Uma fábula sobre duas teologias: As tradições reformadas holandesa e escocesa

Nota do tradutor: todos os links do texto original foram mantidos, em inglês. É possível que alguns dos artigos a que tais links se referem sejam, posteriormente, traduzidos e publicados aqui no PreciosoCristo.

Justin Holcomb

Calvinismo holandês e calvinismo escocês

Você já ouviu falar da “outra” teologia reformada? Muitos, na ressurgência do interesse pela Reforma, estão familiarizados apenas com um lado do amplo espectro histórico da teologia reformada e, infelizmente, muitos dos estereótipos do “calvinismo” existem porque o legado de João Calvino tem sido negligentemente mutilado.

Muito frequentemente, a teologia reformada é definida meramente pelos assim chamados “cinco pontos” do calvinismo: depravação total, eleição incondicional, expiação limitada, graça irresistível e perseverança dos santos. Embora essa ênfase em como Deus salva pecadores tenha valor, ela falha em capturar toda a amplitude da herança do pensamento reformado.

Existem duas correntes principais na teologia reformada que se desenvolveram a partir da obra de João Calvino: a corrente do calvinismo escocês e a corrente reformada holandesa. A tradição escocesa apresenta uma forte ênfase nas doutrinas da salvação e na ordo salutis (“ordem da salvação”). Porém outra dimensão é encontrada na tradição reformada holandesa, a qual também celebra as doutrinas reformadas da salvação, mas também enfatiza a cosmovisão, o engajamento cultural e o senhorio de Jesus sobre todos os aspectos da vida. Surpreendentemente, as duas correntes raramente têm interagido. Vamos dar um pequeno passeio pelas tradições teológicas reformadas escocesa e holandesa.

A tradição reformada escocesa

O ramo escocês da teologia reformada nasceu imediatamente a partir da Reforma. Nos primeiros dias da Reforma, o teólogo e pastor John Knox (1514-1572) fazia parte de um grupo que tentava reformar a igreja da Escócia; todavia, esse envolvimento levou à sua prisão e, depois, ao exílio. Enquanto no exílio, ele viajou à base de operações de João Calvino em Genebra, na Suíça. Lá, Knox ficou fascinado pela doutrina da predestinação e, dizem alguns, tornou-se mais “calvinista” do que o próprio Calvino. Knox, por fim, retornou e tornou-se a principal personagem na fundação da Igreja da Escócia, a qual representa a origem do Presbiterianismo.

As gerações subsequentes dentro da tradição teológica reformada escocesa (incluindo os puritanos ingleses, tais como Richard Baxter e John Owen) adquiriram a reputação de serem sombrios pregadores do inferno, de aplicarem severamente a disciplina eclesiástica enquanto investigavam a vida privada dos membros da igreja (isto é, por sua “tirania moral”), bem como de suprimirem as artes. Os teólogos americanos, tais como o grande Jonathan Edwards, também foram influenciados pela teologia e filosofia reformada escocesa e herdaram algumas dessas mesmas críticas. Embora haja provavelmente um pouco de verdade em cada uma dessas críticas comuns, tais práticas emergiram de situações culturais particulares e não deveriam ser as únicas medidas pelas quais a teologia reformada escocesa é julgada.

Ao longo dos séculos XVII e XVIII, os assuntos da predestinação, a eleição, a reprovação, a extensão da expiação e a perseverança dos santos ganharam a atenção dos camponeses da Escócia. Embora as preocupações dos camponeses com essas doutrinas tenham surgido por causa da ênfase de seus líderes nelas, as doutrinas da soteriologia calvinista tocaram nas necessidades práticas e existenciais que os membros da igreja enfrentavam.

Embora seja verdade que a teologia reformada escocesa rumou para algumas formas mais “secas” de calvinismo, a sua confissão original (a Confissão Escocesa de 1560) mantinha a natureza missional da igreja e o foco evangelístico da teologia. A doutrina reformada dos escoceses nunca estava separada da vida prática. Os escoceses olhavam para a Confissão de Fé de Westminster como o seu padrão doutrinário (sob a autoridade da Escritura) e procuraram implementar aqueles grandes verdades teológicas em suas vidas diárias.

A tradição reformada holandesa

O calvinismo chegou aos Países Baixos na terceira onda da Reforma, nos idos de 1560. O calvinismo holandês contribuiu com alguns dos mais importantes credos do início da Reforma: a Confissão Belga de 1561 deu uma definição original à Igreja Reformada Holandesa; o Catecismo de Heidelberg de 1563 serviu como uma ponte, cultivando unidade entre os reformados holandeses e alemães; e os Cânones de Dort em 1619 serviram como um concílio ecumênico reformado.

Ao longo do tempo, a Igreja Reformada Holandesa rumou para o liberalismo teológico. Posteriormente, no final do século XIX, o trabalho dos neocalvinistas, tais como Abraham Kuyper, Herman Bavinck e Louis Berkhof, despertou a igreja holandesa do sono e deu forma àquilo que é hoje conhecido como a escola de teologia reformada holandesa (fique atento a mais posts sobre cada uma dessas personagens).

Embora o pensamento reformado holandês tenha muito em comum com a tradição reformada mais ampla, algumas feições o distinguem. Um dos melhores resumos do pensamento reformado holandês é capturado nesta citação de Douglas Wilson: “Tudo de Cristo para tudo da vida”, bem como nestas famosas palavras de Abraham Kuyper: “Não há um centímetro quadrado em todo o domínio de nossa existência sobre o qual Cristo, que é Soberano sobre tudo, não clame: ‘É meu!'”.

Kuyper defendeu o senhorio de Criso sobre todas as áreas da vida e instigou os cristãos a não desprezarem certos campos da cultura e da sociedade por serem “mundanos”. Ele acreditava que Deus havia estabelecido estruturas de autoridade em diferentes esferas da criação, e que reconhecer os limites entre essas esferas ajudaria a manter e distribuir a justiça e a ordem na sociedade.

Segundo Kuyper, o governo de Deus sobre a terra se realiza através da fiel presença cultural de Sua igreja. Essa crença conduziu os teólogos holandeses a enfatizarem a ação cultural por parte dos cristãos. Kuyper desejava que os cristãos entendessem que cada cosmovisão possui as suas próprias suposições filosóficas particulares, e que a fé cristã possui suposições que moldam a maneira como os crentes deveriam agir em cada área da vida. Como um resultado da soberania absoluta de Deus, os cristãos devem experimentar a graça de Deus em todos os aspectos da vida, não apenas em atividades da igreja e cultos de adoração.

O ponto alto da teologia reformada holandesa é, possivelmente, a Teologia Sistemática de Louis Berkhof (grande revelação: eu fui apresentado à teologia reformada enquanto lia Berkhof, quando tinha 17 anos).

A teologia reformada holandesa compartilhava importantes aspectos essenciais com a escola de teologia da Antiga Princeton (adepta da tradição calvinista escocesa) nos Estados Unidos, mas elas diferiam significativamente em algumas áreas. Os holandeses sustentavam a crença de que as pessoas não possuem qualquer neutralidade religiosa, algum tipo de faculdade racional “objetiva”. Isso significava que não há qualquer terreno comum, necessariamente, compartilhado entre crentes e incrédulos. O mundo contem numerosas cosmovisões articuladas, e isso faz da apologética mais um confronto de cosmovisões do que um debate sobre evidências.

Enquanto os teólogos de Princeton (da corrente escocesa) enfatizavam uma doutrina da Escritura com foco na inerrância e na verdade proposicional, os reformados holandeses, salientavam o testemunho interior do Espírito Santo para validar a confiabilidade da Escritura.

