Romanos 8 e a nossa santificação

Vinícius S. Pimentel

Romanos 8 e a nossa santificação

Como todos nós sabemos (ou deveríamos saber), a santificação é um elemento absolutamente essencial na vida cristã. Essa é uma afirmação que aparece, de modo latente ou patente, por toda a Escritura, e em poucos lugares ela é apresentada tão claramente quanto em Hebreus 12.14: “Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor”. Isso significa que um crente é, por definição, um homem santificado.

Ao mesmo tempo, porém, todo cristão verdadeiro sabe, por sua própria experiência, quão desafiador, lento e até doloroso é – muitas vezes! – o processo de santificação. É uma realidade universal, no que concerne aos crentes genuínos, que nós estamos sempre prontos a reconhecer a importância da santidade, mas nem sempre encontramos em nossa alma a mesma disposição para praticar a santidade. Por causa da nova vida que temos, em Cristo Jesus, nós de fato desejamos andar como homens santos; todavia, por causa da carne que ainda milita em nosso ser, nós encontramos imensos obstáculos à medida que procuramos caminhar por modo digno do Senhor, para o Seu inteiro agrado.

O crente é, por assim dizer, um “homem dividido”: no recôndito mais profundo do seu ser, naquilo que é mais essencialmente verdadeiro a seu respeito, o cristão ama e busca a santidade; contudo, em muitos aspectos de sua vida (eu arriscaria dizer em todos eles), ele ainda é obrigado a reconhecer a presença de “resquícios de pecado” que mancham o seu testemunho e o fazem corar de vergonha. A realidade desse “homem dividido” – que tem prazer na lei de Deus, mas fatalmente descobre que o mal ainda reside em seu ser – é aquilo que faz Paulo exclamar com profunda dor: “Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” (Romanos 7.24).

Com efeito, o texto de Romanos 7.14-25 é uma das passagens mais agonizantes de toda a Escritura. Ali, o apóstolo Paulo, o maior exemplo de fé e vida que encontramos no Novo Testamento, expõe a si mesmo como um homem dividido, um homem que muitas vezes é obrigado a reconhecer em si mesmo a sua própria desconformidade em relação à Lei de Cristo. E, mesmo quando o apóstolo é capaz de erguer os seus olhos e gritar “Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor”, as suas últimas palavras no capítulo ainda são de contagiante lamento: “De maneira que eu, de mim mesmo, com a mente, sou escravo da lei de Deus, mas, segundo a carne, da lei do pecado” (v. 25).

Entretanto, no capítulo 8, Paulo passa a discorrer a respeito do motivo de sua gratidão a Jesus Cristo, no que diz respeito à santificação. Aquela afirmação tímida do capítulo 7, “Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor” é aqui reiterada e expandida, de modo que o tom de lamento dá lugar a uma explosão de alegria, confiança, segurança e firmeza, em razão daquilo que Deus fez por nós, Seus filhos, em Cristo Jesus.

Ao que nos parece, o ponto de Paulo pode ser resumido como segue: uma vez que a obra de Jesus Cristo em favor do Seu povo é plena e perfeita, ela nos assegura não apenas a nossa justificação, mas também a nossa santificação e tudo o mais que nos seja necessário nesta vida, de maneira que, quando finalmente estivermos diante do trono do julgamento, nada nos faltará, em virtude de tudo o que Cristo conquistou para nós, e seremos plenamente livrados da ira de Deus. Ou, como o apóstolo nos diz em outro lugar: “Mas vós sois dele, em Cristo Jesus,o qual se nos tornou, da parte de Deus, sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção” (1Coríntios 1.30)

O que nós encontramos em Romanos 8, portanto, é um pleno tesouro de conforto, encorajamento e segurança para a nossa vida de santificação. Vale a pena, então, meditar com mais cuidado nas verdades ali ensinadas:

1. O Evangelho inclui as boas notícias de que Cristo adquiriu a nossa santificação pessoal. Se a falta de santificação pode impedir um homem de ver a Deus, então a obra de salvação consumada pelo Senhor Jesus deveria incluir a nossa santidade – do contrário, jamais seríamos salvos. Mas, de fato, “nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1), e isso “porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, [nos] livrou da lei do pecado e da morte” (v. 2). Paulo explica que essa santificação operada em nós pelo Espírito Santo é resultante da obra de Cristo, a quem Deus enviou “em semelhança de carne pecaminosa e no tocante ao pecado” (v. 3), “a fim de que o preceito da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito” (v.4).

