Conselhos para os jovens reformados: Não menosprezem a igreja local

Vinícius S. Pimentel

(Vejam o índice na Introdução.)

Semana da Reforma Protestante 2011

6º conselho: Não menosprezem a importância da igreja local

Um dos assuntos menos abordados nos debates entre os jovens reformados é a importância da comunhão cristã na igreja local. Segundo percebo, alguns desses jovens crentes demonstram desconfiança e até mesmo um menosprezo pela vida comunitária da congregação. As razões para isso são muitas e muito profundas, e não é meu desejo discuti-las aqui. Meu objetivo a esta altura é apenas oferecer um forte encorajamento a que os jovens reformados permaneçam ativamente engajados na vida de uma igreja local.

Embora seja muito mais conhecido pela sua ênfase na relação individual do crente com Deus, seria um completo erro ignorar a importância que o calvinismo dá à comunhão dos cristãos na igreja. E, aqui, não estamos falando abstratamente da “igreja invisível”, que é a reunião de todos os eleitos, mas da igreja local como corpo visível de cristãos professos (1). João Calvino entendia que a fé cristã não pode se desenvolver apenas na comunhão individual do crente com Deus; a santificação e o crescimento na graça dependem também da comunhão dos crentes uns com os outros, na igreja local.

Franklin Ferreira e Alan Myatt observam o lugar destacado que a congregação tinha na teologia de Calvino:

[Para Calvino,] O local da santificação é a congregação, a igreja visível, na qual os eleito participam dos benefícios de Cristo “não como indivíduos isolados, mas como membros de um corpo”. Assim, a igreja visível torna-se uma “comunidade santa”. […] Em sua discussão sobre a igreja visível, Calvino chamou a igreja de mater et schola de todos os cristãos, porque ela os leva ao novo nascimento por intermédio da Palavra, bem como os educa e alimenta durante toda a sua vida. (2)

Em seu comentário da carta aos Efésios, Calvino parece apontar duas razões pelas quais a igreja local é tão importante para a vida cristã. Em primeiro lugar, a congregação é o ambiente onde o ministério da Palavra é exercido, isto é, onde Deus edifica o Seu povo por meio da pregação. O reformador de Genebra repreende severamente aqueles que não reconheciam o devido valor da igreja local, chamando-os de “soberbos que acreditam que lhes é suficiente a leitura privativa das Escrituras, não tendo qualquer necessidade do ministério da Igreja”. Ele então acrescenta:

[…] em consonância com o mandamento de Cristo, não somos devidamente unidos ou aperfeiçoados senão pela proclamação externa. Devemos deixar-nos ser governados e doutrinados pelos homens. Eis a regra universal, a qual abrange tanto os mais eminentes quanto os mais humildes. A Igreja é a mãe comum de todos os piedosos, a qual suporta, nutre e governa, no Senhor, tanto a reis como a seus súditos; e tal coisa é feita pelo ministério. Os que negligenciam, ou fazem pouco, desta ordem pretendem ser mais sábios do que Cristo. Ai da soberba de tais homens! (3)

Em segundo lugar, João Calvino enfatiza a importância da igreja local por considerar que é na comunhão de uns com os outros que os crentes realmente avançam para a maturidade e para a perfeição. A igreja existe porque Deus distribuiu os Seus dons aos Seus filhos de maneira que eles se tornassem dependentes uns dos outros. Calvino defende a nossa necessidade de comunhão com outros crentes com fortes e belas palavras:

Nenhum membro do corpo de Cristo é dotado de perfeição tal que seja capaz, sem a assistência de outros, de suprir suas necessidades pessoais. […] Deus não concede todas as coisas a ninguém isoladamente, senão que cada um recebe uma certa medida, para que dependamos uns dos outros; e, ao reunir o que lhes é dado individualmente, assim eles têm como socorrer uns aos outros. (4)

Além disso, para o reformador, as dificuldades, desavenças e ofensas que surgem entre os cristãos não são um motivo para que eles se afastem da comunhão; antes, são uma ocasião para que exercitem paciência, a fim de conservarem a unidade do Espírito. Calvino alerta com severidade aqueles que abandonam a comunhão da igreja local, chamando-os de pessoas “estranhas ao reino de Deus”:

Quanto aborreceríamos todo gênero de animosidade se refletíssemos devidamente que todos quantos se separam de seus irmãos, esses mesmos se tornam estranhos ao reino de Deus! E, todavia, mui estranhamente, enquanto esquecemos os nossos deveres de mutualidade para com os nossos irmãos, seguimos nos vangloriando de que somos filhos de Deus. (5)

Em suma, na ótica de Calvino, todo crente precisa estar unido a uma igreja local (a) para ser edificado por meio da pregação, (b) para suprir os demais irmãos com os seus dons, (c) para ser suprido pelos outros irmãos com os dons que eles receberam do Pai e (d) para aprender as virtudes da paciência, da fraternidade e do amor.

À luz das Escrituras, a perspectiva do reformador de Genebra quanto a este assunto é irretocável, e os jovens reformados fariam muito bem em ouvir e acolher as suas admoestações. Por esse motivo, eu gostaria de encorajá-los a não menosprezarem a importância da igreja local, desdobrando a exortação de Calvino nos seguintes pontos:

  • Jovens reformados, permaneçam unidos a uma congregação. Participem regularmente das reuniões de adoração, desenvolvam relacionamentos genuínos com outros membros, engajem-se no dia-a-dia da igreja local. “Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes, façamos admoestações e tanto mais quanto vedes que o Dia se aproxima” (Hebreus 10.25).
  • Jovens reformados, congreguem numa igreja onde haja genuína pregação. Esse conselho é uma faca de dois gumes. Por um lado, eu realmente os encorajo a serem criteriosos quanto a isso. “Igrejas” onde a pregação é virtualmente inexistente não merecem ser chamadas de igrejas, e você não deveria estar lá. Por outro lado, se você estiver procurando uma congregação onde a mensagem seja exatamente como você sonha, eu diria que há 100% de chances de você morrer procurando (a não ser que você funde a própria igreja…). E, nesse caso, daria toda a razão a Calvino em chamar-lhe de soberbo e autossuficiente. Segundo entendo, o equilíbrio nesse ponto é unir-se a uma igreja onde a pregação seja evidentemente guiada pelas Escrituras, onde o pregador se mostre verdadeiramente submisso à Palavra revelada de Deus – ainda que haja certos pontos de discordância doutrinária – e onde o ensino seja realmente edificante e transformador.
  • Jovens reformados, sejam servos em suas igrejas. Como John Piper gosta de dizer, não sejam “tomadores de vida”, e sim “doadores de vida”. Sirvam os demais irmãos com sinceridade, humildade, mansidão, paciência e amor genuíno. Interessem-se de verdade pela condição espiritual dos irmãos. Não desperdicem o seu tempo criticando os membros de sua igreja por serem preguiçosos no estudo da Bíblia, por serem pouco fervorosos, ou por não serem calvinistas convictos como vocês. Ao invés disso, sejam um modelo; tornem-se um exemplo para eles, “na palavra, no procedimento, no amor, na fé, na pureza” (1Timóteo 4.12). Se preciso for, deem suas vidas em troca do benefício eterno de seus irmãos.
  • Jovens reformados, aprendam a reconhecer e desfrutar dos dons que Deus concedeu a outros irmãos. Vocês achavam que tinham todos os dons? Pelo menos, os mais importantes? Bem, eu os aconselho a ler 1Coríntios 12 e Romanos 12 e Efésios 4, e então vocês perceberão o quanto são necessitados dos dons que Deus concedeu a outros – e não a vocês. Aprendam a ouvir com o coração aberto a pregação daquele pastor que não faz ideia de quem seja François Turretini ou Geerhardus Vos, mas que ama as Escrituras e as ovelhas de Deus. Aprendam a receber conselhos daquele irmão humilde que comete erros graves de português, mas que se interessa genuinamente pelo seu crescimento em graça. Aprendam a ser repreendidos por aquele senhor de idade que não tem o carisma do Mark Driscoll ou a voz suave do C.J. Mahaney, mas que realmente se importa com a sua pureza e santificação. Enfim, aprendam a serem servidos por outros irmãos, com os dons que o Senhor lhes concedeu.
  • Jovens reformados, aprendam a exercitar a paciência e o perdão. Quem lhe disse que a vida de comunhão da igreja não tem dificuldades, ofensas, desentendimentos? Certamente não fui eu, nem Calvino, muito menos a Palavra de Deus. Aprendam a sofrer no meio da congregação, dando glória a Deus por isso! Aprendam a sofrer o dano, em favor dos irmãos. Parem de resmungar pelos problemas que surgem e comecem a amadurecer na fé, exercitando a mansidão, a paciência, o perdão, a compaixão, a fraternidade e o amor. Aprendam a cantar com o salmista: “Foi-me bom ter eu passado pela aflição, para que aprendesse os teus decretos” (Salmo 119.71).

