[Livro do mês – maio/2012] Hernandes Dias Lopes – “Ouça o que o Espírito diz às igrejas”

Hernandes Dias Lopes

Livro do mês - Ouça o que o Espírito diz às igrejas

A igreja evangélica brasileira está bem, está mais ou menos e está mal. Em uma mesma congregação temos gente que anda com Deus, gente apática e gente que já abandonou as fileiras do evangelho. Em uma mesma igreja temos gente que vive e morre pela verdade e também aqueles que a negociam e a trocam por vantagens imediatas.

Estamos vivendo uma crise de integridade na igreja. Há um abismo entre o que pregamos e o que vivemos; entre o que falamos e o que praticamos. A igreja tem discurso, mas não tem vida; tem carisma, mas não tem caráter; tem influência política, mas não poder espiritual. Há uma esquizofrenia instalada em nosso meio. Tornamo-nos uma igreja ambígua e contraditória, em que o discurso mascara a vida, e a vida reprova o discurso.

Estamos vendo o florescimento de uma igreja narcisista, com síndrome de Laodiceia, pois se julga rica e abastada, mas está pobre, cega e nua. Uma igreja que aplaude e dá nota máxima a si mesma quando se olha no espelho, mas que não passa no crivo da integridade nem pode ser aprovada ao ser submetida ao teste da sã doutrina.

Estamos vendo o crescimento de uma igreja ufanista e triunfalista, que se encanta com seu próprio crescimento numérico ao mesmo tempo em que se apequena na vida espiritual. Uma igreja que explode numericamente, mas se atrofia espiritualmente. Uma igreja que tem cinco mil quilômetros de extensão, mas apenas cinco centímetros de profundidade. Uma igreja que se vangloria de produzir dezenas de bíblias de estudo, mas produz uma geração analfabeta em Bíblia.

Estamos vendo crescer em nossa nação uma igreja sem doutrina e sem ética. Uma igreja que rifa a verdade por dinheiro, que joga a ética para debaixo do tapete e, mesmo assim, vocifera palavras de ordem chamando as pessoas ao arrependimento. No passado a igreja tinha autoridade para chamar o mundo ao arrependimento. Hoje é o mundo que ordena que a igreja se arrependa. Derrubamos os muros que nos separam do mundo. Queremos ser iguais ao mundo, no tolo discurso de atraí-lo. Perdemos nossa identidade e nossa integridade. Nossa luz apagou-se debaixo do alqueire. Tornamo-nos sal sem sabor, que não presta para mais nada, senão para ser pisado pelos homens.

Estamos vendo crescer uma igreja mercado que escancara suas portas e usa a religião como fonte de lucro. Uma igreja que constrói novos templos como se abre franquias, não com o propósito de pregar a verdade, mas de granjear riquezas. Temos visto os templos se transformando em praças de negócio, os púlpitos em balcões de comércio, o evangelho em produto lucrativo e os crentes em consumidores vorazes. Temos visto igrejas se transformando em lucrativas empresas e pregadores inescrupulosos criando mecanismos heterodoxos para granjear fortunas em nome de Deus.

Estamos vendo crescer em nossa pátria uma igreja sincrética, mística que prega um outro evangelho, um evangelho diferente que, de fato, não é evangelho. Uma igreja que prega o que povo quer ouvir e não o que o povo precisa ouvir. Uma igreja que prega prosperidade, mas não salvação; que prega milagres, mas não a cruz. Uma igreja centrada no homem, e não em Deus.

Estamos vendo crescer uma igreja amante dos holofotes, embriagada pelo sucesso, sedenta de aplausos, em que seus pregadores e cantores são tratados como astros de cinema. Estamos trocando nosso direito de primogenitura por um prato de lentilhas das glórias humanas, rendendo-nos à tietagem e ao culto à personalidade, colocando homens em um pedestal, afrontando, assim, nosso único e bendito Senhor, que não divide sua glória com ninguém.

