Três perspectivas acerca do amor de Deus pelo mundo (II): John Owen

Vinícius S. Pimentel

Três perspectivas acerca do amor de Deus pelo mundo

Leia a Introdução à série e a Perspectiva de J.C. Ryle

Apresentando a perspectiva de John Owen

Em seu livro Por quem Cristo morreu?, o teólogo puritano John Owen (1616-1683) expõe e defende de maneira bastante vigorosa a doutrina da expiação limitada. Na última parte do livro, ele responde as objeções mais comuns feitas ao ensino da redenção particular, e é nessa porção de sua obra que ele nos oferece a sua interpretação de João 3.16. Ei-la:

Além disso, as Escrituras não afirmam, em lugar algum, que Deus é naturalmente inclinado ao bem de todos. Ao contrário, é evidente que Deus é completamente capaz de ter misericórdia daqueles pelos quais Ele terá misericórdia. Seu amor é um ato livre de Sua vontade, não uma emoção produzida n’Ele por nosso estado miserável. (Se fosse a miséria que tivesse atraído o anseio natural de Deus para ajudar, então, Ele deveria ser misericordioso para com os demônios e os condenados!) […]

É claro que Deus quer o bem de todos a quem Ele ama.

Então, segue-se que Ele ama somente aqueles que recebem esse bem. O mesmo amor que O levou a dar Seu Filho, Jesus Cristo, faz com que Ele dê também todas as outras coisas necessárias. “Aquele que nem mesmo a seu próprio filho poupou, antes o entregou por todos nós, como nos não dará também com ele todas as coisas?” (Romanos 8:32). Assim, este amor especial de Deus pode, portanto, ser somente por aqueles que realmente tenham recebido graça e glória.

Ora, leitor cristão, você precisa julgar: pode o amor de Deus, que deu o Seu Filho, ser entendido como um sentimento de boa vontade para com todos em geral? Não será, ao invés disso, o Seu amor especial para com os crentes eleitos?

2. Precisamos examinar o que é o objeto desse amor de Deus, aqui chamado de “o mundo”. Alguns dizem: isto deve significar todos e cada um dos homens. Eu jamais consegui ver como isso poderia significar tal coisa. Já demonstramos os diferentes sentidos com que a palavra “mundo” é usada nas Escrituras. E, em João 3: 16, o amor mencionado no princípio e o propósito no final, não podem concordar com o significado de “todos e cada um dos homens” que é imposto, por alguns, sobre “o mundo”, o qual ocorre no meio do versículo.

De nossa parte, entendemos que essa palavra significa os eleitos de Deus espalhados pelo mundo entre todas as nações. Os benefícios especiais de Deus já não são para os judeus somente. O sentido é: “Deus amou os Seus eleitos em todo o mundo de tal maneira, que deu o Seu Filho com esse propósito, para que os crente pudessem ser salvos por Ele.” Há várias razões que corroboram esse ponto de vista. […]

Há várias razões porque os crentes são chamados de “o mundo”. É para distingui-los dos anjos; e para rejeitar judeus jactanciosos que pensavam ser apenas eles o povo de Deus; para ensinar a distinção entre a velha aliança feita com uma só nação, e a nova – na qual todas as nações do mundo se tornariam obedientes a Cristo; e para mostrar a condição natural dos crentes como criaturas terrestres e deste mundo. […]

Ora, que o leitor pese todas estas coisas, e especialmente a primeira – o amor de Deus – e pergunte seriamente se pode ser considerado uma afeição por todos em geral aquilo que pode tolerar a perdição de muitos daqueles a quem Ele tanto amou? Ou será que este amor não é melhor entendido como sendo aquele único, especial amor do Pai por Seus filhos crentes, que torna seguro o futuro deles? Então, você terá uma resposta se a Bíblia ensina, ou não, que Cristo morreu como um resgate geral – infrutífero com relação a muitos pelos quais o resgate foi pago ou como uma redenção especial e gloriosamente eficaz para cada crente. E lembre-se de que este texto João 3: 16 é freqüentemente usado para sustentar a ideia de que Cristo morreu por todos os homens – embora, como já tenho mostrado, seja completamente incompatível com tal noção! [1, negrito acrescido]

Entendendo a perspectiva de John Owen

Como se pode facilmente perceber, ao contrário de J.C. Ryle – que parte da definição de “mundo” para chegar à definição de “amor” -, Owen inicia indagando qual é o real sentido do “amor” de Deus afirmado na passagem.

O teólogo puritano defende, ao contrário do bispo de Liverpool, que o amor referido no texto em comento só pode ser o amor salvífico de Deus, não uma espécie de “bondade geral” que Ele supostamente possui por todos os seres humanos, indistintamente. Ele pergunta, retoricamente: “pode o amor de Deus, que deu o Seu Filho, ser entendido como um sentimento de boa vontade para com todos em geral? Não será, ao invés disso, o Seu amor especial para com os crentes eleitos?”

De fato, John Owen abertamente nega toda noção de que Deus possua algum tipo de afeição pelos não eleitos. No início de sua exposição do texto, ele assevera: “as Escrituras não afirmam, em lugar algum, que Deus é naturalmente inclinado ao bem de todos”. E, posteriormente: “Então, segue-se que Ele ama somente aqueles que recebem esse bem [a salvação]”.

Tendo estabelecido o seu argumento de que a passagem refere-se ao amor salvífico de Deus, Owen passa a defender que a palavra “mundo” deve ser entendida como equivalente à expressão “todo o que nele crê”, encontrada no final do versículo. Para o teólogo de Oxford, portanto, “o mundo” refere-se a “os eleitos de Deus espalhados pelo mundo entre todas as nações”.

