[Livro do mês] John Stott – “A cruz de Cristo”

John Stott

Livro do mês - A cruz de Cristo

Tenho como um enorme privilégio o ter sido convidado para escrever um livro sobre o maior e mais glorioso de todos os temas, a cruz de Cristo. Dos vários anos de trabalho despendidos nesta tarefa, emergi espiritualmente enriquecido, com minhas convicções aclaradas e fortalecidas, e com uma firme resolução de gastar o restante dos meus dias na terra (assim como sei que toda a congregação dos redimidos passará a eternidade no céu) no serviço liberador do Cristo crucificado.

É oportuno que um livro sobre a cruz faça parte das celebrações do Jubileu de Ouro da Inter-Varsity Press, a quem o público leitor muito deve. Pois a cruz é o centro da fé evangélica. Deveras, como argumento neste livro, ela jaz no centro da fé histórica, bíblica, e o fato de que esta verdade não é sempre reconhecida em toda a parte em si mesmo é justificativa suficiente para preservar um testemunho distintamente evangélico. Os cristãos evangélicos crêem que em Cristo e através do Cristo crucificado Deus substituiu a si mesmo por nós e levou os nossos pecados, morrendo em nosso lugar a morte que merecíamos morrer, a fim de que pudéssemos ser restaurados em seu favor e adotados na sua família. O Dr. J. I. Packer com acerto escreveu que esta crença “é o marco distintivo da fraternidade evangélica mundial” (embora “muitas vezes seja mal compreendida e caricaturada por seus críticos”); ela “nos leva ao próprio coração do evangelho cristão”.

É necessário que se esclareça a distinção entre uma compreensão “objetiva” e “subjetiva” da expiação em cada geração. Segundo o Dr. Douglas Johnson, esta descoberta foi um momento decisivo no ministério do Dr. Martyn Lloyd-Jones, que ocupou uma posição singular de liderança evangélica nas décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial. Ele confidenciou a vários amigos que “uma mudança fundamental ocorreu em sua perspectiva e pregação no ano de 1929”. Ele tinha, é claro, dado ênfase, desde o princípio do seu ministério à necessidade indispensável do novo nascimento. Mas, certa noite, depois de pregar em Bridgend, South Wales, o ministro local desafiou-o dizendo que “parecia que a cruz e a obra de Cristo” ocupavam um pequeno lugar em sua pregação. Imediatamente ele foi a uma livraria que vende livros usados e pediu ao proprietário os dois livros padrão sobre a Expiação. O livreiro apresentou a Expiação de R. W. Dale (1875) e A Morte de Cristo de James Denney (1903). Tendo voltado para casa, ele se entregou totalmente ao estudo, recusando o almoço e o chá, e causando tal ansiedade à esposa que esta telefonou a seu irmão perguntando se devia chamar um médico.

Porém, ao emergir da reclusão, Lloyd-Jones dizia ter encontrado “o verdadeiro coração do evangelho e o segredo do significado interior da fé cristã”. De sorte que o conteúdo de sua pregação mudou, e com esta mudança o seu impacto. Nas próprias palavras dele, a questão básica não era a pergunta de Anselmo “por que Deus se tornou homem?” mas “por que Cristo morreu?”

