). Se Deus foi capaz de nos amar ao ponto de sacrificar o Seu unigênito, e isso quando nós ainda éramos pecadores incorrigíveis e inveterados, o que pode fazê-Lo voltar-se contra nós, agora que já fomos justificados, aceitos em Sua família e selados com o Seu santo Espírito?

“Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus?” (v. 33). Quem levantará o dedo em riste contra aqueles a quem Deus amou e liberalmente aceitou em Sua casa? Se “é Deus quem os justifica”, se é o Justo Deus quem os considera justos, quem pode questioná-lo? “Quem os condenará?” (v. 34). Sim, que acusação a nosso respeito pode permanecer de pé, se já fomos sentenciados como dignos de morte eterna e tal sentença já foi executada sobre Jesus Cristo, na cruz, em nosso lugar? “É Cristo Jesus quem morreu ou, antes, quem ressuscitou, o qual está à direita de Deus e também intercede por nós”.

“Quem nos separará do amor de Cristo?” (v. 35). Não é que não haja muitos tentando tal coisa: tribulação, angústia, perseguição, fome, nudez, perigo e espada, todas essas coisas se levantam contra um crente para pressioná-lo a abandonar a sua fé e desistir de andar pelo caminho estreito. Talvez até mesmo a morte se apresente diante de nós, fazendo apelos e ameaças para que neguemos o Senhor Jesus (v. 36). Porém, como esses terríveis inimigos podem conseguir alguma vantagem sobre nós, se mesmo no meio delas nós “somos mais do que vencedores, por meio daquele que nos amou” (v. 37)? Se tal vitória, o Senhor nos assegura, já pertence aos crentes e não pode lhes ser tirada, então podemos ficar bem certos de que “nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (v. 38-39).

Que essas verdades sejam um verdadeiro consolo e encorajamento em nosso coração, à medida que caminhamos nesta jornada de santificação. Que elas sejam também uma motivação e um constrangimento para que busquemos a santidade, na certeza de que tudo aquilo de que precisamos para esta vida e para a vindoura já é nosso, em Cristo Jesus.

Por: Vinícius Silva Pimentel | PreciosoCristo | Original aqui.
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Fundamentos destruídos

Áurea Emanoela

Fundamentos destruídos

“No SENHOR me refugio. Como dizeis, pois, à minha alma: Foge, como pássaro, para o teu monte? […] Ora, destruídos os fundamentos, que poderá fazer o justo?” (Salmos 11.1,3).

Perseguido e ameaçado por seus inimigos, instado por seus amigos a fugir, a não resistir, a procurar um lugar que lhe abrigasse daqueles que demandavam contra a sua vida, o salmista reafirma sua confiança em Deus.

Em uma época de inversão vergonhosa de valores, qual é o fundamento da nossa fé? Sobre quais pilares temos edificado as nossas vidas? De que maneira temos vivido? Como somos vistos pelo mundo?

Durante alguns anos de sua vida, mesmo depois de ter sido ungido rei (pelo decreto soberano de Deus), Davi se viu obrigado a fugir da fúria assassina de Saul, e é nesse contexto, de perseguiçãoversus fuga, que o salmista, contrariando o conselho dos seus amigos, deposita sua confiança em Deus.

O cristão e o mundo

Como reagimos diante de uma sociedade que exalta os relacionamentos passageiros, o prazer em lugar do amor, a legalização de vícios e comportamentos lascivos, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a mentira em detrimento da verdade e tantas outras formas de corrupção humana?

Talvez, do mesmo modo como aconteceu a Davi, sejamos instados a fugir ou mesmo nos conformar com a degradação que nos cerca. Todavia, o apóstolo Paulo nos adverte:

“[…] não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.” (Romanos 12.2)

Em meio a uma sociedade adúltera, devemos transparecer os valores de Cristo, colocando-nos contra todas as distorções daqueles que pervertem a justiça e corrompem a glória de Deus.

