Meditações em Filipenses (IV): Tudo coopera para a glória de Deus

Vinícius S. Pimentel

Meditações em Filipenses

Quero ainda, irmãos, cientificar-vos de que as coisas que me aconteceram têm, antes, contribuído para o progresso do evangelho; de maneira que as minhas cadeias, em Cristo, se tornaram conhecidas de toda a guarda pretoriana e de todos os demais; e a maioria dos irmãos, estimulados no Senhor por minhas algemas, ousam falar com mais desassombro a palavra de Deus. Alguns, efetivamente, proclamam a Cristo por inveja e porfia; outros, porém, o fazem de boa vontade; estes, por amor, sabendo que estou incumbido da defesa do evangelho; aqueles, contudo, pregam a Cristo, por discórdia, insinceramente, julgando suscitar tribulação às minhas cadeias. Todavia, que importa? Uma vez que Cristo, de qualquer modo, está sendo pregado, quer por pretexto, quer por verdade, também com isto me regozijo, sim, sempre me regozijarei. (Filipenses 1.12-18)

Introdução

Tendo concluído a sua oração de gratidão e súplica pelos filipenses, o apóstolo Paulo passa a falar aos crentes a respeito das últimas notícias relacionadas à sua prisão.

Aparentemente, o encarceramento de Paulo havia provocado na igreja de Filipos uma certa tristeza e ansiedade. Pelo que podemos inferir das Sagradas Escrituras, os irmãos estavam preocupados que a prisão de Paulo atrapalhasse o avanço do evangelho no mundo e, ao mesmo tempo, temiam que o apóstolo acabasse sendo condenado à morte pelas autoridades do Império Romano.

A passagem que vai do versículo 12 ao versículo 26 nos revela de maneira muito forte a tranquilidade e, mais do que isso, a alegria do coração de Paulo em meio a todas essas circunstâncias adversas. O apóstolo escreve aos crentes em Filipos para dizer-lhes que não havia motivo de preocupação, pois, qualquer que fosse o desfecho do seu encarceramento, o nome de Deus seria glorificado.

Com efeito, podemos dividir esta seção em duas partes principais. Na primeira delas (v. 12-18), Paulo tranquiliza os filipenses no tocante à sua preocupação de que o encarceramento do apóstolo pudesse resultar no fracasso do evangelho e na derrota da igreja. Na segunda parte (v. 19-26), ele procura dissipar o temor dos irmãos de que a sua prisão terminasse por levá-lo à própria morte.

Nesta meditação, cuidaremos de estudar a primeira parte do discurso de Paulo. Observaremos a maneira como o apóstolo aborda as suas tribulações e a confiança que ele possui em relação ao progresso e ao triunfo do evangelho no mundo.

A prisão de Paulo e a glória de Deus

Meditemos, em primeiro lugar, na maneira como o apóstolo contempla o seu próprio sofrimento. Ouçamos as suas palavras e guardemos a riqueza de ensinamento prático contida nesta declaração: “Quero ainda, irmãos, cientificar-vos de que as coisas que me aconteceram têm, antes, contribuído para o progresso do evangelho” (v. 12).

Há duas lições extremamente importantes a serem consideradas aqui.

Primeiro, aprendemos que os sofrimentos os quais enfrentamos não são mais importantes que a glória de Deus.

Como já temos demonstrado, o apóstolo Paulo estava preso, e o risco de que o seu cárcere terminasse numa condenação à morte era bastante real. Numa situação como essa, que tipo de pensamento dominaria a nossa mente? Tristeza? Solidão? Medo de morrer?

Paulo era um homem sujeito às mesmas fraquezas que nós e, talvez, pensamentos assim tenham passado pela sua cabeça. Todavia, quando meditamos na declaração que acabamos de ler, vemos com muita clareza que o apóstolo não estava dominado por esses temores. Nada disso estava consumindo a sua mente; muito pelo contrário, ao invés de preocupar-se com o seu próprio bem-estar, Paulo estava pensando no avanço do evangelho e no bem-estar da igreja. A sua atenção, portanto, estava voltada para a glória de Deus.

É impossível deixar de reconhecer o caráter sobrenatural e celestial desse tipo de pensamento. Nós somos naturalmente inclinados a pensar em nós mesmos antes de todas as coisas; nossa natureza carnal e pecaminosa nos impulsiona a considerarmos a nossa vida mais preciosa do que tudo o mais. Porém, não foi isso que Cristo nos ensinou. Ele nos disse que desprezar esta vida terrena é o único caminho para possuir a verdadeira vida, aquela que é eterna e celestial: “Porquanto, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por minha causa achá-la-á” (Mateus 16.25).

Aqui, neste texto, nós vemos o apóstolo Paulo atendendo ao chamado de Cristo de uma maneira bastante real e concreta. A sua vida está por um triz, mas ele não demonstra estar preocupado; pelo contrário, ele está feliz com o fato de que os seus sofrimentos estão resultando em mais frutos para o evangelho e mais glória para Deus!

Você é capaz de ver as suas lutas, tribulações e dificuldades dessa maneira? Você consegue alegrar-se no sofrimento, à medida que percebe que as nossas aflições enquanto cristãos apenas servem para que Deus realize os Seus bons propósitos e glorifique o Seu grande nome?

Segundo, aprendemos que as nossas limitações pessoais não impedem o cumprimento dos planos e promessas de Deus.

