Três perspectivas acerca do amor de Deus pelo mundo (III): B.B. Warfield

Vinícius S. Pimentel

Três perspectivas acerca do amor de Deus pelo mundo

Leia a Parte I (Introdução à série e Perspectiva de J.C. Ryle)
e a Parte II (Perspectiva de John Owen)

Apresentando a perspectiva de B.B. Warfield

Para aqueles que não o conhecem, Benjamin B. Warfield foi um dos grandes teólogos americanos oriundos do Seminário de Princeton, de onde também saíram Charles Hodge e seu filho A.A. Hodge. A sua interpretação de João 3.16 encontra-se no artigo intitulado O imensurável amor de Deus, o qual, por sua vez, nasceu de um sermão pregado na capela de Princeton [1].

É importante fazer, antes de tudo, três observações concernentes à exposição feita por Warfield. A primeira delas é que o professor de Princeton demonstra a sua preocupação em ser exegético, antes de ser sistemático. De fato, antes de lidar com esse versículo a partir da controvérsia teológica concernente à pergunta Por quem Cristo morreu?, ele está interessado com as questões: Qual é o assunto essencial da passagem? Qual o seu ensinamento primário? Em que contexto ela está inserida? O que o autor do texto queria realmente comunicar?

Em segundo lugar, é importante perceber que Warfield, embora discordando expressamente de John Owen em certos aspectos interpretativos, concorda com o teólogo de Oxford num ponto fundamental: o “amor” mencionado na passagem é o amor salvífico de Deus, o amor soberano que atrai infalivelmente os pecadores das trevas para a sua maravilhosa luz. Nesse particular, como é óbvio, a sua exegese se afasta do entendimento de J.C. Ryle.

A terceira observação fundamental é que a exposição do amor de Deus pelo mundo feita por Benjamin Warfield finda por seguir um caminho incomum para a maioria de nós, cristãos brasileiros do século XXI. Após apresentar mais puramente a sua exegese da passagem, o teólogo passa a tratar de alguns aspectos sistemáticos e, nesse momento, ele trata do amor de Deus pelo mundo a partir daquela que era, a seu tempo, uma das convicções fundamentais do corpo discente do Seminário de Princeton: o pós-milenismo. Obviamente, nos limites deste artigo, não poderemos nos aprofundar numa discussão escatológica, mas, se queremos entender a sua perspectiva de João 3.16, é inevitável mencionar o fato de que Warfield era um convicto pós-milenista.

Feitas essas observações, cumpre-nos apresentar em linhas gerais a estrutura do artigo de B.B. Warfield:

Na primeira seção do texto, ele lida com a pergunta A palavra “mundo” significa “todos sem exceção”? [2] e argumenta que, ao invés de exaltar o amor de Deus, esse entendimento da passagem na verdade o diminui, seja porque procura traduzir a grandeza do amor de Deus em termos finitos (o número de pessoas que há no mundo), seja porque reduz a ação do amor de Deus a uma mera possibilidade de salvação:

Nós descobrimos, assim, que a interpretação do termo “mundo” em nosso texto como “todo e cada homem no mundo” não apenas começa com o erro óbvio de direcionar a nossa atenção para a grandeza do mundo, ao invés de para a grandeza de Deus, podendo apenas inferir esta última daquela primeira. Essa interpretação termina por efetivamente diminuir o amor de Deus, como se ele pudesse ser satisfeito com meias medidas – aliás, de muitas maneiras, como se ele pudesse ser satisfeito com o que não tem medida alguma. Pois, se ele se satisfizesse meramente em abrir um caminho de salvação e deixar os homens andarem ou não por esse caminho conforme eles queiram, os duros fatos da vida nos forçariam a concluir que esse amor se satisfaria meramente em abrir um caminho de salvação para multidões a quem nunca se daria a conhecer que um caminho de salvação se apresenta diante delas, muito embora a sua única esperança fosse andar por ele.

Na segunda seção do artigo, o professor de Princeton se debruça sobre a indagação A palavra “mundo” significa “os eleitos”? e, novamente, responde de maneira negativa. Na verdade, Warfield reconhece que essa interpretação (precisamente aquela advogada por John Owen) é superior à primeira, porque busca honrar a natureza poderosa, soberana, livre e eficaz do amor de Deus pelos pecadores:

Está muito claro que essa interpretação tem uma vantagem inestimável sobre aquela primeiramente sugerida, uma vez que ela penetra no coração do problema e se recusa a esvaziar o texto do seu propósito manifesto. O texto é dado para intensificar em nossos corações o entendimento do amor de Deus por pecadores: para nos fazer compreender algo da altura, da profundidade, da largura e do comprimento desse amor, embora ele verdadeiramente ultrapasse todo o conhecimento. É impossível, portanto, à medida que nós lemos o texto, erguer limitações a esse amor, como se ele não pudesse efetuar aquilo para o que foi designado.