Complementares, não contraditórias

Pode parecer que as correntes escocesa e holandesa da igreja reformada estão a milhas de distância em suas ênfases, mas é importante notar que as situações culturais em que cada uma delas se desenvolveu eram significativamente diferentes. Os teólogos holandeses estavam enfrentando uma igreja que sucumbia ao liberalismo teológico modernista do século XIX e tentavam encontrar um lar cultural para si mesmos, em suas novas instalações nos Estados Unidos. Sendo assim, a sua ênfase no supremo reinado de Cristo sobre as ideologias do momento e a sua cuidadosa concepção da cultura eram de se esperar. Em um sentido, a teologia reformada holandesa foi uma aplicação específica dos amplos princípios da Reforma.

O foco dos escoceses estava mais nas doutrinas primárias da Reforma do que em suas aplicações específicas a novas situações culturais. Mais do que isso, os reformados escoceses focaram em levar a Reforma inicial às regiões circunvizinhas, o que explica a sua ênfase em missões.

As igrejas reformadas escocesa e holandesa não estão tão distantes como pode parecer a princípio. Elas compartilhavam as mesmas doutrinas reformadas básicas, embora enfatizassem diferentes aspectos. Nada obstante, mesmo nesses distintos pontos de concentração, tanto os teólogos reformados escoceses quanto os holandeses estavam focados em fazer discípulos e tornar o evangelho frutífero no mundo ao seu redor. Ambas as tradições são exemplos para o movimento reformado de nossos dias.

Créditos: By Justin Holcomb © 2012 Resurgence. All Rights Reserved. Website: theresurgence.com | Original aqui.
Tradução: 
Vinícius Silva Pimentel | PreciosoCristo | Original aqui.
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Conselhos para os jovens reformados: Conclusão

Vinícius S. Pimentel

(Vejam o índice na Introdução.)

Semana da Reforma Protestante 2011

Conclusão

Como eu disse, irmãos, sinto-me profundamente feliz e agraciado por fazer parte dessa significativa multidão de jovens crentes que se interessa pela teologia reformada. Eu creio, de todo o meu coração, que a expressividade com que um cristão caminha neste mundo depende, antes de tudo, do seu conhecimento de Deus, o qual nos é concedido pela meditação diligente nas Escrituras. Portanto, o interesse dos jovens pelo estudo da teologia e da herança espiritual deixada pelos nossos irmãos do passado representa, a meu ver, um passo significativo na direção de um testemunho cristão mais vigoroso. A minha sincera esperança e oração ao Senhor é esta: que este grupo de “jovens reformados” torne-se, enfim, um grupo de crentes maduros, santificados, experimentados na fé, cheios do Espírito Santo e dotados de um testemunho irrepreensível, diante do qual o mundo se renderá e glorificará o nosso Deus e Pai.

Entretanto, como nós percebemos ao longo desta série de conselhos, existem desafios imensos a serem enfrentados para que estes jovens reformados avancem até a perfeita varonilidade. É verdade que os obstáculos aqui mencionados se apresentam diante de todo cristão que deseja de fato seguir o Senhor; contudo, verificamos que eles acometem com frequência os calvinistas e, numa intensidade ainda maior, os jovens calvinistas. Poderíamos ter falado sobre muitos outros, mas acredito que, ao longo desta Semana da Reforma, conseguimos abordar uma variedade significativa de perigos que rondam os jovens reformados, a saber:

  • o perigo de dedicarem-se demasiadamente a questões secundárias, ao invés de focarem Cristo e o Evangelho;
  • o perigo de serem meros “bajuladores do Evangelho”, ao invés de serem pregadores vigorosos do Evangelho;
  • o perigo de tornarem-se acadêmicos ininteligíveis, ao invés de comunicadores claros e efetivos da mensagem de Deus;
  • o perigo de relaxarem com a doutrina da eleição, ao invés de perseguirem diligentemente a santidade;
  • o perigo de gastarem tempo excessivo em blogs, sites e mídias sociais, ao invés de dedicarem-se à oração;
  • e o perigo de menosprezarem a igreja local, ao invés de aceitarem com alegria o “jugo suave” da comunhão cristã.

Como nós devemos lidar com obstáculos tão significativos? A Palavra de Deus nos ordena, por um lado, a sermos vigilantes quanto às armadilhas de satanás e esforçados no crescimento em graça. Por outro lado, as mesmas Escrituras nos ensinam a confiar inteiramente no Deus que nos chamou, pois Ele mesmo cuidará para que a Sua obra em nós seja completada. É Ele quem opera em nós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade (Filipenses 2.13). É Ele quem nos guarda de tropeços e assegura que seremos apresentados com exultação, imaculados diante da sua glória (Judas 24). Como diz a Escritura:

O mesmo Deus da paz vos santifique em tudo; e o vosso espírito, alma e corpo sejam conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo. Fiel é o que vos chama, o qual também o fará. (1Tessalonicenses 5.23-24)

Portanto, podemos marchar confiantes na direção do alvo, sabedores de que o nosso Deus soberano não falha; Ele haverá de transformar a nós, jovens reformados, em crentes que refletem de maneira fidedigna e vigorosa a imagem do Seu Filho, para a Sua própria glória.

Por: Vinícius Silva Pimentel | PreciosoCristo | Original aqui.
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Conselhos para os jovens reformados: Não menosprezem a igreja local

Vinícius S. Pimentel

(Vejam o índice na Introdução.)

Semana da Reforma Protestante 2011

6º conselho: Não menosprezem a importância da igreja local

Um dos assuntos menos abordados nos debates entre os jovens reformados é a importância da comunhão cristã na igreja local. Segundo percebo, alguns desses jovens crentes demonstram desconfiança e até mesmo um menosprezo pela vida comunitária da congregação. As razões para isso são muitas e muito profundas, e não é meu desejo discuti-las aqui. Meu objetivo a esta altura é apenas oferecer um forte encorajamento a que os jovens reformados permaneçam ativamente engajados na vida de uma igreja local.

Embora seja muito mais conhecido pela sua ênfase na relação individual do crente com Deus, seria um completo erro ignorar a importância que o calvinismo dá à comunhão dos cristãos na igreja. E, aqui, não estamos falando abstratamente da “igreja invisível”, que é a reunião de todos os eleitos, mas da igreja local como corpo visível de cristãos professos (1). João Calvino entendia que a fé cristã não pode se desenvolver apenas na comunhão individual do crente com Deus; a santificação e o crescimento na graça dependem também da comunhão dos crentes uns com os outros, na igreja local.