“Não devemos ser como caniços agitados pelo vento, dobrando-nos diante das rajadas da opinião pública, mas tão inabaláveis quanto pedras em uma correnteza.” (John Stott)

O exemplo de Davi

Os companheiros de Davi deram-lhe bons motivos para buscar refúgio em outro lugar, de maneira que pudesse estar seguro das investidas de Saul:

“Porque eis aí os ímpios, armam o arco, dispõem a sua flecha na corda, para, às ocultas, dispararem contra os retos de coração” (Salmos 11.2)

Aqueles homens acreditavam que, se o salmista fugisse, deixando por algum tempo o lugar em que estava, certamente encontraria descanso para sua alma. Os companheiros de Davi descreveram a maneira sutil e covarde como agem os ímpios, arremetendo contra “os retos de coração”.

Embora a olhos humanos Davi tivesse bons motivos para “bater em retirada”, não é essa a sua decisão. Contrariando seus conselheiros, o salmista busca salvação em Deus:

“No SENHOR me refugio. Como dizeis, pois, à minha alma: Foge, como pássaro, para o teu monte?” (Salmos 11.1)

O salmista exalta a soberania de Deus, o seu cuidado para com os filhos dos homens, Davi afirma que coisa alguma passa despercebida aos olhos cuidadosos do Deus Todo-Poderoso. O Senhor perscruta todas as coisas e de maneira alguma está indiferente ao que acontece sobre a face da terra. Os amigos de Davi apenas olhavam para as coisas terrenas, mas o salmista fitava seus olhos nas celestiais, sabendo que Deus jamais cessou de reinar.

“O SENHOR está no seu santo templo; nos céus tem o SENHOR seu trono; os seus olhos estão atentos, as suas pálpebras sondam os filhos dos homens” (Salmos 11.4)

Davi reconhece que o Senhor põe à prova também ao justo, todavia não o condenará.

“O SENHOR põe à prova ao justo e ao ímpio; mas, ao que ama a violência, a sua alma o abomina” (Salmos 11.5).

O Senhor, do alto da sua soberania, permite a ação inescrupulosa dos homens, mas não retarda o seu juízo. As ações humanas limitam-se à vontade de Deus.

“Fará chover sobre os perversos brasas de fogo e enxofre, e vento abrasador será a parte do seu cálice. Porque o SENHOR é justo, ele ama a justiça; os retos lhe contemplarão a face” (Salmos 11.6-7)

O mundo caminha para a destruição dos alicerces, todavia, à semelhança de Davi, nossa confiança deve estar alicerçada no fato de que Deus reina eternamente e, ainda que todos os fundamentos se desfaçam:

“podemos sofrer com alegria, esperar com bom ânimo, aguardar pacientemente, orar fervorosamente, crer de maneira confiante e, finalmente triunfar” (Spurgeon)

Por: Áurea Emanoela Holanda Lemos | PreciosoCristo | Original aqui.
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Meditações em Filipenses (IV): Tudo coopera para a glória de Deus

Vinícius S. Pimentel

Meditações em Filipenses

Quero ainda, irmãos, cientificar-vos de que as coisas que me aconteceram têm, antes, contribuído para o progresso do evangelho; de maneira que as minhas cadeias, em Cristo, se tornaram conhecidas de toda a guarda pretoriana e de todos os demais; e a maioria dos irmãos, estimulados no Senhor por minhas algemas, ousam falar com mais desassombro a palavra de Deus. Alguns, efetivamente, proclamam a Cristo por inveja e porfia; outros, porém, o fazem de boa vontade; estes, por amor, sabendo que estou incumbido da defesa do evangelho; aqueles, contudo, pregam a Cristo, por discórdia, insinceramente, julgando suscitar tribulação às minhas cadeias. Todavia, que importa? Uma vez que Cristo, de qualquer modo, está sendo pregado, quer por pretexto, quer por verdade, também com isto me regozijo, sim, sempre me regozijarei. (Filipenses 1.12-18)

Introdução

Tendo concluído a sua oração de gratidão e súplica pelos filipenses, o apóstolo Paulo passa a falar aos crentes a respeito das últimas notícias relacionadas à sua prisão.