Por causa da importância vital da expiação, e de uma compreensão dela que retire toda falsa informação dos grandes conceitos bíblicos de “substituição”, “satisfação” e “propiciação”, duas coisas têm-me grandemente surpreendido. A primeira é a tremenda impopularidade em que a doutrina permanece. Alguns teólogos demonstram relutância estranha em aceitá-la, mesmo quando compreendem claramente sua base bíblica. Penso, por exemplo, naquele notável erudito metodista, Vincent Taylor. Sua erudição aprimorada e abrangente encontra- se exemplificada em seus três livros sobre a cruz — Jesus e Seu Sacrifício (1937), A Expiação no Ensino do Novo Testamento (1940) e Perdão e Reconciliação (1946). Ele, ao descrever a morte de Cristo, emprega muitos adjetivos como “vicária”, “redentora”, “reconciliadora”, “expiatória”, “sacrificial” e especialmente “representativa”. Mas não consegue chamá-la de “substitutiva”. Depois de um exame rigoroso do primitivo ensino e crença cristã de Paulo, de Hebreus e de João, escreve ele o seguinte acerca da obra de Cristo: “Nenhuma das passagens que examinamos descreve-a como a de um substituto. . . Em lugar algum encontramos apoio para tais conceitos.” Não, a obra de Cristo foi um “ministério realizado em nosso favor, mas não em nosso lugar”. Contudo, embora Vincent Taylor tenha feito estas espantosas afirmativas, fê-las com grande desconforto. Sua veemência nos deixa despreparados para as concessões que mais tarde ele se sente obrigado a fazer. “Talvez o aspecto mais admirável do ensino do Novo Testamento referente à obra representativa de Cristo”, escreve ele, “seja o fato de chegar bem perto dos limites da doutrina substitutiva sem, na realidade, atravessá-los. O paulinismo, em particular, encontra-se a uma distância mínima da substituição”. Ele até mesmo confessa a respeito de teólogos do Novo Testamento que “com demasiada frequência nos contentamos em negar a substituição sem substituí-la”, e que é uma noção que “talvez estejamos mais ansiosos a rejeitar do que a examinar”. Entretanto, o que procurarei mostrar neste livro é que a doutrina bíblica da expiação é substitutiva do princípio ao fim. O que Vincent Taylor não quis aceitar não foi a doutrina em si, mas as cruezas de pensamento e expressão das quais os advogados da substituição têm, com bastante frequência, sido culpados.

Minha segunda surpresa, em vista da centralidade da cruz de Cristo, é que nenhum livro sobre este tópico foi escrito por um escritor evangélico para leitores sérios (até dois ou três anos atrás) por quase meio século. É verdade, surgiram vários livros pequenos, e apareceram algumas obras de peso. Gostaria de prestar tributo especial aos notáveis labores neste campo do Dr. Leon Morris, de Melbourne, Austrália. O seu livro Pregação Apostólica da Cruz (1955) deixou-nos todos em dívida, e alegro-me de que ele tenha trazido o conteúdo da obra ao alcance dos leigos em A Expiação (1983). Ele se tomou mestre da vasta literatura de todas as épocas sobre este tema, e seu livro A Cruz no Novo Testamento (1965) permanece, provavelmente, o exame mais completo hoje disponível. Dessa obra cito com caloroso endosso sua afirmativa de que “a cruz domina o Novo Testamento”.

Todavia, até à recente publicação do livro de Ronald Wallace intitulado A Morte Expiatória de Cristo (1981) e do de Michael Green A Cruz Vazia de Jesus (1984), não conheço outro livro evangélico para os leitores que tenho em mente, desde a obra de H. E. Guillebaud Por que a Cruz? (1937), que foi um dos primeiros livros editados pela IVF. Foi um livro corajoso, que enfrentou diretamente os críticos da expiação substitutiva com três perguntas: (1) “é cristã?” (isto é, compatível com os ensinos de Jesus e seus apóstolos); (2) “é imoral?” (isto é, compatível ou incompatível com a justiça); e (3) “é incrível?” (isto é, compatível ou incompatível com problemas como o tempo e a transferência da culpa.

Meu interesse é um pouco mais abrangente, pois este não é um livro apenas sobre a expiação, mas também sobre a cruz. Depois dos três capítulos introdutórios que formam a Primeira Parte, chego, na Segunda Parte, ao que chamei de “o coração da cruz”, na qual argumento em favor de uma compreensão verdadeiramente bíblica das noções de “satisfação” e “substituição”. Na Terceira Parte passo a três grandes realizações da cruz, a saber, salvar os pecadores, revelar a Deus e vencer o mal. A Quarta Parte, porém, trata de áreas que muitas vezes são omitidas nos livros sobre a cruz, isto é, o que significa à comunidade cristã “viver sob a cruz”. Procuro mostrar que a cruz a tudo transforma. Ela dá um relacionamento novo de adoração a Deus, uma compreensão nova e equilibrada de nós mesmos, um incentivo novo para nossa missão, um novo amor para com nossos inimigos e uma nova coragem para encarar as perplexidades do sofrimento.