2. A habitação do Espírito Santo nos assegura a santificação no presente, bem como a ressurreição no futuro. A santificação é um assunto sério, e lutar pela santificação é nosso dever. Aqueles que “estão na carne não podem agradar a Deus” (v. 5-8). Porém, todos os verdadeiros crentes estão em Cristo, e todos os que estão em Cristo são a morada do Espírito Santo (v. 9). Sendo assim, o nosso corpo ainda pode exibir resquícios de pecado e consequências da corrupção humana, “mas o espírito é vida, por causa da justiça” (v. 10). E esse mesmo Espírito, que é a fonte e o penhor de nossa nova vida, certamente permanecerá agindo eficazmente em nós até o fim, quando Ele então “vivificará também o [nosso] corpo mortal” (v. 11).

3. A habitação do Espírito Santo nos constrange à santificação – não pelo temor de que sejamos condenados por Deus, mas pela certeza de que Ele nos salvou e nos aceitou em Sua família, como filhos amados. A presença do Espírito em nós faz com que nos sintamos “devedores” de Deus (v. 12), de maneira que somos constrangidos, impulsionados, amorosamente pressionados a nos engajarmos numa verdadeira guerra contra o pecado: “se, pelo Espírito, mortificardes os feitos do corpo, certamente, vivereis” (v. 13). Mas a grande motivação para estarmos nessa guerra não é tanto o medo de sermos lançados no inferno, e sim a certeza de que “todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (v. 14). Essa doce certeza nos dá a alegre ousadia de chamarmos Deus de “Paizinho” (“Aba, Pai”, v. 15), pois “o próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus” (v. 16). Ora, “se somos filhos, somos também herdeiros” (v. 17): por mais árdua e sangrenta que seja a nossa luta contra o pecado, temos a plena segurança de que possuímos na eternidade uma vida superior e um reino inabalável, e nisso está a nossa alegria e glória.

4. A constante luta contra o pecado nos faz ansiar ainda mais pela eternidade. Os sofrimentos resultantes da guerra pela santificação frequentemente nos fazem pensar na vaidade desta vida. Ora, se esta existência fosse tudo que tivéssemos, os crentes seriam mesmo os mais miseráveis de todos os homens, como o apóstolo diz em outro lugar (1Coríntios 15.19). Porém, nós temos a certeza de uma vida futura e, quando meditamos nessa vida e contemplamos o Dia que já vem raiando, podemos afirmar com ousadia que “os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós” (v. 18). Sim, naquele Dia, até a criação como um todo será redimida do cativeiro de corrupção e inutilidade no qual hoje se encontra (v. 19-22). Mais do que isso, os filhos de Deus experimentarão a redenção de seus corpos: todo resquício de pecado ainda presente será completamente removido e extirpado, de maneira que eles ingressarão numa vida de completa santidade, para sempre (v. 23). Essa é mesmo uma esperança magnífica! E é por isso que nós a aguardamos com tanta paciência, em meio às lutas do presente (v. 24-25).

5. Mesmo nos momentos de maior fraqueza, nós contamos com a ajuda sobrenatural e poderosa do Espírito Santo. “Também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza” (v. 26). Essa ajuda divina é intensa e poderosa, de maneira que, quando não conseguimos sequer orar por nós mesmos, o Deus Espírito intensifica as Suas intercessões por nós perante o Pai, e faz isso “sobremaneira, com gemidos inexprimíveis” (v. 26). Ora, se o Pai e o Espírito são um só Deus, podemos ter certeza absoluta de que tal oração será infalivelmente ouvida e prontamente atendida! “E aquele que sonda os corações sabe qual é a mente do Espírito, porque segundo a vontade de Deus é que ele intercede pelos santos” (v. 27).

