A realidade do pecado

Áurea Emanoela

A realidade do pecado

Em tempos como o nosso, em que o orgulho foi elevado ao status de virtude, em que somos fortemente incentivados a buscar a autoestima, os sentimentos positivos e a dignidade pessoal, convido-os a uma reflexão acerca do pecado, da corrupção humana e suas  consequências. Tenho plena consciência do quão delicado e profundo é o tema em epígrafe, todavia confio no Senhor, que através do seu Espírito nos dará discernimento e despertará nossa mente para que possamos compreender o quão destrutivo é ocultar a realidade do pecado e a responsabilidade humana.

Depravação total

A Bíblia é bastante clara quanto ao seu ensino da completa depravação da humanidade. O apóstolo Paulo foi categórico ao afirmar que os não-redimidos estão “mortos em seus delitos e pecados” (Efésios 2.1), os quais, sem salvação, andam “segundo o curso deste mundo” e na desobediência (v. 2). É no v. 3 dessa mesma passagem que Paulo nos dá um panorama ainda mais completo do estado dos homens, enquanto estes não conhecem Senhor e andam em seus próprios caminhos:

“[…] entre os quais também todos nós andamos outrora, segundo as inclinações da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos, por natureza, filhos da ira, como também os demais.”

Em todas essas passagens, a intenção de Paulo é apenas uma: descrever o estado de separação dos descrentes em relação a Deus. As palavras do apóstolo são duras e não podem ser mudadas para apoiar os defensores da autoestima, que ensinam as pessoas a culparem outras pelos seus fracassos e iniquidades.

“Não há temor de Deus” no não-regenerado (cf. Romanos 3.18). Antes de sermos resgatados, éramos todos “inimigos de Deus” (cf. Romanos 5.8,10); éramos todos “estranhos e inimigos no entendimento pelas [nossas] obras malignas” (Colossenses 1.21). As paixões da carne, inflamadas pelo nosso ódio pela lei do Senhor, motivavam todos os nossos membros:

“Porque, quando vivíamos segundo a carne, as paixões pecaminosas postas em realce pela lei operavam em nossos membros, a fim de frutificarem para a morte” (Romanos 7.5)

Antes de sermos feitos novas criaturas, éramos tenazmente tentados pelo pecado em cada parte do nosso ser, éramos corruptos, maus e completamente rebeldes. A essa doutrina chamamos “depravação total”.

Todavia, como observa John MacArthur, “isso não significa que os pecadores descrentes sejam tão maus quanto poderiam ser (cf. Lucas 6.33; Romanos 2.14). Isso não significa que a expressão da natureza pecaminosa humana seja sempre evidenciada no seu máximo. Isso não significa que os descrentes não sejam capazes de atos de bondade, benevolência, boa vontade ou altruísmo. Com certeza, isso não significa que os não-cristãos não possam apreciar a bondade, a beleza, a honestidade, a decência e a excelência. Isso não significa que qualquer uma dessas coisas tenham algum mérito sem Deus” [1].

Um ensino claro da depravação é que o mal contaminou cada aspecto da humanidade – nosso coração, mente, personalidade, emoções, consciência, razões e vontade (cf. Jeremias 17.9; João 8.44). Pecadores não-redimidos são, portanto, incapazes de fazer qualquer coisa que agrade a Deus (Isaias 64.6). São incapazes de amar verdadeiramente o Deus que se revela nas Escrituras, de exercer obediência de coração, de entender as verdades espirituais. São incapazes de ter fé genuína e, portanto, incapazes de agradar a Deus ou de buscá-lo (Hebreus 11.1). A humanidade descrente, que aborrece ao Deus vivo, não tem capacidade, em si mesma, de desejar, entender, crer ou aplicar a verdade espiritual:

“Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entende-las, porque elas se discernem espiritualmente” (ICoríntios 2.14)

Em virtude do pecado de Adão, esse estado de morte espiritual, chamado de depravação total ou pecado original, passou para toda a humanidade: “Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram” (Romanos 5.12). Quando Adão, o cabeça da raça humana, pecou, toda a humanidade foi corrompida:

“Porque, como, pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores…” (v. 19)

Como isso aconteceu vem sendo matéria de muitos entraves teológicos, todavia, para a reflexão a que nos propomos, é suficiente afirmar que as Escrituras claramente ensinam que o pecado cometido por Adão trouxe culpa para toda a humanidade (v. 18).