Ao desenvolver o meu tema, conservei em mente o triângulo Escritura, tradição e mundo moderno. Meu primeiro desejo foi ser fiel à Palavra de Deus, permitindo que ela diga o que tem para dizer e não pedindo que ela diga o que eu gostaria que ela dissesse. Não há alternativa à exegese textual cuidadosa. Em segundo lugar, procurei partilhar alguns dos frutos das minhas leituras. Ao procurar compreender a cruz, não podemos ignorar as grandes obras do passado. Desrespeitar a tradição e a teologia histórica é desrespeitar o Espírito Santo que tem ativamente iluminado a igreja em todos os séculos. Então, em terceiro lugar, tentei compreender a Escritura, não apenas à sua própria luz e à luz da tradição, mas também com relação ao mundo contemporâneo. Perguntei o que a cruz de Cristo diz para nós que vivemos no final do século vinte.

Ao ousar escrever (e ler) um livro a respeito da cruz, há, é claro, um grande perigo de presunção. Isto, em parte, advém do fato de que o que realmente aconteceu quando “Deus estava reconciliando consigo mesmo o mundo em Cristo” é um mistério cujas profundezas passaremos a eternidade examinando; e, em parte, porque seria muitíssimo impróprio fingir um frio desprendimento à medida que contemplamos a cruz de Cristo. Quer queiramos, quer não, estamos envolvidos. Nossos pecados o colocaram aí. De sorte que, longe de nos elogiar, a cruz mina nossa justiça própria. Só podemos nos aproximar dela com a cabeça curvada e em espírito de contrição. E aí permanecemos até que o Senhor Jesus nos conceda ao coração sua palavra de perdão e aceitação, e nós, presos por seu amor, e transbordantes de ação de graças, saíamos para o mundo a fim de viver as nossas vidas no serviço dele.

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Informações do livro

Título: A Cruz de Cristo
Autor:
 John Stott
Editora: Vida
Edição:
Ano: 2006
Número de páginas: 360

Fonte: STOTT, John. A cruz de Cristo. São Paulo/SP: Vida, 2006.
Por:
Áurea Emanoela Holanda Lemos | PreciosoCristo | Original aqui.
Permissões: Você está autorizado e incentivado a reproduzir e distribuir este material em qualquer formato, desde que inclua estes créditos, não altere o conteúdo original e não o utilize para fins comerciais.

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O caminho da salvação (Parte 1)

Áurea Emanoela

O caminho da salvação

A Bíblia nos conduz a uma profunda reflexão a respeito da condição do homem – como indivíduo e na sociedade -, coloca-nos frente à nossa desesperada necessidade de salvação. Encontramo-nos em um “círculo vicioso”, numa perigosa posição de culpa e impotência. Nossa culpa nos desqualifica para recebermos, por merecimento, o único recurso que porventura poderia tirar-nos de nossa incômoda posição. Nenhum poder humano pode solucionar esse problema, tirando o homem do círculo vicioso em que está. Se o homem tiver de ser salvo, Deus precisa tomar a iniciativa.

Como afirma James Montgomery Boice,

isso não quer dizer que todas as pessoas são tão más quanto elas poderiam ser. Significa, antes, que todos os seres humanos são afetados pelo pecado em todo campo do pensamento e da conduta, de forma que nada do que vem de alguém, separado da graça regeneradora de Deus, pode agradá-lo. À medida que nosso relacionamento com Deus é afetado, nós somos tão destruídos pelo pecado que ninguém consegue entender adequadamente Deus ou os caminhos de Deus. Tampouco somos nós que buscamos Deus, e, sim, é ele quem primeiramente age dentro de nós para levar-nos a agir assim.

Existem várias descrições sobre a horrenda sorte do homem – fracasso, destruição, vazio, alienação, escravidão, rebelião, enfermidade, corrupção, imoralidade e morte. Igualmente variadas são as fúteis tentativas humanas de remediar essa situação – iluminação intelectual da ignorância, reforma moral, esforços ascéticos, tratamento médico ou psicológico, melhoramento social pelo emprego dos recursos tecnológicos, estratagemas os mais variados possíveis e, acima de tudo, técnicas religiosas criadas pelo homem.

