Conselhos para os jovens reformados: Confirmem a eleição de vocês

Vinícius S. Pimentel

(Vejam o índice na Introdução.)

Semana da Reforma Protestante 2011

4º conselho: Confirmem a eleição de vocês, crescendo nas virtudes cristãs

Certamente, de todas as convicções distintivas que um calvinista possui, nenhuma delas é tão controversa quanto a sua fé na eleição incondicional. Quando um cristão se identifica com as chamadas “doutrinas da graça”, a primeira pergunta que ele ouve (em tom de ironia) é: “Quer dizer então que você acredita que Deus escolheu alguns para serem salvos e outros para serem condenados?”.

Bem, na maioria das vezes eu não respondo essa pergunta com um mero “sim”, pois, em geral, ela esconde uma série de compreensões equivocadas sobre a predestinação. De toda forma, a doutrina da eleição incondicional pode ser basicamente exposta em duas afirmações. A primeira afirmação é: “Deus escolheu, antes da fundação do mundo, alguns homens para a vida eterna e outros para a morte eterna” (por isso falamos em eleição). A segunda afirmação é: “Essa escolha de Deus não se baseia em nenhum atributo ou obra dos eleitos, mas tão somente no beneplácito de Sua vontade” (por isso é incondicional).

Em seu delicioso livro Uma jornada na graça, Richard Belcher faz essas duas afirmações da seguinte maneira:

A eleição incondicional é o ato de Deus por meio do qual Ele escolheu um grupo de pessoas, antes da fundação do mundo, para que elas pertencessem a Ele mesmo. Este grupo de pessoas é conhecido como os eleitos. (1)

O único fundamento que os calvinistas aceitam para a eleição destas pessoas, à luz da incapacidade e depravação delas […] é a vontade de Deus, e tão-somente a vontade de Deus. (2)

Ao ouvirem a exposição dessa doutrina, muitas pessoas questionam: “Quer dizer então que um eleito pode viver como quiser, pecar o quanto quiser e, mesmo assim, ele será salvo?”. A resposta para essa pergunta é um sonoro NÃO! Na verdade, um reformado crê, junto com o apóstolo Paulo, que a predestinação tem um propósito, isto é, ela acontece para conduzir os eleitos a um alvo definido. E qual é o propósito da predestinação? É fazer com que os eleitos sejam conformados à imagem de Jesus Cristo, se apresentem santos e irrepreensíveis diante de Deus e, assim, tragam louvor à Sua gloriosa graça (cf. Romanos 8.28-30; Efésios 1.3-6). A doutrina da eleição significa justamente que Deus é quem conduz os eleitos, soberana e infalivelmente, do seu estado de total condenação e pecaminosidade à glória de serem transformados na própria imagem do Senhor (cf. 2Coríntios 3.18).

Portanto, falar em um eleito que não está crescendo em santidade é um completo absurdo. A predestinação não inclui apenas o início (a eleição propriamente dita) e o fim da história (a vida eterna); ela também inclui os meios pelos quais o homem é retirado do lamaçal do pecado e conduzido à glória eterna. E a santificação está necessariamente incluída nesse processo, como a Confissão de Fé de Westminster faz questão de frisar:

Assim como Deus destinou os eleitos para a glória, assim também, pelo eterno e mui livre propósito da sua vontade, preordenou todos os meios conducentes a esse fim; os que, portanto, são eleitos, achando-se caídos em Adão, são remidos por Cristo, são eficazmente chamados para a fé em Cristo pelo seu Espírito, que opera no tempo devido, são justificados, adotados, santificados e guardados pelo seu poder por meio da fé salvadora. Além dos eleitos não há nenhum outro que seja remido por Cristo, eficazmente chamado, justificado, adotado, santificado e salvo. (CFW, III.VI)

Agora, uma vez que nós não sabemos quem são aqueles que o Senhor escolheu antes da fundação do mundo (pois “o livro dos decretos de Deus” está selado para nós), nem somos capazes de ver agora aqueles que entrarão pelos portais eternos, como poderemos reconhecer a nossa própria eleição? Segundo as Escrituras, é exatamente através da santidade que nós discernimos um eleito de Deus.

Ao escrever aos tessalonicenses, Paulo asseverou ser capaz de reconhecer a eleição daqueles crentes. Mas como ele podia afirmar tal coisa? Ora, os irmãos em Tessalônica possuíam uma fé operosa, um amor abnegado e uma firme esperança no retorno do Senhor Jesus. Eles não apenas haviam ouvido a Palavra, mas haviam acolhido os ensinamentos de Paulo, tornando-se imitadores seus e do Senhor, ao ponto de o apóstolo considerá-los um modelo a ser seguido pelas igrejas das cidades vizinhas. Eram os frutos dos tessalonicenses que permitiam a Paulo reconhecê-los como eleitos de Deus (1Tessalonicenses 1.2-10).

O apóstolo Pedro também nos fala sobre a relação entre eleição e santidade em sua segunda epístola universal. Ali, após nos encorajar ao crescimento nas virtudes cristãs, ele nos ordena: “Por isso, irmãos, procurai, com diligência cada vez maior, confirmar a vossa vocação e eleição; porquanto, procedendo assim, não tropeçareis em tempo algum” (2Pedro 1.10). Em outras palavras, Pedro está dizendo: “Irmãos, acumulem tudo isto em suas vidas: a fé, a virtude, o conhecimento, o domínio próprio, a perseverança, a piedade, a fraternidade e o amor. Esforcem-se para isso, pois, à medida em que vocês crescem e evidenciam os caracteres de Cristo na vida de vocês, isso torna mais e mais evidente que vocês foram, de fato, eleitos pelo Senhor para a eterna salvação”.

Infelizmente, os jovens reformados de hoje sabem falar coisas muito profundas sobre a “mecânica” da eleição, mas são muito rasos em evidenciar e desenvolver a vida sobrenatural que marca um eleito de Deus. Falta-lhes aquela piedade vigorosa que marcou a vida terrena de Jesus; falta-lhes aquele amor abnegado que levou os primeiros discípulos a venderem todos os seus bens; falta-lhes aquela esperança firme que Paulo e Silas tinham na prisão em Filipos, assim como aquela perseverança com que todos os apóstolos aceitaram sofrer pelo nome de Jesus e pela causa do Evangelho.

Se nós verdadeiramente cremos na eleição incondicional, nós deveríamos ser os crentes mais zelosos em desenvolver a nossa salvação com temor e tremor; afinal, nós sabemos que Deus é aquele que opera em nós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade (cf. Filipenses 2.12-13). Nós deveríamos ser os cristãos que mais odeiam o pecado, que mais aborrecem a malícia, que mais vigiam no falar, que mais se afastam das conversações imundas e de todas as outras formas de mal. Nossas vidas deveriam ser distintivamente marcadas pela santidade, pela devoção a Deus e por um caráter irrepreensível. Afinal, é assim que um verdadeiro eleito de Deus se conduz neste mundo!

Portanto, meu quarto conselho aos jovens reformados é: confirmem a eleição de vocês, crescendo na santidade. Não se contentem com o que já alcançaram, mas prossigam para o alvo, que é a plena conformação à imagem de Cristo Jesus. Enquanto não se tornarem como Ele é, não descansem, mas continuem sendo diligentes. Foi para isso que o Pai nos elegeu.

Notas:
(1) BELCHER, Richard P. Uma jornada na graça: uma novela teológica. São José dos Campos/SP: Fiel, 2002, p. 41
(2) Idem, p. 41-42.

Por: Vinícius Silva Pimentel | PreciosoCristo | Original aqui.
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