Uma fábula sobre duas teologias: As tradições reformadas holandesa e escocesa

Nota do tradutor: todos os links do texto original foram mantidos, em inglês. É possível que alguns dos artigos a que tais links se referem sejam, posteriormente, traduzidos e publicados aqui no PreciosoCristo.

Justin Holcomb

Calvinismo holandês e calvinismo escocês

Você já ouviu falar da “outra” teologia reformada? Muitos, na ressurgência do interesse pela Reforma, estão familiarizados apenas com um lado do amplo espectro histórico da teologia reformada e, infelizmente, muitos dos estereótipos do “calvinismo” existem porque o legado de João Calvino tem sido negligentemente mutilado.

Muito frequentemente, a teologia reformada é definida meramente pelos assim chamados “cinco pontos” do calvinismo: depravação total, eleição incondicional, expiação limitada, graça irresistível e perseverança dos santos. Embora essa ênfase em como Deus salva pecadores tenha valor, ela falha em capturar toda a amplitude da herança do pensamento reformado.

Existem duas correntes principais na teologia reformada que se desenvolveram a partir da obra de João Calvino: a corrente do calvinismo escocês e a corrente reformada holandesa. A tradição escocesa apresenta uma forte ênfase nas doutrinas da salvação e na ordo salutis (“ordem da salvação”). Porém outra dimensão é encontrada na tradição reformada holandesa, a qual também celebra as doutrinas reformadas da salvação, mas também enfatiza a cosmovisão, o engajamento cultural e o senhorio de Jesus sobre todos os aspectos da vida. Surpreendentemente, as duas correntes raramente têm interagido. Vamos dar um pequeno passeio pelas tradições teológicas reformadas escocesa e holandesa.

A tradição reformada escocesa

O ramo escocês da teologia reformada nasceu imediatamente a partir da Reforma. Nos primeiros dias da Reforma, o teólogo e pastor John Knox (1514-1572) fazia parte de um grupo que tentava reformar a igreja da Escócia; todavia, esse envolvimento levou à sua prisão e, depois, ao exílio. Enquanto no exílio, ele viajou à base de operações de João Calvino em Genebra, na Suíça. Lá, Knox ficou fascinado pela doutrina da predestinação e, dizem alguns, tornou-se mais “calvinista” do que o próprio Calvino. Knox, por fim, retornou e tornou-se a principal personagem na fundação da Igreja da Escócia, a qual representa a origem do Presbiterianismo.

As gerações subsequentes dentro da tradição teológica reformada escocesa (incluindo os puritanos ingleses, tais como Richard Baxter e John Owen) adquiriram a reputação de serem sombrios pregadores do inferno, de aplicarem severamente a disciplina eclesiástica enquanto investigavam a vida privada dos membros da igreja (isto é, por sua “tirania moral”), bem como de suprimirem as artes. Os teólogos americanos, tais como o grande Jonathan Edwards, também foram influenciados pela teologia e filosofia reformada escocesa e herdaram algumas dessas mesmas críticas. Embora haja provavelmente um pouco de verdade em cada uma dessas críticas comuns, tais práticas emergiram de situações culturais particulares e não deveriam ser as únicas medidas pelas quais a teologia reformada escocesa é julgada.

Ao longo dos séculos XVII e XVIII, os assuntos da predestinação, a eleição, a reprovação, a extensão da expiação e a perseverança dos santos ganharam a atenção dos camponeses da Escócia. Embora as preocupações dos camponeses com essas doutrinas tenham surgido por causa da ênfase de seus líderes nelas, as doutrinas da soteriologia calvinista tocaram nas necessidades práticas e existenciais que os membros da igreja enfrentavam.

Embora seja verdade que a teologia reformada escocesa rumou para algumas formas mais “secas” de calvinismo, a sua confissão original (a Confissão Escocesa de 1560) mantinha a natureza missional da igreja e o foco evangelístico da teologia. A doutrina reformada dos escoceses nunca estava separada da vida prática. Os escoceses olhavam para a Confissão de Fé de Westminster como o seu padrão doutrinário (sob a autoridade da Escritura) e procuraram implementar aqueles grandes verdades teológicas em suas vidas diárias.

A tradição reformada holandesa

O calvinismo chegou aos Países Baixos na terceira onda da Reforma, nos idos de 1560. O calvinismo holandês contribuiu com alguns dos mais importantes credos do início da Reforma: a Confissão Belga de 1561 deu uma definição original à Igreja Reformada Holandesa; o Catecismo de Heidelberg de 1563 serviu como uma ponte, cultivando unidade entre os reformados holandeses e alemães; e os Cânones de Dort em 1619 serviram como um concílio ecumênico reformado.

Ao longo do tempo, a Igreja Reformada Holandesa rumou para o liberalismo teológico. Posteriormente, no final do século XIX, o trabalho dos neocalvinistas, tais como Abraham Kuyper, Herman Bavinck e Louis Berkhof, despertou a igreja holandesa do sono e deu forma àquilo que é hoje conhecido como a escola de teologia reformada holandesa (fique atento a mais posts sobre cada uma dessas personagens).

Embora o pensamento reformado holandês tenha muito em comum com a tradição reformada mais ampla, algumas feições o distinguem. Um dos melhores resumos do pensamento reformado holandês é capturado nesta citação de Douglas Wilson: “Tudo de Cristo para tudo da vida”, bem como nestas famosas palavras de Abraham Kuyper: “Não há um centímetro quadrado em todo o domínio de nossa existência sobre o qual Cristo, que é Soberano sobre tudo, não clame: ‘É meu!'”.

Kuyper defendeu o senhorio de Criso sobre todas as áreas da vida e instigou os cristãos a não desprezarem certos campos da cultura e da sociedade por serem “mundanos”. Ele acreditava que Deus havia estabelecido estruturas de autoridade em diferentes esferas da criação, e que reconhecer os limites entre essas esferas ajudaria a manter e distribuir a justiça e a ordem na sociedade.

Segundo Kuyper, o governo de Deus sobre a terra se realiza através da fiel presença cultural de Sua igreja. Essa crença conduziu os teólogos holandeses a enfatizarem a ação cultural por parte dos cristãos. Kuyper desejava que os cristãos entendessem que cada cosmovisão possui as suas próprias suposições filosóficas particulares, e que a fé cristã possui suposições que moldam a maneira como os crentes deveriam agir em cada área da vida. Como um resultado da soberania absoluta de Deus, os cristãos devem experimentar a graça de Deus em todos os aspectos da vida, não apenas em atividades da igreja e cultos de adoração.

O ponto alto da teologia reformada holandesa é, possivelmente, a Teologia Sistemática de Louis Berkhof (grande revelação: eu fui apresentado à teologia reformada enquanto lia Berkhof, quando tinha 17 anos).

A teologia reformada holandesa compartilhava importantes aspectos essenciais com a escola de teologia da Antiga Princeton (adepta da tradição calvinista escocesa) nos Estados Unidos, mas elas diferiam significativamente em algumas áreas. Os holandeses sustentavam a crença de que as pessoas não possuem qualquer neutralidade religiosa, algum tipo de faculdade racional “objetiva”. Isso significava que não há qualquer terreno comum, necessariamente, compartilhado entre crentes e incrédulos. O mundo contem numerosas cosmovisões articuladas, e isso faz da apologética mais um confronto de cosmovisões do que um debate sobre evidências.

Enquanto os teólogos de Princeton (da corrente escocesa) enfatizavam uma doutrina da Escritura com foco na inerrância e na verdade proposicional, os reformados holandeses, salientavam o testemunho interior do Espírito Santo para validar a confiabilidade da Escritura.

Complementares, não contraditórias

Pode parecer que as correntes escocesa e holandesa da igreja reformada estão a milhas de distância em suas ênfases, mas é importante notar que as situações culturais em que cada uma delas se desenvolveu eram significativamente diferentes. Os teólogos holandeses estavam enfrentando uma igreja que sucumbia ao liberalismo teológico modernista do século XIX e tentavam encontrar um lar cultural para si mesmos, em suas novas instalações nos Estados Unidos. Sendo assim, a sua ênfase no supremo reinado de Cristo sobre as ideologias do momento e a sua cuidadosa concepção da cultura eram de se esperar. Em um sentido, a teologia reformada holandesa foi uma aplicação específica dos amplos princípios da Reforma.

O foco dos escoceses estava mais nas doutrinas primárias da Reforma do que em suas aplicações específicas a novas situações culturais. Mais do que isso, os reformados escoceses focaram em levar a Reforma inicial às regiões circunvizinhas, o que explica a sua ênfase em missões.

As igrejas reformadas escocesa e holandesa não estão tão distantes como pode parecer a princípio. Elas compartilhavam as mesmas doutrinas reformadas básicas, embora enfatizassem diferentes aspectos. Nada obstante, mesmo nesses distintos pontos de concentração, tanto os teólogos reformados escoceses quanto os holandeses estavam focados em fazer discípulos e tornar o evangelho frutífero no mundo ao seu redor. Ambas as tradições são exemplos para o movimento reformado de nossos dias.

Créditos: By Justin Holcomb © 2012 Resurgence. All Rights Reserved. Website: theresurgence.com | Original aqui.
Tradução: 
Vinícius Silva Pimentel | PreciosoCristo | Original aqui.
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Romanos 8 e a nossa santificação

Vinícius S. Pimentel

Romanos 8 e a nossa santificação

Como todos nós sabemos (ou deveríamos saber), a santificação é um elemento absolutamente essencial na vida cristã. Essa é uma afirmação que aparece, de modo latente ou patente, por toda a Escritura, e em poucos lugares ela é apresentada tão claramente quanto em Hebreus 12.14: “Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor”. Isso significa que um crente é, por definição, um homem santificado.

Ao mesmo tempo, porém, todo cristão verdadeiro sabe, por sua própria experiência, quão desafiador, lento e até doloroso é – muitas vezes! – o processo de santificação. É uma realidade universal, no que concerne aos crentes genuínos, que nós estamos sempre prontos a reconhecer a importância da santidade, mas nem sempre encontramos em nossa alma a mesma disposição para praticar a santidade. Por causa da nova vida que temos, em Cristo Jesus, nós de fato desejamos andar como homens santos; todavia, por causa da carne que ainda milita em nosso ser, nós encontramos imensos obstáculos à medida que procuramos caminhar por modo digno do Senhor, para o Seu inteiro agrado.

