Três perspectivas acerca do amor de Deus pelo mundo (III): B.B. Warfield

Vinícius S. Pimentel

Três perspectivas acerca do amor de Deus pelo mundo

Leia a Parte I (Introdução à série e Perspectiva de J.C. Ryle)
e a Parte II (Perspectiva de John Owen)

Apresentando a perspectiva de B.B. Warfield

Para aqueles que não o conhecem, Benjamin B. Warfield foi um dos grandes teólogos americanos oriundos do Seminário de Princeton, de onde também saíram Charles Hodge e seu filho A.A. Hodge. A sua interpretação de João 3.16 encontra-se no artigo intitulado O imensurável amor de Deus, o qual, por sua vez, nasceu de um sermão pregado na capela de Princeton [1].

É importante fazer, antes de tudo, três observações concernentes à exposição feita por Warfield. A primeira delas é que o professor de Princeton demonstra a sua preocupação em ser exegético, antes de ser sistemático. De fato, antes de lidar com esse versículo a partir da controvérsia teológica concernente à pergunta Por quem Cristo morreu?, ele está interessado com as questões: Qual é o assunto essencial da passagem? Qual o seu ensinamento primário? Em que contexto ela está inserida? O que o autor do texto queria realmente comunicar?

Em segundo lugar, é importante perceber que Warfield, embora discordando expressamente de John Owen em certos aspectos interpretativos, concorda com o teólogo de Oxford num ponto fundamental: o “amor” mencionado na passagem é o amor salvífico de Deus, o amor soberano que atrai infalivelmente os pecadores das trevas para a sua maravilhosa luz. Nesse particular, como é óbvio, a sua exegese se afasta do entendimento de J.C. Ryle.

A terceira observação fundamental é que a exposição do amor de Deus pelo mundo feita por Benjamin Warfield finda por seguir um caminho incomum para a maioria de nós, cristãos brasileiros do século XXI. Após apresentar mais puramente a sua exegese da passagem, o teólogo passa a tratar de alguns aspectos sistemáticos e, nesse momento, ele trata do amor de Deus pelo mundo a partir daquela que era, a seu tempo, uma das convicções fundamentais do corpo discente do Seminário de Princeton: o pós-milenismo. Obviamente, nos limites deste artigo, não poderemos nos aprofundar numa discussão escatológica, mas, se queremos entender a sua perspectiva de João 3.16, é inevitável mencionar o fato de que Warfield era um convicto pós-milenista.

Feitas essas observações, cumpre-nos apresentar em linhas gerais a estrutura do artigo de B.B. Warfield:

Na primeira seção do texto, ele lida com a pergunta A palavra “mundo” significa “todos sem exceção”? [2] e argumenta que, ao invés de exaltar o amor de Deus, esse entendimento da passagem na verdade o diminui, seja porque procura traduzir a grandeza do amor de Deus em termos finitos (o número de pessoas que há no mundo), seja porque reduz a ação do amor de Deus a uma mera possibilidade de salvação:

Nós descobrimos, assim, que a interpretação do termo “mundo” em nosso texto como “todo e cada homem no mundo” não apenas começa com o erro óbvio de direcionar a nossa atenção para a grandeza do mundo, ao invés de para a grandeza de Deus, podendo apenas inferir esta última daquela primeira. Essa interpretação termina por efetivamente diminuir o amor de Deus, como se ele pudesse ser satisfeito com meias medidas – aliás, de muitas maneiras, como se ele pudesse ser satisfeito com o que não tem medida alguma. Pois, se ele se satisfizesse meramente em abrir um caminho de salvação e deixar os homens andarem ou não por esse caminho conforme eles queiram, os duros fatos da vida nos forçariam a concluir que esse amor se satisfaria meramente em abrir um caminho de salvação para multidões a quem nunca se daria a conhecer que um caminho de salvação se apresenta diante delas, muito embora a sua única esperança fosse andar por ele.