Franklin Ferreira e Alan Myatt observam o lugar destacado que a congregação tinha na teologia de Calvino:

[Para Calvino,] O local da santificação é a congregação, a igreja visível, na qual os eleito participam dos benefícios de Cristo “não como indivíduos isolados, mas como membros de um corpo”. Assim, a igreja visível torna-se uma “comunidade santa”. […] Em sua discussão sobre a igreja visível, Calvino chamou a igreja de mater et schola de todos os cristãos, porque ela os leva ao novo nascimento por intermédio da Palavra, bem como os educa e alimenta durante toda a sua vida. (2)

Em seu comentário da carta aos Efésios, Calvino parece apontar duas razões pelas quais a igreja local é tão importante para a vida cristã. Em primeiro lugar, a congregação é o ambiente onde o ministério da Palavra é exercido, isto é, onde Deus edifica o Seu povo por meio da pregação. O reformador de Genebra repreende severamente aqueles que não reconheciam o devido valor da igreja local, chamando-os de “soberbos que acreditam que lhes é suficiente a leitura privativa das Escrituras, não tendo qualquer necessidade do ministério da Igreja”. Ele então acrescenta:

[…] em consonância com o mandamento de Cristo, não somos devidamente unidos ou aperfeiçoados senão pela proclamação externa. Devemos deixar-nos ser governados e doutrinados pelos homens. Eis a regra universal, a qual abrange tanto os mais eminentes quanto os mais humildes. A Igreja é a mãe comum de todos os piedosos, a qual suporta, nutre e governa, no Senhor, tanto a reis como a seus súditos; e tal coisa é feita pelo ministério. Os que negligenciam, ou fazem pouco, desta ordem pretendem ser mais sábios do que Cristo. Ai da soberba de tais homens! (3)

Em segundo lugar, João Calvino enfatiza a importância da igreja local por considerar que é na comunhão de uns com os outros que os crentes realmente avançam para a maturidade e para a perfeição. A igreja existe porque Deus distribuiu os Seus dons aos Seus filhos de maneira que eles se tornassem dependentes uns dos outros. Calvino defende a nossa necessidade de comunhão com outros crentes com fortes e belas palavras:

Nenhum membro do corpo de Cristo é dotado de perfeição tal que seja capaz, sem a assistência de outros, de suprir suas necessidades pessoais. […] Deus não concede todas as coisas a ninguém isoladamente, senão que cada um recebe uma certa medida, para que dependamos uns dos outros; e, ao reunir o que lhes é dado individualmente, assim eles têm como socorrer uns aos outros. (4)

Além disso, para o reformador, as dificuldades, desavenças e ofensas que surgem entre os cristãos não são um motivo para que eles se afastem da comunhão; antes, são uma ocasião para que exercitem paciência, a fim de conservarem a unidade do Espírito. Calvino alerta com severidade aqueles que abandonam a comunhão da igreja local, chamando-os de pessoas “estranhas ao reino de Deus”:

Quanto aborreceríamos todo gênero de animosidade se refletíssemos devidamente que todos quantos se separam de seus irmãos, esses mesmos se tornam estranhos ao reino de Deus! E, todavia, mui estranhamente, enquanto esquecemos os nossos deveres de mutualidade para com os nossos irmãos, seguimos nos vangloriando de que somos filhos de Deus. (5)

Em suma, na ótica de Calvino, todo crente precisa estar unido a uma igreja local (a) para ser edificado por meio da pregação, (b) para suprir os demais irmãos com os seus dons, (c) para ser suprido pelos outros irmãos com os dons que eles receberam do Pai e (d) para aprender as virtudes da paciência, da fraternidade e do amor.

À luz das Escrituras, a perspectiva do reformador de Genebra quanto a este assunto é irretocável, e os jovens reformados fariam muito bem em ouvir e acolher as suas admoestações. Por esse motivo, eu gostaria de encorajá-los a não menosprezarem a importância da igreja local, desdobrando a exortação de Calvino nos seguintes pontos:

  • Jovens reformados, permaneçam unidos a uma congregação. Participem regularmente das reuniões de adoração, desenvolvam relacionamentos genuínos com outros membros, engajem-se no dia-a-dia da igreja local. “Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes, façamos admoestações e tanto mais quanto vedes que o Dia se aproxima” (Hebreus 10.25).
  • Jovens reformados, congreguem numa igreja onde haja genuína pregação. Esse conselho é uma faca de dois gumes. Por um lado, eu realmente os encorajo a serem criteriosos quanto a isso. “Igrejas” onde a pregação é virtualmente inexistente não merecem ser chamadas de igrejas, e você não deveria estar lá. Por outro lado, se você estiver procurando uma congregação onde a mensagem seja exatamente como você sonha, eu diria que há 100% de chances de você morrer procurando (a não ser que você funde a própria igreja…). E, nesse caso, daria toda a razão a Calvino em chamar-lhe de soberbo e autossuficiente. Segundo entendo, o equilíbrio nesse ponto é unir-se a uma igreja onde a pregação seja evidentemente guiada pelas Escrituras, onde o pregador se mostre verdadeiramente submisso à Palavra revelada de Deus – ainda que haja certos pontos de discordância doutrinária – e onde o ensino seja realmente edificante e transformador.
  • Jovens reformados, sejam servos em suas igrejas. Como John Piper gosta de dizer, não sejam “tomadores de vida”, e sim “doadores de vida”. Sirvam os demais irmãos com sinceridade, humildade, mansidão, paciência e amor genuíno. Interessem-se de verdade pela condição espiritual dos irmãos. Não desperdicem o seu tempo criticando os membros de sua igreja por serem preguiçosos no estudo da Bíblia, por serem pouco fervorosos, ou por não serem calvinistas convictos como vocês. Ao invés disso, sejam um modelo; tornem-se um exemplo para eles, “na palavra, no procedimento, no amor, na fé, na pureza” (1Timóteo 4.12). Se preciso for, deem suas vidas em troca do benefício eterno de seus irmãos.
  • Jovens reformados, aprendam a reconhecer e desfrutar dos dons que Deus concedeu a outros irmãos. Vocês achavam que tinham todos os dons? Pelo menos, os mais importantes? Bem, eu os aconselho a ler 1Coríntios 12 e Romanos 12 e Efésios 4, e então vocês perceberão o quanto são necessitados dos dons que Deus concedeu a outros – e não a vocês. Aprendam a ouvir com o coração aberto a pregação daquele pastor que não faz ideia de quem seja François Turretini ou Geerhardus Vos, mas que ama as Escrituras e as ovelhas de Deus. Aprendam a receber conselhos daquele irmão humilde que comete erros graves de português, mas que se interessa genuinamente pelo seu crescimento em graça. Aprendam a ser repreendidos por aquele senhor de idade que não tem o carisma do Mark Driscoll ou a voz suave do C.J. Mahaney, mas que realmente se importa com a sua pureza e santificação. Enfim, aprendam a serem servidos por outros irmãos, com os dons que o Senhor lhes concedeu.
  • Jovens reformados, aprendam a exercitar a paciência e o perdão. Quem lhe disse que a vida de comunhão da igreja não tem dificuldades, ofensas, desentendimentos? Certamente não fui eu, nem Calvino, muito menos a Palavra de Deus. Aprendam a sofrer no meio da congregação, dando glória a Deus por isso! Aprendam a sofrer o dano, em favor dos irmãos. Parem de resmungar pelos problemas que surgem e comecem a amadurecer na fé, exercitando a mansidão, a paciência, o perdão, a compaixão, a fraternidade e o amor. Aprendam a cantar com o salmista: “Foi-me bom ter eu passado pela aflição, para que aprendesse os teus decretos” (Salmo 119.71).

Este é o meu último (e longo) conselho a vocês: não menosprezem a importância da igreja local.

