O maior será o menor

Áurea Emanoela

O maior será o menor

Em um domingo pela manhã, enquanto ouvia o pastor da minha igreja pregar, um versículo veio à minha mente. Passei boa parte do dia meditando naquela passagem:

“Quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva, e quem quiser ser o primeiro entre vós, será vosso servo.” (Mateus 20.26-27)

Esse alerta foi dado pelo próprio Jesus aos seus discípulos enquanto respondia ao pedido ambicioso feito pela esposa de Zebedeu (provavelmente Salomé, cf. Mateus 27.55-56 e Marcos 15.40-41) em favor de seus filhos Tiago e João (cf. Marcos 10.36).

Como cristãos, é inegavelmente difícil viver esse ensinamento deixado por Cristo frente a um modelo de sociedade que despreza os valores morais e, mais do que isso, as coisas espirituais. A lógica trazida pelo Filho de Deus contrariava e continua a contrariar os conceitos humanos, sendo causa de tropeço para alguns e fonte de graça e vida para outros (cf. Isaías 28.16; Romanos 9.32-33).

O maior no reino dos céus

Não foi essa a primeira ocasião em que os discípulos discutiram acerca de suas “posições” no Reino, ou, em outras palavras, de quem entre eles seria o maior (Mateus 18.1-5; Marcos 9.33; Lucas 9.46-48). À semelhança do nosso tempo, a preocupação por honra, poder e glória desempenhavam um significativo papel na mente daquele povo.

Vivemos em meio a uma sociedade ímpia (cf. Mateus 13.24-30) e, consequentemente, temos que conviver com pessoas cujos valores estão distantes daqueles ensinados por Cristo. Foi essa a realidade no tempo de Jesus e é essa a realidade do nosso tempo. Todavia, o grande dilema do nosso século é que os valores consagrados pelo mundo têm ocupado, aprisionado, e corrompido o coração de muitos cristãos.

Somos compelidos a ter, crescer, avançar, correr, conquistar… Aproveitar o tempo, agarrar as oportunidades, buscar o sucesso… Afinal de contas, “o mundo não tem espaço para os fracos, não tem lugar para perdedores”. Quem sabe mais… Vai além. Quem tem mais… É melhor, tem primazia, pode mais.

Carregamos rótulos que nos identificam ou pela nossa filiação (Fulano, filho de Beltrano), ou pelos títulos que ostentamos (Beltrano médico, dentista, engenheiro, advogado), ou ainda pelos bens que possuímos (Fulano… Ele é dono de uma empresa. Ele tem um carro importado. Viaja frequentemente à Europa. É herdeiro de uma fortuna).

Em um mundo com essas percepções, o ensinamento deixado por Cristo soa como uma piada, um contrassenso, algo completamente ilógico. Todavia, as lições de Jesus confrontam e condenam a superficialidade humana.

A lição de Jesus

O pedido que fora feito pela esposa de Zebedeu, assim como a preocupação dos discípulos, revela um conceito que não condiz com o espírito da fé cristã.

Três erros podem ser depreendidos: O primeiro deles gira em torno da preocupação fulgaz dos discípulos quanto a quem seria o maior no reino dos céus, e isso em contraste com a preocupação de Jesus em favor da humanidade.

“Fixai nos vossos ouvidos as seguintes palavras: o Filho do Homem está para ser entregue nas mãos dos homens. Eles, porém, não entendiam isto, e foi-lhes encoberto para que o não compreendessem; e temiam interrogá-lo a este respeito.

Levantou-se entre eles uma discussão sobre qual deles seria o maior.” (Lucas 9.44-46)

O segundo erro diz respeito ao ambicioso pedido feito por Tiago e João (Marcos 10.35-37) que falharam em colocar em prática o ensino de Jesus:

“E ele, assentando-se, chamou os doze e lhes disse: Se alguém quer ser o primeiro, será o último e servo de todos.” (Marcos 9.35)

Por fim, percebemos a atitude indignada dos demais discípulos contra os filhos de Zebedeu, motivados, talvez, não por Tiago e João terem falhado em obedecer ao que Jesus lhes houvera dito, mas porque queriam os mesmos lugares de proeminência.