Aparentemente, o encarceramento de Paulo havia provocado na igreja de Filipos uma certa tristeza e ansiedade. Pelo que podemos inferir das Sagradas Escrituras, os irmãos estavam preocupados que a prisão de Paulo atrapalhasse o avanço do evangelho no mundo e, ao mesmo tempo, temiam que o apóstolo acabasse sendo condenado à morte pelas autoridades do Império Romano.

A passagem que vai do versículo 12 ao versículo 26 nos revela de maneira muito forte a tranquilidade e, mais do que isso, a alegria do coração de Paulo em meio a todas essas circunstâncias adversas. O apóstolo escreve aos crentes em Filipos para dizer-lhes que não havia motivo de preocupação, pois, qualquer que fosse o desfecho do seu encarceramento, o nome de Deus seria glorificado.

Com efeito, podemos dividir esta seção em duas partes principais. Na primeira delas (v. 12-18), Paulo tranquiliza os filipenses no tocante à sua preocupação de que o encarceramento do apóstolo pudesse resultar no fracasso do evangelho e na derrota da igreja. Na segunda parte (v. 19-26), ele procura dissipar o temor dos irmãos de que a sua prisão terminasse por levá-lo à própria morte.

Nesta meditação, cuidaremos de estudar a primeira parte do discurso de Paulo. Observaremos a maneira como o apóstolo aborda as suas tribulações e a confiança que ele possui em relação ao progresso e ao triunfo do evangelho no mundo.

A prisão de Paulo e a glória de Deus

Meditemos, em primeiro lugar, na maneira como o apóstolo contempla o seu próprio sofrimento. Ouçamos as suas palavras e guardemos a riqueza de ensinamento prático contida nesta declaração: “Quero ainda, irmãos, cientificar-vos de que as coisas que me aconteceram têm, antes, contribuído para o progresso do evangelho” (v. 12).

Há duas lições extremamente importantes a serem consideradas aqui.

Primeiro, aprendemos que os sofrimentos os quais enfrentamos não são mais importantes que a glória de Deus.

Como já temos demonstrado, o apóstolo Paulo estava preso, e o risco de que o seu cárcere terminasse numa condenação à morte era bastante real. Numa situação como essa, que tipo de pensamento dominaria a nossa mente? Tristeza? Solidão? Medo de morrer?

Paulo era um homem sujeito às mesmas fraquezas que nós e, talvez, pensamentos assim tenham passado pela sua cabeça. Todavia, quando meditamos na declaração que acabamos de ler, vemos com muita clareza que o apóstolo não estava dominado por esses temores. Nada disso estava consumindo a sua mente; muito pelo contrário, ao invés de preocupar-se com o seu próprio bem-estar, Paulo estava pensando no avanço do evangelho e no bem-estar da igreja. A sua atenção, portanto, estava voltada para a glória de Deus.

É impossível deixar de reconhecer o caráter sobrenatural e celestial desse tipo de pensamento. Nós somos naturalmente inclinados a pensar em nós mesmos antes de todas as coisas; nossa natureza carnal e pecaminosa nos impulsiona a considerarmos a nossa vida mais preciosa do que tudo o mais. Porém, não foi isso que Cristo nos ensinou. Ele nos disse que desprezar esta vida terrena é o único caminho para possuir a verdadeira vida, aquela que é eterna e celestial: “Porquanto, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por minha causa achá-la-á” (Mateus 16.25).

Aqui, neste texto, nós vemos o apóstolo Paulo atendendo ao chamado de Cristo de uma maneira bastante real e concreta. A sua vida está por um triz, mas ele não demonstra estar preocupado; pelo contrário, ele está feliz com o fato de que os seus sofrimentos estão resultando em mais frutos para o evangelho e mais glória para Deus!

Você é capaz de ver as suas lutas, tribulações e dificuldades dessa maneira? Você consegue alegrar-se no sofrimento, à medida que percebe que as nossas aflições enquanto cristãos apenas servem para que Deus realize os Seus bons propósitos e glorifique o Seu grande nome?