Paulo era “o apóstolo dos gentios”. Ele havia sido soberanamente chamado por Deus para levar o Evangelho às nações além de Israel. No momento de sua primeira prisão, o apóstolo já tinha fundado inúmeras igrejas por grande parte do Império Romano; entretanto, ainda havia muitas cidades onde o evangelho precisava ser anunciado, muitas nações onde Cristo ainda não era conhecido.

A prisão de Paulo, portanto, podia levantar a seguinte dúvida: O que acontecerá com o progresso do evangelho? Será que a fé cristã deixará de avançar? Será que o crescimento do evangelho estagnará e, por fim, a Igreja morrerá?

O apóstolo responde a essa inquietação com um sonoro “Não!”. Obviamente, Paulo estava ciente de que absolutamente nada pode impedir o avanço do reino de Deus: nem a oposição dos incrédulos, nem a fúria de todos os demônios, nem as limitações pessoais dos ministros da nova aliança. Absolutamente nada pode evitar que Deus cumpra a Sua promessa de fazer o Seu nome conhecido em toda a terra e ajuntar, de todas as nações, um povo para Si mesmo. O apóstolo certamente conhecia as palavras de Jesus: “Sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mateus 16.18).

Paulo tinha certeza, portanto, de que a sua prisão não constituía um entrave ao progresso do evangelho. No fim de sua vida, ele escreveria estas palavras ainda mais ousadas: “[…] estou sofrendo até algemas, como malfeitor; contudo, a palavra de Deus não está algemada” (2Timóteo 2.9). Os homens podem prender os ministros do evangelho, algemá-los, calá-los e até matá-los. Mas eles não podem fazer isso com Deus nem com a Sua palavra. Portanto, como certa vez asseverou o missionário William Carey, podemos estar confiantes de que “a causa de Deus triunfará”.

Há algo ainda mais interessante aqui. O apóstolo não apenas tem confiança de que a sua prisão não resultará no fracasso do evangelho, mas ele também enxerga que aquela circunstância efetivamente contribui para o progresso da causa de Cristo no mundo.

De um lado, Paulo vê que a sua prisão lhe permitiu pregar para os soldados do imperador e de muitos outros que estavam entrando em contato, direta ou indiretamente, com a fé evangélica. Ele diz: “[…] as minhas cadeias, em Cristo, se tornaram conhecidas de toda a guarda pretoriana e de todos os demais” (v. 13). A prisão de Paulo, de fato, havia sido o meio usado por Deus para que o evangelho chegasse ao exército romano.

De outro lado, o apóstolo observa que o seu encarceramento havia despertado em muitos irmãos uma coragem ainda maior para pregar o evangelho. Nós lemos que “[…] a maioria dos irmãos, estimulados no Senhor por minhas algemas, ousam falar com mais desassombro a palavra de Deus” (v. 14). Isso é muito interessante. Tanto na narrativa bíblica como na história da Igreja, nós vemos que a perseguição aos cristãos nunca inibe a pregação da Palavra; pelo contrário, Deus usa os sofrimentos de alguns para estimular os demais a serem ainda mais firmes e ousados no desafio de anunciar o nome de Jesus.

Você consegue enxergar as suas próprias limitações dessa maneira? Você consegue perceber como Deus usa as dificuldades e aflições que enfrentamos para tornar o Seu nome ainda mais divulgado no mundo? Que o Senhor nos conceda tal visão celestial!

A pregação interesseira e a glória de Deus

Meditemos, em segundo lugar, na maneira como o apóstolo lida com a pregação interesseira do evangelho. Depois de afirmar que a sua prisão estava estimulando muitos irmãos a pregarem a Palavra de Deus, ele observa que nem todos esses pregadores tinham em seu coração a motivação correta. Alguns de fato estavam proclamando a Cristo “de boa vontade”; outros, porém, estavam levando a Palavra “por inveja e porfia [rivalidade]” (v. 15). Alguns tinham sincero amor por Deus e pelo apóstolo Paulo, e desejavam sinceramente contribuir para que a sua prisão não atrapalhasse o avanço do evangelho entre as nações (v. 16). Porém, outros nutriam terrível inveja do ministério de Paulo e estavam aproveitando a situação para, de alguma maneira, roubar o lugar que o apóstolo tinha na igreja, pela graça de Deus (v. 17).

A maneira como Paulo reage a esses pregadores invejosos e interesseiros é de fato surpreendente. Porém, para que possamos entendê-la melhor, precisamos fazer algumas considerações antes de meditarmos efetivamente na reação do apóstolo.

Devemos observar, por um lado, que o pecado desses ministros não estava no conteúdo da mensagem pregada, mas na intenção do seu coração. Se o problema estivesse na mensagem anunciada, a reação de Paulo seria, sem dúvida, bastante diferente: ele iria fazê-los calar (Tito 1.11), ordenaria aos irmãos que se afastassem daqueles falsos mestres (Romanos 16.17-18) e pronunciaria sobre eles uma terrível maldição (“Seja anátema!”, Gálatas 1.8-9). Paulo jamais tolerou ou toleraria o falso ensino na Igreja de Deus, uma vez que o falso evangelho leva os homens à condenação eterna. Porém, aqui, os ministros estão anunciando o evangelho de forma correta, e muitos ouvintes estão sendo salvos; é a motivação deles que está errada e, por isso, é apenas a eternidade deles (os ministros) que está em jogo.

Isso nos leva, por outro lado, a uma segunda observação: nós não podemos ultrapassar o que está escrito e achar que Paulo está ensinando não haver problema na motivação invejosa daqueles pregadores. Ao contrário: em outra parte desta epístola, Paulo dirá explicitamente que o destino dos pregadores interesseiros é a perdição (Fp 3.19).