6. Mesmo nos momentos de maior fraqueza, nós contamos com a providência de Deus em nosso favor – e isso nos assegura que a Sua obra em nós não pode ficar inacabada. É significativo que a afirmação mais sublime acerca da providência de Deus esteja encravada neste contexto, no qual Paulo apresenta a segurança do crente em meio aos sofrimentos da luta contra o pecado. “Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (v. 28). Um crente, por causa de suas fraquezas e tropeços, é frequentemente assaltado por dúvidas e frustrações, mas aqui está um remédio poderoso: nada, absolutamente nada, escapa do controle do Deus que escolheu um povo para Si e que ordena todos os acontecimentos do universo para a Sua glória e para o benefício eterno daqueles por quem Ele se afeiçoou. Esse povo a quem Deus amou foi predestinado para ser semelhante ao Senhor Jesus, e nada pode impedi-los de alcançar o seu destino (v. 29). Em Cristo, Eles foram amados, eleitos, justificados e glorificados – e absolutamente nada pode quebrar essa “cadeia de ouro”, pois é o próprio Deus que a mantém (v. 30).

7. Em Cristo, Deus se tornou favorável a nós – e absolutamente nada pode mudar isso. O apóstolo faz uma série de perguntas destinadas a confirmar no coração dos crentes o fato de que eles são amados por Deus e, sendo assim objeto do cuidado paternal de Deus, eles podem ter a confiança de que a sua aceitação diante do Pai é garantida para sempre, apesar de suas fraquezas no presente.

“Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (v. 31) – os nossos maiores inimigos e obstáculos são como poeira diante do Deus Todo-Poderoso, e aquilo que parece uma muralha intransponível para nós não é para Ele mais alto do que um meio-fio!

“Aquele que não poupou o seu próprio filho, antes, por todos nós o entregou, porventura não nos dará graciosamente com ele todas as coisas?” (v. 32). Se Deus foi capaz de nos amar ao ponto de sacrificar o Seu unigênito, e isso quando nós ainda éramos pecadores incorrigíveis e inveterados, o que pode fazê-Lo voltar-se contra nós, agora que já fomos justificados, aceitos em Sua família e selados com o Seu santo Espírito?

“Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus?” (v. 33). Quem levantará o dedo em riste contra aqueles a quem Deus amou e liberalmente aceitou em Sua casa? Se “é Deus quem os justifica”, se é o Justo Deus quem os considera justos, quem pode questioná-lo? “Quem os condenará?” (v. 34). Sim, que acusação a nosso respeito pode permanecer de pé, se já fomos sentenciados como dignos de morte eterna e tal sentença já foi executada sobre Jesus Cristo, na cruz, em nosso lugar? “É Cristo Jesus quem morreu ou, antes, quem ressuscitou, o qual está à direita de Deus e também intercede por nós”.

“Quem nos separará do amor de Cristo?” (v. 35). Não é que não haja muitos tentando tal coisa: tribulação, angústia, perseguição, fome, nudez, perigo e espada, todas essas coisas se levantam contra um crente para pressioná-lo a abandonar a sua fé e desistir de andar pelo caminho estreito. Talvez até mesmo a morte se apresente diante de nós, fazendo apelos e ameaças para que neguemos o Senhor Jesus (v. 36). Porém, como esses terríveis inimigos podem conseguir alguma vantagem sobre nós, se mesmo no meio delas nós “somos mais do que vencedores, por meio daquele que nos amou” (v. 37)? Se tal vitória, o Senhor nos assegura, já pertence aos crentes e não pode lhes ser tirada, então podemos ficar bem certos de que “nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (v. 38-39).