Estamos vivendo uma homérica crise de liderança. Uma das classes mais desacreditadas da nação são os pastores. Há pastores não convertidos no ministério. Há uma legião de ministros não vocacionados no ministério. Há muitos que entram para o ministério por causa do seu bônus, mas não aceitam seu ônus; querem os louvores do ministério, mas não suas cicatrizes. Há aqueles que fazem do ministério um refúgio para esconder sua preguiça e seu comodismo. Há pastores que deveriam cuidar de si mesmos antes de cuidar do rebanho de Deus. Há pastores confusos doutrinariamente no ministério, indivíduos que não sabem para onde caminham, por isso, são influenciados por todo vento de doutrina, deixando seu rebanho à mercê dos lobos travestidos de ovelhas. Há pastores que estão em pecado no ministério e já perderam a sensibilidade espiritual, pois condenam nos outros os mesmos pecados que praticam em secreto.

Estamos vivendo uma crise de valores na igreja. Abandonamos a simplicidade do evangelho. Substituímos a sã doutrina pelas novidades do mercado da fé. Trocamos a verdade pelo sucesso. Substituímos a pregação pelo espetáculo. Colocamos no lugar da oração, em que nos quebrantávamos e chorávamos pelos nossos pecados, os grandes ajuntamentos, em que saltitamos ao som estrondoso e ensurdecedor dos nossos instrumentos eletrônicos.

Precisamos desesperadamente voltar ao primeiro amor. Precisamos urgentemente de uma nova reforma na igreja. Precisamos de um reavivamento que nos traga de volta o frescor da vida abundante em Cristo Jesus. Precisamos desesperadamente do revestimento e do poder do Espírito Santo. Precisamos de uma igreja fiel que prefira a morte à apostasia. Uma igreja santa que prefira o martírio ao pecado. Uma igreja que ame a Palavra mais do que o lucro. Uma igreja que chore pelos seus pecados e pelas almas que perecem, e não pelas dificuldades da vida presente. Precisamos de uma igreja que tenha visão missionária e compaixão pelos que sofrem. Uma igreja que tenha ortodoxia e piedade, doutrina e vida, discurso e prática. Uma igreja que pregue aos ouvidos e aos olhos.

Este livro faz uma radiografia da igreja. Ele olha para o passado como propósito de lançar luz no presente e apontar rumos para o futuro. O Senhor Jesus terminou cada carta enviada às igrejas da Ásia da mesma maneira: “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas”. Meu ardente desejo, meu clamor diante dos céus, é que seu coração seja inflamado com essas mensagens, que você seja um graveto seco a pegar fogo e que comece a partir de você e de mim, um grande reavivamento espiritual em nossa nação!

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Informações do livro

Título: Ouça o que o espírito diz às igrejas
Subtítulo: Uma mensagem de Cristo à sua igreja
Autor:
Hernandes Dias Lopes
Editora: Hagnos
Edição:
Ano: 2010
Número de páginas: 136

Fonte: LOPES, Hernandes Dias. Ouça o que o Espírito dias às igrejas: uma mensagem de Cristo à sua igreja. São Paulo: Hagnos, 2010.
Por:
Áurea Emanoela Holanda Lemos | PreciosoCristo | Original aqui.
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494 anos depois…

Áurea Emanoela

Semana da Reforma Protestante 2011

1. A Reforma e a igreja do século I

Ao longo de 494 anos, o dia 31 de outubro é lembrado pelos protestantes como o marco do Movimento Reformado, o dia em que Marinho Lutero alçou voz contra a venda de indulgências realizada pela Igreja Católica Romana, afixando à porta da igreja do Castelo de Wittenberg as suas Noventa e Cinco Teses. A perspectiva reformada ecoou para muito além das fronteiras do Sacro Império Romano-Germânico, levando as pessoas, através do ensino Palavra, ao verdadeiro conhecimento de Deus. A Bíblia, que antes era um livro restrito aos sacerdotes (que se julgavam donos da revelação Divina), passa a ser a regra de fé e prática daqueles que abraçavam a fé protestante.