O crente é, por assim dizer, um “homem dividido”: no recôndito mais profundo do seu ser, naquilo que é mais essencialmente verdadeiro a seu respeito, o cristão ama e busca a santidade; contudo, em muitos aspectos de sua vida (eu arriscaria dizer em todos eles), ele ainda é obrigado a reconhecer a presença de “resquícios de pecado” que mancham o seu testemunho e o fazem corar de vergonha. A realidade desse “homem dividido” – que tem prazer na lei de Deus, mas fatalmente descobre que o mal ainda reside em seu ser – é aquilo que faz Paulo exclamar com profunda dor: “Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” (Romanos 7.24).

Com efeito, o texto de Romanos 7.14-25 é uma das passagens mais agonizantes de toda a Escritura. Ali, o apóstolo Paulo, o maior exemplo de fé e vida que encontramos no Novo Testamento, expõe a si mesmo como um homem dividido, um homem que muitas vezes é obrigado a reconhecer em si mesmo a sua própria desconformidade em relação à Lei de Cristo. E, mesmo quando o apóstolo é capaz de erguer os seus olhos e gritar “Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor”, as suas últimas palavras no capítulo ainda são de contagiante lamento: “De maneira que eu, de mim mesmo, com a mente, sou escravo da lei de Deus, mas, segundo a carne, da lei do pecado” (v. 25).

Entretanto, no capítulo 8, Paulo passa a discorrer a respeito do motivo de sua gratidão a Jesus Cristo, no que diz respeito à santificação. Aquela afirmação tímida do capítulo 7, “Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor” é aqui reiterada e expandida, de modo que o tom de lamento dá lugar a uma explosão de alegria, confiança, segurança e firmeza, em razão daquilo que Deus fez por nós, Seus filhos, em Cristo Jesus.

Ao que nos parece, o ponto de Paulo pode ser resumido como segue: uma vez que a obra de Jesus Cristo em favor do Seu povo é plena e perfeita, ela nos assegura não apenas a nossa justificação, mas também a nossa santificação e tudo o mais que nos seja necessário nesta vida, de maneira que, quando finalmente estivermos diante do trono do julgamento, nada nos faltará, em virtude de tudo o que Cristo conquistou para nós, e seremos plenamente livrados da ira de Deus. Ou, como o apóstolo nos diz em outro lugar: “Mas vós sois dele, em Cristo Jesus,o qual se nos tornou, da parte de Deus, sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção” (1Coríntios 1.30)

O que nós encontramos em Romanos 8, portanto, é um pleno tesouro de conforto, encorajamento e segurança para a nossa vida de santificação. Vale a pena, então, meditar com mais cuidado nas verdades ali ensinadas:

1. O Evangelho inclui as boas notícias de que Cristo adquiriu a nossa santificação pessoal. Se a falta de santificação pode impedir um homem de ver a Deus, então a obra de salvação consumada pelo Senhor Jesus deveria incluir a nossa santidade – do contrário, jamais seríamos salvos. Mas, de fato, “nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1), e isso “porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, [nos] livrou da lei do pecado e da morte” (v. 2). Paulo explica que essa santificação operada em nós pelo Espírito Santo é resultante da obra de Cristo, a quem Deus enviou “em semelhança de carne pecaminosa e no tocante ao pecado” (v. 3), “a fim de que o preceito da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito” (v.4).

2. A habitação do Espírito Santo nos assegura a santificação no presente, bem como a ressurreição no futuro. A santificação é um assunto sério, e lutar pela santificação é nosso dever. Aqueles que “estão na carne não podem agradar a Deus” (v. 5-8). Porém, todos os verdadeiros crentes estão em Cristo, e todos os que estão em Cristo são a morada do Espírito Santo (v. 9). Sendo assim, o nosso corpo ainda pode exibir resquícios de pecado e consequências da corrupção humana, “mas o espírito é vida, por causa da justiça” (v. 10). E esse mesmo Espírito, que é a fonte e o penhor de nossa nova vida, certamente permanecerá agindo eficazmente em nós até o fim, quando Ele então “vivificará também o [nosso] corpo mortal” (v. 11).

3. A habitação do Espírito Santo nos constrange à santificação – não pelo temor de que sejamos condenados por Deus, mas pela certeza de que Ele nos salvou e nos aceitou em Sua família, como filhos amados. A presença do Espírito em nós faz com que nos sintamos “devedores” de Deus (v. 12), de maneira que somos constrangidos, impulsionados, amorosamente pressionados a nos engajarmos numa verdadeira guerra contra o pecado: “se, pelo Espírito, mortificardes os feitos do corpo, certamente, vivereis” (v. 13). Mas a grande motivação para estarmos nessa guerra não é tanto o medo de sermos lançados no inferno, e sim a certeza de que “todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (v. 14). Essa doce certeza nos dá a alegre ousadia de chamarmos Deus de “Paizinho” (“Aba, Pai”, v. 15), pois “o próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus” (v. 16). Ora, “se somos filhos, somos também herdeiros” (v. 17): por mais árdua e sangrenta que seja a nossa luta contra o pecado, temos a plena segurança de que possuímos na eternidade uma vida superior e um reino inabalável, e nisso está a nossa alegria e glória.

4. A constante luta contra o pecado nos faz ansiar ainda mais pela eternidade. Os sofrimentos resultantes da guerra pela santificação frequentemente nos fazem pensar na vaidade desta vida. Ora, se esta existência fosse tudo que tivéssemos, os crentes seriam mesmo os mais miseráveis de todos os homens, como o apóstolo diz em outro lugar (1Coríntios 15.19). Porém, nós temos a certeza de uma vida futura e, quando meditamos nessa vida e contemplamos o Dia que já vem raiando, podemos afirmar com ousadia que “os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós” (v. 18). Sim, naquele Dia, até a criação como um todo será redimida do cativeiro de corrupção e inutilidade no qual hoje se encontra (v. 19-22). Mais do que isso, os filhos de Deus experimentarão a redenção de seus corpos: todo resquício de pecado ainda presente será completamente removido e extirpado, de maneira que eles ingressarão numa vida de completa santidade, para sempre (v. 23). Essa é mesmo uma esperança magnífica! E é por isso que nós a aguardamos com tanta paciência, em meio às lutas do presente (v. 24-25).

5. Mesmo nos momentos de maior fraqueza, nós contamos com a ajuda sobrenatural e poderosa do Espírito Santo. “Também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza” (v. 26). Essa ajuda divina é intensa e poderosa, de maneira que, quando não conseguimos sequer orar por nós mesmos, o Deus Espírito intensifica as Suas intercessões por nós perante o Pai, e faz isso “sobremaneira, com gemidos inexprimíveis” (v. 26). Ora, se o Pai e o Espírito são um só Deus, podemos ter certeza absoluta de que tal oração será infalivelmente ouvida e prontamente atendida! “E aquele que sonda os corações sabe qual é a mente do Espírito, porque segundo a vontade de Deus é que ele intercede pelos santos” (v. 27).

6. Mesmo nos momentos de maior fraqueza, nós contamos com a providência de Deus em nosso favor – e isso nos assegura que a Sua obra em nós não pode ficar inacabada. É significativo que a afirmação mais sublime acerca da providência de Deus esteja encravada neste contexto, no qual Paulo apresenta a segurança do crente em meio aos sofrimentos da luta contra o pecado. “Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (v. 28). Um crente, por causa de suas fraquezas e tropeços, é frequentemente assaltado por dúvidas e frustrações, mas aqui está um remédio poderoso: nada, absolutamente nada, escapa do controle do Deus que escolheu um povo para Si e que ordena todos os acontecimentos do universo para a Sua glória e para o benefício eterno daqueles por quem Ele se afeiçoou. Esse povo a quem Deus amou foi predestinado para ser semelhante ao Senhor Jesus, e nada pode impedi-los de alcançar o seu destino (v. 29). Em Cristo, Eles foram amados, eleitos, justificados e glorificados – e absolutamente nada pode quebrar essa “cadeia de ouro”, pois é o próprio Deus que a mantém (v. 30).

7. Em Cristo, Deus se tornou favorável a nós – e absolutamente nada pode mudar isso. O apóstolo faz uma série de perguntas destinadas a confirmar no coração dos crentes o fato de que eles são amados por Deus e, sendo assim objeto do cuidado paternal de Deus, eles podem ter a confiança de que a sua aceitação diante do Pai é garantida para sempre, apesar de suas fraquezas no presente.

“Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (v. 31) – os nossos maiores inimigos e obstáculos são como poeira diante do Deus Todo-Poderoso, e aquilo que parece uma muralha intransponível para nós não é para Ele mais alto do que um meio-fio!

“Aquele que não poupou o seu próprio filho, antes, por todos nós o entregou, porventura não nos dará graciosamente com ele todas as coisas?” (v. 32). Se Deus foi capaz de nos amar ao ponto de sacrificar o Seu unigênito, e isso quando nós ainda éramos pecadores incorrigíveis e inveterados, o que pode fazê-Lo voltar-se contra nós, agora que já fomos justificados, aceitos em Sua família e selados com o Seu santo Espírito?

“Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus?” (v. 33). Quem levantará o dedo em riste contra aqueles a quem Deus amou e liberalmente aceitou em Sua casa? Se “é Deus quem os justifica”, se é o Justo Deus quem os considera justos, quem pode questioná-lo? “Quem os condenará?” (v. 34). Sim, que acusação a nosso respeito pode permanecer de pé, se já fomos sentenciados como dignos de morte eterna e tal sentença já foi executada sobre Jesus Cristo, na cruz, em nosso lugar? “É Cristo Jesus quem morreu ou, antes, quem ressuscitou, o qual está à direita de Deus e também intercede por nós”.

“Quem nos separará do amor de Cristo?” (v. 35). Não é que não haja muitos tentando tal coisa: tribulação, angústia, perseguição, fome, nudez, perigo e espada, todas essas coisas se levantam contra um crente para pressioná-lo a abandonar a sua fé e desistir de andar pelo caminho estreito. Talvez até mesmo a morte se apresente diante de nós, fazendo apelos e ameaças para que neguemos o Senhor Jesus (v. 36). Porém, como esses terríveis inimigos podem conseguir alguma vantagem sobre nós, se mesmo no meio delas nós “somos mais do que vencedores, por meio daquele que nos amou” (v. 37)? Se tal vitória, o Senhor nos assegura, já pertence aos crentes e não pode lhes ser tirada, então podemos ficar bem certos de que “nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (v. 38-39).