“Ouvindo isto, indignaram-se os dez contra Tiago e João.” (Marcos 10.41)

A maneira abnegada de Jesus cumprir o seu papel messiânico, que é o primeiro e mais importante no Reino, oferece o padrão para seus discípulos em todos aqueles papéis secundários que eles podem desempenhar no reino de Deus. Jesus desejava eliminar (nos doze e, por extensão, em todos nós) uma noção equivocada de poder e autoridade.

“Mas Jesus, chamando-os para junto de si, disse-lhes: Sabeis que os que são considerados governadores dos povos têm-nos sob seu domínio, e sobre eles os seus maiorais exercem autoridade. Mas entre vós não é assim; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós será servo de todos.” (Marcos 10.42-44).

O que finalmente quebrou o coração dos discípulos e deve compungir o nosso é o exemplo que Jesus dá de si mesmo: Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Marcos 10.45). O Filho do Homem, que herdará “domínio, e glória, e o reino” (Daniel 7.14), veio como um servo.

Os grandes no reino de Deus

1) Dos ambiciosos, Jesus exige sofrimento leal até a morte: “e quem não toma a sua cruz e vem após mim não é digno de mim” (Mateus 10.38);

2) Dos orgulhosos, exige o serviço mais humilde: “Ora, se eu, sendo o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também. Em verdade, em verdade vos digo que o servo não é maior do que seu senhor, nem o enviado, maior do que aquele que o enviou” (João 13.13-16);

3) Dos grandes, exige submissão aos outros, como se exige de um servo: “sujeitando-vos uns aos outros no temor de Cristo” (Efésios 5.21).

Conclusão

Ser “bem nascido”, possuir títulos, alcançar sucesso financeiro, todas essas coisas não são em si mesmas ruins; afinal de contas, Deus as concede a alguns servos seus. Todavia, “cada um dentre vós que não pense de si mesmo além do que convém; antes, pense com moderação, segundo a medida da fé que Deus repartiu a cada um” (Romanos 12.3). Ademais, não devemos nunca dedicar o melhor da nossa vida correndo atrás dos tesouros deste mundo.

“Pois que aproveitará o homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou que dará o homem em troca da sua alma?” (Mateus 10.26).

Possuir essas coisas, embora reconhecendo que as recebemos das mãos de um Pai bondoso e que, por isso, devemos usá-las para a glória do Seu nome: eis o caminho que nos coloca no lugar de servos os quais, à semelhança de uma criança (cf. Mateus 18.3), reconhecem a sua inteira dependência do Senhor e, alegremente, aceitam aquilo que não podem obter por si mesmos.

Por: Áurea Emanoela Holanda Lemos | PreciosoCristo | Original aqui.
Permissões: Você está autorizado e incentivado a reproduzir e distribuir este material em qualquer formato, desde que inclua estes créditos, não altere o conteúdo original e não o utilize para fins comerciais.

Anúncios

Meditações em Filipenses (I): Do servo para os santos

Vinícius S. Pimentel

Meditações em Filipenses

Paulo e Timóteo, servos de Cristo Jesus, a todos os santos em Cristo Jesus, inclusive bispos e diáconos que vivem em Filipos, graça e paz a vós outros, da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo. (Filipenses 1.1-2)

Contexto e propósito

Apesar de sua pequena extensão, a Epístola de Paulo aos Filipenses é um livro cheio de ensinamentos e de lições práticas poderosas para todos os crentes. Se queremos ouvir mais claramente a voz de Deus nesta carta, precisamos observar antes de tudo o contexto em que ela foi escrita, assim como o propósito pelo qual Paulo a enviou à igreja.

Primeiro, vamos ao contexto. Quando escreveu esta carta, o apóstolo Paulo estava preso – provavelmente em Roma, naquele encarceramento que é relatado no último capítulo do livro de Atos (28.16-31) –, como nós podemos deduzir pelas diversas vezes que ele se refere a “algemas” e “cadeias” (cf. Filipenses 1.7, 13, 14). É preciso entender que, embora Paulo estivesse confiante em Deus de que seria liberto, havia um risco concreto de que o apóstolo fosse condenado à morte pelo imperador romano, o qual haveria de julgá-lo.

Agora, vamos ao propósito. Paulo era o fundador da igreja na cidade de Filipos, na Macedônia. Na verdade, a congregação dos filipenses tinha um significado especial na vida de Paulo, uma vez que havia sido a primeira igreja plantada por ele na Europa, em sua segunda viagem missionária (cf. Atos 16.11-40).