Desde bem cedo em sua história, o homem teve de perceber, como continua tendo de ver, que não pode produzir a sua própria salvação, por causa da natureza radical de seu pecado e egocentrismo. Mais do que isso, as suas tentativas de salvar a si mesmo são a pior afronta a Deus, e fazem com que incorramos em Seu julgamento. A Bíblia expõe-nos Deus em santo amor, a conceber e a desdobrar um “plano de salvação” e o ponto crucial dessa salvação é a cruz de Cristo (Romanos 1.16; 1Coríntios 1.18).

É na morte de Seu Filho que Deus realiza o ato focal da salvação que oferece ao homem. Por toda a revelação bíblica, é o próprio Deus quem, movido por santo amor, provê a salvação. Os “retratos” são variados, mas o quadro daí resultante exibe a majestade, o mistério, o poder e a misericórdia de Deus em ação: o pecado, que é uma afronta à santidade de Deus, é removido em Cristo; condições legítimas de paz com Deus são ratificadas por Cristo, o qual estabeleceu a paz por meio de Sua cruz e fez expiação pelo homem alienado de seu Criador; um resgate foi pago para redimir ou libertar o escravo de sua escravidão; a absolvição, perante o “tribunal de justiça”, é declarada, visto que Deus, em Seu Filho, já suportou o julgamento e sofreu a pena imposta ao homem, ao identificar-se com o pecador em seu pecado; a honra de Deus fica satisfeita pela perfeição de Cristo, apresentada em obediência; Cristo une em Si mesmo a humanidade e a leva em Seu sacrifício até o Pai; Cristo é supremamente vitorioso em sua morte.

(Leia a Parte 2 e a Parte 3 – em breve)

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Deus está no comando?

Áurea Emanoela

Deus está no comando?

Foi esta a indagação com a qual me deparei há alguns dias, enquanto “passava os olhos” rapidamente pela página inicial de uma dessas redes sociais. Aquele questionamento me pareceu desafiador e, embora em tímidas letras minúsculas, “saltou” aos meus olhos como se houvesse sido escrito em letras garrafais: Deus está no comando?”

A pergunta, em tom incisivo, remetia a Belo Monte, um projeto de aproveitamento hidrelétrico em terras indígenas. Segundo detalhes do próprio vídeo, caso venha a ser construída, Belo Monte ocupará o “status” de terceira maior hidroelétrica do mundo, chegando a gerar até 11.182 megawatts. A vida nos arrabaldes do rio Xingu está ameaçada pelos interesses capitalistas daqueles que são incapazes de olhar para as necessidades do seu próximo, sequiosos pela ganância que se esconde por trás dos discursos de progresso.

Belo Monte deveria, sem dúvida, chamar a nossa atenção e despertar um senso de indignação que a maioria das pessoas só costuma ter quando alguém, com ou sem justificativas, lança mão do que não lhe pertence.

Todavia, confesso que, dessa vez, algo me chamou mais atenção do que “Belo Monte”… Aquela pergunta que tão nitidamente transferia para ELE toda a culpa pelos problemas trazidos pelo “progresso”.

Não é incomum ouvir indagações como essa nos diálogos que as pessoas estabelecem, nas “rodas de amigos”, no tom jocoso daqueles declaradamente céticos ou mesmo nas redes sociais (tão ovacionadas pela forma como têm sido usadas para conclamar o povo à “revolução”). Já vi outras indagações desafiadoras, tais como “Deus se preocupa?” estampando a foto de uma mulher vítima de agressão. Confesso que meu coração salta dentro do peito embalado por uma mistura de tristeza e outros tantos questionamentos.

Gostaria que, igualmente, as pessoas fossem capazes de olhar para o passado ao menos por um instante e procurassem direcionar sua visão cerca de dois mil anos atrás. Fosse assim, certamente os seus questionamentos acerca de Deus seriam plenamente respondidos e suas dúvidas, consequentemente redirecionadas.