Na segunda seção do artigo, o professor de Princeton se debruça sobre a indagação A palavra “mundo” significa “os eleitos”? e, novamente, responde de maneira negativa. Na verdade, Warfield reconhece que essa interpretação (precisamente aquela advogada por John Owen) é superior à primeira, porque busca honrar a natureza poderosa, soberana, livre e eficaz do amor de Deus pelos pecadores:

Está muito claro que essa interpretação tem uma vantagem inestimável sobre aquela primeiramente sugerida, uma vez que ela penetra no coração do problema e se recusa a esvaziar o texto do seu propósito manifesto. O texto é dado para intensificar em nossos corações o entendimento do amor de Deus por pecadores: para nos fazer compreender algo da altura, da profundidade, da largura e do comprimento desse amor, embora ele verdadeiramente ultrapasse todo o conhecimento. É impossível, portanto, à medida que nós lemos o texto, erguer limitações a esse amor, como se ele não pudesse efetuar aquilo para o que foi designado.

O autor acredita, porém, que essa segunda perspectiva também se mostra incapaz de mergulhar nas verdadeiras profundezas da passagem. Para ele, essa segunda interpretação faz jus ao significado da palavra “amor”, mas não consegue exaurir o sentido da palavra “mundo” pretendido pelo escritor bíblico inspirado:

No seu esforço para fazer justiça à concepção do amor de Deus, não fazem eles [os defensores dessa segunda perspectiva] algo menos do que justiça à concepção encartada na expressão “o mundo? […]  Essa interpretação, indubitavelmente, reproduz o significado fundamental do texto. Mas será que ela satisfaz completamente todas as suas sugestões? Será que não há no texto uma sequência de pensamento mais sutil do que a por ela explicada? Será que não há nela uma verdade mais profunda e mais gloriosa até mesmo do que o alcance global do amor de Deus, manifestado na Grande Comissão […]?

Na terceira seção, Warfield passa a apresentar de maneira positiva o seu entendimento do texto, que nós consideraremos mais detidamente em seguida. Pode-se adiantar, porém, que para o autor o real significado da palavra “mundo” só pode ser alcançado se nós percebermos que o apóstolo João utiliza esse vocábulo, em seus escritos, com uma conotação qualitativa, e não quantitativa:

Se o amor aqui celebrado é compartilhado com todo e qualquer homem que compõe o mundo, ou se ele se encerra apenas com os eleitos, escolhidos para fora do mundo, todo esse debate encontra-se fora do escopo da passagem e não fornece qualquer auxílio à sua interpretação. A passagem não pretendia ensinar, e certamente não ensina, que Deus ama todos os homens indistintamente e visita cada um deles com as mesmas manifestações do seu amor. Tampouco ela pretendia ensinar, nem ensina, que o seu amor está confinado a uns poucos indivíduos especialmente escolhidos para fora do mundo. O que se pretende, aqui, é despertar em nossos corações um senso de admiração diante da maravilha e do mistério do amor de Deus pelo mundo pecador – aqui concebido não quantitativamente, mas qualitativamente, em sua mais distintiva característica enquanto mundo pecador.

Na última seção, B.B. Warfield finalmente lida com as implicações teológicas dessa passagem. Como já se aduziu, ele sustenta que o amor aqui mencionado é o amor salvífico – um amor que efetivamente salva, e não uma espécie de amor que apenas anela pela salvação dos homens. Porém, ele assevera com igual veemência que o “mundo” a quem Deus amou não é uma minoria espalhada entre as nações, e é aqui que o pós-milenismo de Warfield se revela com clareza:

Os eleitos – eles não são os resíduos do grande incêndio, as cinzas, por assim dizer, do mundo em chamas, tristemente ajuntadas pelo Criador após o fim da catástrofe, de modo que ele possa com eles fazer um novo e talvez melhor começo e, possivelmente, edificar a partir deles um novo edifício, para substituir aquele que foi perdido. Muito mais do que isso, eles mesmos são “o mundo” – não o mundo como ele é em seu pecado, jazendo no maligno, mas o mundo em sua promessa e potencial de uma vida renovada.

No decurso de todos os anos, um propósito crescente se desenrola, um propósito crescente: os reinos da terra se tornam cada vez mais os reinos do nosso Deus e de seu Cristo. O processo pode ser lento; o progresso pode parecer atrasar-se, aos nossos olhos impacientes. Mas é Deus quem está edificando! E, sob as suas mãos, o edifício é erguido tão firmemente quanto o é lentamente, e no tempo devido a última pedra será posta em seu lugar, e aos nossos olhos abismados se revelará nada menos do que um mundo salvo!

(No próximo post, analisaremos mais detidamente os aspectos exegéticos da perspectiva de B.B. Warfield.)