Que essas verdades sejam um verdadeiro consolo e encorajamento em nosso coração, à medida que caminhamos nesta jornada de santificação. Que elas sejam também uma motivação e um constrangimento para que busquemos a santidade, na certeza de que tudo aquilo de que precisamos para esta vida e para a vindoura já é nosso, em Cristo Jesus.

Por: Vinícius Silva Pimentel | PreciosoCristo | Original aqui.
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Meditações em Filipenses (II): Graças a Deus!

Vinícius S. Pimentel

Meditações em Filipenses

Dou graças ao meu Deus por tudo que recordo de vós, fazendo sempre, com alegria, súplicas por todos vós, em todas as minhas orações, pela vossa cooperação no evangelho, desde o primeiro dia até agora. Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus. Aliás, é justo que eu assim pense de todos vós, porque vos trago no coração, seja nas minhas algemas, seja na defesa e confirmação do evangelho, pois todos sois participantes da graça comigo. Pois minha testemunha é Deus, da saudade que tenho de todos vós, na terna misericórdia de Cristo Jesus. (Filipenses 1.3-8)

Após fazer a sua saudação inicial aos cristãos filipenses, o apóstolo Paulo faz uma oração a Deus pelos irmãos daquela igreja. Este também era um costume do apóstolo em suas cartas: com poucas exceções, as epístolas paulinas em geral contêm uma seção na qual Paulo dá graças a Deus pela vida dos crentes que compõem aquela determinada igreja, assim como apresenta suas petições ao Pai em favor daqueles discípulos do Senhor.

Nesta meditação, queremos nos concentrar no primeiro aspecto da oração de Paulo, isto é, as ações de graças que ele rende a Deus pela vida dos cristãos filipenses.

Ações de graças a Deus, por vós

Meditemos, em primeiro lugar, na alegria que o apóstolo sente por causa dos verdadeiros cristãos. Esta oração está cheia de expressões que expressam o regozijo de Paulo pela vida dos irmãos. Ele diz que sempre se recorda dos filipenses e ora por eles “com alegria” (v. 4). O apóstolo também diz que carrega aqueles irmãos “no coração” (v. 7) e que tem “saudade” de todos eles (v. 8).

Embora já tenhamos visto, na meditação anterior, que a igreja em Filipos tinha um significado especial na vida de Paulo, precisamos reconhecer que essas expressões de alegria e amor pelos irmãos não foram dirigidas exclusivamente àqueles crentes. O apóstolo expressa o seu regozijo também em outras epístolas escritas a outras igrejas (por exemplo, em Colossenses 1.3-8), de maneira que nós podemos afirmar, com certeza, que a alegria aqui externada manifesta a felicidade que Paulo sente por ver, em cada cristão verdadeiro, o crescimento da igreja, o progresso do evangelho e o cumprimento das promessas de Deus na história.

O Senhor Jesus nos ensinou que o amor de uns para com os outros é a grande marca da verdadeira igreja (cf. João 13.34-35). Além disso, também está escrito que devemos nutrir tal amor pelos nossos irmãos que, se for preciso, devemos dar a nossa própria vida em favor deles, assim como Cristo já deu a Sua vida em nosso favor (cf. 1João 3.16).

Agora, uma das maneiras mais autênticas pelas quais o verdadeiro amor se manifesta é através da alegria. Não é uma verdade facilmente reconhecida que nós sentimos alegria em estar com as pessoas que amamos? Com efeito, uma das provas mais evidentes do amor que dizemos sentir pelos nossos irmãos é o prazer que temos em nosso íntimo cada vez em que nos lembramos deles ou em que temos a oportunidade de estar juntos com eles.

A pergunta que precisamos fazer é esta: Será que nós sentimos essa mesma alegria que Paulo tinha, essa exultação sincera e profunda, quando contemplamos o crescimento dos nossos irmãos em Cristo? Será que nós também amamos a igreja e o seu crescimento da maneira que o apóstolo amava? Será que nós carregamos os nossos irmãos no coração e nos lembramos deles com carinhosa saudade?