Que essas verdades sejam um verdadeiro consolo e encorajamento em nosso coração, à medida que caminhamos nesta jornada de santificação. Que elas sejam também uma motivação e um constrangimento para que busquemos a santidade, na certeza de que tudo aquilo de que precisamos para esta vida e para a vindoura já é nosso, em Cristo Jesus.

Por: Vinícius Silva Pimentel | PreciosoCristo | Original aqui.
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Yago Martins – Deus é eterno, e eu…

Yago Martins

Deus e eu

“Antes que os montes nascessem e se formassem a terra e o mundo, de eternidade a eternidade, tu és Deus.” (Salmo 90.2)

“Quanto ao homem, os seus dias são como a relva; como a flor do campo, assim ele floresce; pois, soprando nela o vento, desaparece; e não conhecerá, daí em diante, o seu lugar.” (Salmo 103.15-16)

As Escrituras nos deixam claro que Deus é um ser eterno. Antes da criação do tempo, Ele estava lá. Constantemente, somos remetidos ao “Deus eterno”, que nos abençoa ao estender seus “braços eternos” em nosso favor (Deuteronômio 33.27). Não é à toa que Ele é “o Alfa e o Ômega”, “aquele que é, que era e que há de vir” (Apocalipse 1.8; 4.8). Em Jó 36.26, Eliú diz acerca de Deus que “o número dos seus anos não se pode calcular” e o próprio Jesus deixa claro sobre Si: “antes que Abraão existisse, EU SOU” (João 8.58). Em Gênesis 21.33, diz-se que Ele é “o Deus eterno”. Isaias declara que Ele é “desde a antiguidade” (Isaías 45.21). O Livro dos Salmos revela que Ele é “de eternidade a eternidade” (41.13) e “desde a eternidade” (93.2), de modo que devemos bendizer ao Senhor “de eternidade em eternidade” (Neemias 9.5). No Salmo 90, ouvimos o louvor apaixonado declarar que Deus está muito acima das nossas concepções de tempo: “Pois mil anos, aos teus olhos, são como o dia de ontem que se foi e como a vigília da noite” (v. 4). Pedro ecoa essa mesma ideia ao escrever que “para o Senhor, um dia é como mil anos, e mil anos, como um dia” (2 Pedro 3.8).

Mas… E eu?

Deus é eterno, mas nós não somos. A qualquer momento, esta nossa breve e frágil vida pode acabar. Como alguém certa vez disse, “um puxão no gatilho e já era. Um tropeção na bordinha. Atropelado na estrada, engasgado com osso de galinha, esfaqueado, acidentado, doente, traído… Tantas formas de morrer que me admiro ainda estar vivo”.

A Escritura testifica, em vários locais e de várias maneiras, acerca da brevidade da existência humana. Isaias usa palavras poéticas: “Seca-se a erva, e caem as flores, soprando nelas o hálito do SENHOR. Na verdade, o povo é erva; seca-se a erva, e cai a sua flor…” (Isaías 40.7,8). Davi, por sua vez, entoou um louvor, dizendo: “como a sombra são os nossos dias sobre a terra, e não há outra esperança” (1Crônicas 29.15). O salmista, por várias vezes, entoou a Deus: “Pois todos os nossos dias vão passando…; acabam-se os nossos anos como um conto ligeiro”, “Porque o homem, são seus dias como a erva; como a flor do campo, assim floresce; pois, passando por ela o vento, logo se vai, e o seu lugar não conhece mais” e “O homem é semelhante à vaidade; os seus dias são como a sombra que passa.” (Salmo 90.9; 103.15-16; 144.4). Tiago ensinou sobre esse tema ao povo que vivia em meio a vários sofrimentos: “Digo-vos que não sabeis o que acontecerá amanhã. Porque que é a vossa vida? É um vapor que aparece por um pouco e depois se desvanece” (Tiago 4.14).

Creio que ninguém lamentou mais a brevidade da vida do que Jó: “Os meus dias são mais velozes do que a lançadeira do tecelão e perecem sem esperança”, “a minha vida é como o vento”, “nossos dias sobre a terra são como a sombra”, “os meus dias são mais velozes do que um corredor; fugiram e nunca viram o bem. Passam como navios velozes, como águia que se lança à comida”, “sai como a flor e se seca; foge também como a sombra e não permanece” (Jó 7.6-7; 8.9; 9.25-26; 14.2).

Certo, mas… E daí?

Primeiro, isso nos leva a adorar o Senhor como Aquele que está acima do tempo. Muitas vezes, o modo como louvamos a Deus é extremamente vago e sem conteúdo. Clichês como “aleluia”, “eu Te amo” ou “glória a Deus” são repetidos como mantras, a fim de suprir nossa falta de “assunto” em nossas orações. Que tal tirar um tempo para engrandecer o nome de Deus pela Sua eternidade? Glorifique ao Senhor como Aquele que está sobre todo o tempo, regendo a história de acordo com Sua vontade.

Segundo, isso nos faz considerar a brevidade das coisas. Sempre que vamos comprar algo novo, costumamos escolher aquilo que terá a melhor vida útil. Eu não compraria um iPod novo se soubesse que ele vai quebrar em 3 dias. Porém, como esquecemos que essa vida passa, e passa rápido, acabamos nos apegando a coisas que em breve desaparecerão. Que tal observar o que realmente é útil para você e o que é só vaidade inútil? Parafraseando John Stott, a vida é nada mais que um estado intermediário entre dois momentos de nudez; portanto, seria bom que transitássemos com o mínimo possível.

Terceiro, isso nos faz considerar a brevidade da vida. Por que não deixar para amanhã o que eu não quero fazer hoje? Simplesmente por que o amanhã pode nunca chegar. Não deixe para fazer o bem só amanhã, não espere se formar para fazer alguma diferença na vida de alguém, não ache que só será feliz quando ________ (complete com seu sonho de vida). Dedique-se a Deus hoje, agora, neste instante. Imagine que sua centelha de vida está quase no fim: como você quer viver esses últimos dias? Espero que seja queimando no altar de Deus, cumprindo vigorosamente Sua vontade.

E por fim, isso nos faz considerar nossa eternidade. A verdade é que, ainda que nossa vida seja breve, nós somos seres eternos. Minha pergunta final é: onde será a sua eternidade? No céu ou no inferno? Você já confiou em Cristo como Aquele que amou você desde antes da eternidade e que morreu na cruz para salvar você dos seus pecados, de modo que agora você vive uma vida de acordo com Seus ensinos e práticas? Se não, considere isto seriamente, toda sua eternidade depende disto: ou eternamente junto de Deus, saboreando Seu amor, ou eternamente longe de Deus, recebendo Sua ira.

Eterno Senhor,
eu Te exalto como Pai do Tempo
e Rei sobre todas as Eras.
Que Tu me ilumines neste dia,
mostrando-me que as coisas são passageiras,
de modo que elas apenas devem servir à Tua glória
e aos referenciais eternos.
Faze-me ver que a vida é breve
e que a qualquer momento posso desfalecer
e descer à sepultura.
Faz-me viver o hoje para Ti, ó Deus.
Que eu considere o destino eterno de minha alma.
Que eu escolha a eternidade junto de Ti.
Eternamente, Te louvo!

“Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, da eternidade para a eternidade! Amém, amém!” (Salmo 41.13)

Por: Yago Martins | PreciosoCristo | Original aqui.
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Cobertura do 1º Encontro da Fé Reformada em Recife: Introdução

Vinícius S. Pimentel

Cobertura do 1o Encontro da Fé Reformada em Recife

Na última semana, entre os dias 17 e 19 de maio de 2012, realizou-se o 1º Encontro da Fé Reformada para Pastores e Líderes em Recife. O evento contou com a participação dos pastores Roberto Brasileiro, Elias Medeiros, Paulo Brasil, Jaime Marcelino, Solano Portela, Davi Charles Gomes e Francisco Leonardo e teve por tema “A importância da pregação hoje”.

Deus me concedeu a graça de participar do Encontro, que excedeu em muito as minhas expectativas. As preleções e pregações foram profundamente bíblicas, centradas em Cristo, cheias de ensinamento prático e de aplicações pastorais para aqueles que exercem o ministério da Palavra ou a ele aspiram. Os hinos e cânticos, entoados com vigor pela congregação (composta quase totalmente de homens), foram escolhidos com muito cuidado e nos permitiram ter momentos sublimes de adoração ao nosso Deus. Isso sem falar no convívio com os irmãos, nas conversas travadas nos intervalos, nas refeições compartilhadas e nas orações uns pelos outros! Foi um grande privilégio poder estar presente no evento. O Senhor seja louvado!

Solano Portela, presbítero e membro da Igreja Presbiteriana de Santo Amaro/SP (ao centro).

Davi Charles Gomes, pastor da Igreja Presbiteriana Paulista e Diretor do Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper/SP (ao centro).

Nos próximos posts, tentarei fazer um apanhado geral do conteúdo compartilhado por cada preletor, a fim de que os leitores do blog também sejam, de alguma maneira, abençoados por aquilo que Deus nos concedeu naqueles dias.

A Deus toda a glória!

(Esse foi um dos belíssimos hinos que cantamos ao longo do evento. Trata-se do Hino nº 14 do Novo Cântico, hinário das Igrejas Presbiterianas do Brasil.)

Por: Vinícius Silva Pimentel | PreciosoCristo | Original aqui.
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Meditações em Filipenses (IV): Tudo coopera para a glória de Deus

Vinícius S. Pimentel

Meditações em Filipenses

Quero ainda, irmãos, cientificar-vos de que as coisas que me aconteceram têm, antes, contribuído para o progresso do evangelho; de maneira que as minhas cadeias, em Cristo, se tornaram conhecidas de toda a guarda pretoriana e de todos os demais; e a maioria dos irmãos, estimulados no Senhor por minhas algemas, ousam falar com mais desassombro a palavra de Deus. Alguns, efetivamente, proclamam a Cristo por inveja e porfia; outros, porém, o fazem de boa vontade; estes, por amor, sabendo que estou incumbido da defesa do evangelho; aqueles, contudo, pregam a Cristo, por discórdia, insinceramente, julgando suscitar tribulação às minhas cadeias. Todavia, que importa? Uma vez que Cristo, de qualquer modo, está sendo pregado, quer por pretexto, quer por verdade, também com isto me regozijo, sim, sempre me regozijarei. (Filipenses 1.12-18)

Introdução

Tendo concluído a sua oração de gratidão e súplica pelos filipenses, o apóstolo Paulo passa a falar aos crentes a respeito das últimas notícias relacionadas à sua prisão.