Tendo estabelecido essas observações, meditemos de fato na reação do apóstolo diante desses pregadores invejosos. Será que Paulo ficou preocupado em perder espaço? Será que ele teve medo de que um líder mais carismático tomasse o seu lugar, ganhando o amor e o cuidado das igrejas que ele havia fundado e discipulado? Será que ele se aborreceu com tais pregadores, pelo fato de eles estarem tentando usurpar a sua autoridade apostólica?

A Escritura nos mostra que Paulo não teve nenhuma dessas reações pecaminosas. Ele não retribuiu a inveja dos ministros com mais inveja, pois ele mesmo costumava ensinar os cristãos a vencerem o mal com o bem (Romanos 12.21). Diversamente, o apóstolo mostra mais uma vez que a sua preocupação primordial não é consigo mesmo, mas com a causa de Cristo. Se ele não estava temeroso quanto ao seu bem-estar e à sua liberdade, como já vimos, tampouco ele estaria temeroso quanto à sua reputação no ministério ou o seu espaço na igreja!

A resposta de Paulo expressa claramente o seu interesse exclusivo no progresso do evangelho, em detrimento do seu prestígio pessoal. “Todavia, que importa? Uma vez que Cristo, de qualquer modo, está sendo pregado, quer por pretexto, quer por verdade, também com isto me regozijo, sim, sempre me regozijarei” (v. 18). De fato, ao invés de expressar ciúme ou amargura, o apóstolo demonstra intensa alegria. Ele estava sinceramente feliz com aquela situação – não exatamente com o fato de haver ministros invejosos na igreja, mas sim porque Deus estava usando a motivação pecaminosa daqueles homens para tornar o evangelho de Cristo ainda mais conhecido no mundo e crido entre as nações.

Em suma, ao meditarmos em toda esta passagem vemos que Paulo deposita a sua alegria e confiança inteiramente em Deus. Todo o seu interesse está na causa do reino, de maneira que tudo o que coopera para o avanço do evangelho é visto pelo apóstolo como uma razão para se alegrar – ainda que seja a perda da sua própria liberdade. Ao mesmo tempo, toda a confiança de Paulo está no Deus soberano; o apóstolo está certo de que absolutamente nenhuma circunstância pode impedir que o Senhor cumpra os Seus planos e promessas estabelecidos de antemão.

Que possamos ter também semelhante coração, que se alegra inteiramente na vinda do reino e confia inteiramente na providência do Deus todo-poderoso!

Por: Vinícius Silva Pimentel | PreciosoCristo | Original aqui.
Permissões: Você está autorizado e incentivado a reproduzir e distribuir este material em qualquer formato, desde que inclua estes créditos, não altere o conteúdo original e não o utilize para fins comerciais.

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Meditações em Filipenses (III): Suplicando pelos santos

Vinícius S. Pimentel

Meditações em Filipenses

E também faço esta oração: que o vosso amor aumente mais e mais em pleno conhecimento e toda a percepção, para aprovardes as coisas excelentes e serdes sinceros e inculpáveis para o Dia de Cristo, cheios do fruto de justiça, o qual é mediante Jesus Cristo, para a glória e louvor de Deus. (Filipenses 1.9-11)

Introdução

Pudemos ver, na última meditação, que o apóstolo Paulo costumava iniciar suas cartas às igrejas com uma saudação, seguida de uma oração pelos crentes a quem ele se dirigia. Cada oração geralmente continha tanto ações de graças como súplicas. Já vimos as razões pelas quais Paulo dá graças a Deus pela vida dos irmãos filipenses. Agora, vejamos quais as petições que o apóstolo faz a Deus em favor daqueles cristãos.

Ao meditarmos nesta oração de súplica, devemos almejar duas coisas. Por um lado, devemos desejar que também nós experimentemos as bênçãos espirituais que ele roga Deus conceda aos filipenses. Por outro, devemos nos sentir constrangidos a orar pelos nossos irmãos do presente, para que também eles desfrutem daqueles vistosos frutos da graça de Deus em suas vidas.

Que o vosso amor aumente

Se observarmos a passagem com cuidado, logo perceberemos que o apóstolo faz um único pedido a Deus – embora seja um pedido com diversas implicações – e este pedido é: que o amor daqueles crentes aumente mais e mais, em pleno conhecimento e toda a percepção (v. 9). Há muito a aprendermos aqui.

Em primeiro lugar, somos lembrados de que toda a vida cristã consiste sobretudo em amar a Deus. Não é este o maior de todos os mandamentos? Não é exatamente isso o que Deus mais requer de nós? Com efeito, somos convocados a amar ao Senhor de todo o nosso coração, de toda a nossa alma, com todo o nosso entendimento e com toda a nossa força (Mc 12.30).

Ora, isso nos leva a considerar o fato de que a vida cristã envolve um comprometimento de todo o nosso ser com Deus, com a Sua vontade, com os Seus comandos. Não há um recanto de nossas vidas que não deva estar em completa e amorosa submissão ao Senhor, de maneira que nós podemos ser verdadeiramente chamados o Seu povo e a Sua possessão peculiar entre todos os povos. Como cristãos, somos o povo amado do Senhor e o povo que O ama sobre todas as coisas.

Em segundo lugar, somos lembrados de que o nosso amor por Deus nunca deve estagnar. Já vimos como a igreja dos filipenses estava comprometida com Deus e com o evangelho, de modo que Paulo tinha inúmeras razões para render graças pela vida daqueles irmãos. De fato, os crentes de Filipos possuíam uma fé exemplar e uma conduta digna de ser imitada. Isso está fora de questão.

