Meditações em Filipenses (III): Suplicando pelos santos

Vinícius S. Pimentel

Meditações em Filipenses

E também faço esta oração: que o vosso amor aumente mais e mais em pleno conhecimento e toda a percepção, para aprovardes as coisas excelentes e serdes sinceros e inculpáveis para o Dia de Cristo, cheios do fruto de justiça, o qual é mediante Jesus Cristo, para a glória e louvor de Deus. (Filipenses 1.9-11)

Introdução

Pudemos ver, na última meditação, que o apóstolo Paulo costumava iniciar suas cartas às igrejas com uma saudação, seguida de uma oração pelos crentes a quem ele se dirigia. Cada oração geralmente continha tanto ações de graças como súplicas. Já vimos as razões pelas quais Paulo dá graças a Deus pela vida dos irmãos filipenses. Agora, vejamos quais as petições que o apóstolo faz a Deus em favor daqueles cristãos.

Ao meditarmos nesta oração de súplica, devemos almejar duas coisas. Por um lado, devemos desejar que também nós experimentemos as bênçãos espirituais que ele roga Deus conceda aos filipenses. Por outro, devemos nos sentir constrangidos a orar pelos nossos irmãos do presente, para que também eles desfrutem daqueles vistosos frutos da graça de Deus em suas vidas.

Que o vosso amor aumente

Se observarmos a passagem com cuidado, logo perceberemos que o apóstolo faz um único pedido a Deus – embora seja um pedido com diversas implicações – e este pedido é: que o amor daqueles crentes aumente mais e mais, em pleno conhecimento e toda a percepção (v. 9). Há muito a aprendermos aqui.

Em primeiro lugar, somos lembrados de que toda a vida cristã consiste sobretudo em amar a Deus. Não é este o maior de todos os mandamentos? Não é exatamente isso o que Deus mais requer de nós? Com efeito, somos convocados a amar ao Senhor de todo o nosso coração, de toda a nossa alma, com todo o nosso entendimento e com toda a nossa força (Mc 12.30).

Ora, isso nos leva a considerar o fato de que a vida cristã envolve um comprometimento de todo o nosso ser com Deus, com a Sua vontade, com os Seus comandos. Não há um recanto de nossas vidas que não deva estar em completa e amorosa submissão ao Senhor, de maneira que nós podemos ser verdadeiramente chamados o Seu povo e a Sua possessão peculiar entre todos os povos. Como cristãos, somos o povo amado do Senhor e o povo que O ama sobre todas as coisas.

Em segundo lugar, somos lembrados de que o nosso amor por Deus nunca deve estagnar. Já vimos como a igreja dos filipenses estava comprometida com Deus e com o evangelho, de modo que Paulo tinha inúmeras razões para render graças pela vida daqueles irmãos. De fato, os crentes de Filipos possuíam uma fé exemplar e uma conduta digna de ser imitada. Isso está fora de questão.

O apóstolo estava certo de que eles amavam verdadeiramente a Deus, mas ele não considerava que aquela medida de amor fosse bastante, de maneira que os filipenses pudessem considerar-se desobrigados de continuar a crescer em sua devoção ao Senhor. Por isso, Paulo roga para que o amor deles “aumente mais e mais” (v. 9). Aliás, adiante ele irá demonstrar uma insatisfação semelhante em relação à sua própria vida: “Não que eu o tenha já recebido ou tenha já obtido a perfeição; mas prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus” (Fp 3.12).

Como filhos de Deus, nós temos conhecido o amor que o Pai tem por nós. Nós sabemos que o Seu amor por nós foi tão grande ao ponto de ter Ele entregado o Seu único Filho para nos salvar, e isso quando nós ainda éramos pecadores, injustos, malignos e rebeldes (Jo 3.16; Rm 5.8-11). Ora, quando contemplamos a natureza imensurável do amor de Deus por nós, logo percebemos quão pertinente é a oração de Paulo. Perto do amor que o Senhor nos dispensou, o nosso amor por Ele é como uma gota de água na vastidão do oceano! Por isso, não importa o quanto já O amamos, precisamos amá-Lo “mais e mais”.

Em terceiro lugar, somos lembrados de que o nosso amor por Deus não está dissociado do nosso conhecimento de Deus. Ouçamos novamente a petição do apóstolo: “que o vosso amor aumente mais e mais em pleno conhecimento e toda a percepção” (v. 9). Ao contrário do que muitos pensam e loucamente afirmam, parece-nos muito claro nas Sagradas Escrituras que o nosso amor por Deus depende, em larga medida, do nosso conhecimento Dele.

Ter a mente cheia de verdades bíblicas sobre quem é Deus e quais são as Suas obras é um passo indispensável para qualquer um que deseja crescer no amor ao Senhor. Em sentido contrário, menosprezar ou desprezar o conhecimento bíblico sobre os atributos e os feitos de Deus é o mesmo que desprezar o próprio Deus!

Portanto, precisamos desesperadamente de um conhecimento cada vez mais profundo de Deus, para que possamos amá-Lo e amá-Lo numa intensidade cada vez maior. E esse tipo de conhecimento só pode ser adquirido de uma maneira: pela meditação perseverante e piedosa na Palavra de Deus.

