[Livro do mês] Thea B. Van Halsema – “João Calvino era assim”

Áurea Emanoela

Livro do mês - João Calvino era assim

João Calvino Era Assim foi escrito para contar a história de uma vida. É uma tentativa de fazê-lo viver, de recapitular algo da extraordinária e inspiradora personalidade de João Calvino.” (Thea B. Van Halsema)

Um homem chamado segundo o propósito de Deus, para fazer aquilo que o Grande Regente do universo houvera determinado. João Calvino era um homem alto, de porte franzino, apaixonado pelos livros, cujo grande desejo era “desfrutar o lazer literário, com uma vida razoavelmente honrada e desimpedida” (p. 31). Todavia, após uma “repentina conversão” (p. 32) na qual teve o seu coração subjugado por Deus, “o candidato ao sacerdócio, o advogado, o pesquisador secular, não mais existia. Em seu lugar estava agora João Calvino, servo de Jesus Cristo” (p. 32).

Com palavras simples e riqueza de detalhes, a escritora americana Thea B. Van Halsema, conduz o leitor a um “passeio contagiante” por detalhes da vida do homem que, fazendo a vontade de Deus, teve seus desejos completamente satisfeitos por Aquele que o houvera chamado. O Senhor fez de Calvino não apenas um grande escritor, mas um homem cujas

ideias e obras continuam poderosamente vivas através dos séculos. Inspiradas pela Palavra viva, elas penetram em todo o mundo cristão. Por intermédio delas o pregador de Saint Pierre tem ensinado e moldado a igreja de Cristo. Ele tem falado na vida de homens e de nações. (p. 191)

O livro é dividido em três partes, cada uma contendo doze capítulos. Na parte I, intitulada Deus guiou-me assim, somos apresentados ao lar de Calvino; ao seu pai Gerard Calvin, “advogado dos padres e cônegos” (p. 7); à sua mãe Jeanne le Franc, filha de um rico hoteleiro aposentado que faleceu quando “o menino de olhos vivos” (p. 08) tinha apenas três anos de idade; aos seus irmãos; às pessoas que costumeiramente entravam e saiam da sua casa “porquanto o lar era um escritório também” (p. 7); à sua infância em Noyon, na província francesa de Picardy, entre cônegos, padres, monges, capelães e toda espécie de empregados eclesiásticos. A autora explica que

foi nesse pequeno mundo amuralhado, de santuários e relíquias, de procissões e festas, de círios, sinos e imagens que cresceu o segundo filho do advogado da igreja. Em tudo ele participava com devoção, lembrando os olhos embaçados de sua mãe. Do seu tamborete, no canto da casa, também ouvia as vozes que vinham da escrivaninha do seu pai. Um clérigo queria o fruto de mais vinhas. Outro desejava o grão de maiores campos. Estavam sempre querendo mais coisas para si mesmos. Queriam ficar mais ricos, mais admirados, mais acomodados. (p. 10)

No verão de 1523, João Calvino deixa a cidade em que nascera e com grandes expectativas segue em direção a Paris. Calvino, “com quatorze anos de idade, entrava num mundo novo de pessoas, lugares e ideias. Ele não voltaria mais a Noyon para residir” (p. 12). Assim como acontecera na Suíça de Ulrich Zwinglio, as ideias da Reforma também haviam chegado à França; é-nos contado, por exemplo, que Jacques Lefèvre, professor da melhor universidade da Europa, “com idade de setenta anos, redescobriu as verdades da Bíblia” (p. 14).

À medida que a nova fé se espelhava pela França, apareciam inimigos para abafá-la. Entre estes se destacavam dois homens de altas posições: o sagaz Noel Beda, reitor da Universidade da Sorbonne, e o ambicioso Antoine du Prat, chanceler da França. De início, estes homens e seus auxiliares usaram ameaças e argumentos. Quando tais métodos falharam, começaram a usar fogo e o laço do enforcador (p. 15).

Era este o ambiente em Paris quando Calvino lá chegou em meados de 1523:

era agosto, no mês em que a fumaça de um sacrifício humano subia aos céus no Place de Greve. Um monge Agostiniano convertido foi amarrado ao pelourinho e queimado por causa de suas “heresias luteranas”. Foi o primeiro a morrer dessa maneira em Paris. O primeiro de muitos. (p. 16)

A narrativa prossegue conduzindo o leitor desde a vida estudantil até o “fracasso” literário daquele que posteriormente viria a ser um dos maiores e mais reconhecidos escritores cristãos.