A responsabilidade pelo pecado

Tendo em vista o que foi dito até agora, é deveras possível que alguns sejam levados a formular o seguinte questionamento: “Se, em virtude do pecado cometido por Adão, sou um pecador desde que nasci e nunca tive uma natureza moralmente correta, como posso ser responsabilizado pelo pecado?”.  A resposta, embora possa causar perplexidade a muitos, não pode ser ocultada ou mesmo mitigada: A nossa natureza corrupta é exatamente a razão da nossa culpa ser uma questão tão séria. O pecado flui de dentro da nossa alma. É por causa da natureza manchada pelo pecado que cometemos atos pecaminosos:

“Porque de dentro, do coração dos homens, é que procedem os maus desígnios, a prostituição, os furtos, os homicídios, os adultérios, a avareza, as malícias, o dolo, a lascívia, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura. Ora, todos estes males vêm de dentro e contaminam o homem” (Marcos 7.21-23).

Muito longe de ser uma desculpa, o pecado original é em si mesmo a razão central da nossa culpa, e esse mesmo pecado é suficientemente consistente para a nossa condenação perante Deus. É em virtude do pecado original, com seu resultado depravado, que cometemos atos voluntariosos contra a glória do Deus santo.

“Por que é que o homem sempre escolhe pecar? A resposta é que o homem abandonou a Deus e, como resultado, toda a sua natureza se tornou perversa e pecaminosa. Toda a tendência do homem se afastou de Deus. Por natureza, ele odeia a Deus e sente que Deus é contrário a ele. Ele é seu próprio deus, sua própria capacidade e poder, seu próprio desejo. Ele não admite toda a ideia de Deus e as exigências que Deus coloca sobre ele… Além disso, o homem gosta e cobiça as coisas que Deus proibiu; e não gosta das coisas e do tipo de vida que Deus tem para ele. Essas não são meras afirmações dogmáticas. São fatos… Eles, por si sós, explicam a desordem moral e a feiura que caracterizam a vida em sua dimensão até hoje.” (Martyn Lloyd-Jones) [2]

Ao contrário do que pensam aqueles que desprezam a seriedade do pecado ou mesmo tentam escondê-lo por trás de palavras brandas, a raça humana não é naturalmente boa, todavia, o contrário é verdadeiro. Em virtude da nossa natureza, somos inimigos de Deus, amantes de nós mesmos, escravos do pecado e sedentos de salvação. Nossa mente está completamente cauterizada no que tange às questões espirituais e somos incapazes, inclusive, de crer sem a graciosa intervenção do Pai. Mas, ainda assim, somos implacavelmente orgulhosos.

Existe uma esperança

Para que possamos ter uma autoimagem adequada e reconhecer quem realmente somos, precisamos recobrar nossa consciência acerca da severidade do pecado, reconhecendo que grande parte das angústias que atormentam nossa alma são uma consequência de nossas transgressoões. Sem a graça de Deus, sem a Sua intervenção soberana, procurando e trazendo para si mesmo os pecadores, ninguém poderia ser salvo.

Precisamos rejeitar com veemência os valores corrompidos de um mundo incrédulo e retomar os ensinos bíblicos sobre a corrupção humana, a depravação, a culpa, o arrependimento e a humildade, reconhecendo que única maneira de alcançar a salvação do pecado original ocorre somente por meio do sangue vertido por Cristo na cruz do Calvário.

“Porque, como, pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim também, por meio da desobediência de um só, muitos se tornarão justos” (Romanos 5.19).

Somos nascidos em pecado (Salmos 51.5), e para nos tornarmos filhos de Deus e entrarmos no Seu Reino necessitamos nascer de novo por meio do Seu Espírito (João 3.3-8).

Notas:

[1] John MacArthur. Sociedade sem pecado. São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 79.
[2] David Martyn Lloyd-Jones.  The Plight of Man and the power of God. Grand Rapids: Eerdmans, 1945, p. 87.

Por: Áurea Emanoela Holanda Lemos | PreciosoCristo | Original aqui.
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Em dias de folia…

Áurea Emanoela

Em dias de folia...