Notas:
(1) Desde Lutero, os protestantes fazem distinção entre a igreja invisível, formada pela reunião de todos os eleitos, e a igreja visível, entendida como um corpus permixtum, por conter ao mesmo tempo pecadores e santos, joio e trigo. Calvino defendia que é possível reconhecer uma igreja local como verdadeira a partir de suas marcas distintivas, que eram a pregação da Palavra e a fiel administração dos sacramentos. Posteriormente, os puritanos acrescentaram uma terceira marca distintiva, qual seja, a correta aplicação da disciplina aos seus membros.
(2) FERREIRA, Franklin; MYATT, Alan. Teologia sistemática: uma análise histórica, bíblica e apologética para o contexto atual. São Paulo: Vida Nova, 2007, p. 926.
(3) CALVINO, João. Efésios. Série Comentários Bíblicos. Trad. Valter Graciano Martins. São José dos Campos/SP: Fiel, 2007, p. 99.
(4) Idem, p. 89-90.
(5) Idem, p. 87

Por: Vinícius Silva Pimentel | PreciosoCristo | Original aqui.
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Conselhos para os jovens reformados: Comecem a orar

Vinícius S. Pimentel

(Vejam o índice na Introdução.)

Semana da Reforma Protestante 2011

5º conselho: Comecem a orar

Eu queria poder expressar este conselho usando um imperativo diferente. Gostaria de dizer algo como: “Perseverem na oração!” ou “Orem sem cessar!”. Mas essas duas frases pressupõem que os jovens reformados já tenham uma vida normal de oração, e – digo com tristeza – isso não é verdade a respeito de muitos de nós.

Parece-me haver duas razões pelas quais os jovens reformados são extremamente pobres em sua vida oração – uma mais superficial, outra mais profunda. A razão superficial é que os jovens reformados desperdiçam tempo demais escrevendo nos blogs, discutindo nos fóruns e compartilhando belas frases no facebook e no twitter. Com uma “vida social” tão intensa, falta-lhes tempo para entrar no quarto e, com a porta fechada, derramar a sua alma diante do Pai nos céus.

Se o Senhor Jesus proferisse o seu Sermão do Monte para nós hoje, eu não me surpreenderia caso Ele utilizasse as seguintes palavras, ao nos falar sobre a oração: “Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta, faz log off do twitter e do facebook, desliga o celular e o computador, e, então, orarás a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará”.

Calma. Eu realmente acredito que Deus, em Sua providência sábia, tem usado a internet e as mídias sociais para tornar a verdade conhecida e glorificar o Seu nome. O trabalho dos blogs e sites cristãos tem se revelado de grande valor na propagação da sã doutrina. Eu não estou questionando a utilidade da tecnologia e a bênção que Deus tem concedido à igreja através dela; eu estou apenas constatando que os jovens cristãos passam muito mais tempo na internet do que aos pés do Senhor.

Agora, eu disse que há um motivo mais profundo pelo qual os jovens reformados são tão pobres em sua vida de oração. E, segundo entendo, a razão é esta: tais crentes, pela sua pouca vivência espiritual, simplesmente desconhecem o real valor da vida de oração e de comunhão com o Senhor. Eles são bastante eloquentes ao falar sobre Deus, mas são pouco experimentados nas maravilhas de falar com Deus. Eles ainda não se aperceberam da sua real necessidade de colocar nas mãos do Pai cada detalhe de suas vidas. Eles ainda não passaram por aflições tão insuportáveis que não deixam ao crente outra alternativa, senão correr desesperadamente ao trono da graça. Eles conhecem muito pouco da alegria de ter orações respondidas, assim como do deleite de derramar-se em ações de graças, na presença do Pai. E, acima de tudo, eles ainda não parecem estar conscientes do modo como Deus usa a oração para mudar – não a Sua vontade, não o Seu propósito, mas o nosso coração.

Quantos jovens reformados podem realmente repetir estas palavras de Jonathan Edwards, a respeito de seu prazer na oração?

Eu tinha anseios muito intensos na alma por Deus e Cristo, e por mais santidade, com o que meu coração parecia estar cheio, a ponto de se partir. […] Passei a maior parte do tempo pensando em coisas divinas, ano após ano; com frequência andando sozinho em florestas e em lugares solitários para meditar, falar sozinho, orar, conversar com Deus; e era sempre meu hábito, nessas ocasiões, cantar minhas contemplações. Eu estava quase constantemente expressando-me em oração, onde quer que estivesse. A oração parecia ser natural para mim, a respiração que dava vazão ao ardor de dentro do meu coração. (1)

Jovens reformados, este é o meu quinto conselho: comecem a orar. Saiam um pouco das mídias sociais e desliguem todos os apetrechos tecnológicos, para dedicarem-se à oração. Vão para lugares solitários e, ali, falem com Deus, o Pai celestial de vocês. Humilhem-se sob a Sua potente mão e desfrutem da abundância de Sua graça. Há muito mais recompensa nisso do que em cem mil visitas no seu blog, ou em um milhão de retweets.

(Sinceramente, eu gostaria de escrever mais sobre este assunto. Mas tenho dificuldades de seguir este conselho mais do que todos os outros juntos. Eu sou culpado de todas as acusações feitas acima! Que o Senhor tenha misericórdia de mim.)

Notas:
(1) Citado em PIPER, John. Em busca de Deus: a plenitude da alegria cristã. 2. ed. São Paulo: Shedd, 2008, p. 146.

Por: Vinícius Silva Pimentel | PreciosoCristo | Original aqui.
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A soberania de Deus e a vontade dos homens (uma ilustração de Stuart Olyott)

Vinícius S. Pimentel

Semana da Reforma Protestante 2011

No post Conselhos para os jovens reformados: Confirmem a eleição de vocês, nós falamos um pouco sobre a doutrina da eleição incondicional.

Uma das questões mais complexas concernentes ao assunto dos “decretos de Deus” é a relação entre a soberania de Deus e a responsabilidade humana. A teologia reformada, em sua formulação histórica, sempre adotou uma posição compatibilista. Em outras palavras, os reformados entendem que Deus decreta todas as coisas (Ele é absolutamente soberano), sem, com isso, violar a vontade dos homens ou anular a sua responsabilidade. Firme nesse sentido, a Confissão de Fé de Westminster afirma:

Desde toda a eternidade, Deus, pelo muito sábio e santo conselho da sua própria vontade, ordenou livre e inalteravelmente tudo quanto acontece, porém de modo que nem Deus é o autor do pecado, nem violentada é a vontade da criatura, nem é tirada a liberdade ou contingência das causas secundárias, antes estabelecidas. (CFW, III.I)

Essa perspectiva é, claramente, paradoxal. Mas, de fato, é assim que as Escrituras nos ensinam, sem nos dar quaisquer detalhes que nos ajudem a resolver o paradoxo. Portanto, como servos da verdade revelada, nós nos curvamos diante dos insondáveis caminhos de Deus em reverente adoração.

Em seu maravilhoso livro Ministrando como o Mestre, Stuart Olyott nos apresenta uma interessante ilustração acerca do nexo entre a soberania de Deus e a vontade dos homens. Como o próprio autor reconhece, trata-se de uma imagem bastante imperfeita, mas talvez tenha utilidade para alguns:

Posso usar uma ilustração bem imperfeita? É imperfeita porque sugere uma idéia de controle que não é paralela à forma como Deus controla os pecadores, mas talvez alguns leitores a considerem útil. Imagine uma formiga correndo na página que você está lendo. Ela vai para a direita, vai para a esquerda, diminui a velocidade, aumenta a velocidade ou pára – ela faz exatamente o que a agrada. Agora trace uma linha imaginária na superfície da mobília mais próxima. Se quiser, você pode fazer a formiga seguir aquela linha precisamente. Como ela corre por todos os lados da página, tudo que você tem a fazer é segurar o livro sobre a linha e manobrá-lo apropriadamente. Com um pouco de prática você pode fazer o inseto ir exatamente aonde você deseja que ele vá, embora ele esteja correndo por onde quer! Você é soberano mas a formiga está fazendo uma escolha real. (Stuart Olyott. Ministrando como o Mestre: Aprendendo com os métodos de Cristo. São José dos Campos: Fiel, 2005, p. 42-43.)

“Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro? Ou quem primeiro deu a ele para que lhe venha a ser restituído? Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!” (Romanos 11.33-36).

Conselhos para os jovens reformados: Confirmem a eleição de vocês

Vinícius S. Pimentel

(Vejam o índice na Introdução.)

Semana da Reforma Protestante 2011

4º conselho: Confirmem a eleição de vocês, crescendo nas virtudes cristãs

Certamente, de todas as convicções distintivas que um calvinista possui, nenhuma delas é tão controversa quanto a sua fé na eleição incondicional. Quando um cristão se identifica com as chamadas “doutrinas da graça”, a primeira pergunta que ele ouve (em tom de ironia) é: “Quer dizer então que você acredita que Deus escolheu alguns para serem salvos e outros para serem condenados?”.

Bem, na maioria das vezes eu não respondo essa pergunta com um mero “sim”, pois, em geral, ela esconde uma série de compreensões equivocadas sobre a predestinação. De toda forma, a doutrina da eleição incondicional pode ser basicamente exposta em duas afirmações. A primeira afirmação é: “Deus escolheu, antes da fundação do mundo, alguns homens para a vida eterna e outros para a morte eterna” (por isso falamos em eleição). A segunda afirmação é: “Essa escolha de Deus não se baseia em nenhum atributo ou obra dos eleitos, mas tão somente no beneplácito de Sua vontade” (por isso é incondicional).

Em seu delicioso livro Uma jornada na graça, Richard Belcher faz essas duas afirmações da seguinte maneira:

A eleição incondicional é o ato de Deus por meio do qual Ele escolheu um grupo de pessoas, antes da fundação do mundo, para que elas pertencessem a Ele mesmo. Este grupo de pessoas é conhecido como os eleitos. (1)

O único fundamento que os calvinistas aceitam para a eleição destas pessoas, à luz da incapacidade e depravação delas […] é a vontade de Deus, e tão-somente a vontade de Deus. (2)

Ao ouvirem a exposição dessa doutrina, muitas pessoas questionam: “Quer dizer então que um eleito pode viver como quiser, pecar o quanto quiser e, mesmo assim, ele será salvo?”. A resposta para essa pergunta é um sonoro NÃO! Na verdade, um reformado crê, junto com o apóstolo Paulo, que a predestinação tem um propósito, isto é, ela acontece para conduzir os eleitos a um alvo definido. E qual é o propósito da predestinação? É fazer com que os eleitos sejam conformados à imagem de Jesus Cristo, se apresentem santos e irrepreensíveis diante de Deus e, assim, tragam louvor à Sua gloriosa graça (cf. Romanos 8.28-30; Efésios 1.3-6). A doutrina da eleição significa justamente que Deus é quem conduz os eleitos, soberana e infalivelmente, do seu estado de total condenação e pecaminosidade à glória de serem transformados na própria imagem do Senhor (cf. 2Coríntios 3.18).

Portanto, falar em um eleito que não está crescendo em santidade é um completo absurdo. A predestinação não inclui apenas o início (a eleição propriamente dita) e o fim da história (a vida eterna); ela também inclui os meios pelos quais o homem é retirado do lamaçal do pecado e conduzido à glória eterna. E a santificação está necessariamente incluída nesse processo, como a Confissão de Fé de Westminster faz questão de frisar:

Assim como Deus destinou os eleitos para a glória, assim também, pelo eterno e mui livre propósito da sua vontade, preordenou todos os meios conducentes a esse fim; os que, portanto, são eleitos, achando-se caídos em Adão, são remidos por Cristo, são eficazmente chamados para a fé em Cristo pelo seu Espírito, que opera no tempo devido, são justificados, adotados, santificados e guardados pelo seu poder por meio da fé salvadora. Além dos eleitos não há nenhum outro que seja remido por Cristo, eficazmente chamado, justificado, adotado, santificado e salvo. (CFW, III.VI)

Agora, uma vez que nós não sabemos quem são aqueles que o Senhor escolheu antes da fundação do mundo (pois “o livro dos decretos de Deus” está selado para nós), nem somos capazes de ver agora aqueles que entrarão pelos portais eternos, como poderemos reconhecer a nossa própria eleição? Segundo as Escrituras, é exatamente através da santidade que nós discernimos um eleito de Deus.

Ao escrever aos tessalonicenses, Paulo asseverou ser capaz de reconhecer a eleição daqueles crentes. Mas como ele podia afirmar tal coisa? Ora, os irmãos em Tessalônica possuíam uma fé operosa, um amor abnegado e uma firme esperança no retorno do Senhor Jesus. Eles não apenas haviam ouvido a Palavra, mas haviam acolhido os ensinamentos de Paulo, tornando-se imitadores seus e do Senhor, ao ponto de o apóstolo considerá-los um modelo a ser seguido pelas igrejas das cidades vizinhas. Eram os frutos dos tessalonicenses que permitiam a Paulo reconhecê-los como eleitos de Deus (1Tessalonicenses 1.2-10).

O apóstolo Pedro também nos fala sobre a relação entre eleição e santidade em sua segunda epístola universal. Ali, após nos encorajar ao crescimento nas virtudes cristãs, ele nos ordena: “Por isso, irmãos, procurai, com diligência cada vez maior, confirmar a vossa vocação e eleição; porquanto, procedendo assim, não tropeçareis em tempo algum” (2Pedro 1.10). Em outras palavras, Pedro está dizendo: “Irmãos, acumulem tudo isto em suas vidas: a fé, a virtude, o conhecimento, o domínio próprio, a perseverança, a piedade, a fraternidade e o amor. Esforcem-se para isso, pois, à medida em que vocês crescem e evidenciam os caracteres de Cristo na vida de vocês, isso torna mais e mais evidente que vocês foram, de fato, eleitos pelo Senhor para a eterna salvação”.

Infelizmente, os jovens reformados de hoje sabem falar coisas muito profundas sobre a “mecânica” da eleição, mas são muito rasos em evidenciar e desenvolver a vida sobrenatural que marca um eleito de Deus. Falta-lhes aquela piedade vigorosa que marcou a vida terrena de Jesus; falta-lhes aquele amor abnegado que levou os primeiros discípulos a venderem todos os seus bens; falta-lhes aquela esperança firme que Paulo e Silas tinham na prisão em Filipos, assim como aquela perseverança com que todos os apóstolos aceitaram sofrer pelo nome de Jesus e pela causa do Evangelho.

Se nós verdadeiramente cremos na eleição incondicional, nós deveríamos ser os crentes mais zelosos em desenvolver a nossa salvação com temor e tremor; afinal, nós sabemos que Deus é aquele que opera em nós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade (cf. Filipenses 2.12-13). Nós deveríamos ser os cristãos que mais odeiam o pecado, que mais aborrecem a malícia, que mais vigiam no falar, que mais se afastam das conversações imundas e de todas as outras formas de mal. Nossas vidas deveriam ser distintivamente marcadas pela santidade, pela devoção a Deus e por um caráter irrepreensível. Afinal, é assim que um verdadeiro eleito de Deus se conduz neste mundo!

Portanto, meu quarto conselho aos jovens reformados é: confirmem a eleição de vocês, crescendo na santidade. Não se contentem com o que já alcançaram, mas prossigam para o alvo, que é a plena conformação à imagem de Cristo Jesus. Enquanto não se tornarem como Ele é, não descansem, mas continuem sendo diligentes. Foi para isso que o Pai nos elegeu.

