Deus está no comando?

Áurea Emanoela

Deus está no comando?

Foi esta a indagação com a qual me deparei há alguns dias, enquanto “passava os olhos” rapidamente pela página inicial de uma dessas redes sociais. Aquele questionamento me pareceu desafiador e, embora em tímidas letras minúsculas, “saltou” aos meus olhos como se houvesse sido escrito em letras garrafais: Deus está no comando?”

A pergunta, em tom incisivo, remetia a Belo Monte, um projeto de aproveitamento hidrelétrico em terras indígenas. Segundo detalhes do próprio vídeo, caso venha a ser construída, Belo Monte ocupará o “status” de terceira maior hidroelétrica do mundo, chegando a gerar até 11.182 megawatts. A vida nos arrabaldes do rio Xingu está ameaçada pelos interesses capitalistas daqueles que são incapazes de olhar para as necessidades do seu próximo, sequiosos pela ganância que se esconde por trás dos discursos de progresso.

Belo Monte deveria, sem dúvida, chamar a nossa atenção e despertar um senso de indignação que a maioria das pessoas só costuma ter quando alguém, com ou sem justificativas, lança mão do que não lhe pertence.

Todavia, confesso que, dessa vez, algo me chamou mais atenção do que “Belo Monte”… Aquela pergunta que tão nitidamente transferia para ELE toda a culpa pelos problemas trazidos pelo “progresso”.

Não é incomum ouvir indagações como essa nos diálogos que as pessoas estabelecem, nas “rodas de amigos”, no tom jocoso daqueles declaradamente céticos ou mesmo nas redes sociais (tão ovacionadas pela forma como têm sido usadas para conclamar o povo à “revolução”). Já vi outras indagações desafiadoras, tais como “Deus se preocupa?” estampando a foto de uma mulher vítima de agressão. Confesso que meu coração salta dentro do peito embalado por uma mistura de tristeza e outros tantos questionamentos.

Gostaria que, igualmente, as pessoas fossem capazes de olhar para o passado ao menos por um instante e procurassem direcionar sua visão cerca de dois mil anos atrás. Fosse assim, certamente os seus questionamentos acerca de Deus seriam plenamente respondidos e suas dúvidas, consequentemente redirecionadas.

Se porventura conseguissem fazer isso, seus olhos contemplariam a pequena cidade de Belém (cf. Lucas 2.1-7), onde veriam o Filho de Deus, Jesus Cristo, o prometido das nações, nascendo em uma manjedoura. Veriam Maria e José, pessoas simples escolhidas para receber o Cristo; veriam ambos tendo que esconder a pequenina Criança da fúria de Herodes, o qual tencionava tirar a Sua vida porque de maneira nenhuma queria colocar em risco o seu trono (cf. Mateus 2.13-15). Seus olhos pasmariam ao ver milhares de meninos de 0 a 2 anos de idade sendo mortos (cf. Mateus 2.16-18) – afinal de contas, o rei humano precisava assegurar a estabilidade de seu trono, mesmo que isso custasse o sangue de muitas crianças e as lágrimas de muitos pais.

Tais pessoas seriam transportadas no tempo e veriam um Menino de apenas doze anos de idade em meio a doutores, ouvindo-os e interrogando-os, “e todos os que o ouviam muito se admiravam da sua inteligência e das suas respostas” (Lucas 2.47). À semelhança dos pais terrenos de Jesus, ficariam maravilhadas com a sabedoria do Menino que, sem “atropelar” qualquer estágio de Seu desenvolvimento, “crescia […] em sabedoria, estatura e graça diante de Deus e dos homens” (Lucas 2.52).

Em seguida, ouviriam as palavras de João Batista conclamando o povo ao “arrependimento para remissão de pecados” (Lucas 3.3), desfiando a multidão corrupta a produzir “frutos dignos de arrependimento” (Lucas 3.8). Contemplariam a humildade com que João testemunhara dAquele que viria após ele (cf. Mateus 3.11-12) e participariam do batismo de Jesus (cf. Mateus 3.13-17; Marcos 1.9-11; Lucas 3.21-22; João 1.32-34). Seriam levados ao deserto e presenciaram a astúcia mordaz de satanás, em contraste com a fidelidade absoluta de Jesus a Deus (cf. Mateus 4.1-11; Marcos 1.12-13; Lucas 4.1-13).

Veriam um homem humilde – “pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homem; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz” (Filipenses 2.6-8) -, que andou entre os pecadores, publicanos e fariseus (cf. Mateus 9.10-13; Marcos 2.15-17; Lucas 5.29-32); que pregou a pessoas que a sociedade tinha como desprezíveis (cf. Lucas 10.21); que livrou uma mulher, pega em adultério, de ser apedrejada por homens perversos e cheios de justiça própria (cf. João 8.1-11). E, ao contrário do que muitos de nós faríamos, Ele não colocou o dedo em riste e lhes mostrou asperamente suas falhas; pelo contrário, levou-os humildemente à reflexão: “aquele que dentre vós estiver sem pecado seja o primeiro que lhe atire pedra” (João 8.7).

