[Livro do mês] John Stott – “A cruz de Cristo”

John Stott

Livro do mês - A cruz de Cristo

Tenho como um enorme privilégio o ter sido convidado para escrever um livro sobre o maior e mais glorioso de todos os temas, a cruz de Cristo. Dos vários anos de trabalho despendidos nesta tarefa, emergi espiritualmente enriquecido, com minhas convicções aclaradas e fortalecidas, e com uma firme resolução de gastar o restante dos meus dias na terra (assim como sei que toda a congregação dos redimidos passará a eternidade no céu) no serviço liberador do Cristo crucificado.

É oportuno que um livro sobre a cruz faça parte das celebrações do Jubileu de Ouro da Inter-Varsity Press, a quem o público leitor muito deve. Pois a cruz é o centro da fé evangélica. Deveras, como argumento neste livro, ela jaz no centro da fé histórica, bíblica, e o fato de que esta verdade não é sempre reconhecida em toda a parte em si mesmo é justificativa suficiente para preservar um testemunho distintamente evangélico. Os cristãos evangélicos crêem que em Cristo e através do Cristo crucificado Deus substituiu a si mesmo por nós e levou os nossos pecados, morrendo em nosso lugar a morte que merecíamos morrer, a fim de que pudéssemos ser restaurados em seu favor e adotados na sua família. O Dr. J. I. Packer com acerto escreveu que esta crença “é o marco distintivo da fraternidade evangélica mundial” (embora “muitas vezes seja mal compreendida e caricaturada por seus críticos”); ela “nos leva ao próprio coração do evangelho cristão”.

É necessário que se esclareça a distinção entre uma compreensão “objetiva” e “subjetiva” da expiação em cada geração. Segundo o Dr. Douglas Johnson, esta descoberta foi um momento decisivo no ministério do Dr. Martyn Lloyd-Jones, que ocupou uma posição singular de liderança evangélica nas décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial. Ele confidenciou a vários amigos que “uma mudança fundamental ocorreu em sua perspectiva e pregação no ano de 1929”. Ele tinha, é claro, dado ênfase, desde o princípio do seu ministério à necessidade indispensável do novo nascimento. Mas, certa noite, depois de pregar em Bridgend, South Wales, o ministro local desafiou-o dizendo que “parecia que a cruz e a obra de Cristo” ocupavam um pequeno lugar em sua pregação. Imediatamente ele foi a uma livraria que vende livros usados e pediu ao proprietário os dois livros padrão sobre a Expiação. O livreiro apresentou a Expiação de R. W. Dale (1875) e A Morte de Cristo de James Denney (1903). Tendo voltado para casa, ele se entregou totalmente ao estudo, recusando o almoço e o chá, e causando tal ansiedade à esposa que esta telefonou a seu irmão perguntando se devia chamar um médico.

Porém, ao emergir da reclusão, Lloyd-Jones dizia ter encontrado “o verdadeiro coração do evangelho e o segredo do significado interior da fé cristã”. De sorte que o conteúdo de sua pregação mudou, e com esta mudança o seu impacto. Nas próprias palavras dele, a questão básica não era a pergunta de Anselmo “por que Deus se tornou homem?” mas “por que Cristo morreu?”

Por causa da importância vital da expiação, e de uma compreensão dela que retire toda falsa informação dos grandes conceitos bíblicos de “substituição”, “satisfação” e “propiciação”, duas coisas têm-me grandemente surpreendido. A primeira é a tremenda impopularidade em que a doutrina permanece. Alguns teólogos demonstram relutância estranha em aceitá-la, mesmo quando compreendem claramente sua base bíblica. Penso, por exemplo, naquele notável erudito metodista, Vincent Taylor. Sua erudição aprimorada e abrangente encontra- se exemplificada em seus três livros sobre a cruz — Jesus e Seu Sacrifício (1937), A Expiação no Ensino do Novo Testamento (1940) e Perdão e Reconciliação (1946). Ele, ao descrever a morte de Cristo, emprega muitos adjetivos como “vicária”, “redentora”, “reconciliadora”, “expiatória”, “sacrificial” e especialmente “representativa”. Mas não consegue chamá-la de “substitutiva”. Depois de um exame rigoroso do primitivo ensino e crença cristã de Paulo, de Hebreus e de João, escreve ele o seguinte acerca da obra de Cristo: “Nenhuma das passagens que examinamos descreve-a como a de um substituto. . . Em lugar algum encontramos apoio para tais conceitos.” Não, a obra de Cristo foi um “ministério realizado em nosso favor, mas não em nosso lugar”. Contudo, embora Vincent Taylor tenha feito estas espantosas afirmativas, fê-las com grande desconforto. Sua veemência nos deixa despreparados para as concessões que mais tarde ele se sente obrigado a fazer. “Talvez o aspecto mais admirável do ensino do Novo Testamento referente à obra representativa de Cristo”, escreve ele, “seja o fato de chegar bem perto dos limites da doutrina substitutiva sem, na realidade, atravessá-los. O paulinismo, em particular, encontra-se a uma distância mínima da substituição”. Ele até mesmo confessa a respeito de teólogos do Novo Testamento que “com demasiada frequência nos contentamos em negar a substituição sem substituí-la”, e que é uma noção que “talvez estejamos mais ansiosos a rejeitar do que a examinar”. Entretanto, o que procurarei mostrar neste livro é que a doutrina bíblica da expiação é substitutiva do princípio ao fim. O que Vincent Taylor não quis aceitar não foi a doutrina em si, mas as cruezas de pensamento e expressão das quais os advogados da substituição têm, com bastante frequência, sido culpados.