Notas:

[1] WARFIELD, Benjamin Breckinridge. God’s Immeasurable Love. Disponível em: <http://www.gcc-opc.org/docs/godslove.htm>. Acesso em: 03 abr. 2012. Tradução livre de Vinícius S. Pimentel. (O artigo encontra-se disponível na internet, em inglês. Após o término desta série, ele será traduzido e publicado na íntegra aqui no PreciosoCristo.)

[2] Na verdade, Warfield está aqui lidando diretamente com a doutrina da expiação ilimitada, defendida pelos arminianos e pelos chamados “calvinistas de quatro pontos”. Ambas as perspectivas não se confundem com a “expiação limitada-ilimitada” de J.C. Ryle e outros calvinistas de cinco pontos. Todavia, alguns de seus argumentos acabam sendo também uma crítica à maneira como Ryle interpreta João 3.16, uma vez que o teólogo de Princeton defende firmemente que o “amor” de Deus mencionado na passagem é o amor salvífico, assim como não aceita a ideia de que o “mundo” possa ser entendido como que se referindo a “todos os homens, sem exceção”.

Por: Vinícius Silva Pimentel | PreciosoCristo | Original aqui.
Permissões: Você está autorizado e incentivado a reproduzir e distribuir este material em qualquer formato, desde que inclua estes créditos, não altere o conteúdo original e não o utilize para fins comerciais.

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Três perspectivas acerca do amor de Deus pelo mundo (II): John Owen

Vinícius S. Pimentel

Três perspectivas acerca do amor de Deus pelo mundo

Leia a Introdução à série e a Perspectiva de J.C. Ryle

Apresentando a perspectiva de John Owen

Em seu livro Por quem Cristo morreu?, o teólogo puritano John Owen (1616-1683) expõe e defende de maneira bastante vigorosa a doutrina da expiação limitada. Na última parte do livro, ele responde as objeções mais comuns feitas ao ensino da redenção particular, e é nessa porção de sua obra que ele nos oferece a sua interpretação de João 3.16. Ei-la:

Além disso, as Escrituras não afirmam, em lugar algum, que Deus é naturalmente inclinado ao bem de todos. Ao contrário, é evidente que Deus é completamente capaz de ter misericórdia daqueles pelos quais Ele terá misericórdia. Seu amor é um ato livre de Sua vontade, não uma emoção produzida n’Ele por nosso estado miserável. (Se fosse a miséria que tivesse atraído o anseio natural de Deus para ajudar, então, Ele deveria ser misericordioso para com os demônios e os condenados!) […]

É claro que Deus quer o bem de todos a quem Ele ama.

Então, segue-se que Ele ama somente aqueles que recebem esse bem. O mesmo amor que O levou a dar Seu Filho, Jesus Cristo, faz com que Ele dê também todas as outras coisas necessárias. “Aquele que nem mesmo a seu próprio filho poupou, antes o entregou por todos nós, como nos não dará também com ele todas as coisas?” (Romanos 8:32). Assim, este amor especial de Deus pode, portanto, ser somente por aqueles que realmente tenham recebido graça e glória.

Ora, leitor cristão, você precisa julgar: pode o amor de Deus, que deu o Seu Filho, ser entendido como um sentimento de boa vontade para com todos em geral? Não será, ao invés disso, o Seu amor especial para com os crentes eleitos?

2. Precisamos examinar o que é o objeto desse amor de Deus, aqui chamado de “o mundo”. Alguns dizem: isto deve significar todos e cada um dos homens. Eu jamais consegui ver como isso poderia significar tal coisa. Já demonstramos os diferentes sentidos com que a palavra “mundo” é usada nas Escrituras. E, em João 3: 16, o amor mencionado no princípio e o propósito no final, não podem concordar com o significado de “todos e cada um dos homens” que é imposto, por alguns, sobre “o mundo”, o qual ocorre no meio do versículo.