Contemplariam Jesus alimentando multidões (cf. Mateus 14.13-21; Lucas 9.10-17; João 6.1-13.). Nessa mesma ocasião, veriam Seus discípulos propondo ao Mestre que despedisse a multidão para que procurassem alimento para si; todavia, não os condenem, eles eram apenas homens imperfeitos.

Iriam contemplar outros tantos milagres (cf. Mateus 15. 21-28; Marcos 6.45-52); curas (cf. Mateus 21.14-17; Marcos 5.21-34; Lucas 18.35-43); libertação (cf. Marcos 5.1-14); vidas transformadas (cf. João 4.1-30); amor sem medida (cf. João 13.1). Veriam um homem perfeito, na essência da palavra, e, quando julgarem já ter visto tudo, seriam surpreendidas novamente. Ficariam atônitas com as cenas que estavam prestes a presenciar e, naquele exato momento, todas as suas indagações iriam mudar e, se fossem capazes de verdadeiramente ver, suas vidas nunca mais seriam as mesmas.

Veriam a maior maldade que os seus olhos jamais presenciaram: Jesus sendo crucificado. Elas estariam presentes em cada momento, desde o julgamento, quando o povo gritava: “Crucifica-o! Crucifica-o!” (cf. Marcos 15.13-14). Vê-lo-iam ser açoitado, cuspido, zombado (cf. Marcos 15.16-20; João 19.1); veriam a coroa de espinhos sendo colocada bruscamente na Sua cabeça (cf. João 19.2); veriam-no carregando a cruz (cf. João 19.17); ouviriam o ruído dos cravos perfurando Sua carne; veriam homens perversos dando-lhe vinagre quando Ele teve sede e lhes pediu água (João 19.28-30). Então, acompanhariam com olhos atentos a comitiva de soldados que vinha quebrar-lhe as pernas (cf. João 19.31), caso Ele ainda não tivesse morrido (afinal de contas, os judeus estavam para comemorar a Páscoa e aqueles corpos precisavam ser retirados da cruz). Todavia Ele já havia entregue seu espírito ao Pai (cf. Lucas 23.46), mas, ainda assim, cravaram-lhe uma lança no dorso (cf. João 19.34).

Depois de acompanhar tudo isso, certamente não ficariam admirados em ouvi-lo clamando ao Pai para que perdoasse os responsáveis por toda aquela atrocidade (cf. Lucas 23.34). Mas não poderiam, em absoluto, deixar de perceber que toda essa maldade fora praticada por homens que anteriormente haviam-no recebido com brados de louvor (cf. Mateus 21.1-11; Marcos 11.1-11; Lucas 19.28-40; João 12.12-15). O que mudou na mente desses homens? Não perceberam? As perguntas já começaram a mudar.

Concluiriam que Deus está no comando de todas as coisas desde a fundação do mundo. Exultariam, renderiam graças ao Senhor porque Ele “firmou o mundo para que não se abale” (1Crônicas 17.30). Compreenderiam, inequivocamente, que Deus sempre esteve presente, e não abandonou o seu Filho quando Ele foi levado pela mão de homens. O Dono de todas as coisas sempre esteve no comando.

Por fim, chegariam à única conclusão possível: a maldade que habita em corações não regenerados, a rebelião do homem contra Deus, o pecado que cega e alimenta as más inclinações não somente levou Jesus ao calvário, como continua incitando o homem contra o Senhor, tornando-o incapaz de compreender que “a ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça” (Romanos 1.18). O ápice de toda essa dureza de coração é atribuir ao Criador a culpa pelo mal que habita nos corações humanos e se revela em suas praticas.

A única afirmativa que nos caberia, portanto, seria esta: O pecado que habita no coração do homem leva-o a fazer coisas terríveis; todavia “é certo que não dormita, nem dorme o guarda de Israel” (Salmos 121.4).

É certo que não dormita, nem dorme o guarda de Israel

Por: Áurea Emanoela Holanda Lemos | PreciosoCristo | Original aqui.
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A Cruz

Áurea Emanoela

A Cruz

Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar (porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado em madeiro) (Gálatas 3.13)

A cruz, certamente, é o maior símbolo do Cristianismo. É comum vê-la adornando os locais de reunião das igrejas, tremulando no pescoço dos cristãos, estampada em camisetas, adesivando carros, em lugar de destaque nas nossas residências, enfim, a cruz tem sido o maior orgulho dos cristãos ao longo dos séculos.

Mas a grande pergunta que se faz é: Como, de fato, temos enxergado a cruz? Qual é o seu significado para as nossas vidas? Entendê-la racionalmente não é suficiente para que possamos compreender a sua sublimidade. Conhecer os fatos históricos, apenas, é insuficiente para fazer com que venhamos a mergulhar nesse mistério de amor, graça e poder de Deus (cf. 1Coríntios 1.18).