Aparentemente, o encarceramento de Paulo havia provocado na igreja de Filipos uma certa tristeza e ansiedade. Pelo que podemos inferir das Sagradas Escrituras, os irmãos estavam preocupados que a prisão de Paulo atrapalhasse o avanço do evangelho no mundo e, ao mesmo tempo, temiam que o apóstolo acabasse sendo condenado à morte pelas autoridades do Império Romano.

A passagem que vai do versículo 12 ao versículo 26 nos revela de maneira muito forte a tranquilidade e, mais do que isso, a alegria do coração de Paulo em meio a todas essas circunstâncias adversas. O apóstolo escreve aos crentes em Filipos para dizer-lhes que não havia motivo de preocupação, pois, qualquer que fosse o desfecho do seu encarceramento, o nome de Deus seria glorificado.

Com efeito, podemos dividir esta seção em duas partes principais. Na primeira delas (v. 12-18), Paulo tranquiliza os filipenses no tocante à sua preocupação de que o encarceramento do apóstolo pudesse resultar no fracasso do evangelho e na derrota da igreja. Na segunda parte (v. 19-26), ele procura dissipar o temor dos irmãos de que a sua prisão terminasse por levá-lo à própria morte.

Nesta meditação, cuidaremos de estudar a primeira parte do discurso de Paulo. Observaremos a maneira como o apóstolo aborda as suas tribulações e a confiança que ele possui em relação ao progresso e ao triunfo do evangelho no mundo.

A prisão de Paulo e a glória de Deus

Meditemos, em primeiro lugar, na maneira como o apóstolo contempla o seu próprio sofrimento. Ouçamos as suas palavras e guardemos a riqueza de ensinamento prático contida nesta declaração: “Quero ainda, irmãos, cientificar-vos de que as coisas que me aconteceram têm, antes, contribuído para o progresso do evangelho” (v. 12).

Há duas lições extremamente importantes a serem consideradas aqui.

Primeiro, aprendemos que os sofrimentos os quais enfrentamos não são mais importantes que a glória de Deus.

Como já temos demonstrado, o apóstolo Paulo estava preso, e o risco de que o seu cárcere terminasse numa condenação à morte era bastante real. Numa situação como essa, que tipo de pensamento dominaria a nossa mente? Tristeza? Solidão? Medo de morrer?

Paulo era um homem sujeito às mesmas fraquezas que nós e, talvez, pensamentos assim tenham passado pela sua cabeça. Todavia, quando meditamos na declaração que acabamos de ler, vemos com muita clareza que o apóstolo não estava dominado por esses temores. Nada disso estava consumindo a sua mente; muito pelo contrário, ao invés de preocupar-se com o seu próprio bem-estar, Paulo estava pensando no avanço do evangelho e no bem-estar da igreja. A sua atenção, portanto, estava voltada para a glória de Deus.

É impossível deixar de reconhecer o caráter sobrenatural e celestial desse tipo de pensamento. Nós somos naturalmente inclinados a pensar em nós mesmos antes de todas as coisas; nossa natureza carnal e pecaminosa nos impulsiona a considerarmos a nossa vida mais preciosa do que tudo o mais. Porém, não foi isso que Cristo nos ensinou. Ele nos disse que desprezar esta vida terrena é o único caminho para possuir a verdadeira vida, aquela que é eterna e celestial: “Porquanto, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por minha causa achá-la-á” (Mateus 16.25).

Aqui, neste texto, nós vemos o apóstolo Paulo atendendo ao chamado de Cristo de uma maneira bastante real e concreta. A sua vida está por um triz, mas ele não demonstra estar preocupado; pelo contrário, ele está feliz com o fato de que os seus sofrimentos estão resultando em mais frutos para o evangelho e mais glória para Deus!

Você é capaz de ver as suas lutas, tribulações e dificuldades dessa maneira? Você consegue alegrar-se no sofrimento, à medida que percebe que as nossas aflições enquanto cristãos apenas servem para que Deus realize os Seus bons propósitos e glorifique o Seu grande nome?

Segundo, aprendemos que as nossas limitações pessoais não impedem o cumprimento dos planos e promessas de Deus.

Paulo era “o apóstolo dos gentios”. Ele havia sido soberanamente chamado por Deus para levar o Evangelho às nações além de Israel. No momento de sua primeira prisão, o apóstolo já tinha fundado inúmeras igrejas por grande parte do Império Romano; entretanto, ainda havia muitas cidades onde o evangelho precisava ser anunciado, muitas nações onde Cristo ainda não era conhecido.

A prisão de Paulo, portanto, podia levantar a seguinte dúvida: O que acontecerá com o progresso do evangelho? Será que a fé cristã deixará de avançar? Será que o crescimento do evangelho estagnará e, por fim, a Igreja morrerá?

O apóstolo responde a essa inquietação com um sonoro “Não!”. Obviamente, Paulo estava ciente de que absolutamente nada pode impedir o avanço do reino de Deus: nem a oposição dos incrédulos, nem a fúria de todos os demônios, nem as limitações pessoais dos ministros da nova aliança. Absolutamente nada pode evitar que Deus cumpra a Sua promessa de fazer o Seu nome conhecido em toda a terra e ajuntar, de todas as nações, um povo para Si mesmo. O apóstolo certamente conhecia as palavras de Jesus: “Sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mateus 16.18).

Paulo tinha certeza, portanto, de que a sua prisão não constituía um entrave ao progresso do evangelho. No fim de sua vida, ele escreveria estas palavras ainda mais ousadas: “[…] estou sofrendo até algemas, como malfeitor; contudo, a palavra de Deus não está algemada” (2Timóteo 2.9). Os homens podem prender os ministros do evangelho, algemá-los, calá-los e até matá-los. Mas eles não podem fazer isso com Deus nem com a Sua palavra. Portanto, como certa vez asseverou o missionário William Carey, podemos estar confiantes de que “a causa de Deus triunfará”.

Há algo ainda mais interessante aqui. O apóstolo não apenas tem confiança de que a sua prisão não resultará no fracasso do evangelho, mas ele também enxerga que aquela circunstância efetivamente contribui para o progresso da causa de Cristo no mundo.

De um lado, Paulo vê que a sua prisão lhe permitiu pregar para os soldados do imperador e de muitos outros que estavam entrando em contato, direta ou indiretamente, com a fé evangélica. Ele diz: “[…] as minhas cadeias, em Cristo, se tornaram conhecidas de toda a guarda pretoriana e de todos os demais” (v. 13). A prisão de Paulo, de fato, havia sido o meio usado por Deus para que o evangelho chegasse ao exército romano.

De outro lado, o apóstolo observa que o seu encarceramento havia despertado em muitos irmãos uma coragem ainda maior para pregar o evangelho. Nós lemos que “[…] a maioria dos irmãos, estimulados no Senhor por minhas algemas, ousam falar com mais desassombro a palavra de Deus” (v. 14). Isso é muito interessante. Tanto na narrativa bíblica como na história da Igreja, nós vemos que a perseguição aos cristãos nunca inibe a pregação da Palavra; pelo contrário, Deus usa os sofrimentos de alguns para estimular os demais a serem ainda mais firmes e ousados no desafio de anunciar o nome de Jesus.

Você consegue enxergar as suas próprias limitações dessa maneira? Você consegue perceber como Deus usa as dificuldades e aflições que enfrentamos para tornar o Seu nome ainda mais divulgado no mundo? Que o Senhor nos conceda tal visão celestial!

A pregação interesseira e a glória de Deus

Meditemos, em segundo lugar, na maneira como o apóstolo lida com a pregação interesseira do evangelho. Depois de afirmar que a sua prisão estava estimulando muitos irmãos a pregarem a Palavra de Deus, ele observa que nem todos esses pregadores tinham em seu coração a motivação correta. Alguns de fato estavam proclamando a Cristo “de boa vontade”; outros, porém, estavam levando a Palavra “por inveja e porfia [rivalidade]” (v. 15). Alguns tinham sincero amor por Deus e pelo apóstolo Paulo, e desejavam sinceramente contribuir para que a sua prisão não atrapalhasse o avanço do evangelho entre as nações (v. 16). Porém, outros nutriam terrível inveja do ministério de Paulo e estavam aproveitando a situação para, de alguma maneira, roubar o lugar que o apóstolo tinha na igreja, pela graça de Deus (v. 17).

A maneira como Paulo reage a esses pregadores invejosos e interesseiros é de fato surpreendente. Porém, para que possamos entendê-la melhor, precisamos fazer algumas considerações antes de meditarmos efetivamente na reação do apóstolo.

Devemos observar, por um lado, que o pecado desses ministros não estava no conteúdo da mensagem pregada, mas na intenção do seu coração. Se o problema estivesse na mensagem anunciada, a reação de Paulo seria, sem dúvida, bastante diferente: ele iria fazê-los calar (Tito 1.11), ordenaria aos irmãos que se afastassem daqueles falsos mestres (Romanos 16.17-18) e pronunciaria sobre eles uma terrível maldição (“Seja anátema!”, Gálatas 1.8-9). Paulo jamais tolerou ou toleraria o falso ensino na Igreja de Deus, uma vez que o falso evangelho leva os homens à condenação eterna. Porém, aqui, os ministros estão anunciando o evangelho de forma correta, e muitos ouvintes estão sendo salvos; é a motivação deles que está errada e, por isso, é apenas a eternidade deles (os ministros) que está em jogo.

Isso nos leva, por outro lado, a uma segunda observação: nós não podemos ultrapassar o que está escrito e achar que Paulo está ensinando não haver problema na motivação invejosa daqueles pregadores. Ao contrário: em outra parte desta epístola, Paulo dirá explicitamente que o destino dos pregadores interesseiros é a perdição (Fp 3.19).