De nossa parte, entendemos que essa palavra significa os eleitos de Deus espalhados pelo mundo entre todas as nações. Os benefícios especiais de Deus já não são para os judeus somente. O sentido é: “Deus amou os Seus eleitos em todo o mundo de tal maneira, que deu o Seu Filho com esse propósito, para que os crente pudessem ser salvos por Ele.” Há várias razões que corroboram esse ponto de vista. […]

Há várias razões porque os crentes são chamados de “o mundo”. É para distingui-los dos anjos; e para rejeitar judeus jactanciosos que pensavam ser apenas eles o povo de Deus; para ensinar a distinção entre a velha aliança feita com uma só nação, e a nova – na qual todas as nações do mundo se tornariam obedientes a Cristo; e para mostrar a condição natural dos crentes como criaturas terrestres e deste mundo. […]

Ora, que o leitor pese todas estas coisas, e especialmente a primeira – o amor de Deus – e pergunte seriamente se pode ser considerado uma afeição por todos em geral aquilo que pode tolerar a perdição de muitos daqueles a quem Ele tanto amou? Ou será que este amor não é melhor entendido como sendo aquele único, especial amor do Pai por Seus filhos crentes, que torna seguro o futuro deles? Então, você terá uma resposta se a Bíblia ensina, ou não, que Cristo morreu como um resgate geral – infrutífero com relação a muitos pelos quais o resgate foi pago ou como uma redenção especial e gloriosamente eficaz para cada crente. E lembre-se de que este texto João 3: 16 é freqüentemente usado para sustentar a ideia de que Cristo morreu por todos os homens – embora, como já tenho mostrado, seja completamente incompatível com tal noção! [1, negrito acrescido]

Entendendo a perspectiva de John Owen

Como se pode facilmente perceber, ao contrário de J.C. Ryle – que parte da definição de “mundo” para chegar à definição de “amor” -, Owen inicia indagando qual é o real sentido do “amor” de Deus afirmado na passagem.

O teólogo puritano defende, ao contrário do bispo de Liverpool, que o amor referido no texto em comento só pode ser o amor salvífico de Deus, não uma espécie de “bondade geral” que Ele supostamente possui por todos os seres humanos, indistintamente. Ele pergunta, retoricamente: “pode o amor de Deus, que deu o Seu Filho, ser entendido como um sentimento de boa vontade para com todos em geral? Não será, ao invés disso, o Seu amor especial para com os crentes eleitos?”

De fato, John Owen abertamente nega toda noção de que Deus possua algum tipo de afeição pelos não eleitos. No início de sua exposição do texto, ele assevera: “as Escrituras não afirmam, em lugar algum, que Deus é naturalmente inclinado ao bem de todos”. E, posteriormente: “Então, segue-se que Ele ama somente aqueles que recebem esse bem [a salvação]”.

Tendo estabelecido o seu argumento de que a passagem refere-se ao amor salvífico de Deus, Owen passa a defender que a palavra “mundo” deve ser entendida como equivalente à expressão “todo o que nele crê”, encontrada no final do versículo. Para o teólogo de Oxford, portanto, “o mundo” refere-se a “os eleitos de Deus espalhados pelo mundo entre todas as nações”.

John Owen lança mão de diversos argumentos para confirmar a sua interpretação do vocábulo “mundo”. Contudo, o ponto fulcral de sua exegese é a ideia de que o apóstolo João, enquanto um judeu, escrevera a respeito do amor de Deus pelo mundo para enfatizar a grande notícia de que as bênçãos salvíficas do Senhor já não são dirigidas especialmente ao povo hebreu, mas estendem-se agora em benefício de todos aqueles que Deus já havia eleito, antes da fundação do mundo, dentre todas as tribos, línguas, povos e nações. Para o autor, assim, a expressão “o mundo” é usada para provocar contraste com a ideia de “o povo judeu”.

Notas:

[1] As citações foram retiradas da seguinte versão da obra, disponibilizada na internet:

OWEN, John. Por quem Cristo morreu?: a morte da morte na morte de Cristo, p. 41-44. Disponível em: <http://www.baptistlink.com/creationists/porquemowen.pdf>. Acesso em: 03 abr. 2012.

Por: Vinícius Silva Pimentel | PreciosoCristo | Original aqui.
Permissões: Você está autorizado e incentivado a reproduzir e distribuir este material em qualquer formato, desde que inclua estes créditos, não altere o conteúdo original e não o utilize para fins comerciais.

Três perspectivas acerca do amor de Deus pelo mundo (I): J.C. Ryle

Vinícius S. Pimentel

Três perspectivas acerca do amor de Deus pelo mundo

Introdução à série

Nesta breve série de três posts, desejamos mostrar três diferentes interpretações da passagem bíblica registrada em João 3.16, na qual nos é dito que “Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”.