Segundo, aprendemos que as nossas limitações pessoais não impedem o cumprimento dos planos e promessas de Deus.

Paulo era “o apóstolo dos gentios”. Ele havia sido soberanamente chamado por Deus para levar o Evangelho às nações além de Israel. No momento de sua primeira prisão, o apóstolo já tinha fundado inúmeras igrejas por grande parte do Império Romano; entretanto, ainda havia muitas cidades onde o evangelho precisava ser anunciado, muitas nações onde Cristo ainda não era conhecido.

A prisão de Paulo, portanto, podia levantar a seguinte dúvida: O que acontecerá com o progresso do evangelho? Será que a fé cristã deixará de avançar? Será que o crescimento do evangelho estagnará e, por fim, a Igreja morrerá?

O apóstolo responde a essa inquietação com um sonoro “Não!”. Obviamente, Paulo estava ciente de que absolutamente nada pode impedir o avanço do reino de Deus: nem a oposição dos incrédulos, nem a fúria de todos os demônios, nem as limitações pessoais dos ministros da nova aliança. Absolutamente nada pode evitar que Deus cumpra a Sua promessa de fazer o Seu nome conhecido em toda a terra e ajuntar, de todas as nações, um povo para Si mesmo. O apóstolo certamente conhecia as palavras de Jesus: “Sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mateus 16.18).

Paulo tinha certeza, portanto, de que a sua prisão não constituía um entrave ao progresso do evangelho. No fim de sua vida, ele escreveria estas palavras ainda mais ousadas: “[…] estou sofrendo até algemas, como malfeitor; contudo, a palavra de Deus não está algemada” (2Timóteo 2.9). Os homens podem prender os ministros do evangelho, algemá-los, calá-los e até matá-los. Mas eles não podem fazer isso com Deus nem com a Sua palavra. Portanto, como certa vez asseverou o missionário William Carey, podemos estar confiantes de que “a causa de Deus triunfará”.

Há algo ainda mais interessante aqui. O apóstolo não apenas tem confiança de que a sua prisão não resultará no fracasso do evangelho, mas ele também enxerga que aquela circunstância efetivamente contribui para o progresso da causa de Cristo no mundo.

De um lado, Paulo vê que a sua prisão lhe permitiu pregar para os soldados do imperador e de muitos outros que estavam entrando em contato, direta ou indiretamente, com a fé evangélica. Ele diz: “[…] as minhas cadeias, em Cristo, se tornaram conhecidas de toda a guarda pretoriana e de todos os demais” (v. 13). A prisão de Paulo, de fato, havia sido o meio usado por Deus para que o evangelho chegasse ao exército romano.

De outro lado, o apóstolo observa que o seu encarceramento havia despertado em muitos irmãos uma coragem ainda maior para pregar o evangelho. Nós lemos que “[…] a maioria dos irmãos, estimulados no Senhor por minhas algemas, ousam falar com mais desassombro a palavra de Deus” (v. 14). Isso é muito interessante. Tanto na narrativa bíblica como na história da Igreja, nós vemos que a perseguição aos cristãos nunca inibe a pregação da Palavra; pelo contrário, Deus usa os sofrimentos de alguns para estimular os demais a serem ainda mais firmes e ousados no desafio de anunciar o nome de Jesus.

Você consegue enxergar as suas próprias limitações dessa maneira? Você consegue perceber como Deus usa as dificuldades e aflições que enfrentamos para tornar o Seu nome ainda mais divulgado no mundo? Que o Senhor nos conceda tal visão celestial!

A pregação interesseira e a glória de Deus

Meditemos, em segundo lugar, na maneira como o apóstolo lida com a pregação interesseira do evangelho. Depois de afirmar que a sua prisão estava estimulando muitos irmãos a pregarem a Palavra de Deus, ele observa que nem todos esses pregadores tinham em seu coração a motivação correta. Alguns de fato estavam proclamando a Cristo “de boa vontade”; outros, porém, estavam levando a Palavra “por inveja e porfia [rivalidade]” (v. 15). Alguns tinham sincero amor por Deus e pelo apóstolo Paulo, e desejavam sinceramente contribuir para que a sua prisão não atrapalhasse o avanço do evangelho entre as nações (v. 16). Porém, outros nutriam terrível inveja do ministério de Paulo e estavam aproveitando a situação para, de alguma maneira, roubar o lugar que o apóstolo tinha na igreja, pela graça de Deus (v. 17).