Em 1533, aproximadamente um ano depois da publicação de um ensaio sobre Sêneca (filósofo romano que foi contemporâneo do apóstolo Paulo), Calvino se viu obrigado a deixar Paris para salvar sua vida. A partir daí, conforme ele mesmo expressou, “não podia fazer outra coisa senão seguir o Teu caminho condenando o meu passado com não poucas agonias e lágrimas” (p. 32). Calvino passou a ser caçado como herege apto para o fogo.

De formas diferentes, era também caçado por pessoas sedentas da verdade que ele ensinava e pregava. Recordando esses meses, Calvino escreveu: “Deus me dirigiu por tantas voltas e mudanças, que Ele nunca permitiu que eu descansasse em qualquer lugar” (p. 35).

Naqueles tempos difíceis, ao final de seus sermões, Calvino costumava erguer suas mãos em direção aos céus e exclamar: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (p. 36).

Em 1536, Calvino publica a primeira edição das Institutas da Religião Cristã. O projeto inicial consistia em “ajudar os novos protestantes que precisavam conhecer as verdades da Bíblia” (p. 41); todavia, diante da fúria incontida do rei da França (Francisco I), Calvino “sentou-se à sua escrivaninha e mergulhou sua pena no tinteiro. Trabalhou febrilmente para concluir o que estava escrevendo” (p. 41). Embora o rei da França jamais tenha chegado “a ler a carta de vinte e uma páginas que lhe fora endereçada” (p. 41), João Calvino tencionava esclarecer “a natureza daquela doutrina que é o objeto de tanta cólera incontida por parte daqueles loucos que ainda agora estão convulsionando o país com fogo e espada” (p. 43). Na sua última edição, de 1559,

as Institutas seguiram a ordem do Credo dos Apóstolos na discussão das verdades da religião cristã. […] Foi assim que apareceu a poderosa obra que recolheu da Palavra de Deus um completo sistema doutrinário. As Institutas começaram com Deus, concluíram com Deus e encontraram todas as coisas em Deus, o Deus triúno. (p. 45)

A narrativa prossegue e atinge seu clímax com a chegada de Calvino na impenitente cidade de Genebra. “O viajor chegou para uma noite de sono. Pretendia continuar a viagem, sem ser reconhecido. Mas Deus tinha outros planos” (p. 65). Ainda no ano de 1536, João Calvino teve o primeiro contato com aquele que seria o seu amigo pelo resto da vida, o impetuoso e destemido Guilherme Farel. Logo que soube da estada de Calvino na explosiva Genebra, Farel tratou de instá-lo a permanecer na cidade a dar continuidade ao trabalho ali iniciado. Diante da negativa inicial de Calvino, Farel, ousadamente,

apontando aos céus, vociferou: “Digo-te, em nome de Deus Todo-Poderoso, que estás apresentando os teus estudos como pretexto. Deus te amaldiçoará se não nos ajudares a levar adiante o Seu trabalho, pois doutra forma estarias buscando a tua própria honra em vez da de Cristo!” (p. 66)

 A resposta de Calvino à ousada “convocação” de Farel veio da sua devota obediência ao Deus que convertera seu coração:

Senti como se Deus tivesse estendido a Sua mão do céu em minha direção para me prender… Fiquei tão aterrorizado que interrompi a viagem que havia encetado… Guilherme Farel me reteve em Genebra. (p. 66)

Em Genebra, os problemas pareciam se avultar a cada novo dia, culminando com a expulsão, em 25 de abril de 1538, dos três pastores franceses da cidade que abraçara a fé protestante (Junto com Calvino e Farel estava Corault, “o homem cego e velho que tinha acabado de sair da prisão”). Ao ouvir a sentença pronunciada pelo arauto, Calvino replicou: “Muito bem. Tivéssemos servido a homens seríamos mal recompensados, mas servimos a um bom mestre que nos retribuirá” (p. 85). Vinte meses após a sua chegada, Calvino e seus dois amigos atravessam “a ponte elevadiça sobre o fosso, passando pela guarda armada e saindo pelo portão da cidade” (p. 85). Todavia, alguns anos mais tarde, o jovem reformador, a pedido do Conselho de Genebra e novamente guiado por Deus, retornaria à cidade da qual fora expulso e permaneceria ali até sua morte, em 27 de maio de 1564.