Minha segunda surpresa, em vista da centralidade da cruz de Cristo, é que nenhum livro sobre este tópico foi escrito por um escritor evangélico para leitores sérios (até dois ou três anos atrás) por quase meio século. É verdade, surgiram vários livros pequenos, e apareceram algumas obras de peso. Gostaria de prestar tributo especial aos notáveis labores neste campo do Dr. Leon Morris, de Melbourne, Austrália. O seu livro Pregação Apostólica da Cruz (1955) deixou-nos todos em dívida, e alegro-me de que ele tenha trazido o conteúdo da obra ao alcance dos leigos em A Expiação (1983). Ele se tomou mestre da vasta literatura de todas as épocas sobre este tema, e seu livro A Cruz no Novo Testamento (1965) permanece, provavelmente, o exame mais completo hoje disponível. Dessa obra cito com caloroso endosso sua afirmativa de que “a cruz domina o Novo Testamento”.

Todavia, até à recente publicação do livro de Ronald Wallace intitulado A Morte Expiatória de Cristo (1981) e do de Michael Green A Cruz Vazia de Jesus (1984), não conheço outro livro evangélico para os leitores que tenho em mente, desde a obra de H. E. Guillebaud Por que a Cruz? (1937), que foi um dos primeiros livros editados pela IVF. Foi um livro corajoso, que enfrentou diretamente os críticos da expiação substitutiva com três perguntas: (1) “é cristã?” (isto é, compatível com os ensinos de Jesus e seus apóstolos); (2) “é imoral?” (isto é, compatível ou incompatível com a justiça); e (3) “é incrível?” (isto é, compatível ou incompatível com problemas como o tempo e a transferência da culpa.

Meu interesse é um pouco mais abrangente, pois este não é um livro apenas sobre a expiação, mas também sobre a cruz. Depois dos três capítulos introdutórios que formam a Primeira Parte, chego, na Segunda Parte, ao que chamei de “o coração da cruz”, na qual argumento em favor de uma compreensão verdadeiramente bíblica das noções de “satisfação” e “substituição”. Na Terceira Parte passo a três grandes realizações da cruz, a saber, salvar os pecadores, revelar a Deus e vencer o mal. A Quarta Parte, porém, trata de áreas que muitas vezes são omitidas nos livros sobre a cruz, isto é, o que significa à comunidade cristã “viver sob a cruz”. Procuro mostrar que a cruz a tudo transforma. Ela dá um relacionamento novo de adoração a Deus, uma compreensão nova e equilibrada de nós mesmos, um incentivo novo para nossa missão, um novo amor para com nossos inimigos e uma nova coragem para encarar as perplexidades do sofrimento.

Ao desenvolver o meu tema, conservei em mente o triângulo Escritura, tradição e mundo moderno. Meu primeiro desejo foi ser fiel à Palavra de Deus, permitindo que ela diga o que tem para dizer e não pedindo que ela diga o que eu gostaria que ela dissesse. Não há alternativa à exegese textual cuidadosa. Em segundo lugar, procurei partilhar alguns dos frutos das minhas leituras. Ao procurar compreender a cruz, não podemos ignorar as grandes obras do passado. Desrespeitar a tradição e a teologia histórica é desrespeitar o Espírito Santo que tem ativamente iluminado a igreja em todos os séculos. Então, em terceiro lugar, tentei compreender a Escritura, não apenas à sua própria luz e à luz da tradição, mas também com relação ao mundo contemporâneo. Perguntei o que a cruz de Cristo diz para nós que vivemos no final do século vinte.

Ao ousar escrever (e ler) um livro a respeito da cruz, há, é claro, um grande perigo de presunção. Isto, em parte, advém do fato de que o que realmente aconteceu quando “Deus estava reconciliando consigo mesmo o mundo em Cristo” é um mistério cujas profundezas passaremos a eternidade examinando; e, em parte, porque seria muitíssimo impróprio fingir um frio desprendimento à medida que contemplamos a cruz de Cristo. Quer queiramos, quer não, estamos envolvidos. Nossos pecados o colocaram aí. De sorte que, longe de nos elogiar, a cruz mina nossa justiça própria. Só podemos nos aproximar dela com a cabeça curvada e em espírito de contrição. E aí permanecemos até que o Senhor Jesus nos conceda ao coração sua palavra de perdão e aceitação, e nós, presos por seu amor, e transbordantes de ação de graças, saíamos para o mundo a fim de viver as nossas vidas no serviço dele.

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Informações do livro

Título: A Cruz de Cristo
Autor:
 John Stott
Editora: Vida
Edição:
Ano: 2006
Número de páginas: 360

Fonte: STOTT, John. A cruz de Cristo. São Paulo/SP: Vida, 2006.
Por:
Áurea Emanoela Holanda Lemos | PreciosoCristo | Original aqui.
Permissões: Você está autorizado e incentivado a reproduzir e distribuir este material em qualquer formato, desde que inclua estes créditos, não altere o conteúdo original e não o utilize para fins comerciais.

Romanos 8 e a nossa santificação

Vinícius S. Pimentel

Romanos 8 e a nossa santificação

Como todos nós sabemos (ou deveríamos saber), a santificação é um elemento absolutamente essencial na vida cristã. Essa é uma afirmação que aparece, de modo latente ou patente, por toda a Escritura, e em poucos lugares ela é apresentada tão claramente quanto em Hebreus 12.14: “Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor”. Isso significa que um crente é, por definição, um homem santificado.