Tendo estabelecido essas observações, meditemos de fato na reação do apóstolo diante desses pregadores invejosos. Será que Paulo ficou preocupado em perder espaço? Será que ele teve medo de que um líder mais carismático tomasse o seu lugar, ganhando o amor e o cuidado das igrejas que ele havia fundado e discipulado? Será que ele se aborreceu com tais pregadores, pelo fato de eles estarem tentando usurpar a sua autoridade apostólica?

A Escritura nos mostra que Paulo não teve nenhuma dessas reações pecaminosas. Ele não retribuiu a inveja dos ministros com mais inveja, pois ele mesmo costumava ensinar os cristãos a vencerem o mal com o bem (Romanos 12.21). Diversamente, o apóstolo mostra mais uma vez que a sua preocupação primordial não é consigo mesmo, mas com a causa de Cristo. Se ele não estava temeroso quanto ao seu bem-estar e à sua liberdade, como já vimos, tampouco ele estaria temeroso quanto à sua reputação no ministério ou o seu espaço na igreja!

A resposta de Paulo expressa claramente o seu interesse exclusivo no progresso do evangelho, em detrimento do seu prestígio pessoal. “Todavia, que importa? Uma vez que Cristo, de qualquer modo, está sendo pregado, quer por pretexto, quer por verdade, também com isto me regozijo, sim, sempre me regozijarei” (v. 18). De fato, ao invés de expressar ciúme ou amargura, o apóstolo demonstra intensa alegria. Ele estava sinceramente feliz com aquela situação – não exatamente com o fato de haver ministros invejosos na igreja, mas sim porque Deus estava usando a motivação pecaminosa daqueles homens para tornar o evangelho de Cristo ainda mais conhecido no mundo e crido entre as nações.

Em suma, ao meditarmos em toda esta passagem vemos que Paulo deposita a sua alegria e confiança inteiramente em Deus. Todo o seu interesse está na causa do reino, de maneira que tudo o que coopera para o avanço do evangelho é visto pelo apóstolo como uma razão para se alegrar – ainda que seja a perda da sua própria liberdade. Ao mesmo tempo, toda a confiança de Paulo está no Deus soberano; o apóstolo está certo de que absolutamente nenhuma circunstância pode impedir que o Senhor cumpra os Seus planos e promessas estabelecidos de antemão.

Que possamos ter também semelhante coração, que se alegra inteiramente na vinda do reino e confia inteiramente na providência do Deus todo-poderoso!

Por: Vinícius Silva Pimentel | PreciosoCristo | Original aqui.
Permissões: Você está autorizado e incentivado a reproduzir e distribuir este material em qualquer formato, desde que inclua estes créditos, não altere o conteúdo original e não o utilize para fins comerciais.

Yago Martins – Deus e eu: Como os atributos divinos transformam minha vida diária (Introdução)

Yago Martins

Deus e eu

Introdução

“Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.” Muitas vezes, é isso que ouvimos de nossos amigos quando eles tentam nos mostrar que dois fatores não estão relacionados um ao outro, ainda que aparentemente estejam. Seja intencional ou não, nós acabamos adotando de modo exagerado esse mesmo pensamento em nossa doutrina. Por isso, acabamos nos deparando com falsas dicotomias como “ou tolerância ao diferente ou firmeza doutrinária”, “ou amor pelos homossexuais ou combate à prática homoafetiva”, “ou profundidade teológica ou dedicação à evangelização”. Creio que não exista um único cristão neste país que não haja tido contato com essas falsas oposições – pontos que deviam estar juntos, como teologia e evangelismo, mas que são tratados como inimigos entre si. Corremos o risco de separar aquilo que Deus uniu.

Esse mesmo erro já atingiu o modo como nós pensamos sobre o Ser de Deus. O nosso pensamento é que a pessoa de Deus e os Seus atributos são um assunto metafísico, intangível, ininteligível e até metafórico. Dedicar-nos a estudar sobre soberania, autoexistência, trindade e onipresença soa como “coisa de teólogo”, mero capricho intelectual ou pura perda de tempo. Achamos que o que é palpável é melhor – e como não seria? Com tantas vidas perdidas, tantos crentes fracos, tantos pecados a vencer e tantos pobres a ajudar, como poderemos gastar nosso tempo tentando entender algo que não nos servirá para nada além de intermináveis debates acalorados?

O que eu desejo com esta série de posts é mostrar que pensar sobre Deus não é algo meramente metafísico – sim, é metafísico –, mas algo que influencia de modo crucial a nossa vida. A Escritura testifica claramente sobre isso.

Conhecer ao Senhor nos fará crentes fortes e poderosos. “O povo que conhece ao seu Deus se tornará forte e fará proezas” (Daniel 11.32). Entender sobre o Senhor não é um tema de escritório ou de bibliotecas, é um assunto para discipulados, aconselhamentos e pregações. Crentes fracos e desanimados precisam conhecer o Rei dos Reis a fim de adquirirem aço em seus músculos espirituais. Está precisando de força? Conheça a Deus!

Conhecer ao Senhor nos fará crentes motivados. Qual a motivação que Cristo deu para Seus apóstolos e para todos nós na Grande Comissão? Seu poder: “É-me dado todo o poder no céu e na terra. Portanto ide, fazei discípulos” (Mateus 28.18-19). É por que Cristo recebeu todo o poder em Sua ressurreição que temos um motivo para evangelizar. Está desmotivado? Conheça a Deus!

Conhecer ao Senhor nos fará crentes animados. Paulo tinha todos os motivos para desanimar em seu ministério. Todos, menos um: “tendo este ministério, segundo a misericórdia que nos foi feita, não desfalecemos” (2Coríntios 4.1). Por que ele não desfalecia? Por que ele entendia que o serviço era uma manifestação das misericórdias de Deus. Está pensando em desistir? Conheça a Deus!

Conhecer ao Senhor nos fará crentes maravilhados. Foi o que aconteceu com Paulo. Após falar sobre pontos dos mais controversos sobre teologia, envolvendo assuntos como sofrimento, predestinação e o papel dos judeus na nova aliança, ele louva a Deus, maravilhado: “Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos!” (Romanos 11.33). Não há como não ficarmos atônitos diante de beleza tão sublime. Muitos viajam por vários países e gastam fortunas a fim de encontrar algo que os deixe maravilhados. Nós, porém, possuímos a maior maravilha do universo como Pai – como negligenciá-Lo? Quer ficar mudo diante de tanta beleza? Conheça a Deus!

Conhecer a Deus nos fará crentes adoradores. Os salmos deixam muito claro que adoraremos ao Senhor motivados pelo que conhecemos Dele: “Louvai ao SENHOR, porque ele é bom; porque a sua benignidade dura para sempre” (Salmo 136.1); “Louvarei o teu nome pela tua benignidade, e pela tua verdade; pois engrandeceste a tua palavra acima de todo o teu nome. […] Todos os reis da terra te louvarão […] e cantarão os caminhos do SENHOR; pois grande é a glória do SENHOR.” (138.2,4,5) e “Eu te louvarei, porque de um modo assombroso, e tão maravilhoso fui feito; maravilhosas são as tuas obras, e a minha alma o sabe muito bem” (139:14) – só para citar alguns poucos exemplos. Quer ser um adorador em espírito e em verdade? Conheça a Deus!

Esta será a nossa aventura. Não espere academicismo, longas citações de teólogos do passado ou referências às confissões de fé históricas. Vamos passear pela Palavra, como quem anda no parque – e colheremos as melhores rosas que encontrarmos: não para uma aula de botânica, mas para apreciar o aroma. Em alguns momentos, estaremos gratos pela Misericórdia; em outros, assombrados pela Ira; quem sabe, regozijando pelo Amor; depois, tremendo pela Santidade. No entanto, de qualquer modo, não estaremos dissecando Deus como a um sapo na mesa do laboratório. Estaremos estudando-O como um casal apaixonado o faz: buscando descobrir como agradar aquele a quem amamos. E, principalmente, tentando responder, como diria Paulo, “que diremos, pois, diante destas coisas?” – ou, no popular, “o que eu tenho a ver com isso?”

Seja bem vindo, e boa viagem.

Por: Yago Martins | PreciosoCristo | Original aqui.
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Meditações em Filipenses (III): Suplicando pelos santos

Vinícius S. Pimentel

Meditações em Filipenses

E também faço esta oração: que o vosso amor aumente mais e mais em pleno conhecimento e toda a percepção, para aprovardes as coisas excelentes e serdes sinceros e inculpáveis para o Dia de Cristo, cheios do fruto de justiça, o qual é mediante Jesus Cristo, para a glória e louvor de Deus. (Filipenses 1.9-11)

Introdução

Pudemos ver, na última meditação, que o apóstolo Paulo costumava iniciar suas cartas às igrejas com uma saudação, seguida de uma oração pelos crentes a quem ele se dirigia. Cada oração geralmente continha tanto ações de graças como súplicas. Já vimos as razões pelas quais Paulo dá graças a Deus pela vida dos irmãos filipenses. Agora, vejamos quais as petições que o apóstolo faz a Deus em favor daqueles cristãos.

Ao meditarmos nesta oração de súplica, devemos almejar duas coisas. Por um lado, devemos desejar que também nós experimentemos as bênçãos espirituais que ele roga Deus conceda aos filipenses. Por outro, devemos nos sentir constrangidos a orar pelos nossos irmãos do presente, para que também eles desfrutem daqueles vistosos frutos da graça de Deus em suas vidas.

Que o vosso amor aumente

Se observarmos a passagem com cuidado, logo perceberemos que o apóstolo faz um único pedido a Deus – embora seja um pedido com diversas implicações – e este pedido é: que o amor daqueles crentes aumente mais e mais, em pleno conhecimento e toda a percepção (v. 9). Há muito a aprendermos aqui.

Em primeiro lugar, somos lembrados de que toda a vida cristã consiste sobretudo em amar a Deus. Não é este o maior de todos os mandamentos? Não é exatamente isso o que Deus mais requer de nós? Com efeito, somos convocados a amar ao Senhor de todo o nosso coração, de toda a nossa alma, com todo o nosso entendimento e com toda a nossa força (Mc 12.30).