A segunda parte do livro prossegue com o exílio de Calvino e o seu ofício como pastor da igreja de refugiados franceses em Strasbourg. Os três anos que passaria na pacífica cidade se tornariam “um sonho agradável comparado com os horrores de Genebra” (p. 89). Foi em Strasbourg que Calvino conheceu Idelette, que posteriormente tornar-se-ia sua esposa.

Calvino não poderia ter encontrado melhor esposa do que a nova Madame Calvino. […] Era não somente paciente, ansiosa por servir o marido e feliz por compartilhar com ele qualquer trabalho do Senhor; ela mesma saía para visitar os doentes, confortar os tristes, e compartilhar com os outros a sua fé. Calvino, alentado pelo seu amor, nunca imaginou ser possível tal felicidade. (p. 100)

Todavia, nos primeiros dias de setembro de 1541, escoltado pelo arauto, Calvino encetou viagem de volta a Genebra.

As lágrimas anuviando os olhos, Calvino cavalgou para fora da pacífica cidade onde tinha gasto três frutíferos anos. O Senhor o estava enviando de volta às tempestades de Genebra. […] Ninguém sonhava, muito menos Calvino, que a turbulenta cidade a que se destinava tornar-se-ia para todo o sempre a cidade mundial da Reforma. (p. 117)

Em seu derradeiro capítulo somos reconduzidos, juntamente com Calvino, à cidade de Genebra. Vislumbramos algumas das dificuldades enfrentadas pelo Reformador quando do seu retorno à cidade que ele considerava como a “Sodoma da Reforma”. Acompanhamos o sofrimento de Calvino quando da morte de sua esposa Idelette, em meados de 1549: “Fui privado da melhor companhia da minha vida. […] Faço o possível para não ficar assoberbado pela tristeza” (p. 135). Somos ainda guiados em torno da grande controvérsia acerca de “quem queimou Servetus?” (p. 170).

Lamenta-se que Calvino, na maneira de tratar Servetus, tenha agindo como outros homens do seu tempo. Lamenta-se especialmente porque nos seus escritos e nos seus atos Calvino estava muito além da sua época, apontando o caminho para a tolerância e a liberdade. (p. 175)

Contudo, depois de muitos anos tempestuosos, “Genebra, a Sodoma para a qual Calvino havia voltado, estava sendo transformada numa cidade de Deus” (p. 175).

Enquanto povos e nações ao seu redor eram abalados por guerras e dificuldades, a cidade no lago caminhava firmemente para ocupar o seu lugar como cidade mundial da Reforma. Devido ao homem que morava na Rua do Canhão, Genebra era a sede da fé Protestante para todo o mundo da época. Esta era a cidade da qual João Knox, o grande reformador escocês, falou: ‘Existe aqui a mais perfeita escola de Cristo desde os dias dos apóstolos’. (p. 176-177)

Em 27 de maio de 1564, Calvino “morreu em paz, como alguém que pega no sono. Numa noite de sábado – o fim do dia, o fim da semana, o fim de uma vida. Um grande servo estava agora com o seu Mestre” (p. 190). Nem mesmo as fortes dores que sentia impediam Calvino de adorar ao Deus bendito:

Orava continuamente, em voz alta ou silenciosamente, movimentava os lábios. Nos estertores, atribulado pela dor, clamava com frequência: “por quanto tempo, Ó Senhor?”. Ou “Senhor, Tu me esmagas, mas eu me conformo de que seja a Tua mão”. (p. 190)

João Calvino era assim, um extraordinário servo de Jesus Cristo. “O milagre consistia em que Deus tenha usado um servo pecador como João Calvino de maneira tão poderosa para edificar Sua Igreja e influenciar o mundo” (p. 175).

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Informações do livro

Título: João Calvino era assim: A vibrante história de um dos grandes líderes da Reforma
Autora: Thea B. Van Halsema
Editora: Puritanos
Edição:
Ano: 2009
Número de páginas: 191

Por: Áurea Emanoela Holanda Lemos | PreciosoCristo | Original aqui.
Permissões: Você está autorizado e incentivado a reproduzir e distribuir este material em qualquer formato, desde que inclua estes créditos, não altere o conteúdo original e não o utilize para fins comerciais.