O apóstolo estava certo de que eles amavam verdadeiramente a Deus, mas ele não considerava que aquela medida de amor fosse bastante, de maneira que os filipenses pudessem considerar-se desobrigados de continuar a crescer em sua devoção ao Senhor. Por isso, Paulo roga para que o amor deles “aumente mais e mais” (v. 9). Aliás, adiante ele irá demonstrar uma insatisfação semelhante em relação à sua própria vida: “Não que eu o tenha já recebido ou tenha já obtido a perfeição; mas prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus” (Fp 3.12).

Como filhos de Deus, nós temos conhecido o amor que o Pai tem por nós. Nós sabemos que o Seu amor por nós foi tão grande ao ponto de ter Ele entregado o Seu único Filho para nos salvar, e isso quando nós ainda éramos pecadores, injustos, malignos e rebeldes (Jo 3.16; Rm 5.8-11). Ora, quando contemplamos a natureza imensurável do amor de Deus por nós, logo percebemos quão pertinente é a oração de Paulo. Perto do amor que o Senhor nos dispensou, o nosso amor por Ele é como uma gota de água na vastidão do oceano! Por isso, não importa o quanto já O amamos, precisamos amá-Lo “mais e mais”.

Em terceiro lugar, somos lembrados de que o nosso amor por Deus não está dissociado do nosso conhecimento de Deus. Ouçamos novamente a petição do apóstolo: “que o vosso amor aumente mais e mais em pleno conhecimento e toda a percepção” (v. 9). Ao contrário do que muitos pensam e loucamente afirmam, parece-nos muito claro nas Sagradas Escrituras que o nosso amor por Deus depende, em larga medida, do nosso conhecimento Dele.

Ter a mente cheia de verdades bíblicas sobre quem é Deus e quais são as Suas obras é um passo indispensável para qualquer um que deseja crescer no amor ao Senhor. Em sentido contrário, menosprezar ou desprezar o conhecimento bíblico sobre os atributos e os feitos de Deus é o mesmo que desprezar o próprio Deus!

Portanto, precisamos desesperadamente de um conhecimento cada vez mais profundo de Deus, para que possamos amá-Lo e amá-Lo numa intensidade cada vez maior. E esse tipo de conhecimento só pode ser adquirido de uma maneira: pela meditação perseverante e piedosa na Palavra de Deus.

Evidências de amor

Agora, apesar de a única petição de Paulo pelso filipenses ser para que eles possam amar a Deus mais e mais, é certo que o apóstolo espera que tal crescimento em amor tenha impactos profundos e visíveis sobre a vida daqueles irmãos. Ele nos mostra, assim, que existem evidências as quais sempre acompanham o verdadeiro crescimento de nosso amor por Deus.

Em primeiro lugar, vemos que, à medida que o nosso amor por Deus aumenta, aumenta também a nossa capacidade de aprovar as coisas que são excelentes (v. 10). O significado dessa expressão fica muito claro quando consideramos o resto da Carta aos Filipenses. “Aprovar as coisas excelentes” significa, na ótica de Paulo, ser capacitado a considerar Cristo como o tesouro supremo que Ele é, a percebê-lo e experimentá-lo como mais valioso do que todas as coisas que este mundo valoriza, e ama, e busca. O homem que aprova as coisas excelentes é aquele que, sem hipocrisia, pode dizer que considera todas as coisas como lixo e esterco, quando comparadas com a sublimidade do conhecimento de Cristo (Fp 3.7-11).

Mais do que isso, ser capaz de aprovar as coisas excelentes significa estar apto a perder todas as demais coisas por causa de Cristo sem que isso seja considerado em qualquer sentido um prejuízo ou um dano, sem que tal perda seja motivo de qualquer lamento. Afinal, o mesmo Paulo que fez esta oração foi aquele que alegremente aceitou perder todos os prazeres e regalias deste mundo “para conquistar a Cristo e ser achado Nele”. Uma vez que Paulo sabia valorizar o que é excelente, ele estava plenamente apto a dizer: “Para mim, o viver é Cristo e o morrer é lucro” (Fp 1.21). Isso é aprovar o que é excelente.

Em segundo lugar, vemos que, à medida que o nosso amor por Deus aumenta, aumenta também o nosso desejo de estarmos sinceros e inculpáveis para o Dia de Cristo (v. 10). Amamos a Deus e, por isso, procuramos viver de tal maneira como aqueles que, cedo ou tarde, haverão de se encontrar com o Senhor e desejam estar sempre prontos para serem chamados por Ele. O apóstolo João nos fala sobre isso em termos muito semelhantes: “E a si mesmo se purifica todo o que nele tem esta esperança, assim como ele é puro” (Jo 3.3). Isso não significa que dependemos de nossas obras para recebermos ou mantermos a nossa salvação; ao contrário, significa que temos tal consciência de como fomos amados por Deus, que nos sentimos constrangidos a viver neste mundo de maneira pura e íntegra, a fim de que, quando estivermos na plenitude de Sua santa presença, tenhamos uma oferta agradável a Lhe entregar.

