Meditações no Salmo 1 (I): O justo e os ímpios

Vinícius S. Pimentel

Meditações no Salmo 1

Bem-aventurado o homem que não anda no conselho dos ímpios, não se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores. Antes, o seu prazer está na lei do SENHOR, e na sua lei medita de dia e de noite.

Ele é como árvore plantada junto a corrente de águas, que, no devido tempo, dá o seu fruto, e cuja folhagem não murcha; e tudo quanto ele faz será bem sucedido. Os ímpios não são assim; são, porém, como a palha que o vento dispersa.

Por isso, os perversos não prevalecerão no juízo, nem os pecadores, na congregação dos justos. Pois o SENHOR conhece o caminho dos justos, mas o caminho dos ímpios perecerá. (Salmo 1)

J.C. Ryle escreveu certa vez que, assim como entre as estrelas há diferença de esplendor, algumas passagens das Escrituras brilham mais do que outras, revelando-nos com mais clareza e intensidade a glória do Deus a quem adoramos.

Se o bispo de Liverpool estiver certo (como eu penso que está), o Salmo 1 certamente é um dos capítulos mais importantes de toda a Bíblia. Além de servir como uma introdução ao Saltério, este salmo se apresenta para nós como uma belíssima síntese de como deve ser a vida do homem que vive por Deus e para Deus.

No Salmo 1, o salmista contempla a diferença radical entre a vida do justo e a vida do ímpio. Ele nos chama a observar que a vida do justo é caracterizada por um evidente amor aos mandamentos de Deus (a Lei) e, ao mesmo tempo, nos anuncia que a verdadeira felicidade na vida (bem-aventurança) está apenas com o homem justo, e não com o ímpio.

Se atentarmos à voz de Deus na boca do salmista, encontraremos um caminho seguro para vivermos de uma maneira que o Senhor seja completamente glorificado e nós, completamente felizes.

Os justos e os ímpios

Meditemos, em primeiro lugar, na própria existência desta grande dicotomia entre o justo e o ímpio. Ao longo da história, a humanidade tem dividido a si mesma em clãs, tribos, raças e nações; os homens têm separado a si mesmos em gregos e judeus, romanos e bárbaros, escravos e livres, negros e brancos, instruídos e ignorantes. Mas todas essas distinções são absolutamente irrelevantes aos olhos perscrutadores de Deus. Para o Senhor – que não vê a aparência, mas o coração – a humanidade inteira divide-se em apenas dois grupos: aqueles que O adoram e aqueles que O desprezam.

No texto que estamos considerando, o salmista nos fala sobre a grande diferença entre “os justos” e “os ímpios”. Em outras passagens, porém, essa dicotomia é apresentada com outras expressões: “o descendente da mulher” e “a descendência da serpente” (Gênesis 3.15); “o que serve a Deus” e “o que não serve” (Malaquias 3.18); “o trigo” e “a palha” (Mateus 3.12); “os filhos do reino” e “os filhos do maligno” (Mateus 13.24-30, 36-43); “os vasos de misericórdia” e “os vasos de ira” (Romanos 9.22-24). Não importando qual seja a linguagem utilizada, o fato é que por toda a Escritura vemos essa grande distinção entre aqueles que andam com Deus e aqueles que andam contra Deus.

A existência dessa dicotomia entre o justo e o ímpio deveria provocar em nossas mentes os mais solenes pensamentos e em nossos corações, o mais severo temor. Afinal, de que lado nós estamos? Somos justos ou somos ímpios? Estamos debaixo da bênção de Deus, da Sua maravilhosa bem-aventurança, ou somos Seus opositores?

 Ou justos ou ímpios

Agora, as Escrituras nos ensinam que essa dicotomia entre o justo e o ímpio não é apenas real; ela é absoluta, no sentido de que todos os indivíduos da humanidade são vistos por Deus em uma dessas duas categorias mutuamente exclusivas.

Os homens – principalmente em nossa geração relativista – tendem a ver essa questão de outra maneira. É comum se dizer que todos os homens são, em alguma medida, justos e injustos, bons e maus. Todavia, essa maneira de ver a natureza humana é demoníaca e não procede do Senhor. Aos olhos de Deus, todos os homens são vistos ou como justos ou como injustos, nunca como uma mistura de ambas as coisas. E isso acontece porque o Senhor não vê simplesmente as obras dos homens, mas a fonte da qual procedem essas obras: o coração.

O justo assim é visto por Deus não meramente por praticar a justiça, mas por ter um coração justo que o impulsiona a agir de forma correta. O injusto, por outro lado, não o é apenas por fazer coisas más, mas por ter um coração que é, em si mesmo, mau e corrupto.

A questão crucial, portanto, é conhecermos o estado do nosso próprio coração. Temos um coração que ama a Deus e deseja obedecê-Lo, servi-Lo, agradá-Lo? Ou somos maus em nosso íntimo, odiadores de Deus e transgressores contumazes da Sua lei, ainda que façamos algumas boas obras para disfarçar a impenitência do nosso coração? Enfim, somos justos ou somos ímpios?

Nem um sequer

Se considerarmos essas questões com alguma sinceridade, se recebermos a luz do Senhor para contemplarmos a nós mesmos, assim como as pessoas ao nosso redor, chegaremos a uma inevitável conclusão: todos os homens deste mundo são, em si mesmos, injustos. Não há entre os filhos de Adão – desde Caim e Abel até a última criança que nascer – alguém que seja verdadeiramente bom por sua própria natureza. Desde a queda do homem no pecado, não existe tal coisa como uma “bondade inerente” ao caráter humano.