Se porventura conseguissem fazer isso, seus olhos contemplariam a pequena cidade de Belém (cf. Lucas 2.1-7), onde veriam o Filho de Deus, Jesus Cristo, o prometido das nações, nascendo em uma manjedoura. Veriam Maria e José, pessoas simples escolhidas para receber o Cristo; veriam ambos tendo que esconder a pequenina Criança da fúria de Herodes, o qual tencionava tirar a Sua vida porque de maneira nenhuma queria colocar em risco o seu trono (cf. Mateus 2.13-15). Seus olhos pasmariam ao ver milhares de meninos de 0 a 2 anos de idade sendo mortos (cf. Mateus 2.16-18) – afinal de contas, o rei humano precisava assegurar a estabilidade de seu trono, mesmo que isso custasse o sangue de muitas crianças e as lágrimas de muitos pais.

Tais pessoas seriam transportadas no tempo e veriam um Menino de apenas doze anos de idade em meio a doutores, ouvindo-os e interrogando-os, “e todos os que o ouviam muito se admiravam da sua inteligência e das suas respostas” (Lucas 2.47). À semelhança dos pais terrenos de Jesus, ficariam maravilhadas com a sabedoria do Menino que, sem “atropelar” qualquer estágio de Seu desenvolvimento, “crescia […] em sabedoria, estatura e graça diante de Deus e dos homens” (Lucas 2.52).

Em seguida, ouviriam as palavras de João Batista conclamando o povo ao “arrependimento para remissão de pecados” (Lucas 3.3), desfiando a multidão corrupta a produzir “frutos dignos de arrependimento” (Lucas 3.8). Contemplariam a humildade com que João testemunhara dAquele que viria após ele (cf. Mateus 3.11-12) e participariam do batismo de Jesus (cf. Mateus 3.13-17; Marcos 1.9-11; Lucas 3.21-22; João 1.32-34). Seriam levados ao deserto e presenciaram a astúcia mordaz de satanás, em contraste com a fidelidade absoluta de Jesus a Deus (cf. Mateus 4.1-11; Marcos 1.12-13; Lucas 4.1-13).

Veriam um homem humilde – “pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homem; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz” (Filipenses 2.6-8) -, que andou entre os pecadores, publicanos e fariseus (cf. Mateus 9.10-13; Marcos 2.15-17; Lucas 5.29-32); que pregou a pessoas que a sociedade tinha como desprezíveis (cf. Lucas 10.21); que livrou uma mulher, pega em adultério, de ser apedrejada por homens perversos e cheios de justiça própria (cf. João 8.1-11). E, ao contrário do que muitos de nós faríamos, Ele não colocou o dedo em riste e lhes mostrou asperamente suas falhas; pelo contrário, levou-os humildemente à reflexão: “aquele que dentre vós estiver sem pecado seja o primeiro que lhe atire pedra” (João 8.7).

Contemplariam Jesus alimentando multidões (cf. Mateus 14.13-21; Lucas 9.10-17; João 6.1-13.). Nessa mesma ocasião, veriam Seus discípulos propondo ao Mestre que despedisse a multidão para que procurassem alimento para si; todavia, não os condenem, eles eram apenas homens imperfeitos.

Iriam contemplar outros tantos milagres (cf. Mateus 15. 21-28; Marcos 6.45-52); curas (cf. Mateus 21.14-17; Marcos 5.21-34; Lucas 18.35-43); libertação (cf. Marcos 5.1-14); vidas transformadas (cf. João 4.1-30); amor sem medida (cf. João 13.1). Veriam um homem perfeito, na essência da palavra, e, quando julgarem já ter visto tudo, seriam surpreendidas novamente. Ficariam atônitas com as cenas que estavam prestes a presenciar e, naquele exato momento, todas as suas indagações iriam mudar e, se fossem capazes de verdadeiramente ver, suas vidas nunca mais seriam as mesmas.