Ora, isso nos leva a considerar o fato de que a vida cristã envolve um comprometimento de todo o nosso ser com Deus, com a Sua vontade, com os Seus comandos. Não há um recanto de nossas vidas que não deva estar em completa e amorosa submissão ao Senhor, de maneira que nós podemos ser verdadeiramente chamados o Seu povo e a Sua possessão peculiar entre todos os povos. Como cristãos, somos o povo amado do Senhor e o povo que O ama sobre todas as coisas.

Em segundo lugar, somos lembrados de que o nosso amor por Deus nunca deve estagnar. Já vimos como a igreja dos filipenses estava comprometida com Deus e com o evangelho, de modo que Paulo tinha inúmeras razões para render graças pela vida daqueles irmãos. De fato, os crentes de Filipos possuíam uma fé exemplar e uma conduta digna de ser imitada. Isso está fora de questão.

O apóstolo estava certo de que eles amavam verdadeiramente a Deus, mas ele não considerava que aquela medida de amor fosse bastante, de maneira que os filipenses pudessem considerar-se desobrigados de continuar a crescer em sua devoção ao Senhor. Por isso, Paulo roga para que o amor deles “aumente mais e mais” (v. 9). Aliás, adiante ele irá demonstrar uma insatisfação semelhante em relação à sua própria vida: “Não que eu o tenha já recebido ou tenha já obtido a perfeição; mas prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus” (Fp 3.12).

Como filhos de Deus, nós temos conhecido o amor que o Pai tem por nós. Nós sabemos que o Seu amor por nós foi tão grande ao ponto de ter Ele entregado o Seu único Filho para nos salvar, e isso quando nós ainda éramos pecadores, injustos, malignos e rebeldes (Jo 3.16; Rm 5.8-11). Ora, quando contemplamos a natureza imensurável do amor de Deus por nós, logo percebemos quão pertinente é a oração de Paulo. Perto do amor que o Senhor nos dispensou, o nosso amor por Ele é como uma gota de água na vastidão do oceano! Por isso, não importa o quanto já O amamos, precisamos amá-Lo “mais e mais”.

Em terceiro lugar, somos lembrados de que o nosso amor por Deus não está dissociado do nosso conhecimento de Deus. Ouçamos novamente a petição do apóstolo: “que o vosso amor aumente mais e mais em pleno conhecimento e toda a percepção” (v. 9). Ao contrário do que muitos pensam e loucamente afirmam, parece-nos muito claro nas Sagradas Escrituras que o nosso amor por Deus depende, em larga medida, do nosso conhecimento Dele.

Ter a mente cheia de verdades bíblicas sobre quem é Deus e quais são as Suas obras é um passo indispensável para qualquer um que deseja crescer no amor ao Senhor. Em sentido contrário, menosprezar ou desprezar o conhecimento bíblico sobre os atributos e os feitos de Deus é o mesmo que desprezar o próprio Deus!

Portanto, precisamos desesperadamente de um conhecimento cada vez mais profundo de Deus, para que possamos amá-Lo e amá-Lo numa intensidade cada vez maior. E esse tipo de conhecimento só pode ser adquirido de uma maneira: pela meditação perseverante e piedosa na Palavra de Deus.

Evidências de amor

Agora, apesar de a única petição de Paulo pelso filipenses ser para que eles possam amar a Deus mais e mais, é certo que o apóstolo espera que tal crescimento em amor tenha impactos profundos e visíveis sobre a vida daqueles irmãos. Ele nos mostra, assim, que existem evidências as quais sempre acompanham o verdadeiro crescimento de nosso amor por Deus.

Em primeiro lugar, vemos que, à medida que o nosso amor por Deus aumenta, aumenta também a nossa capacidade de aprovar as coisas que são excelentes (v. 10). O significado dessa expressão fica muito claro quando consideramos o resto da Carta aos Filipenses. “Aprovar as coisas excelentes” significa, na ótica de Paulo, ser capacitado a considerar Cristo como o tesouro supremo que Ele é, a percebê-lo e experimentá-lo como mais valioso do que todas as coisas que este mundo valoriza, e ama, e busca. O homem que aprova as coisas excelentes é aquele que, sem hipocrisia, pode dizer que considera todas as coisas como lixo e esterco, quando comparadas com a sublimidade do conhecimento de Cristo (Fp 3.7-11).

Mais do que isso, ser capaz de aprovar as coisas excelentes significa estar apto a perder todas as demais coisas por causa de Cristo sem que isso seja considerado em qualquer sentido um prejuízo ou um dano, sem que tal perda seja motivo de qualquer lamento. Afinal, o mesmo Paulo que fez esta oração foi aquele que alegremente aceitou perder todos os prazeres e regalias deste mundo “para conquistar a Cristo e ser achado Nele”. Uma vez que Paulo sabia valorizar o que é excelente, ele estava plenamente apto a dizer: “Para mim, o viver é Cristo e o morrer é lucro” (Fp 1.21). Isso é aprovar o que é excelente.

Em segundo lugar, vemos que, à medida que o nosso amor por Deus aumenta, aumenta também o nosso desejo de estarmos sinceros e inculpáveis para o Dia de Cristo (v. 10). Amamos a Deus e, por isso, procuramos viver de tal maneira como aqueles que, cedo ou tarde, haverão de se encontrar com o Senhor e desejam estar sempre prontos para serem chamados por Ele. O apóstolo João nos fala sobre isso em termos muito semelhantes: “E a si mesmo se purifica todo o que nele tem esta esperança, assim como ele é puro” (Jo 3.3). Isso não significa que dependemos de nossas obras para recebermos ou mantermos a nossa salvação; ao contrário, significa que temos tal consciência de como fomos amados por Deus, que nos sentimos constrangidos a viver neste mundo de maneira pura e íntegra, a fim de que, quando estivermos na plenitude de Sua santa presença, tenhamos uma oferta agradável a Lhe entregar.

Em terceiro lugar, vemos que, à medida que o nosso amor por Deus aumenta, aumenta também em nós o fruto de justiça (v. 11). Isso está diretamente relacionado ao ponto anterior. Na verdade, a maneira como nós nos tornamos sinceros e inculpáveis para o Dia de Cristo é dando mais e mais fruto de justiça. O crescimento do nosso amor por Deus é evidenciado pelo nosso crescimento na santificação e nas boas obras, as quais evidenciam que de fato fomos justificados por Deus pela fé em Cristo e regenerados para uma nova vida mediante a habitação do Espírito Santo.

De fato, não há amor por Deus ou cristianismo verdadeiro sem frutos de justiça, e não há crescimento em amor sem que isso resulte em crentes “cheios do fruto de justiça”. O próprio Senhor Jesus nos advertiu: “pelos frutos os conhecereis” (Mt 7.16-20), e aqui Paulo está tão somente repetindo o ensino do Senhor, ao orar para que os filipenses fossem sempre como galhos envergados de frutos vistosos e fartos.

Porém, para não nos deixar dúvidas de que “ao SENHOR pertence a salvação” (Jn 2.9), o apóstolo acrescenta que esses frutos de justiça — que devem estar presentes em todos os cristãos e numa medida cada vez maior – não procedem de nós mesmos, mas são “mediante Jesus Cristo” (v. 11). Ora, temos que dar muito fruto para o Senhor Jesus? É certo que sim! Contudo, esse fruto procede de nós mesmos? Mil vezes, não! Somos apenas os galhos que ostentam e exibem esses frutos, mas são a raiz da videira e sua seiva as responsáveis por prover absolutamente tudo o que é necessário para que eles apareçam e amadureçam.

Se todo o nosso fruto na vida cristã não procede de nós mesmos, mas vem mediante Jesus Cristo, não é de espantar que Paulo conclua afirmando que a nossa frutificação redundará na “glória e louvor de Deus” (v. 11). Nós não receberemos glória pelos nossos frutos; somente Deus a terá. Se nossos frutos realmente procedem Dele, é o Seu nome, e não o nosso, que será exaltado. É a Sua fama, e não a nossa, que correrá por toda a terra. Quando nossas boas obras procedem realmente de Jesus Cristo, os homens as veem em nós – afinal, somos os galhos que as ostentam! -, mas é ao Pai que eles glorificam.

Que o Senhor atenda à oração de Paulo também em nosso favor. Que Ele nos dê uma medida cada vez maior de amor, daquele amor alicerçado no verdadeiro conhecimento de Deus, para que possamos valorizar Aquele que é excelente e estar prontos para a Sua vinda, cheios do fruto de justiça que nasce de Cristo e redunda na glória do Pai celestial.

Por: Vinícius Silva Pimentel | PreciosoCristo | Original aqui.
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Os melhores links cristãos do mês (Abril/2012)

Todo mês, nós do PreciosoCristo selecionamos e indicamos alguns dos melhores textos e vídeos (ou qualquer outro conteúdo) publicados em sites cristãos. Acessem estes links, visitem estes sites e sejam edificados!

Atenção: O fato de incluirmos o texto de um site neste espaço não significa que endossamos todo o conteúdo do site no qual ele foi publicado.

Links cristãos do mês

Michael J. Kruger, A humildade cristã e a definição mundana de humildade
No iPródigo, em 02 de abril de 2012.

“Para os cristãos, humildade e incerteza não são sinônimos. Uma pessoa pode estar certa e ser humilde ao mesmo tempo. Como? Por esta simples razão: os cristãos acreditam compreender a verdade apenas porque Deus revelou a eles (1 Coríntios 1.26-30). Em outras palavras, os cristãos são humildes porque sua compreensão da verdade não se baseia em sua própria inteligência, em sua própria investigação, em sua própria perspicácia. Pelo contrário, é 100% dependente da graça de Deus. Conhecimento cristão é um conhecimento dependente. E isso leva à humildade (1 Coríntios 1.31).”

C.H. Spurgeon, Caminho da redenção
No Projeto Spurgeon, em 04 de abril de 2012.

Em razão da Páscoa, o Projeto Spurgeon publicou o livro Caminho da redenção com diversos sermões de Charles Spurgeon relacionados à morte e à ressurreição do Senhor Jesus. Para aqueles que desejam mergulhar no oceano das insondáveis riquezas de Cristo, é uma leitura indispensável!

Kevin DeYoung, Não “Um dos”, e sim “O”
Na Editora Fiel (Artigos).