Mulheres com pouca (ou nenhuma) roupa, muito “samba no pé” (axé ou frevo para os que preferem), bebida, sexo sem compromisso e muita folia… Somos o país do carnaval.

Homem com homem, mulher com mulher, troca de parceiros, drogas… A regra é a seguinte: “não existem regras!” e, com vívida clareza, percebemos o quão entregue está a raça humana à sua própria concupiscência.

“Por isso, Deus entregou tais homens à imundícia, pelas concupiscências de seu próprio coração, para desonrarem o seu corpo entre si; pois eles mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura em lugar do Criador, o qual é bendito eternamente. Amém!” (Romanos 1.24-25).

Daqui a alguns dias, uma multidão irá se aglutinar, tomando as ruas de várias cidades do país para festejarem, como sabiamente disse o apóstolo Paulo, o “seu próprio ventre”, homens cuja “glória está na sua infâmia, visto que só se preocupam com as coisas terrenas” (Filipenses 3.18). Em uma ultrajante afronta ao propósito para o qual o homem foi criado, vislumbramos uma multidão cega, presa ao pecado e avessa à glória de Deus.

”E, por haverem desprezado o conhecimento de Deus, o próprio Deus os entregou a uma disposição mental reprovável, para praticarem coisas inconvenientes” (Romanos 1.28).

Em tempos de carnaval, é possível observar com detalhes a decadência espiritual da raça humana; as ruas parecem exalar um odor fétido de imoralidade enquanto o homem, inebriado pelo pecado, deleita-se na carne distanciando-se do seu Criador.

Entre frevo, axé, maracatu, samba e uma infinidade de outros ritmos, fica claro que o propósito inicial da criação foi completamente deturpado. A mulher, criada como um ser idôneo (cf. Gênesis 2.18) vilipendia seu corpo, expondo-se como um produto qualquer “à mostra em uma vitrine”, do qual qualquer um pode lançar mão. O homem, varão a quem Deus sujeitou todas as coisas criadas, comporta-se como um ser irracional sem qualquer conhecimento do Criador, praticando todo tipo de perfídia.

Todavia, assim como aconteceu nos tempos de Noé, “quando as águas do dilúvio inundaram a terra” (Gênesis 7.6), e nos tempos de Ló, em que o clamor de Sodoma e Gomorra se tinha multiplicado, e o seu pecado houvera em muito se agravado (cf. Gênesis 18.20), é certo que o Senhor não está indiferente ao que acontece com a sua criação. Portanto, assim como Ele certamente resgatará, para louvor da sua glória, muitos dos que estão perdidos entre batuques e tambores, assim também Ele terá por indesculpáveis aqueles que insidiosamente se rebelam contra o seu senhorio.

Quanto aqueles que, como nós, esperam pela vinda gloriosa e triunfante de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, “vigiemos e sejamos sóbrios” (1Tessalonicenses 5.6), convictos de que a nossa alegria não é anual e momentânea – uma vez que não se baseia nas coisas desse mundo –, mas eterna – pois foi conquistada, de uma vez por todas, na cruz.

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Meditações no Salmo 1 (I): O justo e os ímpios

Vinícius S. Pimentel

Meditações no Salmo 1

Bem-aventurado o homem que não anda no conselho dos ímpios, não se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores. Antes, o seu prazer está na lei do SENHOR, e na sua lei medita de dia e de noite.

Ele é como árvore plantada junto a corrente de águas, que, no devido tempo, dá o seu fruto, e cuja folhagem não murcha; e tudo quanto ele faz será bem sucedido. Os ímpios não são assim; são, porém, como a palha que o vento dispersa.

Por isso, os perversos não prevalecerão no juízo, nem os pecadores, na congregação dos justos. Pois o SENHOR conhece o caminho dos justos, mas o caminho dos ímpios perecerá. (Salmo 1)

J.C. Ryle escreveu certa vez que, assim como entre as estrelas há diferença de esplendor, algumas passagens das Escrituras brilham mais do que outras, revelando-nos com mais clareza e intensidade a glória do Deus a quem adoramos.

Se o bispo de Liverpool estiver certo (como eu penso que está), o Salmo 1 certamente é um dos capítulos mais importantes de toda a Bíblia. Além de servir como uma introdução ao Saltério, este salmo se apresenta para nós como uma belíssima síntese de como deve ser a vida do homem que vive por Deus e para Deus.