Notas:
(1) BELCHER, Richard P. Uma jornada na graça: uma novela teológica. São José dos Campos/SP: Fiel, 2002, p. 41
(2) Idem, p. 41-42.

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Conselhos para os jovens reformados: Ensinem com clareza

Vinícius S. Pimentel

(Vejam o índice na Introdução.)

Semana da Reforma Protestante 2011

3º conselho: Ensinem as Escrituras com clareza

Se hoje nós podemos ir até uma livraria evangélica e adquirir uma cópia da Bíblia em nosso próprio idioma (por menos de dez reais), jamais deveríamos nos esquecer do grande custo que isso representou na história da Igreja. Os reformadores dedicaram suas vidas para traduzir as Escrituras dos idiomas originais para a “linguagem comum do povo”. Alguns deles enfrentaram a própria morte, por não se curvarem às determinações da Igreja Católica Romana e de seus seguidores, os quais não aceitavam a ideia de que a Palavra de Deus fosse colocada à disposição do “homem comum” (1).

A tradução das Escrituras para o vernáculo foi um dos principais compromissos na agenda da Reforma Protestante – e o seu êxito corresponde a uma das mais poderosas bênçãos já derramadas por Deus em favor da Sua igreja. Esse desejo de tornar a Bíblia acessível até ao mais simples camponês, entretanto, estava alicerçado numa doutrina bastante estimada pelos reformadores: a perspicuidade da Escritura.

Ao utilizarem essa palavra escabrosa – perspicuidade – os teólogos da Reforma estavam defendendo que a mensagem básica das Escrituras Sagradas é bastante clara, podendo ser apreendida até pelo mais inculto dos homens. “O testemunho do SENHOR é fiel e dá sabedoria aos símplices” (Salmo 19.7). Discorrendo acerca dessa doutrina, R.C. Sproul observa:

No século 16 os Reformadores afirmaram sua absoluta confiança naquilo que denominaram a perspicuidade das Escrituras. Esse termo técnico pode ser entendido como a clareza das Escrituras. Eles sustentavam que a Bíblia é basicamente lúcida e clara. É simples o bastante, permitindo a qualquer pessoa alfabetizada entender sua mensagem básica. (2)

É verdade que existem na Bíblia passagens menos claras e de compreensão mais difícil. A doutrina da perspicuidade das Escrituras não nega isso. Há, realmente, textos que exigem conhecimento das línguas originais e de minúcias dos princípios de exegese. Entretanto, mesmo reconhecendo isso, Sproul insiste na clareza do texto sagrado em sua mensagem fundamental:

O Cristianismo bíblico não é uma religião esotérica. Seu conteúdo não está oculto em símbolos vagos que requerem um tipo especial de “percepção” para decifrá-los. Não há necessidade de nenhuma proeza intelectual ou dom espiritual para compreender a mensagem básica das Escrituras. (3)

Infelizmente, porém, a perspicuidade das Escrituras não parece ser uma verdade muito estimada em nossos dias. Enquanto os reformadores do século XVI estavam profundamente preocupados em tornar as grandes doutrinas bíblicas compreensíveis aos homens simples, os atuais paladinos da fé reformada não demonstram o mesmo interesse. E, enquanto os puritanos do século XVII se esforçavam para colocar as ferramentas da teologia acadêmica a serviço dos homens comuns, muitos “reformados” de nosso tempo usam perversamente o “conhecimento” teológico como arma para espancarem os servos do Senhor e humilharem os mais simples.

Certa vez, um pastor me contou um triste episódio, no qual certos reformados professos zombavam de outros cristãos, chamando-os de “pentecostais burros”, apenas porque eles não sabiam a diferença entre “supralapsarianismo” e “infralapsarianismo”. Ora, eu tenho certeza de que esse tipo de “reformado” faz o Senhor Jesus ter ânsia de vômito! Tais homens, ao invés de estarem em sincera busca pela propagação do Cristianismo bíblico, parecem possuir no íntimo um desejo iníquo de permanecerem como uma “elite intelectual” da fé cristã. Com suas bocas, eles lamentam a falta de aceitação da fé reformada na Cristandade em geral; mas, no seu coração, sentem prazer de serem os “gurus” da verdade bíblica e ficam muito contentes em saber que o seu “conhecimento” é partilhado por poucos (4).

Como jovens reformados, nós precisamos nos guardar cuidadosamente desse tipo de atitude pedante, arrogante e diabólica. Nós precisamos cultivar um interesse sincero pela propagação do Evangelho e da verdade bíblica pura. Nós precisamos desejar, de coração, ver o mundo inteiro se enchendo da glória e do conhecimento de Deus. Nós precisamos orar e lutar para que as verdades profundas da Escritura sejam entendidas e amadas – não apenas por uma minoria de crentes versados em teologia, mas até pelos mais simples e pequeninos de nossos irmãos!

E, se esse é realmente o nosso objetivo, nós devemos nos esforçar por ensinar as Escrituras com clareza. Nós devemos nos tornar peritos em comunicar verdades profundas em linguagem simples, de modo que as grandes doutrinas bíblicas estejam na mente, no coração e nos lábios de todo o povo de Deus, não apenas dos “doutores”.

Não há um exemplo melhor a seguir que aquele do nosso Senhor Jesus, o qual, em Seu ministério, expunha a Palavra “conforme o permitia a capacidade dos ouvintes” (Marcos 4.33). Se o Espírito Santo irá abrir os seus olhos para compreenderem a Palavra de coração ou não, é algo que cabe a Deus, em Sua soberania, decidir. A nós, porém, compete comunicar a mensagem da Palavra de Deus de forma clara e precisa (não de maneira rebuscada ou pedante), a fim de que todos possam entendê-la.

Não me compreendam mal. A linguagem técnica da teologia é muito útil no ambiente acadêmico, pois permite uma precisão no discurso que a linguagem cotidiana não possui. Todavia, no dia-a-dia da pregação, do ensino da Palavra e do testemunho do Senhor, falar na “linguagem comum do povo” é muito mais proveitoso. Uma dona de casa entenderá muito melhor se dissermos que Deus criou o mundo do nada, ao invés de falarmos na “criação ex nihilo“. Um homem pouco instruído obterá grande proveito para a sua alma se lhe mostrarmos que ele precisa arrepender-se e crer no Evangelho, mas permanecerá um pecador perdido se apenas falarmos da necessidade de μετανοέω e de πιστεύω.

Portanto, meu terceiro conselho aos jovens reformados é: ensinem as grandes doutrinas bíblicas com clareza. Fujam do pedantismo e da arrogância intelectual. Tornem a fé reformada na Escritura acessível ao homem comum. Sejam profundos, mas não sejam incompreensíveis. Ou, nas palavras mais simples que conheço: falem para serem entendidos!

Notas:
(1) Entre aqueles que aceitaram alegremente perder a vida em prol do objetivo de tornar a Bíblia acessível ao homem comum, estava William Tyndale, responsável pela primeira tradução do Novo Testamento para o inglês. Enfrentando as determinações do rei Henrique VIII, Tyndale concluiu sua tradução em Worms, na Alemanha, e passou a contrabandeá-la de lá para a Inglaterra em fardos de roupa. Em 1536, ele foi finalmente martirizado pela Igreja Católica Romana, nos arredores de Bruxelas, queimado preso a uma estaca. A história de Tyndale é contada em PIPER, John. Completando as aflições de Cristo. São Paulo: Shedd, 2010, p. 33-62.
(2) p. 16.
(3) p. 17.
(4) Sim, as aspas são propositais. Eu me recuso a reconhecer como “reformado” esse tipo de gente; tampouco valorizo como verdadeiro o conhecimento teológico que tais pessoas possuem. Segundo o apóstolo inspirado, aqueles que demonstram esse tipo de desprezo pelos irmãos nunca viram nem conheceram o Deus das Escrituras e, portanto, não podem ser chamados de cristãos (1João 3.10).