No que diz respeito a identificar Jesus, verdades parciais que ignoram a verdade maior acabam contando uma mentira. É verdade que Jesus é um profeta (Mc 6.4; Dt 18.18). Mas ele não é como João Batista. Jesus não é outro Elias. Ele não é meramente um dos profetas. Jesus é aquele para quem todos os outros profetas apontavam. Por isso, chamar Jesus de profeta e nada mais do que um profeta equivale a não compreender, no nível mais profundo, quem é este homem.

Augustus Nicodemus Lopes, Verdades e mitos sobre a Páscoa
No O Tempora, O Mores!, em 04 de abril de 2012.

“Nesta época do ano celebra-se a Páscoa em toda a cristandade, ocasião que só perde em popularidade para o Natal. Apesar disto, há muitas concepções errôneas e equivocadas sobre a data. […] A Páscoa, não é dia santo para nós. Para os cristãos há apenas um dia que poderia ser chamado de santo – o domingo, pois foi num domingo que Jesus ressuscitou de entre os mortos. O foco dos eventos acontecidos com Jesus durante a semana da Páscoa em Jerusalém é sua ressurreição no domingo de manhã. Se ele não tivesse ressuscitado sua morte teria sido em vão. Seu resgate de entre os mortos comprova que Ele era o Filho de Deus e que sua morte tem poder para perdoar os pecados dos que nele creem.”

Clóvis Gonçalves, Pecadores irrepreensíveis
No Cinco Solas, em 09 de abril de 2012.

“No dia da volta do Senhor, devemos comparecer irrepreensíveis diante Dele. Isto significa que devemos estar “livres de qualquer acusação” (Cl 1:22), que não pode haver “nada contra”(1Tm 3:10) nós. Sermos irrepreensível significa que nenhuma acusação pode ser legitimamente levantada contra nós. É assim que devemos estar na volta do Senhor, pois Ele virá para uma noiva”gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito” (Ef 5:27). Mas quem de nós poderá pensar de si mesmo que é capaz de comparecer diante de Jesus em Sua glória dessa maneira? Quem pode olhar para as próprias mãos e vê-las limpas, examinar o seu coração e o encontrar puro, considerar as próprias palavras e achar seus lábios sem engano?”

Tad Thompson, A preocupante situação de nossos filhos
No Cinco Solas, em 10 de abril de 2012.

“Já fiz parte da liderança da igreja como pastor estagiário, como pastor auxiliar responsável pelo treinamento de adultos, e agora como pastor sênior. Em cada estágio de meus dezessete anos de ministério, pude notar que o distanciamento entre pais e filhos no que diz respeito ao discipulado cresce a olhos vistos. O mais agravante é constatar que pais e mães não têm assumido a responsabilidade de discipular seus filhos, e as igrejas têm feito muito pouco — quando fazem — para mudar essa realidade.”

Robert Norris, Orando pelos líderes na igreja 
No AME Cristo, em 11 de abril de 2012.

Se orar pelos líderes da igreja já não parecem estar na moda, talvez uma razão subjacente seja a igreja frequentemente adota os padrões e ideias do mundo. Em nossa busca pelo sucesso onde a marca óbvia desse sucesso é o tamanho, influência, poder e dinheiro, líderes eclesiásticos estão sob constante pressão para produzir evidência de crescimento, e técnicas e programas são meios óbvios pela qual isso é alcançado. Nesse quadro não há lugar dado para a oração, a qual fala de um quadro sobrenatural de pensamento que é completamente estranho ao mundo moderno.”

Mark Dever, O que é uma igreja saudável?
No Voltemos ao Evangelho, em 20 de abril de 2012.

“Nesta palestra, ministrada na abertura do 1º módulo do Curso Fiel de Liderança 2012, o pastor Mark Dever introduz o tema “O que é uma igreja saudável?” e aborda a questão a partir de quatro perspectivas. Primeiro, ele considera como a questão das “marcas” da igreja foi tratada ao longo da história, sobretudo a partir da Reforma Protestante. Segundo, Dever considera a própria significância da pergunta. Terceiro, ele apresenta algumas respostas comuns à indagação “O que é uma igreja saudável?”. Por fim, o pastor nos fala sobre as marcas de uma igreja saudável do ponto de vista bíblico. Num tempo como o nosso, em que parece ser tão difícil distinguir uma igreja saudável das falsas igrejas, esta é, sem dúvida, uma mensagem fundamental.”

Três perspectivas acerca do amor de Deus pelo mundo (III): B.B. Warfield

Vinícius S. Pimentel

Três perspectivas acerca do amor de Deus pelo mundo

Leia a Parte I (Introdução à série e Perspectiva de J.C. Ryle)
e a Parte II (Perspectiva de John Owen)

Apresentando a perspectiva de B.B. Warfield

Para aqueles que não o conhecem, Benjamin B. Warfield foi um dos grandes teólogos americanos oriundos do Seminário de Princeton, de onde também saíram Charles Hodge e seu filho A.A. Hodge. A sua interpretação de João 3.16 encontra-se no artigo intitulado O imensurável amor de Deus, o qual, por sua vez, nasceu de um sermão pregado na capela de Princeton [1].

É importante fazer, antes de tudo, três observações concernentes à exposição feita por Warfield. A primeira delas é que o professor de Princeton demonstra a sua preocupação em ser exegético, antes de ser sistemático. De fato, antes de lidar com esse versículo a partir da controvérsia teológica concernente à pergunta Por quem Cristo morreu?, ele está interessado com as questões: Qual é o assunto essencial da passagem? Qual o seu ensinamento primário? Em que contexto ela está inserida? O que o autor do texto queria realmente comunicar?

Em segundo lugar, é importante perceber que Warfield, embora discordando expressamente de John Owen em certos aspectos interpretativos, concorda com o teólogo de Oxford num ponto fundamental: o “amor” mencionado na passagem é o amor salvífico de Deus, o amor soberano que atrai infalivelmente os pecadores das trevas para a sua maravilhosa luz. Nesse particular, como é óbvio, a sua exegese se afasta do entendimento de J.C. Ryle.

A terceira observação fundamental é que a exposição do amor de Deus pelo mundo feita por Benjamin Warfield finda por seguir um caminho incomum para a maioria de nós, cristãos brasileiros do século XXI. Após apresentar mais puramente a sua exegese da passagem, o teólogo passa a tratar de alguns aspectos sistemáticos e, nesse momento, ele trata do amor de Deus pelo mundo a partir daquela que era, a seu tempo, uma das convicções fundamentais do corpo discente do Seminário de Princeton: o pós-milenismo. Obviamente, nos limites deste artigo, não poderemos nos aprofundar numa discussão escatológica, mas, se queremos entender a sua perspectiva de João 3.16, é inevitável mencionar o fato de que Warfield era um convicto pós-milenista.

Feitas essas observações, cumpre-nos apresentar em linhas gerais a estrutura do artigo de B.B. Warfield:

Na primeira seção do texto, ele lida com a pergunta A palavra “mundo” significa “todos sem exceção”? [2] e argumenta que, ao invés de exaltar o amor de Deus, esse entendimento da passagem na verdade o diminui, seja porque procura traduzir a grandeza do amor de Deus em termos finitos (o número de pessoas que há no mundo), seja porque reduz a ação do amor de Deus a uma mera possibilidade de salvação:

Nós descobrimos, assim, que a interpretação do termo “mundo” em nosso texto como “todo e cada homem no mundo” não apenas começa com o erro óbvio de direcionar a nossa atenção para a grandeza do mundo, ao invés de para a grandeza de Deus, podendo apenas inferir esta última daquela primeira. Essa interpretação termina por efetivamente diminuir o amor de Deus, como se ele pudesse ser satisfeito com meias medidas – aliás, de muitas maneiras, como se ele pudesse ser satisfeito com o que não tem medida alguma. Pois, se ele se satisfizesse meramente em abrir um caminho de salvação e deixar os homens andarem ou não por esse caminho conforme eles queiram, os duros fatos da vida nos forçariam a concluir que esse amor se satisfaria meramente em abrir um caminho de salvação para multidões a quem nunca se daria a conhecer que um caminho de salvação se apresenta diante delas, muito embora a sua única esperança fosse andar por ele.

Na segunda seção do artigo, o professor de Princeton se debruça sobre a indagação A palavra “mundo” significa “os eleitos”? e, novamente, responde de maneira negativa. Na verdade, Warfield reconhece que essa interpretação (precisamente aquela advogada por John Owen) é superior à primeira, porque busca honrar a natureza poderosa, soberana, livre e eficaz do amor de Deus pelos pecadores:

Está muito claro que essa interpretação tem uma vantagem inestimável sobre aquela primeiramente sugerida, uma vez que ela penetra no coração do problema e se recusa a esvaziar o texto do seu propósito manifesto. O texto é dado para intensificar em nossos corações o entendimento do amor de Deus por pecadores: para nos fazer compreender algo da altura, da profundidade, da largura e do comprimento desse amor, embora ele verdadeiramente ultrapasse todo o conhecimento. É impossível, portanto, à medida que nós lemos o texto, erguer limitações a esse amor, como se ele não pudesse efetuar aquilo para o que foi designado.

O autor acredita, porém, que essa segunda perspectiva também se mostra incapaz de mergulhar nas verdadeiras profundezas da passagem. Para ele, essa segunda interpretação faz jus ao significado da palavra “amor”, mas não consegue exaurir o sentido da palavra “mundo” pretendido pelo escritor bíblico inspirado:

No seu esforço para fazer justiça à concepção do amor de Deus, não fazem eles [os defensores dessa segunda perspectiva] algo menos do que justiça à concepção encartada na expressão “o mundo? […]  Essa interpretação, indubitavelmente, reproduz o significado fundamental do texto. Mas será que ela satisfaz completamente todas as suas sugestões? Será que não há no texto uma sequência de pensamento mais sutil do que a por ela explicada? Será que não há nela uma verdade mais profunda e mais gloriosa até mesmo do que o alcance global do amor de Deus, manifestado na Grande Comissão […]?