Em terceiro lugar, vemos que, à medida que o nosso amor por Deus aumenta, aumenta também em nós o fruto de justiça (v. 11). Isso está diretamente relacionado ao ponto anterior. Na verdade, a maneira como nós nos tornamos sinceros e inculpáveis para o Dia de Cristo é dando mais e mais fruto de justiça. O crescimento do nosso amor por Deus é evidenciado pelo nosso crescimento na santificação e nas boas obras, as quais evidenciam que de fato fomos justificados por Deus pela fé em Cristo e regenerados para uma nova vida mediante a habitação do Espírito Santo.

De fato, não há amor por Deus ou cristianismo verdadeiro sem frutos de justiça, e não há crescimento em amor sem que isso resulte em crentes “cheios do fruto de justiça”. O próprio Senhor Jesus nos advertiu: “pelos frutos os conhecereis” (Mt 7.16-20), e aqui Paulo está tão somente repetindo o ensino do Senhor, ao orar para que os filipenses fossem sempre como galhos envergados de frutos vistosos e fartos.

Porém, para não nos deixar dúvidas de que “ao SENHOR pertence a salvação” (Jn 2.9), o apóstolo acrescenta que esses frutos de justiça — que devem estar presentes em todos os cristãos e numa medida cada vez maior – não procedem de nós mesmos, mas são “mediante Jesus Cristo” (v. 11). Ora, temos que dar muito fruto para o Senhor Jesus? É certo que sim! Contudo, esse fruto procede de nós mesmos? Mil vezes, não! Somos apenas os galhos que ostentam e exibem esses frutos, mas são a raiz da videira e sua seiva as responsáveis por prover absolutamente tudo o que é necessário para que eles apareçam e amadureçam.

Se todo o nosso fruto na vida cristã não procede de nós mesmos, mas vem mediante Jesus Cristo, não é de espantar que Paulo conclua afirmando que a nossa frutificação redundará na “glória e louvor de Deus” (v. 11). Nós não receberemos glória pelos nossos frutos; somente Deus a terá. Se nossos frutos realmente procedem Dele, é o Seu nome, e não o nosso, que será exaltado. É a Sua fama, e não a nossa, que correrá por toda a terra. Quando nossas boas obras procedem realmente de Jesus Cristo, os homens as veem em nós – afinal, somos os galhos que as ostentam! -, mas é ao Pai que eles glorificam.

Que o Senhor atenda à oração de Paulo também em nosso favor. Que Ele nos dê uma medida cada vez maior de amor, daquele amor alicerçado no verdadeiro conhecimento de Deus, para que possamos valorizar Aquele que é excelente e estar prontos para a Sua vinda, cheios do fruto de justiça que nasce de Cristo e redunda na glória do Pai celestial.

Por: Vinícius Silva Pimentel | PreciosoCristo | Original aqui.
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Meditações em Filipenses (II): Graças a Deus!

Vinícius S. Pimentel

Meditações em Filipenses

Dou graças ao meu Deus por tudo que recordo de vós, fazendo sempre, com alegria, súplicas por todos vós, em todas as minhas orações, pela vossa cooperação no evangelho, desde o primeiro dia até agora. Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus. Aliás, é justo que eu assim pense de todos vós, porque vos trago no coração, seja nas minhas algemas, seja na defesa e confirmação do evangelho, pois todos sois participantes da graça comigo. Pois minha testemunha é Deus, da saudade que tenho de todos vós, na terna misericórdia de Cristo Jesus. (Filipenses 1.3-8)

Após fazer a sua saudação inicial aos cristãos filipenses, o apóstolo Paulo faz uma oração a Deus pelos irmãos daquela igreja. Este também era um costume do apóstolo em suas cartas: com poucas exceções, as epístolas paulinas em geral contêm uma seção na qual Paulo dá graças a Deus pela vida dos crentes que compõem aquela determinada igreja, assim como apresenta suas petições ao Pai em favor daqueles discípulos do Senhor.

Nesta meditação, queremos nos concentrar no primeiro aspecto da oração de Paulo, isto é, as ações de graças que ele rende a Deus pela vida dos cristãos filipenses.

Ações de graças a Deus, por vós

Meditemos, em primeiro lugar, na alegria que o apóstolo sente por causa dos verdadeiros cristãos. Esta oração está cheia de expressões que expressam o regozijo de Paulo pela vida dos irmãos. Ele diz que sempre se recorda dos filipenses e ora por eles “com alegria” (v. 4). O apóstolo também diz que carrega aqueles irmãos “no coração” (v. 7) e que tem “saudade” de todos eles (v. 8).

Embora já tenhamos visto, na meditação anterior, que a igreja em Filipos tinha um significado especial na vida de Paulo, precisamos reconhecer que essas expressões de alegria e amor pelos irmãos não foram dirigidas exclusivamente àqueles crentes. O apóstolo expressa o seu regozijo também em outras epístolas escritas a outras igrejas (por exemplo, em Colossenses 1.3-8), de maneira que nós podemos afirmar, com certeza, que a alegria aqui externada manifesta a felicidade que Paulo sente por ver, em cada cristão verdadeiro, o crescimento da igreja, o progresso do evangelho e o cumprimento das promessas de Deus na história.

O Senhor Jesus nos ensinou que o amor de uns para com os outros é a grande marca da verdadeira igreja (cf. João 13.34-35). Além disso, também está escrito que devemos nutrir tal amor pelos nossos irmãos que, se for preciso, devemos dar a nossa própria vida em favor deles, assim como Cristo já deu a Sua vida em nosso favor (cf. 1João 3.16).