Que esse tipo de alegria genuína brote e floresça em nossos corações, em favor de cada um dos nossos irmãos em Cristo!

Meditemos, em segundo lugar, na confiança que o apóstolo tem quanto ao futuro dos verdadeiros cristãos. No meio de sua oração, Paulo irrompe em um glorioso e confiante louvor a Deus, dizendo: “Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus” (v. 6). Estas palavras, sem dúvida, devem ter sido uma fonte de profundo consolo para os filipenses que a ouviram da primeira vez. Mais do que isso, elas são uma fonte de profundo consolo para todos os verdadeiros crentes que as lêem, ainda hoje.

A vida cristã não é fácil. Seguir Jesus significa também tornar-se participante dos Seus sofrimentos e fazer-se inimigo dos Seus inimigos. Por isso, como cristão, estamos frequentemente envolvidos em lutas e tribulações que, às vezes, parecem que jamais iráo acabar. Somos perseguidos por causa do Evangelho; lutamos continuamente contra as nossas próprias tendências pecaminosas; somos diariamente assediados pelas ofertas que o mundo nos traz; e, algumas vezes, sentimos como se todas as forças malignas do diabo e seus demônios estivessem diretamente voltadas contra nós. Além de tudo isso, lidamos com as dificuldades ordinárias decorrentes do fato de vivermos num mundo caído: problemas na família, dificuldades financeiras, enfermidades ou, até mesmo, a morte de alguém que amamos.

Sim, a vida cristã não é nada fácil. Porém, aqui, o apóstolo Paulo faz uma declaração que certamente nos consola e nos motiva a seguirmos adiante, caminhando com Cristo, a despeito de todos os inimigos contra os quais lutamos e de todas as dificuldades que enfrentamos ao longo da nossa jornada de fé. “Estou plenamente certo”, ele diz, “de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus”.

Que palavras maravilhosas! Não importa o quão difícil seja a vida cristã; não importa que, aparentemente, a igreja esteja sendo derrotada e os inimigos de Deus estejam se saindo vitoriosos; não importa nem mesmo que nós cristãos sejamos fracos em nós mesmos e completamente incapazes de levarmos a cabo a missão que recebemos do Senhor. Absolutamente nada disso tem qualquer significado, pois a causa de Deus prevalecerá, e isso pelo poder do próprio Deus! Todos os propósitos, desígnios e promessas do Senhor se cumprirão cabalmente, porque Ele é poderoso para isso e ninguém jamais foi capaz de resistir à Sua soberana vontade!

Este ponto precisa ser enfatizado de maneira adequada. Paulo afirma estar “plenamente certo” que a obra de Deus não ficará incompleta na vida de qualquer verdadeiro cristão, de maneira que, no Dia de Jesus Cristo, o edifício de Deus – que é a Igreja – estará completamente terminado, acabado. E o apóstolo faz questão de explicar que isso não acontecerá pela capacidade dos homens ou pela virtude dos crentes, mas pelas mãos onipotentes do próprio Deus.

Se você é um cristão genuíno, você precisa reter as palavras de Paulo e gravá-las em seu coração. Não importa o quão fraco você se sinta hoje, ou quantas dificuldades você esteja enfrentando; tão somente creia no poder de Deus que um dia começou esta boa obra em você. Se Ele teve poder para transformar um morto espiritual em uma nova criação, Ele também tem poder para fazer com que você persevere na fé e na santidade até o último dia de sua vida, de maneira que você jamais se perderá de Suas graciosas mãos. Descanse nesta verdade, e continue a caminhar com confiança.

Meditemos, em terceiro lugar, no motivo tanto da alegria como da confiança do apóstolo no tocante aos verdadeiros cristãos. Nós precisamos observar, por fim, que havia algo na vida dos filipenses que justificava tanto a alegria como a confiança de Paulo a respeito da salvação deles. Era o testemunho deles, a maneira como viviam, que evidenciava o fato de que eles eram genuinos participantes da graça de Deus. Por isso, após falar da sua confiança, o apóstolo diz: “Aliás, é justo que eu assim pense de todos vós” (v. 7).