É importante ter em mente, de antemão, que os três pontos de vista aqui defendidos não são diferentes maneiras de enxergar a extensão e a eficácia da obra expiatória realizada por Deus em Jesus Cristo. Todas as interpretações aqui apresentadas foram feitas por teólogos e pastores reformados, que abraçavam a sistematização calvinista da doutrina da salvação. Em especial, todos esses homens de Deus afirmavam claramente a doutrina da expiação limitada [1].

Portanto, a discussão aqui apresentada cinge-se, estritamente, ao sentido dessa passagem em particular (João 3.16). É óbvio que, para obter o seu significado, faz-se necessário levar em consideração todo o ensino bíblico concernente ao amor de Deus, sua natureza e extensão; porém, o objeto de estudo do debate é a interpretação do versículo em si, e não a sistematização da doutrina.

No tocante à exegese de João 3.16, o cerne da controvérsia diz respeito tanto ao significado da palavra “amor” quanto ao problema de como definir a palavra “mundo”. Com relação ao “amor”, a indagação que precisa ser respondida é: na passagem, Jesus estava se referindo a uma espécie de amor geral que Deus possui por toda a humanidade, ou ao amor salvífico que Deus tem especialmente pelos eleitos? Já com relação à palavra “mundo”, a dúvida é: ela se refere a “cada indivíduo da raça humana, sem exceção” ou a “todos os eleitos que estão em todas as nações do mundo” – ou, ainda, será possível pensar em uma terceira interpretação?

Apresentando a perspectiva de J.C. Ryle

Em suas Meditações no Evangelho de João, o bispo anglicano J.C. Ryle (1816-1900) nos apresenta, de maneira pastoral e aplicativa, o seu ponto de vista com respeito ao amor de Deus pelo mundo afirmado em João 3.16. Ei-lo:

[…] Em segundo lugar, a passagem nos indica a fonte natural de onde procede a salvação do homem. Essa fonte é o amor de Deus, o Pai. Nosso Senhor disse a Nicodemos: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”.

Foi com razão que Lutero chamou de “Bíblia em miniatura” esse versículo maravilhoso. As primeiras palavras talvez sejam as mais importantes: “Deus amou ao mundo de tal maneira”. O amor aqui mencionado não se refere àquele amor especial com que o Pai contempla os seus escolhidos, e sim à grande compaixão e misericórdia com que Ele olha para toda a raça humana. O alvo desse amor não é somente o pequeno rebanho, que desde a eternidade Ele concedeu a Cristo, mas também o “mundo” constituído por todos os pecadores, sem exceção. Em certo sentido, Deus ama profundamente este mundo. Com misericórdia e compaixão contempla todos os que por Ele foram criados. Deus não ama os pecados dos homens, e sim as suas almas. “O SENHOR é bom para todos, e as suas misericórdias permeiam todas as suas obras” (Sl 145.9). Cristo é a graciosa dádiva de Deus para o mundo inteiro.

Vigiemos para que a nossa compreensão do amor de Deus seja escriturística e bem definida. Existem erros abundantes quanto a esta questão.

Por um lado, devemos ter cuidado com opiniões vagas e exageradas. Precisamos afirmar, com segurança, que Deus odeia a impiedade e que o fim de todos os que nela persistem será a destruição. Não é certo dizer que o amor de Deus torna o inferno desnecessário; bem como não é correto dizer que Deus amou o mundo de tal maneira que todos os seres humanos acabarão sendo salvos. É correto afirmar que amou o mundo de tal maneira que deu seu Filho para ser o Salvador de todos os que creem. Seu amor é oferecido de maneira gratuita, inteira, sincera e irrestrita; mas unicamente através da redenção que há em Cristo. Aquele que rejeita a Cristo exclui a si mesmo do amor de Deus e perecerá eternamente.