No Salmo 1, o salmista contempla a diferença radical entre a vida do justo e a vida do ímpio. Ele nos chama a observar que a vida do justo é caracterizada por um evidente amor aos mandamentos de Deus (a Lei) e, ao mesmo tempo, nos anuncia que a verdadeira felicidade na vida (bem-aventurança) está apenas com o homem justo, e não com o ímpio.

Se atentarmos à voz de Deus na boca do salmista, encontraremos um caminho seguro para vivermos de uma maneira que o Senhor seja completamente glorificado e nós, completamente felizes. Continuar lendo

O caminho da salvação (Parte 1)

Áurea Emanoela

O caminho da salvação

A Bíblia nos conduz a uma profunda reflexão a respeito da condição do homem – como indivíduo e na sociedade -, coloca-nos frente à nossa desesperada necessidade de salvação. Encontramo-nos em um “círculo vicioso”, numa perigosa posição de culpa e impotência. Nossa culpa nos desqualifica para recebermos, por merecimento, o único recurso que porventura poderia tirar-nos de nossa incômoda posição. Nenhum poder humano pode solucionar esse problema, tirando o homem do círculo vicioso em que está. Se o homem tiver de ser salvo, Deus precisa tomar a iniciativa.

Como afirma James Montgomery Boice,

isso não quer dizer que todas as pessoas são tão más quanto elas poderiam ser. Significa, antes, que todos os seres humanos são afetados pelo pecado em todo campo do pensamento e da conduta, de forma que nada do que vem de alguém, separado da graça regeneradora de Deus, pode agradá-lo. À medida que nosso relacionamento com Deus é afetado, nós somos tão destruídos pelo pecado que ninguém consegue entender adequadamente Deus ou os caminhos de Deus. Tampouco somos nós que buscamos Deus, e, sim, é ele quem primeiramente age dentro de nós para levar-nos a agir assim.

Existem várias descrições sobre a horrenda sorte do homem – fracasso, destruição, vazio, alienação, escravidão, rebelião, enfermidade, corrupção, imoralidade e morte. Igualmente variadas são as fúteis tentativas humanas de remediar essa situação – iluminação intelectual da ignorância, reforma moral, esforços ascéticos, tratamento médico ou psicológico, melhoramento social pelo emprego dos recursos tecnológicos, estratagemas os mais variados possíveis e, acima de tudo, técnicas religiosas criadas pelo homem.

Desde bem cedo em sua história, o homem teve de perceber, como continua tendo de ver, que não pode produzir a sua própria salvação, por causa da natureza radical de seu pecado e egocentrismo. Mais do que isso, as suas tentativas de salvar a si mesmo são a pior afronta a Deus, e fazem com que incorramos em Seu julgamento. A Bíblia expõe-nos Deus em santo amor, a conceber e a desdobrar um “plano de salvação” e o ponto crucial dessa salvação é a cruz de Cristo (Romanos 1.16; 1Coríntios 1.18).

É na morte de Seu Filho que Deus realiza o ato focal da salvação que oferece ao homem. Por toda a revelação bíblica, é o próprio Deus quem, movido por santo amor, provê a salvação. Os “retratos” são variados, mas o quadro daí resultante exibe a majestade, o mistério, o poder e a misericórdia de Deus em ação: o pecado, que é uma afronta à santidade de Deus, é removido em Cristo; condições legítimas de paz com Deus são ratificadas por Cristo, o qual estabeleceu a paz por meio de Sua cruz e fez expiação pelo homem alienado de seu Criador; um resgate foi pago para redimir ou libertar o escravo de sua escravidão; a absolvição, perante o “tribunal de justiça”, é declarada, visto que Deus, em Seu Filho, já suportou o julgamento e sofreu a pena imposta ao homem, ao identificar-se com o pecador em seu pecado; a honra de Deus fica satisfeita pela perfeição de Cristo, apresentada em obediência; Cristo une em Si mesmo a humanidade e a leva em Seu sacrifício até o Pai; Cristo é supremamente vitorioso em sua morte.

(Leia a Parte 2 e a Parte 3 – em breve)

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