Quais eram efetivamente as marcas na vida e no testemunho dos filipenses que evidenciavam a veracidade da sua fé? Que característica podemos ver na vida daqueles irmãos, que justificam a confiança de Paulo a respeito deles?

Podemos ver, antes de tudo, a constância e a perseverança deles. O apóstolo diz que eles vinham sendo cooperadores dele no evangelho “desde o primeiro dia até agora” (v. 5). Eles não eram crentes inconstantes e instáveis, mas eram firmes em seguir o Senhor em todo o tempo.

Podemos ver, ainda, a participação deles nos sofrimentos de Paulo por causa do evangelho. O apóstolo louva a Deus porque eles o estavam ajudando em suas algemas (v. 7), isto é, eles não estavam envergonhados de Paulo, antes, pelo contrário, estavam unidos a ele naquele momento de sofrimento na prisão.

Podemos ver, por fim, o envolvimento deles na pregação do evangelho. O apóstolo afirma, com alegria, que os filipenses eram seus cooperadores “na defesa e confirmação do evangelho” (v. 7), ou seja, aqueles crentes estavam engajados na missão de evangelizar o mundo e fazer discípulos para o Senhor.

Essas três marcas, assim, eram vistas pelo apóstolo Paulo como sinais evidentes de que os crentes da igreja em Filipos eram genuínos filhos de Deus, homens verdadeiramente nascidos de novo e alcançados pela salvação eterna. Por esse motivo, Paulo se alegrava com a vida deles e tinha confiança de que eles jamais se perderiam do Caminho.

Essas marcas estão presentes também nas nossas vidas? Se sim, que possamos continuar crescendo na graça, sem jamais perder a nossa confiança no poder de Deus para guardar a nossa salvação. Porém, se não temos manifestado essas evidências da verdadeira fé, que possamos nos arrepender do nosso pecado e nos lavar no sangue de Jesus.

Por: Vinícius Silva Pimentel | PreciosoCristo | Original aqui.
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O caminho da salvação (Parte 3)

Áurea Emanoela

(Leia a Parte 1 e a Parte 2)

O caminho da salvação

Não se encoraja aos que recebem a salvação, em trecho algum da Bíblia, que “abusem” da graça de Deus. Pelo contrário, os eleitos são advertidos a tornar seguro seu chamamento e eleição (cf. 2Pedro 1.10) e a evidenciarem sua salvação com temor e tremor (cf. Filipenses 2.13). A igreja deve ser a “comunhão dos envolvidos”, isto é, um povo que propaga a Palavra de salvação vivendo condignamente.

O conceito de “uma vez salvo, sempre salvo” pode levar aqueles que o defendem a uma maneira de pensar quietista. Isso significa que eles podem pensar que têm pouco ou nenhum papel a cumprir em manter sua salvação e que Deus faz tudo por eles. Embora uma pessoa não seja salva por obras (como creem os católicos romanos) e não se mantenha salvo por causa das obras (como acreditam algumas igrejas), Deus salva somente aqueles que perseveram na fé. (1)

Nas Institutas da Religião Cristã, em uma seção intitulada “A perseverança é uma obra exclusiva de Deus; não é uma recompensa nem um complemento de nosso ato individual”, João Calvino expõe:

Sem dúvida, a perseverança deve ser considerada um dom gratuito de Deus, quando não prevalece o erro comum de afirmar que ela é dada conforme o mérito humano, à medida que cada indivíduo se mostra receptivo à primeira graça. Mas, visto que esse erro surgiu do fato de que homens achavam que tinham o poder de rejeitar ou aceitar a graça de Deus, quando esta opinião é aniquilada, aquela ideia anterior também se destrói a si mesma. Contudo, aqui há um erro duplo. Pois, além de ensinarem que nossa gratidão pela primeira graça e nosso uso legítimo dela são recompensados por dons subsequentes, eles dizem que a graça não opera em nós por si mesma, ela apenas coopera conosco.

