Conselhos para os jovens reformados: Ensinem com clareza

Vinícius S. Pimentel

(Vejam o índice na Introdução.)

Semana da Reforma Protestante 2011

3º conselho: Ensinem as Escrituras com clareza

Se hoje nós podemos ir até uma livraria evangélica e adquirir uma cópia da Bíblia em nosso próprio idioma (por menos de dez reais), jamais deveríamos nos esquecer do grande custo que isso representou na história da Igreja. Os reformadores dedicaram suas vidas para traduzir as Escrituras dos idiomas originais para a “linguagem comum do povo”. Alguns deles enfrentaram a própria morte, por não se curvarem às determinações da Igreja Católica Romana e de seus seguidores, os quais não aceitavam a ideia de que a Palavra de Deus fosse colocada à disposição do “homem comum” (1).

A tradução das Escrituras para o vernáculo foi um dos principais compromissos na agenda da Reforma Protestante – e o seu êxito corresponde a uma das mais poderosas bênçãos já derramadas por Deus em favor da Sua igreja. Esse desejo de tornar a Bíblia acessível até ao mais simples camponês, entretanto, estava alicerçado numa doutrina bastante estimada pelos reformadores: a perspicuidade da Escritura.

Ao utilizarem essa palavra escabrosa – perspicuidade – os teólogos da Reforma estavam defendendo que a mensagem básica das Escrituras Sagradas é bastante clara, podendo ser apreendida até pelo mais inculto dos homens. “O testemunho do SENHOR é fiel e dá sabedoria aos símplices” (Salmo 19.7). Discorrendo acerca dessa doutrina, R.C. Sproul observa:

No século 16 os Reformadores afirmaram sua absoluta confiança naquilo que denominaram a perspicuidade das Escrituras. Esse termo técnico pode ser entendido como a clareza das Escrituras. Eles sustentavam que a Bíblia é basicamente lúcida e clara. É simples o bastante, permitindo a qualquer pessoa alfabetizada entender sua mensagem básica. (2)

É verdade que existem na Bíblia passagens menos claras e de compreensão mais difícil. A doutrina da perspicuidade das Escrituras não nega isso. Há, realmente, textos que exigem conhecimento das línguas originais e de minúcias dos princípios de exegese. Entretanto, mesmo reconhecendo isso, Sproul insiste na clareza do texto sagrado em sua mensagem fundamental:

O Cristianismo bíblico não é uma religião esotérica. Seu conteúdo não está oculto em símbolos vagos que requerem um tipo especial de “percepção” para decifrá-los. Não há necessidade de nenhuma proeza intelectual ou dom espiritual para compreender a mensagem básica das Escrituras. (3)

Infelizmente, porém, a perspicuidade das Escrituras não parece ser uma verdade muito estimada em nossos dias. Enquanto os reformadores do século XVI estavam profundamente preocupados em tornar as grandes doutrinas bíblicas compreensíveis aos homens simples, os atuais paladinos da fé reformada não demonstram o mesmo interesse. E, enquanto os puritanos do século XVII se esforçavam para colocar as ferramentas da teologia acadêmica a serviço dos homens comuns, muitos “reformados” de nosso tempo usam perversamente o “conhecimento” teológico como arma para espancarem os servos do Senhor e humilharem os mais simples.

Certa vez, um pastor me contou um triste episódio, no qual certos reformados professos zombavam de outros cristãos, chamando-os de “pentecostais burros”, apenas porque eles não sabiam a diferença entre “supralapsarianismo” e “infralapsarianismo”. Ora, eu tenho certeza de que esse tipo de “reformado” faz o Senhor Jesus ter ânsia de vômito! Tais homens, ao invés de estarem em sincera busca pela propagação do Cristianismo bíblico, parecem possuir no íntimo um desejo iníquo de permanecerem como uma “elite intelectual” da fé cristã. Com suas bocas, eles lamentam a falta de aceitação da fé reformada na Cristandade em geral; mas, no seu coração, sentem prazer de serem os “gurus” da verdade bíblica e ficam muito contentes em saber que o seu “conhecimento” é partilhado por poucos (4).