Ao invés de abandonarem o apóstolo naquele momento de angústia e aflição, os filipenses decidiram enviar a Paulo, através de Epafrodito, o suprimento para as suas necessidades (cf. Filipenses 4.10, 18). Então, após receber a provisão dos irmãos, Paulo decide escrevê-los não apenas para dar graças pela sua atitude, mas também para encorajar os filipenses a permanecerem firmes na fé e a continuarem crescendo na graça e no conhecimento de Jesus Cristo, apesar de todas as perseguições e tribulações que tivessem de enfrentar.

Conhecer a situação de Paulo no momento em que a carta foi escrita, bem como o seu propósito, nos ajuda a ver com ainda mais clareza a firmeza da fé do apóstolo e a alegria, segurança, paz e contentamento que dominavam o seu coração, apesar de todas as dificuldades. De fato, o sentimento que Paulo evidencia em todo o livro de Filipenses é a “alegria no Senhor” (ou, poderíamos dizer, a satisfação em Deus).

Por esse motivo, a meditação na carta aos Filipenses tem sido uma fonte abundante de consolo para a igreja militante ao longo dos séculos. Os cristãos que enfrentam tribulações e perseguição por causa do evangelho podem encontrar, nesta epístola, o caminho para que a sua confiança em Deus permaneça inabalável, apesar de todas as dificuldades da jornada da fé. Ao mesmo tempo, os cristãos que estão vivendo de maneira inconstante podem encontrar um poderoso exemplo e inspiração para que sejam mais firmes em sua caminhada, a fim de que sejam encontrados íntegros e irrepreensíveis no Dia do Senhor.

A saudação

Paulo começa a epístola, de maneira habitual, fazendo uma saudação aos seus leitores. Embora, em geral, passemos rapidamente por esta saudação em nossa leitura bíblica, com certeza há muito para aprender ao meditarmos nas palavras do apóstolo. Afinal, “toda a Escritura é inspirada por Deus e útil” (2Timóteo 3.16).

Meditemos, em primeiro lugar, no fato de o apóstolo identificar-se a si mesmo (e a Timóteo) como “servo de Cristo Jesus” (v. 1). Para o homem natural, é notável que alguém como o apóstolo Paulo aceitasse alegremente chamar a si mesmo de “escravo”. Paulo havia sido uma figura de destaque em seu próprio tempo: um judeu zeloso da linha mais nobre da religião judaica (os fariseus), ensinado aos pés de um grande mestre judaico de sua época (Gamaliel) e portador de um dos títulos mais cobiçados do mundo no qual ele vivia (a cidadania romana). Segundo a sabedoria deste século, nenhuma expressão era mais inapropriada para referir-se a Paulo do que a alcunha de “escravo”!

Contudo, é exatamente assim que o apóstolo vê a si mesmo: um escravo de Jesus Cristo. E é com grande alegria que Paulo se identifica dessa maneira, pois não existe honra maior para um homem do que ser contado entre os servos do grande Rei, o Soberano dos reis da terra (cf. Apocalipse 1.5), Aquele que possui toda a autoridade sobre o universo (Mateus 28.18).

Além disso, Paulo também sabia que o próprio Jesus, embora sendo Deus, a segunda bendita Pessoa da Trindade, havia se esvaziado e assumido a forma de um escravo, a fim de resgatar a humanidade do pecado e ser reconhecido, no mundo inteiro, como o único verdadeiro Senhor (cf. Filipenses 2.5-11). Ora, se o próprio Senhor de Paulo havia aceitado alegremente fazer-se Servo e sofrer a pior de todas as mortes por amor a Deus Pai e à humanidade caída, por que Paulo não haveria de aceitar, com a mesma alegria, ser reconhecido como um servo de Jesus, por amor a Deus e aos irmãos?

Paulo havia aprendido, com o próprio Cristo, que o homem verdadeiramente grande no reino de Deus é aquele que se humilha para servir a todos (Mateus 20.25-28). Da mesma maneira, todos os cristãos deveriam estar sempre prontos para aceitar a humilhação de servir a outros – pois, quando vivemos com tal disposição, estamos mostrando que somos de fato participantes da vida do próprio Jesus Cristo. Sendo assim, que possamos imitar o apóstolo Paulo e, em todas as circunstâncias, sermos reconhecidos em nossas palavras e obras como “servos de Cristo Jesus”.