Agora, uma das maneiras mais autênticas pelas quais o verdadeiro amor se manifesta é através da alegria. Não é uma verdade facilmente reconhecida que nós sentimos alegria em estar com as pessoas que amamos? Com efeito, uma das provas mais evidentes do amor que dizemos sentir pelos nossos irmãos é o prazer que temos em nosso íntimo cada vez em que nos lembramos deles ou em que temos a oportunidade de estar juntos com eles.

A pergunta que precisamos fazer é esta: Será que nós sentimos essa mesma alegria que Paulo tinha, essa exultação sincera e profunda, quando contemplamos o crescimento dos nossos irmãos em Cristo? Será que nós também amamos a igreja e o seu crescimento da maneira que o apóstolo amava? Será que nós carregamos os nossos irmãos no coração e nos lembramos deles com carinhosa saudade?

Que esse tipo de alegria genuína brote e floresça em nossos corações, em favor de cada um dos nossos irmãos em Cristo!

Meditemos, em segundo lugar, na confiança que o apóstolo tem quanto ao futuro dos verdadeiros cristãos. No meio de sua oração, Paulo irrompe em um glorioso e confiante louvor a Deus, dizendo: “Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus” (v. 6). Estas palavras, sem dúvida, devem ter sido uma fonte de profundo consolo para os filipenses que a ouviram da primeira vez. Mais do que isso, elas são uma fonte de profundo consolo para todos os verdadeiros crentes que as lêem, ainda hoje.

A vida cristã não é fácil. Seguir Jesus significa também tornar-se participante dos Seus sofrimentos e fazer-se inimigo dos Seus inimigos. Por isso, como cristão, estamos frequentemente envolvidos em lutas e tribulações que, às vezes, parecem que jamais iráo acabar. Somos perseguidos por causa do Evangelho; lutamos continuamente contra as nossas próprias tendências pecaminosas; somos diariamente assediados pelas ofertas que o mundo nos traz; e, algumas vezes, sentimos como se todas as forças malignas do diabo e seus demônios estivessem diretamente voltadas contra nós. Além de tudo isso, lidamos com as dificuldades ordinárias decorrentes do fato de vivermos num mundo caído: problemas na família, dificuldades financeiras, enfermidades ou, até mesmo, a morte de alguém que amamos.

Sim, a vida cristã não é nada fácil. Porém, aqui, o apóstolo Paulo faz uma declaração que certamente nos consola e nos motiva a seguirmos adiante, caminhando com Cristo, a despeito de todos os inimigos contra os quais lutamos e de todas as dificuldades que enfrentamos ao longo da nossa jornada de fé. “Estou plenamente certo”, ele diz, “de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus”.

Que palavras maravilhosas! Não importa o quão difícil seja a vida cristã; não importa que, aparentemente, a igreja esteja sendo derrotada e os inimigos de Deus estejam se saindo vitoriosos; não importa nem mesmo que nós cristãos sejamos fracos em nós mesmos e completamente incapazes de levarmos a cabo a missão que recebemos do Senhor. Absolutamente nada disso tem qualquer significado, pois a causa de Deus prevalecerá, e isso pelo poder do próprio Deus! Todos os propósitos, desígnios e promessas do Senhor se cumprirão cabalmente, porque Ele é poderoso para isso e ninguém jamais foi capaz de resistir à Sua soberana vontade!

Este ponto precisa ser enfatizado de maneira adequada. Paulo afirma estar “plenamente certo” que a obra de Deus não ficará incompleta na vida de qualquer verdadeiro cristão, de maneira que, no Dia de Jesus Cristo, o edifício de Deus – que é a Igreja – estará completamente terminado, acabado. E o apóstolo faz questão de explicar que isso não acontecerá pela capacidade dos homens ou pela virtude dos crentes, mas pelas mãos onipotentes do próprio Deus.

Se você é um cristão genuíno, você precisa reter as palavras de Paulo e gravá-las em seu coração. Não importa o quão fraco você se sinta hoje, ou quantas dificuldades você esteja enfrentando; tão somente creia no poder de Deus que um dia começou esta boa obra em você. Se Ele teve poder para transformar um morto espiritual em uma nova criação, Ele também tem poder para fazer com que você persevere na fé e na santidade até o último dia de sua vida, de maneira que você jamais se perderá de Suas graciosas mãos. Descanse nesta verdade, e continue a caminhar com confiança.

Meditemos, em terceiro lugar, no motivo tanto da alegria como da confiança do apóstolo no tocante aos verdadeiros cristãos. Nós precisamos observar, por fim, que havia algo na vida dos filipenses que justificava tanto a alegria como a confiança de Paulo a respeito da salvação deles. Era o testemunho deles, a maneira como viviam, que evidenciava o fato de que eles eram genuinos participantes da graça de Deus. Por isso, após falar da sua confiança, o apóstolo diz: “Aliás, é justo que eu assim pense de todos vós” (v. 7).

Quais eram efetivamente as marcas na vida e no testemunho dos filipenses que evidenciavam a veracidade da sua fé? Que característica podemos ver na vida daqueles irmãos, que justificam a confiança de Paulo a respeito deles?

Podemos ver, antes de tudo, a constância e a perseverança deles. O apóstolo diz que eles vinham sendo cooperadores dele no evangelho “desde o primeiro dia até agora” (v. 5). Eles não eram crentes inconstantes e instáveis, mas eram firmes em seguir o Senhor em todo o tempo.

Podemos ver, ainda, a participação deles nos sofrimentos de Paulo por causa do evangelho. O apóstolo louva a Deus porque eles o estavam ajudando em suas algemas (v. 7), isto é, eles não estavam envergonhados de Paulo, antes, pelo contrário, estavam unidos a ele naquele momento de sofrimento na prisão.