Ao mesmo tempo, porém, todo cristão verdadeiro sabe, por sua própria experiência, quão desafiador, lento e até doloroso é – muitas vezes! – o processo de santificação. É uma realidade universal, no que concerne aos crentes genuínos, que nós estamos sempre prontos a reconhecer a importância da santidade, mas nem sempre encontramos em nossa alma a mesma disposição para praticar a santidade. Por causa da nova vida que temos, em Cristo Jesus, nós de fato desejamos andar como homens santos; todavia, por causa da carne que ainda milita em nosso ser, nós encontramos imensos obstáculos à medida que procuramos caminhar por modo digno do Senhor, para o Seu inteiro agrado.

O crente é, por assim dizer, um “homem dividido”: no recôndito mais profundo do seu ser, naquilo que é mais essencialmente verdadeiro a seu respeito, o cristão ama e busca a santidade; contudo, em muitos aspectos de sua vida (eu arriscaria dizer em todos eles), ele ainda é obrigado a reconhecer a presença de “resquícios de pecado” que mancham o seu testemunho e o fazem corar de vergonha. A realidade desse “homem dividido” – que tem prazer na lei de Deus, mas fatalmente descobre que o mal ainda reside em seu ser – é aquilo que faz Paulo exclamar com profunda dor: “Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” (Romanos 7.24).

Com efeito, o texto de Romanos 7.14-25 é uma das passagens mais agonizantes de toda a Escritura. Ali, o apóstolo Paulo, o maior exemplo de fé e vida que encontramos no Novo Testamento, expõe a si mesmo como um homem dividido, um homem que muitas vezes é obrigado a reconhecer em si mesmo a sua própria desconformidade em relação à Lei de Cristo. E, mesmo quando o apóstolo é capaz de erguer os seus olhos e gritar “Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor”, as suas últimas palavras no capítulo ainda são de contagiante lamento: “De maneira que eu, de mim mesmo, com a mente, sou escravo da lei de Deus, mas, segundo a carne, da lei do pecado” (v. 25).

Entretanto, no capítulo 8, Paulo passa a discorrer a respeito do motivo de sua gratidão a Jesus Cristo, no que diz respeito à santificação. Aquela afirmação tímida do capítulo 7, “Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor” é aqui reiterada e expandida, de modo que o tom de lamento dá lugar a uma explosão de alegria, confiança, segurança e firmeza, em razão daquilo que Deus fez por nós, Seus filhos, em Cristo Jesus.

Ao que nos parece, o ponto de Paulo pode ser resumido como segue: uma vez que a obra de Jesus Cristo em favor do Seu povo é plena e perfeita, ela nos assegura não apenas a nossa justificação, mas também a nossa santificação e tudo o mais que nos seja necessário nesta vida, de maneira que, quando finalmente estivermos diante do trono do julgamento, nada nos faltará, em virtude de tudo o que Cristo conquistou para nós, e seremos plenamente livrados da ira de Deus. Ou, como o apóstolo nos diz em outro lugar: “Mas vós sois dele, em Cristo Jesus,o qual se nos tornou, da parte de Deus, sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção” (1Coríntios 1.30)

O que nós encontramos em Romanos 8, portanto, é um pleno tesouro de conforto, encorajamento e segurança para a nossa vida de santificação. Vale a pena, então, meditar com mais cuidado nas verdades ali ensinadas:

1. O Evangelho inclui as boas notícias de que Cristo adquiriu a nossa santificação pessoal. Se a falta de santificação pode impedir um homem de ver a Deus, então a obra de salvação consumada pelo Senhor Jesus deveria incluir a nossa santidade – do contrário, jamais seríamos salvos. Mas, de fato, “nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1), e isso “porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, [nos] livrou da lei do pecado e da morte” (v. 2). Paulo explica que essa santificação operada em nós pelo Espírito Santo é resultante da obra de Cristo, a quem Deus enviou “em semelhança de carne pecaminosa e no tocante ao pecado” (v. 3), “a fim de que o preceito da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito” (v.4).

2. A habitação do Espírito Santo nos assegura a santificação no presente, bem como a ressurreição no futuro. A santificação é um assunto sério, e lutar pela santificação é nosso dever. Aqueles que “estão na carne não podem agradar a Deus” (v. 5-8). Porém, todos os verdadeiros crentes estão em Cristo, e todos os que estão em Cristo são a morada do Espírito Santo (v. 9). Sendo assim, o nosso corpo ainda pode exibir resquícios de pecado e consequências da corrupção humana, “mas o espírito é vida, por causa da justiça” (v. 10). E esse mesmo Espírito, que é a fonte e o penhor de nossa nova vida, certamente permanecerá agindo eficazmente em nós até o fim, quando Ele então “vivificará também o [nosso] corpo mortal” (v. 11).

3. A habitação do Espírito Santo nos constrange à santificação – não pelo temor de que sejamos condenados por Deus, mas pela certeza de que Ele nos salvou e nos aceitou em Sua família, como filhos amados. A presença do Espírito em nós faz com que nos sintamos “devedores” de Deus (v. 12), de maneira que somos constrangidos, impulsionados, amorosamente pressionados a nos engajarmos numa verdadeira guerra contra o pecado: “se, pelo Espírito, mortificardes os feitos do corpo, certamente, vivereis” (v. 13). Mas a grande motivação para estarmos nessa guerra não é tanto o medo de sermos lançados no inferno, e sim a certeza de que “todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (v. 14). Essa doce certeza nos dá a alegre ousadia de chamarmos Deus de “Paizinho” (“Aba, Pai”, v. 15), pois “o próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus” (v. 16). Ora, “se somos filhos, somos também herdeiros” (v. 17): por mais árdua e sangrenta que seja a nossa luta contra o pecado, temos a plena segurança de que possuímos na eternidade uma vida superior e um reino inabalável, e nisso está a nossa alegria e glória.