Muito mais do que um movimento político, como alguns sugerem, a Reforma envolveu, principalmente, a vida espiritual dá época, então fragilizada pelo completo desconhecimento de Deus e da sua maravilhosa graça. O grande alvo dos reformadores não era a fragmentação da igreja, e sim um retorno aos ensinamentos bíblicos e uma completa “limpeza” daquilo que houvera se estabelecido como verdade, mas que não passava de desvio da Palavra de Deus:

Aqueles que repudiam as Escrituras, imaginando que podem ter outro caminho que os leve a Deus, devem ser considerados não tanto como dominados pelo erro, mas como tomados por violenta forma de loucura. Recentemente, apareceram certos tipos de mau caráter que, atribuindo a si mesmos, com grande presunção, o magistério do Espírito, faziam pouco caso de toda leitura da Bíblia, e riam-se da simplicidade dos que ainda seguem o que esses, de mau caráter, chamam de letra morta e que mata. (João Calvino – As Institutas da Religião Cristã – Livro I, Capítulo 9)

A grande verdade, afirmada e ensinada pelos reformadores consistia em que a autoridade da Igreja é Jesus Cristo, não havendo quem possa substituí-lo. “E pôs todas as coisas debaixo dos pés e, para ser o cabeça sobre todas as coisa, o deu à igreja.” (Efésios 1.22).

Alicerçados no poder eterno que Jesus detém e que prometeu exercer em prol da Sua obra na qual Seus servos participam, os discípulos receberam a incumbência de evangelizar o mundo. Sua missão consistia em, através do ensino da Palavra, levar as almas à conversão, batizar os convertidos para fazerem parte da Igreja de Cristo, e ensiná-los a viver segundo Seus ensinamentos e no Seu poder, sentindo Sua presença espiritual acompanhando cada um dos Seus (cf. Mateus 28.19-20, a “grande comissão”). Foi em nome desse cristianismo – sólido, firme, cristocêntrico – que os reformadores dedicaram as suas vidas e muitos homens e mulheres foram levados à morte.

2. O século XXI: “O Período das Trevas”

À semelhança do que aconteceu nos dois últimos séculos que antecederam a Reforma, a igreja moderna vive um período de trevas, que tem como agravante uma profunda apatia espiritual daquilo que deveria ser o Corpo de Cristo, “no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para templo santo no Senhor” (Efésios 4.16).

494 anos após a Reforma Protestante, assistimos (não sem dores) a igreja “gemer”, sufocada por movimentos completamente destoantes da fé cristã (mas que ainda assim, identificam-se como Igreja do Senhor) e duramente perseguida por aqueles que, por não suportarem a sã doutrina, mas tendo comichão nos ouvidos, elegeram para si doutores conforme as suas próprias concupiscências (cf. 2Timóteo 4.3).

A nossa sociedade, tanto quanto àquela do século XVI, imersa em imoralidade e perversão, necessita de Deus, da sua Palavra e de uma transformação que abranja não apenas a sua vida espiritual, mas também a restauração da dignidade humana.

Vivemos tempos difíceis. Jesus parece ter virado uma figura distante, presa à história; a Bíblia, um livro velho de conceitos ultrapassados; os cristãos, pessoas radicais, intolerantes, completamente antiquadas; a mentira tomou o lugar da verdade, o errado passou a ser certo e o pecado uma questão de ponto de vista.

Aqueles que se opõem a Igreja, perseguindo-a vorazmente, parecem oferecer aos cristãos duas únicas alternativas: ou nos comprometemos com os valores obscurecidos de uma sociedade corrupta, entregue ao seu pecado, ou seremos “amordaçados”, perseguidos, lançados em grades; esquecem, porém, que a Palavra de Deus não se sujeita à aceitação dos homens. O esforço para calar a Igreja é inútil, pois, em todas as épocas, o Senhor sempre levantará pessoas dispostas a entregar suas próprias vidas por amor às Escrituras.

Ainda é possível acrescentar a toda essa problemática um tipo de “evangelicalismo” emergente que, embora lote templos, é completamente deficiente em confrontar as pessoas com a realidade de seu pecado pessoal. Os pregadores oferecem uma fé fácil, satisfação imediata e um “cristo” totalmente oposto ao das Escrituras. As pessoas são chamadas a “aceitar Jesus”, “optar por Jesus”, “escolher Jesus”, “deixar que Jesus seja o Senhor das suas vidas” (como se pudéssemos coroar quem já é Rei e Senhor de todas as coisas).