Evidências de amor

Agora, apesar de a única petição de Paulo pelso filipenses ser para que eles possam amar a Deus mais e mais, é certo que o apóstolo espera que tal crescimento em amor tenha impactos profundos e visíveis sobre a vida daqueles irmãos. Ele nos mostra, assim, que existem evidências as quais sempre acompanham o verdadeiro crescimento de nosso amor por Deus.

Em primeiro lugar, vemos que, à medida que o nosso amor por Deus aumenta, aumenta também a nossa capacidade de aprovar as coisas que são excelentes (v. 10). O significado dessa expressão fica muito claro quando consideramos o resto da Carta aos Filipenses. “Aprovar as coisas excelentes” significa, na ótica de Paulo, ser capacitado a considerar Cristo como o tesouro supremo que Ele é, a percebê-lo e experimentá-lo como mais valioso do que todas as coisas que este mundo valoriza, e ama, e busca. O homem que aprova as coisas excelentes é aquele que, sem hipocrisia, pode dizer que considera todas as coisas como lixo e esterco, quando comparadas com a sublimidade do conhecimento de Cristo (Fp 3.7-11).

Mais do que isso, ser capaz de aprovar as coisas excelentes significa estar apto a perder todas as demais coisas por causa de Cristo sem que isso seja considerado em qualquer sentido um prejuízo ou um dano, sem que tal perda seja motivo de qualquer lamento. Afinal, o mesmo Paulo que fez esta oração foi aquele que alegremente aceitou perder todos os prazeres e regalias deste mundo “para conquistar a Cristo e ser achado Nele”. Uma vez que Paulo sabia valorizar o que é excelente, ele estava plenamente apto a dizer: “Para mim, o viver é Cristo e o morrer é lucro” (Fp 1.21). Isso é aprovar o que é excelente.

Em segundo lugar, vemos que, à medida que o nosso amor por Deus aumenta, aumenta também o nosso desejo de estarmos sinceros e inculpáveis para o Dia de Cristo (v. 10). Amamos a Deus e, por isso, procuramos viver de tal maneira como aqueles que, cedo ou tarde, haverão de se encontrar com o Senhor e desejam estar sempre prontos para serem chamados por Ele. O apóstolo João nos fala sobre isso em termos muito semelhantes: “E a si mesmo se purifica todo o que nele tem esta esperança, assim como ele é puro” (Jo 3.3). Isso não significa que dependemos de nossas obras para recebermos ou mantermos a nossa salvação; ao contrário, significa que temos tal consciência de como fomos amados por Deus, que nos sentimos constrangidos a viver neste mundo de maneira pura e íntegra, a fim de que, quando estivermos na plenitude de Sua santa presença, tenhamos uma oferta agradável a Lhe entregar.

Em terceiro lugar, vemos que, à medida que o nosso amor por Deus aumenta, aumenta também em nós o fruto de justiça (v. 11). Isso está diretamente relacionado ao ponto anterior. Na verdade, a maneira como nós nos tornamos sinceros e inculpáveis para o Dia de Cristo é dando mais e mais fruto de justiça. O crescimento do nosso amor por Deus é evidenciado pelo nosso crescimento na santificação e nas boas obras, as quais evidenciam que de fato fomos justificados por Deus pela fé em Cristo e regenerados para uma nova vida mediante a habitação do Espírito Santo.

De fato, não há amor por Deus ou cristianismo verdadeiro sem frutos de justiça, e não há crescimento em amor sem que isso resulte em crentes “cheios do fruto de justiça”. O próprio Senhor Jesus nos advertiu: “pelos frutos os conhecereis” (Mt 7.16-20), e aqui Paulo está tão somente repetindo o ensino do Senhor, ao orar para que os filipenses fossem sempre como galhos envergados de frutos vistosos e fartos.

Porém, para não nos deixar dúvidas de que “ao SENHOR pertence a salvação” (Jn 2.9), o apóstolo acrescenta que esses frutos de justiça — que devem estar presentes em todos os cristãos e numa medida cada vez maior – não procedem de nós mesmos, mas são “mediante Jesus Cristo” (v. 11). Ora, temos que dar muito fruto para o Senhor Jesus? É certo que sim! Contudo, esse fruto procede de nós mesmos? Mil vezes, não! Somos apenas os galhos que ostentam e exibem esses frutos, mas são a raiz da videira e sua seiva as responsáveis por prover absolutamente tudo o que é necessário para que eles apareçam e amadureçam.

Se todo o nosso fruto na vida cristã não procede de nós mesmos, mas vem mediante Jesus Cristo, não é de espantar que Paulo conclua afirmando que a nossa frutificação redundará na “glória e louvor de Deus” (v. 11). Nós não receberemos glória pelos nossos frutos; somente Deus a terá. Se nossos frutos realmente procedem Dele, é o Seu nome, e não o nosso, que será exaltado. É a Sua fama, e não a nossa, que correrá por toda a terra. Quando nossas boas obras procedem realmente de Jesus Cristo, os homens as veem em nós – afinal, somos os galhos que as ostentam! -, mas é ao Pai que eles glorificam.

Que o Senhor atenda à oração de Paulo também em nosso favor. Que Ele nos dê uma medida cada vez maior de amor, daquele amor alicerçado no verdadeiro conhecimento de Deus, para que possamos valorizar Aquele que é excelente e estar prontos para a Sua vinda, cheios do fruto de justiça que nasce de Cristo e redunda na glória do Pai celestial.

Por: Vinícius Silva Pimentel | PreciosoCristo | Original aqui.
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