4. A constante luta contra o pecado nos faz ansiar ainda mais pela eternidade. Os sofrimentos resultantes da guerra pela santificação frequentemente nos fazem pensar na vaidade desta vida. Ora, se esta existência fosse tudo que tivéssemos, os crentes seriam mesmo os mais miseráveis de todos os homens, como o apóstolo diz em outro lugar (1Coríntios 15.19). Porém, nós temos a certeza de uma vida futura e, quando meditamos nessa vida e contemplamos o Dia que já vem raiando, podemos afirmar com ousadia que “os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós” (v. 18). Sim, naquele Dia, até a criação como um todo será redimida do cativeiro de corrupção e inutilidade no qual hoje se encontra (v. 19-22). Mais do que isso, os filhos de Deus experimentarão a redenção de seus corpos: todo resquício de pecado ainda presente será completamente removido e extirpado, de maneira que eles ingressarão numa vida de completa santidade, para sempre (v. 23). Essa é mesmo uma esperança magnífica! E é por isso que nós a aguardamos com tanta paciência, em meio às lutas do presente (v. 24-25).

5. Mesmo nos momentos de maior fraqueza, nós contamos com a ajuda sobrenatural e poderosa do Espírito Santo. “Também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza” (v. 26). Essa ajuda divina é intensa e poderosa, de maneira que, quando não conseguimos sequer orar por nós mesmos, o Deus Espírito intensifica as Suas intercessões por nós perante o Pai, e faz isso “sobremaneira, com gemidos inexprimíveis” (v. 26). Ora, se o Pai e o Espírito são um só Deus, podemos ter certeza absoluta de que tal oração será infalivelmente ouvida e prontamente atendida! “E aquele que sonda os corações sabe qual é a mente do Espírito, porque segundo a vontade de Deus é que ele intercede pelos santos” (v. 27).

6. Mesmo nos momentos de maior fraqueza, nós contamos com a providência de Deus em nosso favor – e isso nos assegura que a Sua obra em nós não pode ficar inacabada. É significativo que a afirmação mais sublime acerca da providência de Deus esteja encravada neste contexto, no qual Paulo apresenta a segurança do crente em meio aos sofrimentos da luta contra o pecado. “Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (v. 28). Um crente, por causa de suas fraquezas e tropeços, é frequentemente assaltado por dúvidas e frustrações, mas aqui está um remédio poderoso: nada, absolutamente nada, escapa do controle do Deus que escolheu um povo para Si e que ordena todos os acontecimentos do universo para a Sua glória e para o benefício eterno daqueles por quem Ele se afeiçoou. Esse povo a quem Deus amou foi predestinado para ser semelhante ao Senhor Jesus, e nada pode impedi-los de alcançar o seu destino (v. 29). Em Cristo, Eles foram amados, eleitos, justificados e glorificados – e absolutamente nada pode quebrar essa “cadeia de ouro”, pois é o próprio Deus que a mantém (v. 30).

7. Em Cristo, Deus se tornou favorável a nós – e absolutamente nada pode mudar isso. O apóstolo faz uma série de perguntas destinadas a confirmar no coração dos crentes o fato de que eles são amados por Deus e, sendo assim objeto do cuidado paternal de Deus, eles podem ter a confiança de que a sua aceitação diante do Pai é garantida para sempre, apesar de suas fraquezas no presente.

“Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (v. 31) – os nossos maiores inimigos e obstáculos são como poeira diante do Deus Todo-Poderoso, e aquilo que parece uma muralha intransponível para nós não é para Ele mais alto do que um meio-fio!

“Aquele que não poupou o seu próprio filho, antes, por todos nós o entregou, porventura não nos dará graciosamente com ele todas as coisas?” (v. 32). Se Deus foi capaz de nos amar ao ponto de sacrificar o Seu unigênito, e isso quando nós ainda éramos pecadores incorrigíveis e inveterados, o que pode fazê-Lo voltar-se contra nós, agora que já fomos justificados, aceitos em Sua família e selados com o Seu santo Espírito?

“Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus?” (v. 33). Quem levantará o dedo em riste contra aqueles a quem Deus amou e liberalmente aceitou em Sua casa? Se “é Deus quem os justifica”, se é o Justo Deus quem os considera justos, quem pode questioná-lo? “Quem os condenará?” (v. 34). Sim, que acusação a nosso respeito pode permanecer de pé, se já fomos sentenciados como dignos de morte eterna e tal sentença já foi executada sobre Jesus Cristo, na cruz, em nosso lugar? “É Cristo Jesus quem morreu ou, antes, quem ressuscitou, o qual está à direita de Deus e também intercede por nós”.

“Quem nos separará do amor de Cristo?” (v. 35). Não é que não haja muitos tentando tal coisa: tribulação, angústia, perseguição, fome, nudez, perigo e espada, todas essas coisas se levantam contra um crente para pressioná-lo a abandonar a sua fé e desistir de andar pelo caminho estreito. Talvez até mesmo a morte se apresente diante de nós, fazendo apelos e ameaças para que neguemos o Senhor Jesus (v. 36). Porém, como esses terríveis inimigos podem conseguir alguma vantagem sobre nós, se mesmo no meio delas nós “somos mais do que vencedores, por meio daquele que nos amou” (v. 37)? Se tal vitória, o Senhor nos assegura, já pertence aos crentes e não pode lhes ser tirada, então podemos ficar bem certos de que “nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (v. 38-39).