Veriam a maior maldade que os seus olhos jamais presenciaram: Jesus sendo crucificado. Elas estariam presentes em cada momento, desde o julgamento, quando o povo gritava: “Crucifica-o! Crucifica-o!” (cf. Marcos 15.13-14). Vê-lo-iam ser açoitado, cuspido, zombado (cf. Marcos 15.16-20; João 19.1); veriam a coroa de espinhos sendo colocada bruscamente na Sua cabeça (cf. João 19.2); veriam-no carregando a cruz (cf. João 19.17); ouviriam o ruído dos cravos perfurando Sua carne; veriam homens perversos dando-lhe vinagre quando Ele teve sede e lhes pediu água (João 19.28-30). Então, acompanhariam com olhos atentos a comitiva de soldados que vinha quebrar-lhe as pernas (cf. João 19.31), caso Ele ainda não tivesse morrido (afinal de contas, os judeus estavam para comemorar a Páscoa e aqueles corpos precisavam ser retirados da cruz). Todavia Ele já havia entregue seu espírito ao Pai (cf. Lucas 23.46), mas, ainda assim, cravaram-lhe uma lança no dorso (cf. João 19.34).

Depois de acompanhar tudo isso, certamente não ficariam admirados em ouvi-lo clamando ao Pai para que perdoasse os responsáveis por toda aquela atrocidade (cf. Lucas 23.34). Mas não poderiam, em absoluto, deixar de perceber que toda essa maldade fora praticada por homens que anteriormente haviam-no recebido com brados de louvor (cf. Mateus 21.1-11; Marcos 11.1-11; Lucas 19.28-40; João 12.12-15). O que mudou na mente desses homens? Não perceberam? As perguntas já começaram a mudar.

Concluiriam que Deus está no comando de todas as coisas desde a fundação do mundo. Exultariam, renderiam graças ao Senhor porque Ele “firmou o mundo para que não se abale” (1Crônicas 17.30). Compreenderiam, inequivocamente, que Deus sempre esteve presente, e não abandonou o seu Filho quando Ele foi levado pela mão de homens. O Dono de todas as coisas sempre esteve no comando.

Por fim, chegariam à única conclusão possível: a maldade que habita em corações não regenerados, a rebelião do homem contra Deus, o pecado que cega e alimenta as más inclinações não somente levou Jesus ao calvário, como continua incitando o homem contra o Senhor, tornando-o incapaz de compreender que “a ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça” (Romanos 1.18). O ápice de toda essa dureza de coração é atribuir ao Criador a culpa pelo mal que habita nos corações humanos e se revela em suas praticas.

A única afirmativa que nos caberia, portanto, seria esta: O pecado que habita no coração do homem leva-o a fazer coisas terríveis; todavia “é certo que não dormita, nem dorme o guarda de Israel” (Salmos 121.4).

É certo que não dormita, nem dorme o guarda de Israel

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A Cruz

Áurea Emanoela

A Cruz

Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar (porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado em madeiro) (Gálatas 3.13)

A cruz, certamente, é o maior símbolo do Cristianismo. É comum vê-la adornando os locais de reunião das igrejas, tremulando no pescoço dos cristãos, estampada em camisetas, adesivando carros, em lugar de destaque nas nossas residências, enfim, a cruz tem sido o maior orgulho dos cristãos ao longo dos séculos.

Mas a grande pergunta que se faz é: Como, de fato, temos enxergado a cruz? Qual é o seu significado para as nossas vidas? Entendê-la racionalmente não é suficiente para que possamos compreender a sua sublimidade. Conhecer os fatos históricos, apenas, é insuficiente para fazer com que venhamos a mergulhar nesse mistério de amor, graça e poder de Deus (cf. 1Coríntios 1.18).

“A imagem que é tão santificada entre nós, era grotesca e abominável para aqueles que viveram no século I. Era um símbolo de maldade, tortura e vergonha.”  (D. A. Carson, A Cruz e o Ministério Cristão). Nenhum cidadão romano poderia ser condenado à morte por crucificação, sem que houvesse sanção explícita do próprio imperador; somente os criminosos mais vis e desprezíveis eram submetidos à morte de cruz, e foi justamente com estes que o Filho de Deus – Jesus Cristo, o Justo – foi contado.