Podemos ver, por fim, o envolvimento deles na pregação do evangelho. O apóstolo afirma, com alegria, que os filipenses eram seus cooperadores “na defesa e confirmação do evangelho” (v. 7), ou seja, aqueles crentes estavam engajados na missão de evangelizar o mundo e fazer discípulos para o Senhor.

Essas três marcas, assim, eram vistas pelo apóstolo Paulo como sinais evidentes de que os crentes da igreja em Filipos eram genuínos filhos de Deus, homens verdadeiramente nascidos de novo e alcançados pela salvação eterna. Por esse motivo, Paulo se alegrava com a vida deles e tinha confiança de que eles jamais se perderiam do Caminho.

Essas marcas estão presentes também nas nossas vidas? Se sim, que possamos continuar crescendo na graça, sem jamais perder a nossa confiança no poder de Deus para guardar a nossa salvação. Porém, se não temos manifestado essas evidências da verdadeira fé, que possamos nos arrepender do nosso pecado e nos lavar no sangue de Jesus.

Por: Vinícius Silva Pimentel | PreciosoCristo | Original aqui.
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Meditações em Filipenses (I): Do servo para os santos

Vinícius S. Pimentel

Meditações em Filipenses

Paulo e Timóteo, servos de Cristo Jesus, a todos os santos em Cristo Jesus, inclusive bispos e diáconos que vivem em Filipos, graça e paz a vós outros, da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo. (Filipenses 1.1-2)

Contexto e propósito

Apesar de sua pequena extensão, a Epístola de Paulo aos Filipenses é um livro cheio de ensinamentos e de lições práticas poderosas para todos os crentes. Se queremos ouvir mais claramente a voz de Deus nesta carta, precisamos observar antes de tudo o contexto em que ela foi escrita, assim como o propósito pelo qual Paulo a enviou à igreja.

Primeiro, vamos ao contexto. Quando escreveu esta carta, o apóstolo Paulo estava preso – provavelmente em Roma, naquele encarceramento que é relatado no último capítulo do livro de Atos (28.16-31) –, como nós podemos deduzir pelas diversas vezes que ele se refere a “algemas” e “cadeias” (cf. Filipenses 1.7, 13, 14). É preciso entender que, embora Paulo estivesse confiante em Deus de que seria liberto, havia um risco concreto de que o apóstolo fosse condenado à morte pelo imperador romano, o qual haveria de julgá-lo.

Agora, vamos ao propósito. Paulo era o fundador da igreja na cidade de Filipos, na Macedônia. Na verdade, a congregação dos filipenses tinha um significado especial na vida de Paulo, uma vez que havia sido a primeira igreja plantada por ele na Europa, em sua segunda viagem missionária (cf. Atos 16.11-40).

Ao invés de abandonarem o apóstolo naquele momento de angústia e aflição, os filipenses decidiram enviar a Paulo, através de Epafrodito, o suprimento para as suas necessidades (cf. Filipenses 4.10, 18). Então, após receber a provisão dos irmãos, Paulo decide escrevê-los não apenas para dar graças pela sua atitude, mas também para encorajar os filipenses a permanecerem firmes na fé e a continuarem crescendo na graça e no conhecimento de Jesus Cristo, apesar de todas as perseguições e tribulações que tivessem de enfrentar.

Conhecer a situação de Paulo no momento em que a carta foi escrita, bem como o seu propósito, nos ajuda a ver com ainda mais clareza a firmeza da fé do apóstolo e a alegria, segurança, paz e contentamento que dominavam o seu coração, apesar de todas as dificuldades. De fato, o sentimento que Paulo evidencia em todo o livro de Filipenses é a “alegria no Senhor” (ou, poderíamos dizer, a satisfação em Deus).

Por esse motivo, a meditação na carta aos Filipenses tem sido uma fonte abundante de consolo para a igreja militante ao longo dos séculos. Os cristãos que enfrentam tribulações e perseguição por causa do evangelho podem encontrar, nesta epístola, o caminho para que a sua confiança em Deus permaneça inabalável, apesar de todas as dificuldades da jornada da fé. Ao mesmo tempo, os cristãos que estão vivendo de maneira inconstante podem encontrar um poderoso exemplo e inspiração para que sejam mais firmes em sua caminhada, a fim de que sejam encontrados íntegros e irrepreensíveis no Dia do Senhor.

A saudação

Paulo começa a epístola, de maneira habitual, fazendo uma saudação aos seus leitores. Embora, em geral, passemos rapidamente por esta saudação em nossa leitura bíblica, com certeza há muito para aprender ao meditarmos nas palavras do apóstolo. Afinal, “toda a Escritura é inspirada por Deus e útil” (2Timóteo 3.16).

Meditemos, em primeiro lugar, no fato de o apóstolo identificar-se a si mesmo (e a Timóteo) como “servo de Cristo Jesus” (v. 1). Para o homem natural, é notável que alguém como o apóstolo Paulo aceitasse alegremente chamar a si mesmo de “escravo”. Paulo havia sido uma figura de destaque em seu próprio tempo: um judeu zeloso da linha mais nobre da religião judaica (os fariseus), ensinado aos pés de um grande mestre judaico de sua época (Gamaliel) e portador de um dos títulos mais cobiçados do mundo no qual ele vivia (a cidadania romana). Segundo a sabedoria deste século, nenhuma expressão era mais inapropriada para referir-se a Paulo do que a alcunha de “escravo”!