A maneira como Paulo reage a esses pregadores invejosos e interesseiros é de fato surpreendente. Porém, para que possamos entendê-la melhor, precisamos fazer algumas considerações antes de meditarmos efetivamente na reação do apóstolo.

Devemos observar, por um lado, que o pecado desses ministros não estava no conteúdo da mensagem pregada, mas na intenção do seu coração. Se o problema estivesse na mensagem anunciada, a reação de Paulo seria, sem dúvida, bastante diferente: ele iria fazê-los calar (Tito 1.11), ordenaria aos irmãos que se afastassem daqueles falsos mestres (Romanos 16.17-18) e pronunciaria sobre eles uma terrível maldição (“Seja anátema!”, Gálatas 1.8-9). Paulo jamais tolerou ou toleraria o falso ensino na Igreja de Deus, uma vez que o falso evangelho leva os homens à condenação eterna. Porém, aqui, os ministros estão anunciando o evangelho de forma correta, e muitos ouvintes estão sendo salvos; é a motivação deles que está errada e, por isso, é apenas a eternidade deles (os ministros) que está em jogo.

Isso nos leva, por outro lado, a uma segunda observação: nós não podemos ultrapassar o que está escrito e achar que Paulo está ensinando não haver problema na motivação invejosa daqueles pregadores. Ao contrário: em outra parte desta epístola, Paulo dirá explicitamente que o destino dos pregadores interesseiros é a perdição (Fp 3.19).

Tendo estabelecido essas observações, meditemos de fato na reação do apóstolo diante desses pregadores invejosos. Será que Paulo ficou preocupado em perder espaço? Será que ele teve medo de que um líder mais carismático tomasse o seu lugar, ganhando o amor e o cuidado das igrejas que ele havia fundado e discipulado? Será que ele se aborreceu com tais pregadores, pelo fato de eles estarem tentando usurpar a sua autoridade apostólica?

A Escritura nos mostra que Paulo não teve nenhuma dessas reações pecaminosas. Ele não retribuiu a inveja dos ministros com mais inveja, pois ele mesmo costumava ensinar os cristãos a vencerem o mal com o bem (Romanos 12.21). Diversamente, o apóstolo mostra mais uma vez que a sua preocupação primordial não é consigo mesmo, mas com a causa de Cristo. Se ele não estava temeroso quanto ao seu bem-estar e à sua liberdade, como já vimos, tampouco ele estaria temeroso quanto à sua reputação no ministério ou o seu espaço na igreja!

A resposta de Paulo expressa claramente o seu interesse exclusivo no progresso do evangelho, em detrimento do seu prestígio pessoal. “Todavia, que importa? Uma vez que Cristo, de qualquer modo, está sendo pregado, quer por pretexto, quer por verdade, também com isto me regozijo, sim, sempre me regozijarei” (v. 18). De fato, ao invés de expressar ciúme ou amargura, o apóstolo demonstra intensa alegria. Ele estava sinceramente feliz com aquela situação – não exatamente com o fato de haver ministros invejosos na igreja, mas sim porque Deus estava usando a motivação pecaminosa daqueles homens para tornar o evangelho de Cristo ainda mais conhecido no mundo e crido entre as nações.

Em suma, ao meditarmos em toda esta passagem vemos que Paulo deposita a sua alegria e confiança inteiramente em Deus. Todo o seu interesse está na causa do reino, de maneira que tudo o que coopera para o avanço do evangelho é visto pelo apóstolo como uma razão para se alegrar – ainda que seja a perda da sua própria liberdade. Ao mesmo tempo, toda a confiança de Paulo está no Deus soberano; o apóstolo está certo de que absolutamente nenhuma circunstância pode impedir que o Senhor cumpra os Seus planos e promessas estabelecidos de antemão.