O autor acredita, porém, que essa segunda perspectiva também se mostra incapaz de mergulhar nas verdadeiras profundezas da passagem. Para ele, essa segunda interpretação faz jus ao significado da palavra “amor”, mas não consegue exaurir o sentido da palavra “mundo” pretendido pelo escritor bíblico inspirado:

No seu esforço para fazer justiça à concepção do amor de Deus, não fazem eles [os defensores dessa segunda perspectiva] algo menos do que justiça à concepção encartada na expressão “o mundo? […]  Essa interpretação, indubitavelmente, reproduz o significado fundamental do texto. Mas será que ela satisfaz completamente todas as suas sugestões? Será que não há no texto uma sequência de pensamento mais sutil do que a por ela explicada? Será que não há nela uma verdade mais profunda e mais gloriosa até mesmo do que o alcance global do amor de Deus, manifestado na Grande Comissão […]?

Na terceira seção, Warfield passa a apresentar de maneira positiva o seu entendimento do texto, que nós consideraremos mais detidamente em seguida. Pode-se adiantar, porém, que para o autor o real significado da palavra “mundo” só pode ser alcançado se nós percebermos que o apóstolo João utiliza esse vocábulo, em seus escritos, com uma conotação qualitativa, e não quantitativa:

Se o amor aqui celebrado é compartilhado com todo e qualquer homem que compõe o mundo, ou se ele se encerra apenas com os eleitos, escolhidos para fora do mundo, todo esse debate encontra-se fora do escopo da passagem e não fornece qualquer auxílio à sua interpretação. A passagem não pretendia ensinar, e certamente não ensina, que Deus ama todos os homens indistintamente e visita cada um deles com as mesmas manifestações do seu amor. Tampouco ela pretendia ensinar, nem ensina, que o seu amor está confinado a uns poucos indivíduos especialmente escolhidos para fora do mundo. O que se pretende, aqui, é despertar em nossos corações um senso de admiração diante da maravilha e do mistério do amor de Deus pelo mundo pecador – aqui concebido não quantitativamente, mas qualitativamente, em sua mais distintiva característica enquanto mundo pecador.

Na última seção, B.B. Warfield finalmente lida com as implicações teológicas dessa passagem. Como já se aduziu, ele sustenta que o amor aqui mencionado é o amor salvífico – um amor que efetivamente salva, e não uma espécie de amor que apenas anela pela salvação dos homens. Porém, ele assevera com igual veemência que o “mundo” a quem Deus amou não é uma minoria espalhada entre as nações, e é aqui que o pós-milenismo de Warfield se revela com clareza:

Os eleitos – eles não são os resíduos do grande incêndio, as cinzas, por assim dizer, do mundo em chamas, tristemente ajuntadas pelo Criador após o fim da catástrofe, de modo que ele possa com eles fazer um novo e talvez melhor começo e, possivelmente, edificar a partir deles um novo edifício, para substituir aquele que foi perdido. Muito mais do que isso, eles mesmos são “o mundo” – não o mundo como ele é em seu pecado, jazendo no maligno, mas o mundo em sua promessa e potencial de uma vida renovada.

No decurso de todos os anos, um propósito crescente se desenrola, um propósito crescente: os reinos da terra se tornam cada vez mais os reinos do nosso Deus e de seu Cristo. O processo pode ser lento; o progresso pode parecer atrasar-se, aos nossos olhos impacientes. Mas é Deus quem está edificando! E, sob as suas mãos, o edifício é erguido tão firmemente quanto o é lentamente, e no tempo devido a última pedra será posta em seu lugar, e aos nossos olhos abismados se revelará nada menos do que um mundo salvo!

(No próximo post, analisaremos mais detidamente os aspectos exegéticos da perspectiva de B.B. Warfield.)

Notas:

[1] WARFIELD, Benjamin Breckinridge. God’s Immeasurable Love. Disponível em: <http://www.gcc-opc.org/docs/godslove.htm>. Acesso em: 03 abr. 2012. Tradução livre de Vinícius S. Pimentel. (O artigo encontra-se disponível na internet, em inglês. Após o término desta série, ele será traduzido e publicado na íntegra aqui no PreciosoCristo.)

[2] Na verdade, Warfield está aqui lidando diretamente com a doutrina da expiação ilimitada, defendida pelos arminianos e pelos chamados “calvinistas de quatro pontos”. Ambas as perspectivas não se confundem com a “expiação limitada-ilimitada” de J.C. Ryle e outros calvinistas de cinco pontos. Todavia, alguns de seus argumentos acabam sendo também uma crítica à maneira como Ryle interpreta João 3.16, uma vez que o teólogo de Princeton defende firmemente que o “amor” de Deus mencionado na passagem é o amor salvífico, assim como não aceita a ideia de que o “mundo” possa ser entendido como que se referindo a “todos os homens, sem exceção”.

Por: Vinícius Silva Pimentel | PreciosoCristo | Original aqui.
Permissões: Você está autorizado e incentivado a reproduzir e distribuir este material em qualquer formato, desde que inclua estes créditos, não altere o conteúdo original e não o utilize para fins comerciais.

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