Esse triste fato acerca da humanidade nos é ensinado já no livro de Gênesis, mas é na carta aos Romanos que ele se nos apresenta com a máxima clareza:

Viu o SENHOR que a maldade do homem se havia multiplicado na terra e que era continuamente mau todo desígnio do seu coração… (Gênesis 6.5)

Que se conclui? Temos nós qualquer vantagem? Não, de forma nenhuma; pois já temos demonstrado que todos, tanto judeus como gregos, estão debaixo do pecado; como está escrito: Não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus; todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer. A garganta deles é sepulcro aberto; com a língua, urdem engano, veneno de víbora está nos seus lábios, a boca, eles a têm cheia de maldição e de amargura; são os seus pés velozes para derramar sangue, nos seus caminhos, há destruição e miséria; desconheceram o caminho da paz. Não há temor de Deus diante de seus olhos. (Romanos 3.9-18)

Se olharmos para nós mesmos à luz dessas passagens da Escritura (e de tantas outras), não poderemos deixar de reconhecer que a Palavra de Deus é verdadeira. Somos maus e injustos, e isso não apenas porque fazemos o que é mau, mas porque o nosso coração é corrupto e perverso desde a nossa concepção.

Todavia, se as coisas realmente são assim, quem poderá ser objeto da bem-aventurança proferida por Deus no Salmo 1? Se não há um justo sequer entre os filhos de Adão, quem é esse homem a quem o Senhor chama “feliz” ou “bem-aventurado” no texto que estamos considerando?

O justo e o justificador

Em toda a história da criação de Deus, houve apenas um Homem que viveu como um justo, do início ao fim. Ele não era propriamente um “filho de Adão”, porque não trazia consigo as deformidades e corrupções decorrentes do pecado original, com as quais todos nós nascemos. No entanto, como verdadeiro Homem, Ele partilhou dos sofrimentos e tentações a que todos nós estamos sujeitos e, ainda assim, permaneceu perfeitamente justo em todo o tempo. Ao Seu respeito, a Escritura diz que Ele “não cometeu pecado, nem dolo algum se achou em sua boca” (1Pedro 2.22). Esse Homem é Jesus, o Cristo.

Mas Jesus é, para nós, muito mais do que o Justo. Ao aceitar sofrer a justa ira de Deus contra os pecadores em lugar dos pecadores, Ele pôde nos livrar da maldição resultante da nossa própria impiedade e nos tornar participantes da Sua própria justiça. “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar” (Gálatas 3.13). “Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus” (2Coríntios 5.21).

Dessa maneira, hoje, todos os homens que põem sua fé em Jesus são também considerados justos – não por praticarem obras de justiça, mas porque o próprio Cristo se tornou a justiça deles. “Pois todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus” (Romanos 3.23-24). “Mas vós sois dele, em Cristo Jesus, o qual se nos tornou, da parte de Deus, sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção” (1Coríntios 1.30).

Uma vez que Cristo adquiriu, por Seus próprios méritos, uma justiça que excede infinitamente o pecado cometido por Adão, Ele pôde tornar-se o Cabeça de uma nova humanidade, o Primogênito da criação redimida de Deus, a fim de reunir em Si mesmo um povo que, ao cabo, estará completamente livre de todas as terríveis consequências do pecado – até mesmo da morte. Jesus Cristo é o Justo e é também o Justificador de todos os ímpios que, pela fé, buscam nEle refúgio e perdão de pecados.

Justos, porque justificados

Quem são, portanto, os justos em favor de quem o Senhor profere aquela maravilhosa bem-aventurança no Salmo 1? Quem são aqueles homens felizes, abençoados, cuja vida e plenitude nunca será abalada, nem mesmo pelas maiores adversidades e oposições? Ora, esses justos são, sem sombra de dúvida, aqueles ímpios que vêm a Cristo, arrependem-se de seus pecados e, pela fé nEle, são justificados, são perdoados, têm as suas vestes lavadas no sangue do Cordeiro e são regenerados para uma nova vida em Cristo, pelo poder do Espírito Santo. Eles não têm justiça própria, mas recebem a bem-aventurança como uma dádiva de Deus, o qual, em Sua infinita graça e misericórdia, os aceitou como filhos em Sua família e súditos em Seu reino, por causa de Jesus Cristo.

Por outro lado, quem são os ímpios contra quem o Senhor promete vir derramar a Sua santa ira no Dia do Juízo, como nos é dito no Salmo 1? Certamente, são todos aqueles que permanecem em seus pecados, recusam-se a se arrepender e rejeitam a graciosa oferta que Cristo lhes faz, no Evangelho.

Como observamos, o mundo inteiro é visto por Deus a partir dessa dicotomia entre o justo e o ímpio; e o grande problema é que todos nós nascemos como ímpios e não podemos, em nós mesmos, mudar tal condição. Nossa única e bendita esperança está em Cristo, em recebermos o Salvador como justiça e, assim, sermos considerados justos diante de Deus.

A maior questão de nossas vidas, portanto, é esta: Já somos justos? Já fomos justificados pela fé em Cristo? Já fomos reconciliados com Deus mediante a morte do Seu Filho, ou ainda permanecemos como ímpios, como opositores do Senhor? Que possamos meditar seriamente nessas coisas, para que possamos prevalecer no Dia do Juízo, pela graça de Deus.

Por: Vinícius Silva Pimentel | PreciosoCristo | Original aqui.
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