Que essas verdades sejam um verdadeiro consolo e encorajamento em nosso coração, à medida que caminhamos nesta jornada de santificação. Que elas sejam também uma motivação e um constrangimento para que busquemos a santidade, na certeza de que tudo aquilo de que precisamos para esta vida e para a vindoura já é nosso, em Cristo Jesus.

Por: Vinícius Silva Pimentel | PreciosoCristo | Original aqui.
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Apresentando a fé e o arrependimento (III)

Greg Gilbert

(Leia a PARTE 1 e a PARTE 2)

Apresentando a fé e o arrependimento

Arrependimento, não perfeição, mas lutar

Arrependimento do pecado não significa necessariamente que você para de pecar – não totalmente e, com muita frequência, não em áreas específicas. Os cristãos ainda são pecadores caídos, mesmo depois de haverem recebido de Deus uma nova vida espiritual, e continuarão a lutar contra o pecado, até serem glorificados com Jesus (veja Gálatas 5.17; 1 João 2.1). contudo, ainda que o arrependimento não signifique um fim imediato de nosso pecar, ele significa que não mais viveremos em paz com nosso pecado. Declararemos guerra mortal contra o pecado e nos dedicaremos a resistir-lhe pelo poder de Deus em todas as frentes de nossa vida.

Muitos cristãos combatem fortemente essa ideia de arrependimento porque esperam, de algum modo, que se eles se arrependerem genuinamente, o pecado irá embora e a tentação cessará. Quando isso não acontece, eles caem em desespero, questionando a si mesmos quanto à realidade de sua fé em Jesus. É verdade que, ao regenerar-nos, Deus nos dá poder para lutar contra o pecado e vencê-lo (1 Coríntios 10.13). mas, visto que continuaremos a lutar contra o pecado até que sejamos glorificados, temos de lembrar que o arrependimento verdadeiro é, mais fundamentalmente, uma questão de atitude do coração para com o pecado, e não uma simples mudança de comportamento. Odiamos o pecado e lutamos contra ele ou apreciamos o pecado e o defendemos?

Um escritor expressou essa verdade com muita beleza:

“A diferença entre um não-convertido e um convertido não é que um tem pecados e o outro não tem nenhum. A diferença é que um se coloca ao lado de seus pecados queridos em oposição a um Deus terrível, e o outro se coloca ao lado de um Deus reconciliado em oposição aos seus pecados odiados.”

Então, em que lado você se coloca: de seus pecados ou de seu Deus?

Para onde você apontará?

Quando você estiver diante de Deus, no julgamento, o que você planeja fazer ou dizer para convencer a Deus a considera-lo justo e admiti-lo a todas as bênçãos do reino dele? Que boas ações ou atitudes piedosas você lhe apresentará para impressioná-lo? Você apresentará sua frequência à igreja? Sua vida familiar? Seus pensamentos impecáveis? O fato de que você não fez algo realmente deplorável aos seus próprios olhos? Duvido que se apresentará a Deus e lhe dirá: “Deus, por conta de tudo isso, justifique-me!”

Eu lhe direi o que fará todo cristão cuja fé está somente em Cristo, pela graça de Deus. Ele apontará simples e tranquilamente para Jesus. E este será o seu apelo: “Ó Deus, não olhe para qualquer justiça que haja em minha própria vida. Olhe para seu Filho. Considere-me justo não por causa de qualquer coisa que eu tenha feito ou que eu seja, e sim por causa dele. Ele viveu a vida que eu deveria ter vivido. Ele morreu a  morte que eu merecia. Renunciei todas as outras confianças. Ele é meu único apelo. Justifique-me, ó Deus, por causa de Jesus”.

Fonte: GILBERT, Greg. O que é o Evangelho? São José dos Campos/SP: Fiel, 2011, p. 110-112/113-114.
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Áurea Emanoela Holanda Lemos | PreciosoCristo | Original aqui.
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Apresentando a fé e o arrependimento (II)

Greg Gilbert

 (Leia a PARTE 1)

Apresentando a fé e o arrependimento

Fé somente

Quando compreendemos que somos dependentes de Jesus para a nossa salvação – sua morte por nosso pecado, sua vida por nossa justiça -, entendemos por que a Bíblia é tão insistente no fato de que a salvação vem somente pela fé nele. Não há outra maneira, não há outro salvador, não há ninguém e nada mais, no mundo, em que possamos descansar para a salvação, incluindo nossos próprios esforços.

Toda outra religião existente na história humana rejeita esta ideia de que somos justificados somente pela fé. Em vez disso, as outras religiões afirmam que a salvação é ganha por meio de esforço moral, boas obras e por equilibrarmos, de algum modo, a nossa conta por obtermos mérito suficiente para exceder o nosso mal. Isso não é surpreendente. É bastante humano pensar – e até insistir em – que podemos contribuir para a nossa própria salvação.