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John Piper: De que maneira eu amo a teologia reformada?

John Piper

Semana da Reforma Protestante 2011

Eu sou um amante da fé reformada – o legado da Reforma Protestante largamente expresso nos escritos de João Calvino, John Owen, Charles Spurgeon e Jonathan Edwards, além de contemporâneos como R.C. Sproul, J.I. Packer e John Frame.

Eu falo em amor por esse legado da mesma maneira que eu falo em amor por um querido retrato da minha esposa. Eu digo: “Eu amo aquele retrato”. Você não me surpreenderia se pontuasse: “Mas aquela não é a sua esposa, é um retrato”. Sim. Sim. Eu sei que é apenas um retrato. Eu não amo o retrato ao invés da minha esposa, eu amo retrato por causa da minha esposa. Apenas ela é preciosa em si mesma.

O retrato é precioso não em si mesmo, mas porque revela a minha esposa. Essa é a maneira como a teologia é preciosa. Deus é valioso em Si mesmo. A teologia não é valiosa em si mesma. Ela é valiosa como um retrato. É isso que eu quero dizer quando digo: “Eu amo a teologia reformada”. Ela é o melhor quadro, o retrato mais puramente bíblico de Deus que eu possuo.

Créditos: By John Piper. © Desiring God. Website: desiringGod.org | Original aqui.
Tradução: 
Vinícius Silva Pimentel | PreciosoCristo | Original aqui.
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Conselhos para os jovens reformados: Dediquem-se à evangelização

Vinícius S. Pimentel

(Vejam o sumário na Introdução.)

Semana da Reforma Protestante 2011

2º conselho: Dediquem-se à evangelização

O “doutor” Martyn Lloyd-Jones costumava dizer que certos indivíduos são bastante hábeis em “elogiar o Evangelho”, mas são completamente incapazes de pregar o Evangelho. Infelizmente, essa não é uma crítica injusta no que se refere a muitos daqueles que abraçam o chamado “calvinismo”.

Todavia, as coisas não deveriam ser assim. Se eu estou correto no meu entendimento das Escrituras e da teologia reformada, aqueles que creem nas tais “doutrinas da graça” deveriam ser os mais zelosos, os mais perseverantes e os mais confiantes proclamadores do Evangelho dentre todos os cristãos.

Deixem-me oferecer-lhes algumas razões para isso. Em primeiro lugar, como já dissemos, o grande fundamento da fé reformada é a centralidade de Deus, ou o senhorio de Deus sobre todas as coisas. O neocalvinista Abraham Kuyper costumava dizer com verdade que “não há um único centímetro quadrado em todos os domínios da existência humana sobre o qual Cristo, que é o Soberano sobre tudo, não clame: é meu!” (1).

Ora, se nós cremos, enquanto reformados, que Deus governa sobre tudo e todos em absoluta soberania, então nós também deveríamos estar plenamente cônscios de que as palavras de Deus não são para nós meros conselhos ou sugestões, e sim ordens a serem obedecidas com temor e tremor. “Tu ordenaste os teus mandamentos, para que os cumpramos à risca” (Salmo 119.4). Sendo assim, nós deveríamos considerar as palavras proferidas por Jesus antes da Sua ascensão – “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura” (Marcos 16.15) – com a maior seriedade. Evangelizar não é uma sugestão, não é uma opção, e sim um mandamento dado por Deus a todos aqueles que são Seus verdadeiros filhos e discípulos. Por isso mesmo foi que o apóstolo Paulo, consciente desse fato, exclamou:

“Se anuncio o evangelho, não tenho de que me gloriar, pois sobre mim pesa essa obrigação; porque ai de mim se não pregar o evangelho!” (1Coríntios 9.16)

Em segundo lugar, os calvinistas deveriam ser os mais empenhados evangelistas na igreja de Cristo, porque as doutrinas da graça nos tornam conscientes do estado deplorável no qual os homens se encontram, por causa do pecado. Nós sabemos, pela Palavra de Deus, que os pecadores não possuem esperança de vida eterna, exceto através do Evangelho. Não há salvação para eles a menos que, mediante a pregação do Evangelho, o Espírito Santo desperte os seus corações e os conduza ao arrependimento e à fé.

A implicação de tudo isso é que, se um pecador precisa crer no Evangelho para ser salvo, ele também precisa de alguém que vá e pregue a ele este Evangelho, ou, do contrário, ele não será salvo de maneira alguma. “Como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue?” (Romanos 10.14). Assim, a teologia reformada deveria nos impulsionar duplamente a sermos evangelistas dedicados: primeiro, por entendermos que essa é nossa obrigação, como servos de Cristo; segundo, por compreendermos que essa é a grande necessidade dos homens, enquanto pecadores sem outra esperança de salvação.

Mas existe uma terceira razão pelas quais os calvinistas deveriam ser vigorosos expositores do Evangelho: a confiança na soberania de Deus e no Seu poder irresistível de atrair pecadores para Si. Para certas pessoas, crer na soberania de Deus em salvar os homens torna-se um verdadeiro obstáculo ao evangelismo e à obra missionária. Mas isso é o resultado de uma compreensão bastante distorcida dessa doutrina. Na verdade, a soberania de Deus é a única esperança de que a evangelização feita por servos inúteis como nós há de efetivamente guiar almas para o céu! A fé na soberania de Deus é um poderoso estímulo para que o pregador do Evangelho continue proclamando as boas novas de salvação a todos os homens, em todos os lugares. Não importa quais sejam as dificuldades, as perseguições, a resistência dos homens, o evangelista que crê na graça irresistível sabe que Deus é poderoso para triunfar sobre a rebeldia dos pecadores e, com cordas de amor, atraí-los eficazmente à salvação.

A história está repleta de homens que de fato receberam luz do Senhor para compreenderem essas doutrinas com a mente e o coração e, como consequência disso, tornaram-se fervorosos e confiantes evangelistas. George Whitefield, Charles Spurgeon, William Carey e o próprio Martyn Lloyd-Jones são exemplos de homens que não apenas “elogiavam o Evangelho”, mas pregavam a palavra da cruz de maneira poderosa e instavam os homens a se arrependerem e a crerem em Cristo, para que pudessem ser salvos. Esses servos de Deus são um verdadeiro exemplo para nós, ao nos mostrarem que o empenho na evangelização é apenas a evidência de que nós realmente temos a fé bíblica à qual a teologia reformada nos chama.

Portanto, jovens reformados, sejam coerentes com a fé que vocês professam e dediquem-se a pregar o Evangelho aos perdidos. Sejam zelosos em fazer discípulos. Vão às nações e anunciem aos povos a salvação de Deus, para o louvor da Sua gloriosa graça.

Notas:
(1) Citado por CARVALHO, Guilherme Vilela Ribeiro de. Introdução editorial. In: DOOYEWEERD, Herman. No crepúsculo do pensamento ocidental: estudos sobre a pretensa autonomia do pensamento filosófico. São Paulo: Hagnos, 2010, p. 18.