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494 anos depois…

Áurea Emanoela

Semana da Reforma Protestante 2011

1. A Reforma e a igreja do século I

Ao longo de 494 anos, o dia 31 de outubro é lembrado pelos protestantes como o marco do Movimento Reformado, o dia em que Marinho Lutero alçou voz contra a venda de indulgências realizada pela Igreja Católica Romana, afixando à porta da igreja do Castelo de Wittenberg as suas Noventa e Cinco Teses. A perspectiva reformada ecoou para muito além das fronteiras do Sacro Império Romano-Germânico, levando as pessoas, através do ensino Palavra, ao verdadeiro conhecimento de Deus. A Bíblia, que antes era um livro restrito aos sacerdotes (que se julgavam donos da revelação Divina), passa a ser a regra de fé e prática daqueles que abraçavam a fé protestante.

Muito mais do que um movimento político, como alguns sugerem, a Reforma envolveu, principalmente, a vida espiritual dá época, então fragilizada pelo completo desconhecimento de Deus e da sua maravilhosa graça. O grande alvo dos reformadores não era a fragmentação da igreja, e sim um retorno aos ensinamentos bíblicos e uma completa “limpeza” daquilo que houvera se estabelecido como verdade, mas que não passava de desvio da Palavra de Deus:

Aqueles que repudiam as Escrituras, imaginando que podem ter outro caminho que os leve a Deus, devem ser considerados não tanto como dominados pelo erro, mas como tomados por violenta forma de loucura. Recentemente, apareceram certos tipos de mau caráter que, atribuindo a si mesmos, com grande presunção, o magistério do Espírito, faziam pouco caso de toda leitura da Bíblia, e riam-se da simplicidade dos que ainda seguem o que esses, de mau caráter, chamam de letra morta e que mata. (João Calvino – As Institutas da Religião Cristã – Livro I, Capítulo 9)

A grande verdade, afirmada e ensinada pelos reformadores consistia em que a autoridade da Igreja é Jesus Cristo, não havendo quem possa substituí-lo. “E pôs todas as coisas debaixo dos pés e, para ser o cabeça sobre todas as coisa, o deu à igreja.” (Efésios 1.22).

Alicerçados no poder eterno que Jesus detém e que prometeu exercer em prol da Sua obra na qual Seus servos participam, os discípulos receberam a incumbência de evangelizar o mundo. Sua missão consistia em, através do ensino da Palavra, levar as almas à conversão, batizar os convertidos para fazerem parte da Igreja de Cristo, e ensiná-los a viver segundo Seus ensinamentos e no Seu poder, sentindo Sua presença espiritual acompanhando cada um dos Seus (cf. Mateus 28.19-20, a “grande comissão”). Foi em nome desse cristianismo – sólido, firme, cristocêntrico – que os reformadores dedicaram as suas vidas e muitos homens e mulheres foram levados à morte.

2. O século XXI: “O Período das Trevas”

À semelhança do que aconteceu nos dois últimos séculos que antecederam a Reforma, a igreja moderna vive um período de trevas, que tem como agravante uma profunda apatia espiritual daquilo que deveria ser o Corpo de Cristo, “no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para templo santo no Senhor” (Efésios 4.16).

494 anos após a Reforma Protestante, assistimos (não sem dores) a igreja “gemer”, sufocada por movimentos completamente destoantes da fé cristã (mas que ainda assim, identificam-se como Igreja do Senhor) e duramente perseguida por aqueles que, por não suportarem a sã doutrina, mas tendo comichão nos ouvidos, elegeram para si doutores conforme as suas próprias concupiscências (cf. 2Timóteo 4.3).

A nossa sociedade, tanto quanto àquela do século XVI, imersa em imoralidade e perversão, necessita de Deus, da sua Palavra e de uma transformação que abranja não apenas a sua vida espiritual, mas também a restauração da dignidade humana.

Vivemos tempos difíceis. Jesus parece ter virado uma figura distante, presa à história; a Bíblia, um livro velho de conceitos ultrapassados; os cristãos, pessoas radicais, intolerantes, completamente antiquadas; a mentira tomou o lugar da verdade, o errado passou a ser certo e o pecado uma questão de ponto de vista.