Todos nós somos pessoas autoconfiantes, não somos? Somos convencidos de nossa autossuficiência e nos ressentimos de qualquer insinuação de que somos o que somos por causa da intervenção de outra pessoa. Pense em como você se sentiria se alguém dissesse sobre o seu trabalho ou sobre algo que você valoriza: “Sim, você não fez por merecer isso. Você o tem somente por que outra pessoa lhe deu.” Isso é exatamente a verdade em relação à nossa salvação diante de Deus. Ele nos dá a salvação como um dom da graça, e não contribuímos nada para ela – nem a nossa justiça, nem o nosso pagamento por nossos pecados e, certamente, nem quaisquer boas obras que possam equilibrar a conta (Gálatas 2.16).

Colocar sua fé em Cristo significa renunciar totalmente qualquer outra esperança de ser considerado justo diante Deus. Você está confiando em suas próprias boas obras? A fé significa admitir que elas são deploravelmente insuficientes e confiar somente em Cristo. Você está confiando no que entende ser um bom coração? A fé significa reconhecer que seu coração não é bom, de modo nenhum, e confiar somente em Cristo. Isso é fé.

Arrependimento, o outro lado da moeda

A mensagem de Jesus aos seus ouvintes foi esta: “Arrependei-vos e crede no evangelho” (Marcos 1.15). Se á fé é voltar-se para Jesus e confiar nele para a salvação, o arrependimento é o outro lado da moeda. É afastar-se do pecado, odiá-lo e resolver, pelo poder de Deus, abandonar o pecado, ao mesmo tempo em que nos voltamos para Deus com fé. Por isso, Pedro disse a multidão que o ouvia: Arrependei-vos, pois, e convertei-vos para serem cancelados os vossos pecados” (Atos 3.19). E Paulo anunciou a todos “que se arrependessem e se convertessem a Deus” (Atos 26.20).

O arrependimento não é um acessório opcional à vida cristã. É absolutamente crucial à vida cristã, distinguindo os que foram salvos por Deus dos que não foram salvos.

Tenho conhecido muitas pessoas que diriam algo assim: “Sim, aceitei a Jesus como Salvador, portanto, sou um cristão. Mas ainda não estou pronto para aceitá-lo como Senhor. Tenho algumas coisas para corrigir”. Em outras palavras, elas afirmam que podem ter fé em Jesus e serem salvas, mas, apesar disso, não se arrependerem do pecado.

Se entendermos corretamente o arrependimento, admitiremos que a ideia de que você pode aceitar Jesus como Salvador, mas não como Senhor, é ilógica. Por outro lado, tal ideia não se harmoniza com o que a Bíblia diz sobre o arrependimento e sua conexão com a salvação. Por exemplo, Jesus advertiu: “Se… não vos arrependerdes, todos igualmente perecereis” (Lucas 13.3). Quando os apóstolos ouviram o relato de Pedro sobre a conversão de Cornélio, eles glorificaram a Deus por conceder aos gentios “o arrependimento para vida” (Atos 11.18). E Paulo, falou sobre o “arrependimento para a salvação” (2 Coríntios 7.10).

Além disso, ter fé em Jesus é, em essência, crer que ele é realmente o que diz ser – o Rei crucificado e ressuscitado que venceu a morte e o pecado, e tem o poder de salvar. Ora, como uma pessoa poderia crer e descansar realmente em Jesus e, ao mesmo tempo, dizer: “Mas não reconheço que o Senhor é Rei sobre mim”? Isso não faz sentido. A fé em Cristo traz consigo uma renúncia do poder rival que Jesus venceu – o pecado. E, onde essa renúncia do pecado não está presente, também não há fé genuína nAquele que venceu o pecado.

É como Jesus disse: “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um e amar  ao outro, ou se devotará a um e desprezará ao outro” (Mateus 6.24). Depositar a fé no Rei Jesus implica renunciar seus inimigos.

Fonte: GILBERT, Greg. O que é o Evangelho? São José dos Campos/SP: Fiel, 2011, p. 106-110.
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Áurea Emanoela Holanda Lemos | PreciosoCristo | Original aqui.
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Apresentando a fé e o arrependimento (I)

Greg Gilbert

Apresentando a fé e o arrependimento

Marcos nos diz que Jesus começou seu ministério pregando: “O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho” (Marcos 1.15). Estas ordens – arrependei-vos e crede – são o que Deus exige de nós em resposta às boas-novas de Jesus.

Em todo o Novo Testamento, vemos que os apóstolos exortavam as pessoas a fazerem isso. Jesus chamou seus ouvintes a arrependerem-se e crerem no evangelho. Pedro, no final de seu sermão, no dia de Pentecostes, disse às pessoas: “Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus cristo” (Atos 2.38). Conforme lemos em Atos 20.21, Paulo explicou seu ministério dizendo que havia testificado “tanto a judeus como a gregos o arrependimento para com Deus e a fé em nosso Senhor Jesus”. E, como lemos em Atos 26.18, ele narrou como Jesus o enviara

“para lhes abrires os olhos e os converteres das trevas para a luz e da potestade de Satanás para Deus, a fim de que recebam eles remissão de pecados e herança entre os que são santificados pela fé em mim.”

Fé e arrependimento. Isso é o que caracteriza aqueles que são o povo de Cristo, ou seja, os “cristãos”. Em outras palavras, um cristão é uma pessoa que se converte de seu pecado e confia no Senhor Jesus Cristo – e nada mais – para salvá-lo do pecado e do julgamento vindouro.

Fé é dependência

Fé é uma das palavras que, por muito tempo, tem sido tão mal usada, que a maioria das pessoas não tem ideia do que ela realmente significa. Peça a alguma pessoa na rua que descreva a fé, e, embora talvez você ouça algumas palavras respeitosas e agradáveis, o âmago da questão será, provavelmente, que fé é crer no ridículo em contrário a toda evidência.