Devemos precaver-nos para que, cedendo ao desejo de adequar Cristo às nossas próprias invenções, não o mudemos tanto (como fazem os papistas), que ele se torne dessemelhante de si próprio. Não nos é permitido inventar tudo ao sabor de nossos gostos pessoais, senão que pertence exclusivamente a Deus instruir-nos segundo o modelo que te foi mostrado (Ex 25.40). (João Calvino, Exposição de Hebreus, p. 209)

A sã doutrina tem sido suplantada por falsos e perigosos ensinos que têm entrado sorrateiramente nas igrejas e “arrastado” pessoas ao engano. Os reformadores, à semelhança dos apóstolos (cf. Romanos 16.17; 1Timóteo 4.6; 6.3; 2Timóteo 4.3; Tito 1.9; 2.1, 10; Hebreus 6.1; 1João 2.24, Apocalipse 2.15), compreendiam esse perigo:

Não há nada que Satanás mais tente fazer do que levantar névoas para obscurecer Cristo; pois ele sabe que dessa forma o caminho está aberto para todo tipo de falsidade. Assim, o único meio de manter e também restaurar a doutrina pura é colocar Cristo diante de nossos olhos, exatamente como ele é, com todas as Suas bênçãos, para que Seu poder possa ser verdadeiramente percebido. (João Calvino, As Institutas da Religião Cristã)

Comentando Gálatas 5.9 (“Um pouco de fermento leveda toda a massa”), Calvino escreve:

Essa cláusula nos adverte de quão danosa é a corrupção da doutrina, para que cuidassem de não negligenciá-la (como é costumeiro) como se fosse algo de pouco ou nenhum risco. Satanás entra em ação com astúcia, e obviamente não destrói o evangelho em sua totalidade, senão que macula sua pureza com opiniões falsas e corruptas. Muitos não levam em conta a gravidade do mal, e por isso fazem uma resistência menos radical. […] Devemos ser muito cautelosos, não permitindo que algo (estranho) seja adicionado à íntegra doutrina do Evangelho. (João Calvino, Gálatas, p. 158-159)

Ao contrário do que acontece hoje em grande parte das igrejas emergentes, os reformadores primavam pela pregação teocêntrica, não usavam o púlpito para expor seu sucesso pessoal, tampouco empregavam tempo falando de suas experiências miraculosas e sobrenaturais (tão distantes da realidade da congregação). Aqueles homens, levantados e guiados por Deus, se emprenhavam em pregar a Cristo, pois estavam plenamente convencidos de que esse é o único meio capaz de conduzir o homem à salvação, a uma mudança radical de vida.

Os reformadores não ensinavam uma fé barata, meritória, não “apelavam” para que as pessoas viessem a Cristo, pois sabiam que o homem por si só – em seu estado natural (de completa miséria e rebelião) – é incapaz de “aceitar” a Jesus, o que ocorrerá apenas se o Senhor o atrair à Sua presença. Eles também não se calaram frente às ameaças dos paladinos que os perseguiam, por odiarem a verdade e aborrecerem a luz – “porque a luz tudo manifesta” (cf. Efésios 5.13, ARC) -, pois não temiam a fúria daqueles que, embora pudessem matar o corpo, de modo nenhum poderiam matar a alma (cf. Mateus 10.28).

Somente os crentes genuínos conhecem a diferença entre este estado transitório e a bem-aventurada eternidade, para a qual foram criados; eles sabem qual deve ser a meta de sua vida. Ninguém, pois, pode regular sua vida com uma mente equilibrada, senão aquele que, conhecendo o fim dela, isto é, a morte propriamente dita, é levado a considerar o grande propósito da existência humana neste mundo, para que aspire o prêmio da vocação celestial. (João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo, Parakletos, 2002, Vol. 3, (Sl 90.12), p. 440).

Por: Áurea Emanoela Holanda Lemos | PreciosoCristo | Original aqui.
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