“A imagem que é tão santificada entre nós, era grotesca e abominável para aqueles que viveram no século I. Era um símbolo de maldade, tortura e vergonha.”  (D. A. Carson, A Cruz e o Ministério Cristão). Nenhum cidadão romano poderia ser condenado à morte por crucificação, sem que houvesse sanção explícita do próprio imperador; somente os criminosos mais vis e desprezíveis eram submetidos à morte de cruz, e foi justamente com estes que o Filho de Deus – Jesus Cristo, o Justo – foi contado.

Aqueles que eram mortos por crucificação ainda eram expostos a uma profunda humilhação; “o indivíduo condenado era deixado inteiramente despido, posto em terra com a travessa da cruz sob os ombros, as suas mãos eram amarradas ou cravadas (João 20.25) à mesma.” (Novo Dicionário da Bíblia, 2006, p. 310).

Some-se a isso a imensidão da dor causada por esse tipo bárbaro de execução. Após ser erguida a cruz, “o condenado era abandonado para morrer de fome e exaustão. A morte algumas vezes era apressada pelo crurifragium, isto é, a fratura dos ossos das pernas, como sucedeu no caso dos dois ladrões, mais que não foi feito no caso de nosso Senhor por já ter ele morrido. Entretanto uma lança foi enfiada em seu lado, para tornar certa a morte, a fim de que o corpo pudesse ser removido, conforme os judeus exigiam, antes do início do sábado (João 19.31s).” (Novo Dicionário da Bíblia, 2006, p. 310).

Essa foi a morte que padeceu o nosso Jesus, pela qual o povo clamava (João 19.6). Todavia, “ele suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia” (Hebreus 12.2). A cruz era utilizada pelos romanos “não apenas como instrumento de tortura e execução, mas também como pelourinho vergonhoso, reservado para os mais baixos e vis.” (Novo Dicionário da Bíblia, 2006, p. 311).

Os nossos pecados nos separavam do Pai e afrontavam a sua Glória; estávamos condenados a uma eternidade no inferno e, mesmo assim, não conseguiríamos aplacar a ira de Deus. Por isso, palavra da cruz é igualmente para nós a palavra da reconciliação, ”a saber, que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação” (2Coríntios 5.19).

Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo

Além disso, estávamos separados pela lei, judeus e gentios em lados opostos, em posição de desigualdade. Somente o sangue purificador, que foi vertido na cruz, faria cair por terra o “muro de separação” outrora existente. “Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos fez um; e, tendo derribado a parede da separação que estava no meio, a inimizade, aboliu, na sua carne, a lei dos mandamentos na forma de ordenanças, para que dos dois criasse, em si mesmo, um novo homem, fazendo a paz, e reconciliasse ambos em um só corpo com Deus, por intermédio da cruz, destruindo por ela a inimizade” (Efésios 2.14-16). O escrito de dívida que pesava contra nós foi cravado, de uma vez por todas, na cruz (cf. Colossenses 2.14).

Aquele que nunca cometeu pecados, que “quando ultrajado, não revidava com ultraje; quando maltratado, não fazia ameaças” (cf. 1Pedro 2.23), desceu ao degrau mais baixo em sua humilhação, suportando a “morte de cruz” (cf. Filipenses 2.8), para manifestar a Glória de Deus aos homens.

Ao olharmos a cruz, mais do que tentar compreendê-la racionalmente, precisamos ser impactados pelo seu significado. Ao observarmos o madeiro, o nosso coração tem que se encher de uma exultação santa e humilde, pois, quando contemplamos a cruz, somos impelidos a olhar para nós mesmos e assim enxergarmos a matéria da qual somos feitos; somos colocados frente a frente com as nossas imperfeições; vislumbramos nitidamente a nossa insuficiência, o nosso completo imerecimento; e, então, somos iluminados por Aquele que é ao mesmo tempo “símbolo de vergonha e humilhação, bem como da sabedoria e da glória de Deus.” (Novo Dicionário da Bíblia, p. 311, 2006).

A cruz é o símbolo de nossa união com Cristo, não simplesmente em virtude de compartilharmos de seu exemplo, mas em virtude do que Ele realizou por nós e em nós. Em sua morte vicária sobre o madeiro cruento, nós morremos em Cristo (cf. 2 Coríntios 5.14), e “nosso velho homem foi crucificado com Ele”, a fim de que, pelo Espírito Santo que em nós habita, possamos andar em novidade de vida (cf. Romanos 6.14s; Gálatas 2.20; 5.24s; 6.14; 1 Pedro 2.24).

A cruz não é para nós apenas um exemplo, a cruz é o lugar da nossa união com Cristo

Por: Áurea Emanoela Holanda Lemos | PreciosoCristo | Original aqui.
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