Que possamos ter também semelhante coração, que se alegra inteiramente na vinda do reino e confia inteiramente na providência do Deus todo-poderoso!

Por: Vinícius Silva Pimentel | PreciosoCristo | Original aqui.
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[Orações Puritanas] Deus, a Fonte de todo bem

Orações Puritanas - Deus, a Fonte de todo bem

Ó Senhor Deus, que habitas na eternidade,
Os céus declaram a Tua glória,
A terra, as Tuas riquezas,
O universo é o Teu templo;
A Tua presença enche a imensidão,
Contudo do Teu prazer Tu criaste a vida e comunicaste a felicidade;
Tu me fizeste o que eu sou, e me deste o que eu tenho;
Em Ti eu vivo, e me movo, e existo;
A Tua providência pôs os limites da minha habitação,
e sabiamente dirige todos os meus afazeres.

Eu Te agradeço por Tuas riquezas a mim em Jesus,
pela descortinada revelação Dele em Tua Palavra,
onde eu contemplo a Sua Pessoa, caráter, graça, glória
humilhação, sofrimentos, morte e ressurreição;
Concede-me sentir uma necessidade pela Sua contínua presença salvadora,
e clamar com Jó: “Eu sou vil!”,
com Pedro: “Estou perecendo!”,
com o publicano: “Sê misericordioso para comigo, um pecador!”.

Subjuga em mim o amor do pecado,
Faze-me conhecer a necessidade da renovação, assim como do perdão,
a fim de Te servir e Te desfrutar para sempre.

Eu venho a Ti no todo-prevalecente nome de Jesus,
com nada propriamente meu para reivindicar,
nenhuma obra, nenhuma dignidade, nenhuma promessa.

Muitas vezes, eu ando desgarrado,
muitas vezes, oponho-me deliberadamente à Tua autoridade,
muitas vezes, abuso da Tua bondade.
Muito da minha culpa provém dos meus privilégios religiosos,
meu pouco apreço por eles,
minha falha em usá-los em meu benefício,
Mas eu não sou negligente para com o Teu favor nem indiferente à Tua glória;
Impressiona-me profundamente com um senso da Tua onipresença,
de que Tu estás em redor da minha vereda, dos meus caminhos,
do meu deitar, do meu fim.

Fonte: BENNET, Arthur (Ed.). The Valley of Vision: A Collection of Puritan Prayers & Devotions. Edinburg, USA: The Banner of Truth Trust, 2009, p. 5.
Tradução: 
Vinícius Silva Pimentel | PreciosoCristo | Original aqui.
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[Orações Puritanas] O Vale da Visão

Orações Puritanas - O Vale da Visão

Senhor, sublime e santo, humilde e manso,
Tu me trouxeste ao vale da visão,
onde eu vivo nas profundezas, porém vejo a Ti nas alturas;
cercado por montanhas de pecado, eu contemplo a Tua glória.

Faze-me aprender, por paradoxo,
que o caminho para baixo é o caminho para o alto,
que ser menor é ser maior,
que o coração quebrantado é o coração curado,
que o espírito contrito é o espírito alegre,
que a alma arrependida é a alma vitoriosa,
que não ter nada é possuir tudo,
que levar a cruz é portar a coroa,
que o vale é o lugar da visão.

Senhor, durante o dia podem-se ver as estrelas do mais profundo abismo,
e, quanto mais profundo o abismo, mais forte brilham as Tuas estrelas;

Faze-me encontrar a Tua luz na minha escuridão,
a Tua vida na minha morte,
a Tua alegria na minha tristeza,
a Tua graça no meu pecado,
as Tuas riquezas na minha pobreza,
a Tua glória no meu vale.

Fonte: BENNET, Arthur (Ed.). The Valley of Vision: A Collection of Puritan Prayers & Devotions. Edinburg, USA: The Banner of Truth Trust, 2009, p. XV.
Tradução: 
Voltemos ao Evangelho (Vinícius S. Pimentel) | Publicação original aqui.
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