Por: Vinícius Silva Pimentel | PreciosoCristo | Original aqui.
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Conselhos para os jovens reformados: Foquem o Evangelho

Vinícius S. Pimentel

(Vejam o sumário na Introdução.)

Semana da Reforma Protestante 2011

1º conselho: Foquem a glória de Deus no Evangelho de Cristo

Se você é um reformado, certamente sabe recitar de cor a primeira resposta do Breve Catecismo de Westminster: “O fim supremo e principal do homem é glorificar a Deus e desfrutá-lo para sempre”. Agora, se é um jovem reformado, provavelmente você prefere expressar tal verdade com estas palavras de Jonathan Edwards: “Deus é mais glorificado em nós quanto mais estamos satisfeitos Nele”. Essas duas belas afirmações demonstram o compromisso dos reformados com aquilo que é mais central em toda a Bíblia: a glória de Deus. Em síntese, elas expressam o nosso desejo sincero de seguir a ordem dada pelo Espírito Santo através do apóstolo Paulo: “Quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus” (1Coríntios 10.31).

Muito antes de lidar com as grandes doutrinas da eleição e da expiação limitada, o que me chamou a atenção na tal “fé reformada” foi a sua ênfase reverente e amorosa na centralidade de Deus em todas as coisas. Por isso, eu gosto da definição do teólogo Joel Beeke ao afirmar, ecoando Benjamin Warfield, que “ser reformado significa ser teocêntrico” (1). Eu gosto ainda mais quando ele prossegue em sua definição fundamental do calvinismo, dizendo:

Como calvinistas, somos apaixonados por Deus. Somos dominados por sua majestade, sua beleza, sua santidade, sua graça. Buscamos a glória de Deus, desejamos sua presença e modelamos nossa vida segundo o seu padrão. (2)

Em suma, como cristãos bíblicos que somos, nosso prazer supremo é refletir, em todas as áreas da nossa vida, a grandeza da glória e da graça de Deus.

Todavia, há uma pergunta importante a fazer: Onde – ou melhor, em quem – nós podemos contemplar as perfeições da glória e da graça de Deus em sua plenitude? Não há outro lugar para onde devemos nos dirigir, exceto para Jesus Cristo e o Seu Evangelho. “Nele” – nos diz a Escritura – “habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Colossenses 2.9), porque Ele – Jesus Cristo – é “a imagem do Deus invisível” e “a expressão exata” do ser de Deus (Colossenses 1.15; Hebreus 1.3). É ao contemplarmos o Evangelho de Jesus Cristo – Sua morte terrível e Sua ressurreição gloriosa – que vemos o amor, a ira, a santidade, a compaixão, a graça, a justiça, a verdade e o poder de Deus em plenitude. Portanto, se queremos refletir e enfatizar a glória de Deus, Cristo e o Evangelho devem ser o grande tema em nossos lábios e em nossos corações.

Calvino nos expôs essa verdade com grande beleza, ao afirmar:

… Deus não deve ser visto por trás de sua inescrutável majestade (pois Ele habita em luz inacessível), mas deve ser conhecido na medida em que se nos revela em Cristo. De modo que as tentativas humanas de conhecer Deus fora de Cristo são efêmeras, porque tateiam no escuro. É verdade que, à primeira vista, Deus em Cristo parece ser pobre e abjeto; sua glória, porém, desponta para aqueles que têm a paciência de transpor da cruz à ressurreição. (3)

Se desejamos refletir e enfatizar a glória de Deus, devemos focar o Evangelho de Cristo. Entretanto, de que maneira esse é um conselho útil – e até necessário – para os jovens reformados?

A energia, o vigor e o entusiasmo são virtudes típicas da juventude. Não é à toa que o livro de Provérbios nos ensina que “o ornato dos jovens é a sua força” (20.29). Contudo, tais qualidades frequentemente se desvirtuam e se convertem numa tendência de sermos contenciosos, num ímpeto apressado (e até mesmo tolo) de termos uma “causa” pela qual brigar – causas nem sempre dignas de luta.

Ao que me parece, o contexto indica ser esse o tipo de impetuosidade desnorteada que Paulo tinha em mente ao ordenar que Timóteo fugisse das “paixões da mocidade” (2Timóteo 2.22) (4). Paulo desejava que o seu pupilo fosse ousado e corajoso em combater o bom combate, mas ele temia que Timóteo acabasse se tornando excessivamente contencioso e dedicasse tempo demais a questões secundárias e de menor importância, ao invés de focar o Evangelho. Timóteo havia sido chamado por Deus para preservar “o testemunho de nosso Senhor” (1.8) e anunciar “a graça que está em Cristo Jesus” (2.1). Paulo queria que o seu filho cumprisse cabalmente o ministério que lhe fora confiado e, por isso, ele precisaria concentrar as suas forças naquilo que verdadeiramente possui importância vital: o Evangelho de Jesus Cristo.

De modo semelhante, os jovens reformados estão extremamente vulneráveis a perderem o foco do Evangelho. Questões secundárias parecem estar sempre lutando por ocupar o primeiro plano e, assim, nós acabamos desperdiçando nossa energia, vigor e entusiasmo em “causas” que não valem a pena. Ao invés de nos juntarmos a Paulo e nos tornarmos expositores “repetitivos” de Jesus Cristo e da palavra da cruz, acabamos gastando a maior parte do nosso tempo (e das linhas dos nossos blogs) falando sobre questiúnculas que não merecem tanta atenção.

Não me entendam mal. Eu não estou dizendo que as questões secundárias são desprovidas de importância. Elas têm o seu lugar e, juntas, ajudam a compor “todo o conselho de Deus”. Mas veja bem: elas são secundárias. Nós estaríamos muito longe da verdade se negássemos que existem algumas doutrinas mais centrais do que outras em todo o conselho de Deus. E o grande ponto a ser percebido é que todas essas doutrinas, as maiores e as menores, deveriam apontar para aquele que é o grande propósito do mundo, da vida e da fé reformada: a exaltação máxima da glória de Deus, no Evangelho de Cristo. Se as nossas discussões e debates teológicos perderem de vista a centralidade de Deus e a santificação do Seu nome por meio do Evangelho, então já haveremos caído num grande erro.

Portanto, meu primeiro conselho aos jovens reformados é: foquem o Evangelho, pois essa é a demonstração máxima de que vocês amam a glória de Deus e zelam por ela.

Notas:
(1) BEEKE, Joel R. Vivendo para a glória de Deus: uma introdução à fé reformada. São José dos Campos/SP: Fiel, 2010, p. 57.
(2) Idem, p. 59.
(3) CALVINO, João. 2 Coríntios. Série Comentários Bíblicos. Trad. Valter Graciano Martins. São José dos Campos/SP: Fiel, 2008, p. 117.
(4) Os comentaristas da ESV Study Bible também consideram essa possibilidade. Na nota referente a 2Timóteo 2.22, eles pontuam: “‘Paixões’ (gr. epithymia), nesse contexto, refere-se a desejos pecaminosos em geral (não apenas desejo sexual), especialmente aqueles que tendem a ser característicos da juventude. Talvez Paulo esteja sugerindo, nos vv. 23-25, que um desses desejos seria uma tendência de envolver-se em disputas ou ser irascível” (THE ESV STUDY BIBLE. Wheaton, Illinois, U.S.A.: Crossway, 2008, p. 2340, tradução do autor).

Por: Vinícius Silva Pimentel | PreciosoCristo | Original aqui.
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