Aqueles que se opõem a Igreja, perseguindo-a vorazmente, parecem oferecer aos cristãos duas únicas alternativas: ou nos comprometemos com os valores obscurecidos de uma sociedade corrupta, entregue ao seu pecado, ou seremos “amordaçados”, perseguidos, lançados em grades; esquecem, porém, que a Palavra de Deus não se sujeita à aceitação dos homens. O esforço para calar a Igreja é inútil, pois, em todas as épocas, o Senhor sempre levantará pessoas dispostas a entregar suas próprias vidas por amor às Escrituras.

Ainda é possível acrescentar a toda essa problemática um tipo de “evangelicalismo” emergente que, embora lote templos, é completamente deficiente em confrontar as pessoas com a realidade de seu pecado pessoal. Os pregadores oferecem uma fé fácil, satisfação imediata e um “cristo” totalmente oposto ao das Escrituras. As pessoas são chamadas a “aceitar Jesus”, “optar por Jesus”, “escolher Jesus”, “deixar que Jesus seja o Senhor das suas vidas” (como se pudéssemos coroar quem já é Rei e Senhor de todas as coisas).

Devemos precaver-nos para que, cedendo ao desejo de adequar Cristo às nossas próprias invenções, não o mudemos tanto (como fazem os papistas), que ele se torne dessemelhante de si próprio. Não nos é permitido inventar tudo ao sabor de nossos gostos pessoais, senão que pertence exclusivamente a Deus instruir-nos segundo o modelo que te foi mostrado (Ex 25.40). (João Calvino, Exposição de Hebreus, p. 209)

A sã doutrina tem sido suplantada por falsos e perigosos ensinos que têm entrado sorrateiramente nas igrejas e “arrastado” pessoas ao engano. Os reformadores, à semelhança dos apóstolos (cf. Romanos 16.17; 1Timóteo 4.6; 6.3; 2Timóteo 4.3; Tito 1.9; 2.1, 10; Hebreus 6.1; 1João 2.24, Apocalipse 2.15), compreendiam esse perigo:

Não há nada que Satanás mais tente fazer do que levantar névoas para obscurecer Cristo; pois ele sabe que dessa forma o caminho está aberto para todo tipo de falsidade. Assim, o único meio de manter e também restaurar a doutrina pura é colocar Cristo diante de nossos olhos, exatamente como ele é, com todas as Suas bênçãos, para que Seu poder possa ser verdadeiramente percebido. (João Calvino, As Institutas da Religião Cristã)

Comentando Gálatas 5.9 (“Um pouco de fermento leveda toda a massa”), Calvino escreve:

Essa cláusula nos adverte de quão danosa é a corrupção da doutrina, para que cuidassem de não negligenciá-la (como é costumeiro) como se fosse algo de pouco ou nenhum risco. Satanás entra em ação com astúcia, e obviamente não destrói o evangelho em sua totalidade, senão que macula sua pureza com opiniões falsas e corruptas. Muitos não levam em conta a gravidade do mal, e por isso fazem uma resistência menos radical. […] Devemos ser muito cautelosos, não permitindo que algo (estranho) seja adicionado à íntegra doutrina do Evangelho. (João Calvino, Gálatas, p. 158-159)

Ao contrário do que acontece hoje em grande parte das igrejas emergentes, os reformadores primavam pela pregação teocêntrica, não usavam o púlpito para expor seu sucesso pessoal, tampouco empregavam tempo falando de suas experiências miraculosas e sobrenaturais (tão distantes da realidade da congregação). Aqueles homens, levantados e guiados por Deus, se emprenhavam em pregar a Cristo, pois estavam plenamente convencidos de que esse é o único meio capaz de conduzir o homem à salvação, a uma mudança radical de vida.

Os reformadores não ensinavam uma fé barata, meritória, não “apelavam” para que as pessoas viessem a Cristo, pois sabiam que o homem por si só – em seu estado natural (de completa miséria e rebelião) – é incapaz de “aceitar” a Jesus, o que ocorrerá apenas se o Senhor o atrair à Sua presença. Eles também não se calaram frente às ameaças dos paladinos que os perseguiam, por odiarem a verdade e aborrecerem a luz – “porque a luz tudo manifesta” (cf. Efésios 5.13, ARC) -, pois não temiam a fúria daqueles que, embora pudessem matar o corpo, de modo nenhum poderiam matar a alma (cf. Mateus 10.28).