Meditemos, em segundo lugar, no fato de o apóstolo identificar todos os verdadeiros crentes como “santos em Cristo Jesus” (v. 1). Os adeptos da heresia romana chamam de santos apenas certos homens a quem consideram exemplos especiais de uma vida moral e piedosa. Porém, aqui, o apóstolo se dirige a todos os irmãos da igreja em Filipos e chama-os de “santos”. Porém, uma vez que eles não são, de maneira alguma, aceitos diante de Deus por seus próprios méritos, Paulo acrescenta adequadamente que eles são “santos em Cristo Jesus”.

Como nós sabemos, a palavra “santo” significa “separado”. Quando usada em relação a Deus, ela designa a incomparável perfeição moral do SENHOR: Deus é santo porque Ele é único e ninguém jamais poderá fazer-se igual a Ele. Porém, quando usada em relação aos homens, a palavra “santo” serve para indicar aqueles que foram separados por Deus para refletir neste mundo caído, de maneira relativa, a perfeição moral que apenas Ele possui de maneira absoluta. Nesse sentido, “santos” são aqueles a quem Deus chamou para andarem com Ele e servi-Lo, brilhando a sua luz de maneira que o mundo inteiro veja as suas boas obras e, então, glorifique ao Pai que está nos céus (cf. Mateus 5.16).

Ora, Paulo faz questão de enfatizar que todos os verdadeiros crentes são santos em Cristo Jesus. Por um lado, isso significa que um verdadeiro crente é sem dúvida alguém que vive de maneira distinta neste mundo, refletindo com suas boas obras a perfeição moral do Deus a quem ele serve. Se alguém não vive assim, glorificando a Deus em seu viver diário, tal pessoa deve arrepender-se imediatamente do seu pecado e lavar-se no sangue de Jesus Cristo.

Por outro lado, a maneira como Paulo chama os crentes de “santos em Cristo Jesus” nos lembra de que a nossa santidade não vem de nós mesmos, mas procede inteiramente do próprio Deus que nos chamou, em Cristo Jesus, para andarmos em Sua presença. Se nós somos santos, é simplesmente porque aprouve a Deus nos fazer participantes da Sua própria santidade (cf. Hebreus 12.10), de maneira que nenhum de nós pode se orgulhar disso; pelo contrário, devemos dar toda a glória a Deus.

Meditemos, em terceiro lugar, naquilo que o apóstolo deseja que todos os verdadeiros crentes experimentem mais e mais: “graça e paz… da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo” (v. 2). Todos nós usamos esta saudação, mas poucos realmente param para pensar em seu significado. Quando Paulo deseja que os filipenses continuem a experimentar a graça e a paz, que procedem do Pai e chegam a nós pelo Filho, ele está desejando que aqueles irmãos jamais se afastem da graça que os salvou e lhes deu a paz com Deus; mais do que isso, o apóstolo está rogando ao próprio Deus que derrame sobre aqueles crentes uma medida cada vez maior de graça e de paz.

Este desejo que estava no coração de Paulo, ao escrever aos filipenses, deveria também estar em nosso coração, cada vez que saudamos os nossos irmãos na fé. Devemos sempre rogar que os nossos irmãos jamais se apartem da verdadeira fé em Cristo e jamais abandonem a perfeita paz da qual todos os verdadeiros filhos de Deus são participantes.

Ao lermos a breve saudação do apóstolo Paulo aos filipenses, portanto, que possamos guardar todas essas lições. Aceitemos com alegria a posição de servos de Jesus Cristo e busquemos servir os nossos irmãos. Vivamos de maneira santa neste mundo, ao mesmo tempo que demos toda a glória por isso a Deus, que nos santificou em Cristo Jesus. Além disso, andemos sempre em paz com Deus, por meio da graça que há em Cristo Jesus, e desejemos que os nossos irmãos caminhem da mesma maneira.

Por: Vinícius Silva Pimentel | PreciosoCristo | Original aqui.
Permissões: Você está autorizado e incentivado a reproduzir e distribuir este material em qualquer formato, desde que inclua estes créditos, não altere o conteúdo original e não o utilize para fins comerciais.