Na terceira seção, Warfield passa a apresentar de maneira positiva o seu entendimento do texto, que nós consideraremos mais detidamente em seguida. Pode-se adiantar, porém, que para o autor o real significado da palavra “mundo” só pode ser alcançado se nós percebermos que o apóstolo João utiliza esse vocábulo, em seus escritos, com uma conotação qualitativa, e não quantitativa:

Se o amor aqui celebrado é compartilhado com todo e qualquer homem que compõe o mundo, ou se ele se encerra apenas com os eleitos, escolhidos para fora do mundo, todo esse debate encontra-se fora do escopo da passagem e não fornece qualquer auxílio à sua interpretação. A passagem não pretendia ensinar, e certamente não ensina, que Deus ama todos os homens indistintamente e visita cada um deles com as mesmas manifestações do seu amor. Tampouco ela pretendia ensinar, nem ensina, que o seu amor está confinado a uns poucos indivíduos especialmente escolhidos para fora do mundo. O que se pretende, aqui, é despertar em nossos corações um senso de admiração diante da maravilha e do mistério do amor de Deus pelo mundo pecador – aqui concebido não quantitativamente, mas qualitativamente, em sua mais distintiva característica enquanto mundo pecador.

Na última seção, B.B. Warfield finalmente lida com as implicações teológicas dessa passagem. Como já se aduziu, ele sustenta que o amor aqui mencionado é o amor salvífico – um amor que efetivamente salva, e não uma espécie de amor que apenas anela pela salvação dos homens. Porém, ele assevera com igual veemência que o “mundo” a quem Deus amou não é uma minoria espalhada entre as nações, e é aqui que o pós-milenismo de Warfield se revela com clareza:

Os eleitos – eles não são os resíduos do grande incêndio, as cinzas, por assim dizer, do mundo em chamas, tristemente ajuntadas pelo Criador após o fim da catástrofe, de modo que ele possa com eles fazer um novo e talvez melhor começo e, possivelmente, edificar a partir deles um novo edifício, para substituir aquele que foi perdido. Muito mais do que isso, eles mesmos são “o mundo” – não o mundo como ele é em seu pecado, jazendo no maligno, mas o mundo em sua promessa e potencial de uma vida renovada.

No decurso de todos os anos, um propósito crescente se desenrola, um propósito crescente: os reinos da terra se tornam cada vez mais os reinos do nosso Deus e de seu Cristo. O processo pode ser lento; o progresso pode parecer atrasar-se, aos nossos olhos impacientes. Mas é Deus quem está edificando! E, sob as suas mãos, o edifício é erguido tão firmemente quanto o é lentamente, e no tempo devido a última pedra será posta em seu lugar, e aos nossos olhos abismados se revelará nada menos do que um mundo salvo!

(No próximo post, analisaremos mais detidamente os aspectos exegéticos da perspectiva de B.B. Warfield.)

Notas:

[1] WARFIELD, Benjamin Breckinridge. God’s Immeasurable Love. Disponível em: <http://www.gcc-opc.org/docs/godslove.htm>. Acesso em: 03 abr. 2012. Tradução livre de Vinícius S. Pimentel. (O artigo encontra-se disponível na internet, em inglês. Após o término desta série, ele será traduzido e publicado na íntegra aqui no PreciosoCristo.)

[2] Na verdade, Warfield está aqui lidando diretamente com a doutrina da expiação ilimitada, defendida pelos arminianos e pelos chamados “calvinistas de quatro pontos”. Ambas as perspectivas não se confundem com a “expiação limitada-ilimitada” de J.C. Ryle e outros calvinistas de cinco pontos. Todavia, alguns de seus argumentos acabam sendo também uma crítica à maneira como Ryle interpreta João 3.16, uma vez que o teólogo de Princeton defende firmemente que o “amor” de Deus mencionado na passagem é o amor salvífico, assim como não aceita a ideia de que o “mundo” possa ser entendido como que se referindo a “todos os homens, sem exceção”.

Por: Vinícius Silva Pimentel | PreciosoCristo | Original aqui.
Permissões: Você está autorizado e incentivado a reproduzir e distribuir este material em qualquer formato, desde que inclua estes créditos, não altere o conteúdo original e não o utilize para fins comerciais.

Três perspectivas acerca do amor de Deus pelo mundo (II): John Owen

Vinícius S. Pimentel

Três perspectivas acerca do amor de Deus pelo mundo

Leia a Introdução à série e a Perspectiva de J.C. Ryle

Apresentando a perspectiva de John Owen

Em seu livro Por quem Cristo morreu?, o teólogo puritano John Owen (1616-1683) expõe e defende de maneira bastante vigorosa a doutrina da expiação limitada. Na última parte do livro, ele responde as objeções mais comuns feitas ao ensino da redenção particular, e é nessa porção de sua obra que ele nos oferece a sua interpretação de João 3.16. Ei-la:

Além disso, as Escrituras não afirmam, em lugar algum, que Deus é naturalmente inclinado ao bem de todos. Ao contrário, é evidente que Deus é completamente capaz de ter misericórdia daqueles pelos quais Ele terá misericórdia. Seu amor é um ato livre de Sua vontade, não uma emoção produzida n’Ele por nosso estado miserável. (Se fosse a miséria que tivesse atraído o anseio natural de Deus para ajudar, então, Ele deveria ser misericordioso para com os demônios e os condenados!) […]

É claro que Deus quer o bem de todos a quem Ele ama.

Então, segue-se que Ele ama somente aqueles que recebem esse bem. O mesmo amor que O levou a dar Seu Filho, Jesus Cristo, faz com que Ele dê também todas as outras coisas necessárias. “Aquele que nem mesmo a seu próprio filho poupou, antes o entregou por todos nós, como nos não dará também com ele todas as coisas?” (Romanos 8:32). Assim, este amor especial de Deus pode, portanto, ser somente por aqueles que realmente tenham recebido graça e glória.

Ora, leitor cristão, você precisa julgar: pode o amor de Deus, que deu o Seu Filho, ser entendido como um sentimento de boa vontade para com todos em geral? Não será, ao invés disso, o Seu amor especial para com os crentes eleitos?

2. Precisamos examinar o que é o objeto desse amor de Deus, aqui chamado de “o mundo”. Alguns dizem: isto deve significar todos e cada um dos homens. Eu jamais consegui ver como isso poderia significar tal coisa. Já demonstramos os diferentes sentidos com que a palavra “mundo” é usada nas Escrituras. E, em João 3: 16, o amor mencionado no princípio e o propósito no final, não podem concordar com o significado de “todos e cada um dos homens” que é imposto, por alguns, sobre “o mundo”, o qual ocorre no meio do versículo.

De nossa parte, entendemos que essa palavra significa os eleitos de Deus espalhados pelo mundo entre todas as nações. Os benefícios especiais de Deus já não são para os judeus somente. O sentido é: “Deus amou os Seus eleitos em todo o mundo de tal maneira, que deu o Seu Filho com esse propósito, para que os crente pudessem ser salvos por Ele.” Há várias razões que corroboram esse ponto de vista. […]

Há várias razões porque os crentes são chamados de “o mundo”. É para distingui-los dos anjos; e para rejeitar judeus jactanciosos que pensavam ser apenas eles o povo de Deus; para ensinar a distinção entre a velha aliança feita com uma só nação, e a nova – na qual todas as nações do mundo se tornariam obedientes a Cristo; e para mostrar a condição natural dos crentes como criaturas terrestres e deste mundo. […]

Ora, que o leitor pese todas estas coisas, e especialmente a primeira – o amor de Deus – e pergunte seriamente se pode ser considerado uma afeição por todos em geral aquilo que pode tolerar a perdição de muitos daqueles a quem Ele tanto amou? Ou será que este amor não é melhor entendido como sendo aquele único, especial amor do Pai por Seus filhos crentes, que torna seguro o futuro deles? Então, você terá uma resposta se a Bíblia ensina, ou não, que Cristo morreu como um resgate geral – infrutífero com relação a muitos pelos quais o resgate foi pago ou como uma redenção especial e gloriosamente eficaz para cada crente. E lembre-se de que este texto João 3: 16 é freqüentemente usado para sustentar a ideia de que Cristo morreu por todos os homens – embora, como já tenho mostrado, seja completamente incompatível com tal noção! [1, negrito acrescido]

Entendendo a perspectiva de John Owen

Como se pode facilmente perceber, ao contrário de J.C. Ryle – que parte da definição de “mundo” para chegar à definição de “amor” -, Owen inicia indagando qual é o real sentido do “amor” de Deus afirmado na passagem.

O teólogo puritano defende, ao contrário do bispo de Liverpool, que o amor referido no texto em comento só pode ser o amor salvífico de Deus, não uma espécie de “bondade geral” que Ele supostamente possui por todos os seres humanos, indistintamente. Ele pergunta, retoricamente: “pode o amor de Deus, que deu o Seu Filho, ser entendido como um sentimento de boa vontade para com todos em geral? Não será, ao invés disso, o Seu amor especial para com os crentes eleitos?”

De fato, John Owen abertamente nega toda noção de que Deus possua algum tipo de afeição pelos não eleitos. No início de sua exposição do texto, ele assevera: “as Escrituras não afirmam, em lugar algum, que Deus é naturalmente inclinado ao bem de todos”. E, posteriormente: “Então, segue-se que Ele ama somente aqueles que recebem esse bem [a salvação]”.

Tendo estabelecido o seu argumento de que a passagem refere-se ao amor salvífico de Deus, Owen passa a defender que a palavra “mundo” deve ser entendida como equivalente à expressão “todo o que nele crê”, encontrada no final do versículo. Para o teólogo de Oxford, portanto, “o mundo” refere-se a “os eleitos de Deus espalhados pelo mundo entre todas as nações”.

John Owen lança mão de diversos argumentos para confirmar a sua interpretação do vocábulo “mundo”. Contudo, o ponto fulcral de sua exegese é a ideia de que o apóstolo João, enquanto um judeu, escrevera a respeito do amor de Deus pelo mundo para enfatizar a grande notícia de que as bênçãos salvíficas do Senhor já não são dirigidas especialmente ao povo hebreu, mas estendem-se agora em benefício de todos aqueles que Deus já havia eleito, antes da fundação do mundo, dentre todas as tribos, línguas, povos e nações. Para o autor, assim, a expressão “o mundo” é usada para provocar contraste com a ideia de “o povo judeu”.

Notas:

[1] As citações foram retiradas da seguinte versão da obra, disponibilizada na internet:

OWEN, John. Por quem Cristo morreu?: a morte da morte na morte de Cristo, p. 41-44. Disponível em: <http://www.baptistlink.com/creationists/porquemowen.pdf>. Acesso em: 03 abr. 2012.

Por: Vinícius Silva Pimentel | PreciosoCristo | Original aqui.
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