Este é o meu último (e longo) conselho a vocês: não menosprezem a importância da igreja local.

Notas:
(1) Desde Lutero, os protestantes fazem distinção entre a igreja invisível, formada pela reunião de todos os eleitos, e a igreja visível, entendida como um corpus permixtum, por conter ao mesmo tempo pecadores e santos, joio e trigo. Calvino defendia que é possível reconhecer uma igreja local como verdadeira a partir de suas marcas distintivas, que eram a pregação da Palavra e a fiel administração dos sacramentos. Posteriormente, os puritanos acrescentaram uma terceira marca distintiva, qual seja, a correta aplicação da disciplina aos seus membros.
(2) FERREIRA, Franklin; MYATT, Alan. Teologia sistemática: uma análise histórica, bíblica e apologética para o contexto atual. São Paulo: Vida Nova, 2007, p. 926.
(3) CALVINO, João. Efésios. Série Comentários Bíblicos. Trad. Valter Graciano Martins. São José dos Campos/SP: Fiel, 2007, p. 99.
(4) Idem, p. 89-90.
(5) Idem, p. 87

Por: Vinícius Silva Pimentel | PreciosoCristo | Original aqui.
Permissões: Você está autorizado e incentivado a reproduzir e distribuir este material em qualquer formato, desde que inclua estes créditos, não altere o conteúdo original e não o utilize para fins comerciais.

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2 respostas em “Conselhos para os jovens reformados: Não menosprezem a igreja local

  1. Graça e Paz, Vinícius,

    Uma excelente reflexão e um belissímo encorajamento.
    Confesso que com as recentes descobertas sobre as doutrinas da graça encontrei-me perdido em mina congregação. Sou de uma igreja pentecostal, mas sem embasamento para muitas de suas práticas e ao questionar o porquê acabei sendo classificado como “carnal e frio”, o que me levou a duvidar da real necessidade de me encontrar em uma igreja local exercendo o dom que Deus delegou a mim.
    Creio que, com essa oportuna argumentação, comecei a rever este conceito e trabalhar para fazer do local onde estou uma oportunidade de servir ao reino de Deus.
    Obrigado.

    • cranudo,

      Acredito que o “dilema” pelo qual você está passando é o mesmo de tantos outros jovens que têm sido despertados à fé reformada. Eu também congrego em uma igreja de origem pentecostal, mas que, pela graça de Deus, está passando por um (lento e doloroso) processo de reforma doutrinária – sem, com isso, perder o fervor de espírito no serviço ao Senhor (Rm 12.11).

      Em situações como a sua (que parece semelhante à minha), meu conselho geral seria: jamais escolha o caminho pecaminoso de deixar de congregar (Hb 10.25) e não escolha rapidamente o caminho mais fácil de mudar de congregação. Ore ao Senhor e creia em Sua soberania absoluta sobre tudo e todos. Aproveite cada oportunidade para falar a verdade em amor. Chore pelos irmãos e sinta dores de parto por eles. Clame especificamente pelos pastores e por aqueles que se dedicam ao ensino, para que o Senhor lhes ilumine a mente e o coração. E, em todas essas coisas, procure diligentemente viver de conformidade com as verdades que você professa, tornando mais visível aos homens a beleza da doutrina de Deus, nosso Salvador (Tt 2.10).

      É claro que, em determinadas situações, separar-se da congregação é o único caminho bíblico a ser seguido. Mas essa é uma atitude extrema, que só deveria ser considerada como uma última opção.

      Se você quiser conversar melhor sobre isso, envie um email para preciosocristo@gmail.com, ok?

      Em Cristo,
      Vinícius

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