A perseverança é o resultado incontestável da obra do Espírito na vida dos crentes. É uma obra que nos capacita a continuarmos crendo, como bem afirmou o apóstolo Pedro: “[…] sois guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação preparada para revelar-se no último tempo.” (1Pedro 1.5). Portanto, Deus não pode crer por nenhum de nós, pelo contrário, somos “guardados” pela fé. Como expõe Jay Adams, é esse o ensino que podemos extrair de João 15:

Se alguém não permanecer na videira, será “lançado fora, à semelhança do ramo, e secará”, e, por fim, será queimado (v. 6). Por isso Jesus ordenou: “Permanecei no meu amor” (v. 9b). Os apóstolos tiveram de perseverar na fé, ou seriam lançados fora, à semelhança de um ramo quebrado de videira; e isso se aplica a todos os crentes verdadeiros. Cristo, a Videira, exige que todo aquele que professa ser cristão permaneça nEle por meio da fé genuína ou, do contrário, seja lançado no fogo. Portanto, a perseverança é o resultado da verdadeira fé, nutrida e mantida pelo Espírito. (2)

Se a salvação verdadeiramente está operando nos crentes, sua própria comunhão no Espírito aumentará, e a operação “vertical” do poder salvador de Deus os constrangerá a perceber as repercussões “horizontais” da posse da salvação sobre a sociedade. Aqueles que possuem a salvação devem ser luzeiros do mundo, sal da terra, cidades construídas sobre montes. A história da igreja demonstra como os crentes têm aprendido e como precisam continuar aprendendo a testificar de sua salvação, profeticamente, em cada época.

Todas as coisas à nossa volta se opõem às promessas de Deus. Ele prometeu imortalidade; estamos cercados de mortalidade e corrupção. Declarou que nos reputa como justos; estamos cobertos de nossos pecados. Ele testifica que é propício e bondoso para nós; os julgamentos exteriores ameaçam a ira divina. Então o que devemos fazer? Com olhos fechados, temos de deixar de lado a nós mesmos e todas as coisas associadas conosco, para que nada nos impeça ou nos prive de crer que Deus é verdadeiro. (3)

As Escrituras prometem a destruição final do mal, apocalíptica ou escatologicamente: o livramento da criação que atualmente geme sob a escravidão da corrupção, para a gloriosa liberdade dos filhos de Deus (cf. Romanos 8.21s.) por ocasião da “adoção”, a “redenção do corpo”, a “regeneração” (cf. Mateus 19.28), e a criação dos “novos céus e nova terra, nos quais habita justiça”, onde Deus será contemplado face a face.

Pois, em Cristo, Deus oferece toda a felicidade em lugar de nossa miséria, toda a riqueza em lugar de nossa necessidade; nEle se abrem para nós os tesouros celestiais, para que todo a nossa fé contemple seu amado Filho, toda a nossa expectativa dependa dEle, e toda a nossa esperança se apegue e descanse nEle. Este é, de fato, aquele segredo e aquela filosofia escondida que não pode ser extraída de silogismos. Mas aqueles cujos olhos Deus abriu aprendem-na certamente com o coração, para que em sua luz vejam a luz [Sl 36.9]. (4)

Notas:
(1) ADAMS, Jay E. Uma herança garantida. In: PARSONS, Burk (ed.). João Calvino: Amor à devoção, doutrina e glória de Deus. São José dos Campos/SP: Fiel, 2010, p. 210.
(2) Idem, p. 211.
(3) John Calvin, Commentaries on the epistle of Paul the apostle to the Romans. Trad. John Owen. Grand Rapids: Baker, 1996, p. 180.
(4) John Calvin , Institutes of Christian Religion.