Um dia, assisti na televisão, com meus dois filhos mais velhos, ao Desfile do Dia de Ação de Graças da rede de lojas Macy’s. O tema do evento era “Creia!”, e o ponto focal, suspenso acima do palanque, era o que os âncoras estavam chamando de Creiômetro. Toda vez que um novo carro alegórico passava, a banda tocava ou os dançarinos executavam danças em trajes de elfos, o ponteiro de creiômetro subia um pouco mais. Evidentemente, o momento sublime do desfile aconteceu quando Papai Noel surgiu – dirigindo ele mesmo seu trenó construído, inexplicavelmente, na forma de um ganso majestoso – e o creiômetro ficou maluco! Com aquela música, aquelas danças, os confetes, as crianças gritando – e adultos gritando –, um visitante estranho teria concluído, com certeza, que as pessoas da Virgínia creem realmente nisso.

Meu filho de seis anos achou tudo aquilo espalhafatosamente tolo. Entretanto, isso é o que o mundo pensa sobre fé. A fé é uma charada, um jogo divertido e confortante no qual as pessoas têm liberdade de se envolver, se quiserem, mas sem qualquer conexão genuína com o mundo atual. As crianças creem em Papai Noel e no Coelho da Páscoa. Os místicos creem no poder de pedras e cristais. Pessoas loucas creem em fadas. E os cristãos, bem, eles creem em Jesus.

Leia a Bíblia e você descobrirá que a fé não é nada disso. A fé não é crer em algo que você não pode provar, como muitas pessoas a definem. Conforme o ensino bíblico, a fé é dependência. É uma confiança firme e inabalável, alicerçada na verdade e fundamentada na promessa do Jesus ressuscitado de nos salvar do pecado.

Paulo nos fala sobre a natureza da fé em Romanos 4, em seu discurso sobre Abraão. É assim que Paulo descreve a fé de Abraão:

“Abraão, esperando contra a esperança, creu, pra vir a ser pai de muitas nações, segundo lhe fora dito: Assim será a tua descendência. E, sem enfraquecer na fé, embora levasse em conta o seu próprio corpo amortecido, sendo já de cem anos, e a idade avançada de Sara, não duvidou, por incredulidade, da promessa de Deus; mas, pela fé, se fortaleceu, dando glória a Deus, estando plenamente convicto de que ele era poderoso para cumprir o que prometera.” (Romanos 4.18-21)

Apesar de tudo que era contrário à promessa de Deus – a idade de Abraão, a esterilidade e a idade de sua esposa – Abraão creu no que Deus havia dito. Ele confiou em Deus sem vacilar e creu nele para realizar o que prometera. A fé de Abraão não era perfeita, é claro; o nascimento de Ismael prova que, a princípio, Abraão tentou depender de seus métodos para cumprir as promessas de Deus. Mas, havendo-se arrependido desse pecado, Abraão pôs sua fé em Deus. Ele confiou em Deus, como Paulo diz, “estando plenamente convicto de que ele era poderoso para cumprir o que prometera”.

O evangelho de Jesus Cristo nos chama a fazer o mesmo que Abraão fez – pôr nossa fé em Jesus, depender dele e confiar nele para que faça o que prometeu fazer.

Fonte: GILBERT, Greg. O que é o Evangelho? São José dos Campos/SP: Fiel, 2011, p. 99-103.
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Áurea Emanoela Holanda Lemos | PreciosoCristo | Original aqui.
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Conselhos para os jovens reformados: Foquem o Evangelho

Vinícius S. Pimentel

(Vejam o sumário na Introdução.)

Semana da Reforma Protestante 2011

1º conselho: Foquem a glória de Deus no Evangelho de Cristo

Se você é um reformado, certamente sabe recitar de cor a primeira resposta do Breve Catecismo de Westminster: “O fim supremo e principal do homem é glorificar a Deus e desfrutá-lo para sempre”. Agora, se é um jovem reformado, provavelmente você prefere expressar tal verdade com estas palavras de Jonathan Edwards: “Deus é mais glorificado em nós quanto mais estamos satisfeitos Nele”. Essas duas belas afirmações demonstram o compromisso dos reformados com aquilo que é mais central em toda a Bíblia: a glória de Deus. Em síntese, elas expressam o nosso desejo sincero de seguir a ordem dada pelo Espírito Santo através do apóstolo Paulo: “Quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus” (1Coríntios 10.31).

Muito antes de lidar com as grandes doutrinas da eleição e da expiação limitada, o que me chamou a atenção na tal “fé reformada” foi a sua ênfase reverente e amorosa na centralidade de Deus em todas as coisas. Por isso, eu gosto da definição do teólogo Joel Beeke ao afirmar, ecoando Benjamin Warfield, que “ser reformado significa ser teocêntrico” (1). Eu gosto ainda mais quando ele prossegue em sua definição fundamental do calvinismo, dizendo:

Como calvinistas, somos apaixonados por Deus. Somos dominados por sua majestade, sua beleza, sua santidade, sua graça. Buscamos a glória de Deus, desejamos sua presença e modelamos nossa vida segundo o seu padrão. (2)

Em suma, como cristãos bíblicos que somos, nosso prazer supremo é refletir, em todas as áreas da nossa vida, a grandeza da glória e da graça de Deus.