Aqueles que eram mortos por crucificação ainda eram expostos a uma profunda humilhação; “o indivíduo condenado era deixado inteiramente despido, posto em terra com a travessa da cruz sob os ombros, as suas mãos eram amarradas ou cravadas (João 20.25) à mesma.” (Novo Dicionário da Bíblia, 2006, p. 310).

Some-se a isso a imensidão da dor causada por esse tipo bárbaro de execução. Após ser erguida a cruz, “o condenado era abandonado para morrer de fome e exaustão. A morte algumas vezes era apressada pelo crurifragium, isto é, a fratura dos ossos das pernas, como sucedeu no caso dos dois ladrões, mais que não foi feito no caso de nosso Senhor por já ter ele morrido. Entretanto uma lança foi enfiada em seu lado, para tornar certa a morte, a fim de que o corpo pudesse ser removido, conforme os judeus exigiam, antes do início do sábado (João 19.31s).” (Novo Dicionário da Bíblia, 2006, p. 310).

Essa foi a morte que padeceu o nosso Jesus, pela qual o povo clamava (João 19.6). Todavia, “ele suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia” (Hebreus 12.2). A cruz era utilizada pelos romanos “não apenas como instrumento de tortura e execução, mas também como pelourinho vergonhoso, reservado para os mais baixos e vis.” (Novo Dicionário da Bíblia, 2006, p. 311).

Os nossos pecados nos separavam do Pai e afrontavam a sua Glória; estávamos condenados a uma eternidade no inferno e, mesmo assim, não conseguiríamos aplacar a ira de Deus. Por isso, palavra da cruz é igualmente para nós a palavra da reconciliação, ”a saber, que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação” (2Coríntios 5.19).

Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo

Além disso, estávamos separados pela lei, judeus e gentios em lados opostos, em posição de desigualdade. Somente o sangue purificador, que foi vertido na cruz, faria cair por terra o “muro de separação” outrora existente. “Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos fez um; e, tendo derribado a parede da separação que estava no meio, a inimizade, aboliu, na sua carne, a lei dos mandamentos na forma de ordenanças, para que dos dois criasse, em si mesmo, um novo homem, fazendo a paz, e reconciliasse ambos em um só corpo com Deus, por intermédio da cruz, destruindo por ela a inimizade” (Efésios 2.14-16). O escrito de dívida que pesava contra nós foi cravado, de uma vez por todas, na cruz (cf. Colossenses 2.14).

Aquele que nunca cometeu pecados, que “quando ultrajado, não revidava com ultraje; quando maltratado, não fazia ameaças” (cf. 1Pedro 2.23), desceu ao degrau mais baixo em sua humilhação, suportando a “morte de cruz” (cf. Filipenses 2.8), para manifestar a Glória de Deus aos homens.

Ao olharmos a cruz, mais do que tentar compreendê-la racionalmente, precisamos ser impactados pelo seu significado. Ao observarmos o madeiro, o nosso coração tem que se encher de uma exultação santa e humilde, pois, quando contemplamos a cruz, somos impelidos a olhar para nós mesmos e assim enxergarmos a matéria da qual somos feitos; somos colocados frente a frente com as nossas imperfeições; vislumbramos nitidamente a nossa insuficiência, o nosso completo imerecimento; e, então, somos iluminados por Aquele que é ao mesmo tempo “símbolo de vergonha e humilhação, bem como da sabedoria e da glória de Deus.” (Novo Dicionário da Bíblia, p. 311, 2006).

A cruz é o símbolo de nossa união com Cristo, não simplesmente em virtude de compartilharmos de seu exemplo, mas em virtude do que Ele realizou por nós e em nós. Em sua morte vicária sobre o madeiro cruento, nós morremos em Cristo (cf. 2 Coríntios 5.14), e “nosso velho homem foi crucificado com Ele”, a fim de que, pelo Espírito Santo que em nós habita, possamos andar em novidade de vida (cf. Romanos 6.14s; Gálatas 2.20; 5.24s; 6.14; 1 Pedro 2.24).

A cruz não é para nós apenas um exemplo, a cruz é o lugar da nossa união com Cristo

Por: Áurea Emanoela Holanda Lemos | PreciosoCristo | Original aqui.
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