Por outro lado, precisamos ter cuidado em não assumir uma posição extremista quanto a isso. Não devemos hesitar em dizer a qualquer pecador que Deus o ama. Não é verdade que Deus se importa apenas com seus eleitos ou que Cristo é oferecido somente aos que estão ordenados à vida eterna. Em Deus existe “bondade e amor” para todos os homens. Foi por causa deste amor que Cristo veio ao mundo e morreu na cruz. Não procuremos ser sábios além do que está escrito, nem mais sistemáticos em nossas afirmativas do que a própria Escritura. Deus não tem prazer na morte do ímpio. Não deseja que qualquer um deles pereça, antes, que sejam salvos. Deus ama o mundo (Jo 6.33; Tt 3.4; Jo 4.10; 2Pe 3.9; 1Tm 2.4; Ez 33.11). [2, negrito acrescido]

Entendendo a perspectiva de J.C. Ryle

Como podemos perceber, para o bispo de Liverpool, a palavra “mundo” deve ser entendida como que se referindo a “todos os pecadores, sem exceção”, isto é, tanto a eleitos como a não eleitos. Porém, Ryle deixa claro que não abraça qualquer forma de universalismo (a ideia de que todos os homens serão salvos de uma maneira ou de outra), ao afirmar que “não é correto dizer que Deus amou o mundo de tal maneira que todos os seres humanos acabarão sendo salvos”.

Tendo estabelecido a priori o significado de “mundo”, J.C. Ryle passa a investigar o sentido da palavra “amor”. Para ele, Deus possui um tipo de amor por toda a humanidade criada que não se confunde com o amor que Ele possui especialmente pelos eleitos. Em certo lugar, ele afirma que “com misericórdia e compaixão [Deus] contempla todos os que por Ele foram criados”. Há um tipo de amor geral que Deus possui por todos os homens, enquanto seres criados à Sua imagem. Assim, por causa dessa compreensão multifacetada do amor de Deus, o bispo de Liverpool diz que nós “não devemos hesitar em dizer a qualquer pecador que Deus o ama”.

Dessarte, a afirmação de Jesus a respeito do “amor” de Deus pelo mundo, na visão do bispo, não estaria se referindo ao amor especial que Ele tem pelos eleitos, mas ao tipo de amor geral que Deus possui por toda a raça humana, e por cada indivíduo em particular enquanto ser criado à própria imagem e semelhança do Criador. Ryle assevera claramente em sua meditação: “O amor aqui mencionado não se refere àquele amor especial com que o Pai contempla os seus escolhidos, e sim à grande compaixão e misericórdia com que Ele olha para toda a raça humana”.

Em suma, na ótica de J.C. Ryle, a expressão “Deus amou ao mundo de tal maneira” deve ser entendida como uma declaração do amor geral que Deus possui pela raça humana, como coroa de Sua criação, e por cada indivíduo pecador que a compõe. Todavia, esse “amor geral” pela humanidade não pode ser confundido com o amor especial que Deus nutre pelos eleitos, amor este cuja soberania assegura que todos eles, havendo sido escolhidos antes da fundação do mundo e redimidos no devido tempo pela obra vicária de Cristo, serão alcançados pela graça salvadora e preservados soberanamente para a salvação que está prestes a se revelar no último Dia.

Notas:

[1] Os Cânones de Dordt (Capítulo 2.8) assim apresentam a doutrina da expiação limitada:

[…] Isto quer dizer que foi da vontade de Deus que Cristo, por meio do sangue na cruz (pelo qual Ele confirmou a nova aliança), redimisse efetivamente de todos os povos, tribos, línguas e nações, todos aqueles e somente aqueles que foram escolhidos desde a eternidade para serem salvos, e Lhe foram dados pelo Pai. […] (Disponível em: http://www.monergismo.com/textos/credos/dort.htm. Acesso em: 04 abr. 2012.)

Há definições mais estritas do conceito de expiação limitada, como, por exemplo, aquela oferecida por Richard Belcher no livro Uma jornada na graça:

A expiação limitada diz que a morte de Cristo teve um desígnio e propósito específico para com os eleitos, e não um desígnio e propósito geral para com toda a raça humana. (BELCHER, Richard P. Uma jornada na graça: uma novela teológica. São José dos Campos/SP: Fiel, 2002, p. 107.)

Se levarmos em conta a definição menos ampla de Belcher, concepções como a do bispo Ryle (modernamente chamada de “expiação limitada ilimitada”) talvez possam ser vistas como contrárias à doutrina da expiação definida. Todavia, se considerarmos a definição histórica oferecida pelo Sínodo de Dordt, todos os pontos de vista aqui expostos abraçam indubitavelmente o ensino da expiação limitada.

[2] RYLE, J.C. Meditações no Evangelho de João. São José dos Campos/SP: Fiel, 2011, p. 35-36.

Por: Vinícius Silva Pimentel | PreciosoCristo | Original aqui.
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