Todavia, há uma pergunta importante a fazer: Onde – ou melhor, em quem – nós podemos contemplar as perfeições da glória e da graça de Deus em sua plenitude? Não há outro lugar para onde devemos nos dirigir, exceto para Jesus Cristo e o Seu Evangelho. “Nele” – nos diz a Escritura – “habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Colossenses 2.9), porque Ele – Jesus Cristo – é “a imagem do Deus invisível” e “a expressão exata” do ser de Deus (Colossenses 1.15; Hebreus 1.3). É ao contemplarmos o Evangelho de Jesus Cristo – Sua morte terrível e Sua ressurreição gloriosa – que vemos o amor, a ira, a santidade, a compaixão, a graça, a justiça, a verdade e o poder de Deus em plenitude. Portanto, se queremos refletir e enfatizar a glória de Deus, Cristo e o Evangelho devem ser o grande tema em nossos lábios e em nossos corações.

Calvino nos expôs essa verdade com grande beleza, ao afirmar:

… Deus não deve ser visto por trás de sua inescrutável majestade (pois Ele habita em luz inacessível), mas deve ser conhecido na medida em que se nos revela em Cristo. De modo que as tentativas humanas de conhecer Deus fora de Cristo são efêmeras, porque tateiam no escuro. É verdade que, à primeira vista, Deus em Cristo parece ser pobre e abjeto; sua glória, porém, desponta para aqueles que têm a paciência de transpor da cruz à ressurreição. (3)

Se desejamos refletir e enfatizar a glória de Deus, devemos focar o Evangelho de Cristo. Entretanto, de que maneira esse é um conselho útil – e até necessário – para os jovens reformados?

A energia, o vigor e o entusiasmo são virtudes típicas da juventude. Não é à toa que o livro de Provérbios nos ensina que “o ornato dos jovens é a sua força” (20.29). Contudo, tais qualidades frequentemente se desvirtuam e se convertem numa tendência de sermos contenciosos, num ímpeto apressado (e até mesmo tolo) de termos uma “causa” pela qual brigar – causas nem sempre dignas de luta.

Ao que me parece, o contexto indica ser esse o tipo de impetuosidade desnorteada que Paulo tinha em mente ao ordenar que Timóteo fugisse das “paixões da mocidade” (2Timóteo 2.22) (4). Paulo desejava que o seu pupilo fosse ousado e corajoso em combater o bom combate, mas ele temia que Timóteo acabasse se tornando excessivamente contencioso e dedicasse tempo demais a questões secundárias e de menor importância, ao invés de focar o Evangelho. Timóteo havia sido chamado por Deus para preservar “o testemunho de nosso Senhor” (1.8) e anunciar “a graça que está em Cristo Jesus” (2.1). Paulo queria que o seu filho cumprisse cabalmente o ministério que lhe fora confiado e, por isso, ele precisaria concentrar as suas forças naquilo que verdadeiramente possui importância vital: o Evangelho de Jesus Cristo.

De modo semelhante, os jovens reformados estão extremamente vulneráveis a perderem o foco do Evangelho. Questões secundárias parecem estar sempre lutando por ocupar o primeiro plano e, assim, nós acabamos desperdiçando nossa energia, vigor e entusiasmo em “causas” que não valem a pena. Ao invés de nos juntarmos a Paulo e nos tornarmos expositores “repetitivos” de Jesus Cristo e da palavra da cruz, acabamos gastando a maior parte do nosso tempo (e das linhas dos nossos blogs) falando sobre questiúnculas que não merecem tanta atenção.

Não me entendam mal. Eu não estou dizendo que as questões secundárias são desprovidas de importância. Elas têm o seu lugar e, juntas, ajudam a compor “todo o conselho de Deus”. Mas veja bem: elas são secundárias. Nós estaríamos muito longe da verdade se negássemos que existem algumas doutrinas mais centrais do que outras em todo o conselho de Deus. E o grande ponto a ser percebido é que todas essas doutrinas, as maiores e as menores, deveriam apontar para aquele que é o grande propósito do mundo, da vida e da fé reformada: a exaltação máxima da glória de Deus, no Evangelho de Cristo. Se as nossas discussões e debates teológicos perderem de vista a centralidade de Deus e a santificação do Seu nome por meio do Evangelho, então já haveremos caído num grande erro.

Portanto, meu primeiro conselho aos jovens reformados é: foquem o Evangelho, pois essa é a demonstração máxima de que vocês amam a glória de Deus e zelam por ela.

Notas:
(1) BEEKE, Joel R. Vivendo para a glória de Deus: uma introdução à fé reformada. São José dos Campos/SP: Fiel, 2010, p. 57.
(2) Idem, p. 59.
(3) CALVINO, João. 2 Coríntios. Série Comentários Bíblicos. Trad. Valter Graciano Martins. São José dos Campos/SP: Fiel, 2008, p. 117.
(4) Os comentaristas da ESV Study Bible também consideram essa possibilidade. Na nota referente a 2Timóteo 2.22, eles pontuam: “‘Paixões’ (gr. epithymia), nesse contexto, refere-se a desejos pecaminosos em geral (não apenas desejo sexual), especialmente aqueles que tendem a ser característicos da juventude. Talvez Paulo esteja sugerindo, nos vv. 23-25, que um desses desejos seria uma tendência de envolver-se em disputas ou ser irascível” (THE ESV STUDY BIBLE. Wheaton, Illinois, U.S.A.: Crossway, 2008, p. 2340, tradução do autor).

Por: Vinícius Silva Pimentel | PreciosoCristo | Original aqui.
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