Como jovens reformados, nós precisamos nos guardar cuidadosamente desse tipo de atitude pedante, arrogante e diabólica. Nós precisamos cultivar um interesse sincero pela propagação do Evangelho e da verdade bíblica pura. Nós precisamos desejar, de coração, ver o mundo inteiro se enchendo da glória e do conhecimento de Deus. Nós precisamos orar e lutar para que as verdades profundas da Escritura sejam entendidas e amadas – não apenas por uma minoria de crentes versados em teologia, mas até pelos mais simples e pequeninos de nossos irmãos!

E, se esse é realmente o nosso objetivo, nós devemos nos esforçar por ensinar as Escrituras com clareza. Nós devemos nos tornar peritos em comunicar verdades profundas em linguagem simples, de modo que as grandes doutrinas bíblicas estejam na mente, no coração e nos lábios de todo o povo de Deus, não apenas dos “doutores”.

Não há um exemplo melhor a seguir que aquele do nosso Senhor Jesus, o qual, em Seu ministério, expunha a Palavra “conforme o permitia a capacidade dos ouvintes” (Marcos 4.33). Se o Espírito Santo irá abrir os seus olhos para compreenderem a Palavra de coração ou não, é algo que cabe a Deus, em Sua soberania, decidir. A nós, porém, compete comunicar a mensagem da Palavra de Deus de forma clara e precisa (não de maneira rebuscada ou pedante), a fim de que todos possam entendê-la.

Não me compreendam mal. A linguagem técnica da teologia é muito útil no ambiente acadêmico, pois permite uma precisão no discurso que a linguagem cotidiana não possui. Todavia, no dia-a-dia da pregação, do ensino da Palavra e do testemunho do Senhor, falar na “linguagem comum do povo” é muito mais proveitoso. Uma dona de casa entenderá muito melhor se dissermos que Deus criou o mundo do nada, ao invés de falarmos na “criação ex nihilo“. Um homem pouco instruído obterá grande proveito para a sua alma se lhe mostrarmos que ele precisa arrepender-se e crer no Evangelho, mas permanecerá um pecador perdido se apenas falarmos da necessidade de μετανοέω e de πιστεύω.

Portanto, meu terceiro conselho aos jovens reformados é: ensinem as grandes doutrinas bíblicas com clareza. Fujam do pedantismo e da arrogância intelectual. Tornem a fé reformada na Escritura acessível ao homem comum. Sejam profundos, mas não sejam incompreensíveis. Ou, nas palavras mais simples que conheço: falem para serem entendidos!

Notas:
(1) Entre aqueles que aceitaram alegremente perder a vida em prol do objetivo de tornar a Bíblia acessível ao homem comum, estava William Tyndale, responsável pela primeira tradução do Novo Testamento para o inglês. Enfrentando as determinações do rei Henrique VIII, Tyndale concluiu sua tradução em Worms, na Alemanha, e passou a contrabandeá-la de lá para a Inglaterra em fardos de roupa. Em 1536, ele foi finalmente martirizado pela Igreja Católica Romana, nos arredores de Bruxelas, queimado preso a uma estaca. A história de Tyndale é contada em PIPER, John. Completando as aflições de Cristo. São Paulo: Shedd, 2010, p. 33-62.
(2) p. 16.
(3) p. 17.
(4) Sim, as aspas são propositais. Eu me recuso a reconhecer como “reformado” esse tipo de gente; tampouco valorizo como verdadeiro o conhecimento teológico que tais pessoas possuem. Segundo o apóstolo inspirado, aqueles que demonstram esse tipo de desprezo pelos irmãos nunca viram nem conheceram o Deus das Escrituras e, portanto, não podem ser chamados de cristãos (1João 3.10).

Por: Vinícius Silva Pimentel | PreciosoCristo | Original aqui.
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