Por: Áurea Emanoela Holanda Lemos | PreciosoCristo | Original aqui.
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Coisas que eu não sei, coisas que eu sei

Vinícius S. Pimentel

Coisas que eu não sei, coisas que eu sei

Como cristãos, nós fazemos duas afirmações igualmente preciosas acerca da possibilidade do conhecimento. Por um lado, sustentamos que é possível ao homem alcançar um conhecimento verdadeiro e salvífico de Deus e de suas obras, pelas Escrituras Sagradas, mediante a iluminação do Espírito Santo. Por outro lado, admitimos que tal conhecimento será sempre limitado, quando comparado com a transcendência e infinitude de Deus.

Em outras palavras, nós afirmamos que é possível conhecer a Deus verdadeiramente, embora seja impossível conhecê-lo exaustivamente. Por mais longe que cheguemos em nossa experiência espiritual e em nosso conhecimento genuíno de Deus e de suas obras, sempre haverá um momento em que seremos obrigados a nos juntar a Paulo e exclamar:

Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! (Romanos 11.33)

Ao que me parece, o hino A certeza do crente (Novo Cântico nº 105) captura com beleza singular o sentimento de Paulo – e de todo cristão verdadeiro – diante da infinita distância entre a sabedoria de Deus e a capacidade de compreensão dos homens. Cada vez que o ouço, sinto-me profundamente humilhado pela quantidade de coisas maravilhosas que eu não consigo entender nos caminhos de Deus:

Não sei porque de Deus o amor
A mim se revelou,
Porque Jesus, meu Salvador,
Na cruz me resgatou

Não sei o modo como agiu
O Espírito eternal
Que, um dia, a Cristo me atraiu
Em convicção real

Não sei o que de mal ou bem
É destinado a mim;
Se maus ou áureos dias vêm,
Até da vida o fim

Não sei se ainda longe está,
Ou muito perto vem,
A hora em que Jesus virá
Na glória que Ele tem

Somos verdadeiramente esmagados pelo modo assombroso como Deus opera em nosso favor! Quantas coisas maravilhosas não entendemos no seu modo de agir! Entretanto, cada vez que o coro é cantado, todas essas incertezas humilhantes dão lugar a uma convicção segura e inabalável:

Mas eu sei em quem tenho crido
E estou bem certo que é poderoso!
Guardará, pois, o meu tesouro
Até o dia final!

Oh, como é bom saber que o meu entendimento limitado não pode me impedir de estar em comunhão com Deus e desfrutar de sua plena salvação! De fato, eu posso não compreender plenamente o amor salvífico de Deus ou o modo como Sua graça soberana conquistou o meu coração; posso não conhecer as alegrias e angústias que o futuro me reserva nem saber quantos dias me restam desta vida terrena. Sim, eu posso conviver com todas essas dúvidas, contanto que eu tenha uma única convicção: a certeza de que o Deus em quem pus a minha confiança é suficientemente poderoso para completar em mim a obra que começou, aperfeiçoando a minha santidade, preservando a minha fé e me guardando de tropeços até o último dia.

O que nos sustenta como cristãos, enfim, não é o nosso entendimento elevado dos oráculos de Deus ou o nosso conhecimento de coisas futuras. Nossa firmeza e segurança estão na fidelidade de Deus à Sua promessa de que as Suas ovelhas jamais se perderão! A certeza do cristão está no fato de que o mesmo Deus que entregou Seu Filho por nós continuará nos sustentando, “até o dia final”, providenciando para nós todas as coisas que são necessárias para permanecermos em Seu caminho santo. Afinal, “se nós, quando inimigos, fomos reconciliados com Deus mediante a morte do seu Filho, muito mais, estando já reconciliados, seremos salvos pela sua vida” (Romanos 5.10).

Deus ama os Seus filhos e promete preservá-los até o fim. Isso é o que nós sabemos com certeza, e isso é o bastante!

Por: Vinícius Silva Pimentel | PreciosoCristo | Original aqui.
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