Somente os crentes genuínos conhecem a diferença entre este estado transitório e a bem-aventurada eternidade, para a qual foram criados; eles sabem qual deve ser a meta de sua vida. Ninguém, pois, pode regular sua vida com uma mente equilibrada, senão aquele que, conhecendo o fim dela, isto é, a morte propriamente dita, é levado a considerar o grande propósito da existência humana neste mundo, para que aspire o prêmio da vocação celestial. (João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo, Parakletos, 2002, Vol. 3, (Sl 90.12), p. 440).

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Harry L. Reeder – Desmistificando velhos ensinos

Harry L. Reeder

Semana da Reforma Protestante 2011

Calvino como pastor, evangelista e missionário

Muitos conhecem a acusação de que os calvinistas se preocupam somente com doutrina e são indiferentes à evangelização e missões. Além disso, o calvinismo é acusado de ser contraproducente em relação ao empreendimento de evangelização e missões. Isso é errado não somente no que diz respeito à história, conforme revela um exame da lista de grandes pastores-evangelistas e missionários que eram declaradamente calvinistas (a saber, George Whitefield, Charles H. Spurgeon, William Carey, David Brainerd, Jonathan Edwards, etc.), mas também no que diz respeito ao próprio Calvino.

A paixão de Calvino como pastor-evangelista se revelou de várias maneiras. Calvino evangelizava persistentemente as crianças de Genebra, por meio de aulas de catecismo e da Academia de Genebra. Além disso, ele treinava pregadores a rogarem aos homens e mulheres que seguissem a Cristo. A visitação na enfermidade prescrevia uma conversa evangelística. Até uma análise superficial dos sermões de Calvino mostra de imediato um zelo permanente para que homens e mulheres fossem convertidos a Cristo.

E o que podemos dizer sobre missões? O Registro da Venerável Companhia de Pastores relata que 88 missionários foram enviados de Genebra. De fato, houve mais do que cem, e muitos deles foram treinados diretamente por Calvino. Contudo, missões foram realizadas em um nível mais informal. Genebra se tornou o ímã de crentes perseguidos, e muitos desses imigrantes foram discipulados e retornaram ao seu país como missionários e evangelistas eficazes.

Quando se acalmaram os tempos turbulentos no ministério pastoral de Calvino, surgiu a oportunidade para expansão missionária intencional e implantação de igrejas. A bênção de Deus sobre os esforços missionários de Calvino e das igrejas de Genebra, de 1555 a 1562, foi extraordinária – mais de 200 igrejas secretas foram implantadas na França por volta de 1560. Até 1562, o número crescera para 2.150, produzindo mais de 3.000.000 de membros. Algumas dessas igrejas tinham congregações que totalizavam milhares de membros. O pastor de Montpelier informou a Calvino, numa carta, que “nossa igreja, graças a Deus, tem crescido, e continua a crescer, tanto a cada dia, que pregamos três sermões aos domingos para mais de cinco ou seis mil pessoas” (10). Outra carta, do pastor de Toulouse, declarava: “Nossa igreja continua crescendo até ao admirável número de oito ou nove mil almas” (11). A amada França de João Calvino, por meio de seu ministério, foi invadida por mais de 1.300 missionários treinados em Genebra. Esse esforço, conjugado com o apoio de Calvino aos valdenses, produziu a Igreja Huguenote Francesa que quase triunfou sobre a Contra-Reforma católica na França.

Calvino não evangelizou e implantou igrejas somente na França. Os missionários treinados por ele estabeleceram igrejas na Itália, Holanda, Hungria, Polônia, Alemanha, Inglaterra, Escócia e nos estados independentes da Renânia. Ainda mais admirável foi uma iniciativa que enviou missionários ao Brasil. O compromisso de Calvino com a evangelização e missões não era teórico, mas, como em todas as outras áreas de sua vida e ministério, era uma questão de atividade zelosa e compromisso fervoroso.

Notas:
(10) Frank James, “Calvin the evangelist”, Reformed Quarterly, Jackson, v. 19, nº 2/3 (2001).
(11) Ibid.

Fonte: REEDER, H. L. O clérigo da Reforma. In: PARSONS, Burk (Ed.). João Calvino: Amor à Devoção, Doutrina e Glória de Deus. São José dos Campos/SP: Fiel, 2010, p. 91-93.
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