John Owen lança mão de diversos argumentos para confirmar a sua interpretação do vocábulo “mundo”. Contudo, o ponto fulcral de sua exegese é a ideia de que o apóstolo João, enquanto um judeu, escrevera a respeito do amor de Deus pelo mundo para enfatizar a grande notícia de que as bênçãos salvíficas do Senhor já não são dirigidas especialmente ao povo hebreu, mas estendem-se agora em benefício de todos aqueles que Deus já havia eleito, antes da fundação do mundo, dentre todas as tribos, línguas, povos e nações. Para o autor, assim, a expressão “o mundo” é usada para provocar contraste com a ideia de “o povo judeu”.

Notas:

[1] As citações foram retiradas da seguinte versão da obra, disponibilizada na internet:

OWEN, John. Por quem Cristo morreu?: a morte da morte na morte de Cristo, p. 41-44. Disponível em: <http://www.baptistlink.com/creationists/porquemowen.pdf>. Acesso em: 03 abr. 2012.

Por: Vinícius Silva Pimentel | PreciosoCristo | Original aqui.
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4 respostas em “Três perspectivas acerca do amor de Deus pelo mundo (II): John Owen

  1. a minha duvida ainda é sobre o texto: Porque para isto trabalhamos e lutamos, pois esperamos no Deus vivo, que é o Salvador de todos os homens, principalmente dos fiéis. Então se Deus não possue nenhuma inclinação para os não eleitos fica dificil explicar esse versiculo, o outro que me causa muita duvida é, Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida. Romanos 5: 18. O irmão Airton me deu uma explicação mais gostaria que me dessem mais uma explicação, fico grato, e abraços fraternos a todos gostei dessa saudação Vinicius.

    • Wagner,

      Nesta série, estamos nos limitando a discutir o significado de João 3.16. Mas, obviamente, a maneira como interpretamos as palavras “amor” e “mundo” depende em parte da nossa compreensão de outros textos bíblicos – entre eles, aqueles que você mencionou.

      Eu não tenho como fornecer uma completa explicação aqui, mas vou tentar dar alguns direcionamentos:

      1) Em relação a 1Tm 4.10, a primeira coisa que precisa ser dita é que a palavra “fiéis” seria melhor traduzida simplesmente como “crentes”, de modo o nosso texto restaria traduzido da seguinte forma: “[…] temos posto a nossa esperança no Deus vivo, Salvador de todos os homens, especialmente daqueles que creem”.

      Agora, no tocante à sua dúvida, eu fico basicamente com a explicação de Calvino. Em seu comentário de 1Timóteo, o reformador nos faz observar que, nessa passagem, Paulo está oferecendo a Timóteo e aos crentes em geral razões para que perseverem e não desanimem na fé, apesar de todas as labutas, esforços e dificuldades que há na vida cristã. “Pessoas piedosas devem labutar e esperar reprovação; elas devem fazer o bem e, ainda assim, esperar ao mesmo tempo sofrer aflições: fadigas e dificuldades devem ser esperadas por nós neste mundo, não apenas como homens, mas como santos.” É nesse contexto de encorajamento que Paulo lembra a todos os crentes de que nós “temos posto a nossa esperança no Deus vivo, Salvador de todos os homens, especialmente dos fiéis”.

      Sendo assim, Calvino defende que a palavra “Salvador”, nessa passagem, não deve ser entendida como numa alusão à salvação eterna, mas ao cuidado geral que Deus dispensa a toda a humanidade. Seria uma afirmação semelhante àquela que o mesmo Paulo fez no Areópago de Atenas, ao asseverar que Deus “é quem a todos dá vida, respiração e tudo o mais” (At 17.25).

      Nas palavras do próprio Calvino (em livre tradução): “A palavra Salvador não é tomada em seu significado próprio e estrito, concernente à salvação eterna que Deus promete aos seus eleitos, mas é tomada no sentido daquele que livra e protege. Desse modo, nós vemos que até mesmo os incrédulos são protegidos por Deus, como é dito que “ele faz o seu sol nascer sobre maus e bons” (Mateus 5.46); e nós vemos que todos são nutridos pela sua bondade, que todos são livrados de muitos perigos. Nesse sentido, ele é chamado “o Salvador de todos os homens”, não no que concerne à salvação espiritual de suas almas, mas porque ele sustenta todas as suas criaturas. Nesse toar, portanto, nosso Senhor é o Salvador de todos os homens, isto é, sua bondade se estende aos mais ímpios, que estão separados dele e que não merecem ter qualquer tipo de relação com ele, que deveriam ser excluídos do número das criaturas de Deus e destruídos; e ainda assim nós vemos como Deus se agrada de estender a eles sua graça; pois a vida que ele lhes concede é um testemunho de sua bondade. Portanto, uma vez que Deus demonstra tal favor para com aqueles que são estranhos a ele, quanto mais fará ele por nós que somos membros de sua casa? Não que nós sejamos melhores ou mais excelentes do que aqueles que ele rejeita, mas tudo procede da sua misericórdia e livre graça, do fato de que ele se reconciliou conosco através de nosso Senhor Jesus Cristo, uma vez que ele nos chamou ao conhecimento do evangelho, e então nos confirma e sela a sua generosidade para conosco, de modo que nós devemos estar convencidos que ele nos reconhece como seus filhos. Portanto, uma vez que nós vemos a maneira como ele nutre aqueles que lhe são estranhos, vamos e escondamo-nos debaixo de suas asas; pois, havendo nos tomado sob os seus cuidados, ele declarou que revelará a si mesmo como um Pai para nós.”

      Espero que isso o ajude a compreender melhor a questão!

      Vou responder a dúvida sobre Romanos 5 em outro comentário.

      Um abraço fraterno,
      Vinícius

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