Contudo, é exatamente assim que o apóstolo vê a si mesmo: um escravo de Jesus Cristo. E é com grande alegria que Paulo se identifica dessa maneira, pois não existe honra maior para um homem do que ser contado entre os servos do grande Rei, o Soberano dos reis da terra (cf. Apocalipse 1.5), Aquele que possui toda a autoridade sobre o universo (Mateus 28.18).

Além disso, Paulo também sabia que o próprio Jesus, embora sendo Deus, a segunda bendita Pessoa da Trindade, havia se esvaziado e assumido a forma de um escravo, a fim de resgatar a humanidade do pecado e ser reconhecido, no mundo inteiro, como o único verdadeiro Senhor (cf. Filipenses 2.5-11). Ora, se o próprio Senhor de Paulo havia aceitado alegremente fazer-se Servo e sofrer a pior de todas as mortes por amor a Deus Pai e à humanidade caída, por que Paulo não haveria de aceitar, com a mesma alegria, ser reconhecido como um servo de Jesus, por amor a Deus e aos irmãos?

Paulo havia aprendido, com o próprio Cristo, que o homem verdadeiramente grande no reino de Deus é aquele que se humilha para servir a todos (Mateus 20.25-28). Da mesma maneira, todos os cristãos deveriam estar sempre prontos para aceitar a humilhação de servir a outros – pois, quando vivemos com tal disposição, estamos mostrando que somos de fato participantes da vida do próprio Jesus Cristo. Sendo assim, que possamos imitar o apóstolo Paulo e, em todas as circunstâncias, sermos reconhecidos em nossas palavras e obras como “servos de Cristo Jesus”.

Meditemos, em segundo lugar, no fato de o apóstolo identificar todos os verdadeiros crentes como “santos em Cristo Jesus” (v. 1). Os adeptos da heresia romana chamam de santos apenas certos homens a quem consideram exemplos especiais de uma vida moral e piedosa. Porém, aqui, o apóstolo se dirige a todos os irmãos da igreja em Filipos e chama-os de “santos”. Porém, uma vez que eles não são, de maneira alguma, aceitos diante de Deus por seus próprios méritos, Paulo acrescenta adequadamente que eles são “santos em Cristo Jesus”.

Como nós sabemos, a palavra “santo” significa “separado”. Quando usada em relação a Deus, ela designa a incomparável perfeição moral do SENHOR: Deus é santo porque Ele é único e ninguém jamais poderá fazer-se igual a Ele. Porém, quando usada em relação aos homens, a palavra “santo” serve para indicar aqueles que foram separados por Deus para refletir neste mundo caído, de maneira relativa, a perfeição moral que apenas Ele possui de maneira absoluta. Nesse sentido, “santos” são aqueles a quem Deus chamou para andarem com Ele e servi-Lo, brilhando a sua luz de maneira que o mundo inteiro veja as suas boas obras e, então, glorifique ao Pai que está nos céus (cf. Mateus 5.16).

Ora, Paulo faz questão de enfatizar que todos os verdadeiros crentes são santos em Cristo Jesus. Por um lado, isso significa que um verdadeiro crente é sem dúvida alguém que vive de maneira distinta neste mundo, refletindo com suas boas obras a perfeição moral do Deus a quem ele serve. Se alguém não vive assim, glorificando a Deus em seu viver diário, tal pessoa deve arrepender-se imediatamente do seu pecado e lavar-se no sangue de Jesus Cristo.

Por outro lado, a maneira como Paulo chama os crentes de “santos em Cristo Jesus” nos lembra de que a nossa santidade não vem de nós mesmos, mas procede inteiramente do próprio Deus que nos chamou, em Cristo Jesus, para andarmos em Sua presença. Se nós somos santos, é simplesmente porque aprouve a Deus nos fazer participantes da Sua própria santidade (cf. Hebreus 12.10), de maneira que nenhum de nós pode se orgulhar disso; pelo contrário, devemos dar toda a glória a Deus.

Meditemos, em terceiro lugar, naquilo que o apóstolo deseja que todos os verdadeiros crentes experimentem mais e mais: “graça e paz… da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo” (v. 2). Todos nós usamos esta saudação, mas poucos realmente param para pensar em seu significado. Quando Paulo deseja que os filipenses continuem a experimentar a graça e a paz, que procedem do Pai e chegam a nós pelo Filho, ele está desejando que aqueles irmãos jamais se afastem da graça que os salvou e lhes deu a paz com Deus; mais do que isso, o apóstolo está rogando ao próprio Deus que derrame sobre aqueles crentes uma medida cada vez maior de graça e de paz.

Este desejo que estava no coração de Paulo, ao escrever aos filipenses, deveria também estar em nosso coração, cada vez que saudamos os nossos irmãos na fé. Devemos sempre rogar que os nossos irmãos jamais se apartem da verdadeira fé em Cristo e jamais abandonem a perfeita paz da qual todos os verdadeiros filhos de Deus são participantes.

Ao lermos a breve saudação do apóstolo Paulo aos filipenses, portanto, que possamos guardar todas essas lições. Aceitemos com alegria a posição de servos de Jesus Cristo e busquemos servir os nossos irmãos. Vivamos de maneira santa neste mundo, ao mesmo tempo que demos toda a glória por isso a Deus, que nos santificou em Cristo Jesus. Além disso, andemos sempre em paz com Deus, por meio da graça que há em Cristo Jesus, e desejemos que os nossos irmãos caminhem da mesma maneira.

Por: Vinícius Silva Pimentel | PreciosoCristo | Original aqui.
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