494 anos depois…

Áurea Emanoela

Semana da Reforma Protestante 2011

1. A Reforma e a igreja do século I

Ao longo de 494 anos, o dia 31 de outubro é lembrado pelos protestantes como o marco do Movimento Reformado, o dia em que Marinho Lutero alçou voz contra a venda de indulgências realizada pela Igreja Católica Romana, afixando à porta da igreja do Castelo de Wittenberg as suas Noventa e Cinco Teses. A perspectiva reformada ecoou para muito além das fronteiras do Sacro Império Romano-Germânico, levando as pessoas, através do ensino Palavra, ao verdadeiro conhecimento de Deus. A Bíblia, que antes era um livro restrito aos sacerdotes (que se julgavam donos da revelação Divina), passa a ser a regra de fé e prática daqueles que abraçavam a fé protestante.

Muito mais do que um movimento político, como alguns sugerem, a Reforma envolveu, principalmente, a vida espiritual dá época, então fragilizada pelo completo desconhecimento de Deus e da sua maravilhosa graça. O grande alvo dos reformadores não era a fragmentação da igreja, e sim um retorno aos ensinamentos bíblicos e uma completa “limpeza” daquilo que houvera se estabelecido como verdade, mas que não passava de desvio da Palavra de Deus:

Aqueles que repudiam as Escrituras, imaginando que podem ter outro caminho que os leve a Deus, devem ser considerados não tanto como dominados pelo erro, mas como tomados por violenta forma de loucura. Recentemente, apareceram certos tipos de mau caráter que, atribuindo a si mesmos, com grande presunção, o magistério do Espírito, faziam pouco caso de toda leitura da Bíblia, e riam-se da simplicidade dos que ainda seguem o que esses, de mau caráter, chamam de letra morta e que mata. (João Calvino – As Institutas da Religião Cristã – Livro I, Capítulo 9)

A grande verdade, afirmada e ensinada pelos reformadores consistia em que a autoridade da Igreja é Jesus Cristo, não havendo quem possa substituí-lo. “E pôs todas as coisas debaixo dos pés e, para ser o cabeça sobre todas as coisa, o deu à igreja.” (Efésios 1.22).

Alicerçados no poder eterno que Jesus detém e que prometeu exercer em prol da Sua obra na qual Seus servos participam, os discípulos receberam a incumbência de evangelizar o mundo. Sua missão consistia em, através do ensino da Palavra, levar as almas à conversão, batizar os convertidos para fazerem parte da Igreja de Cristo, e ensiná-los a viver segundo Seus ensinamentos e no Seu poder, sentindo Sua presença espiritual acompanhando cada um dos Seus (cf. Mateus 28.19-20, a “grande comissão”). Foi em nome desse cristianismo – sólido, firme, cristocêntrico – que os reformadores dedicaram as suas vidas e muitos homens e mulheres foram levados à morte.

2. O século XXI: “O Período das Trevas”

À semelhança do que aconteceu nos dois últimos séculos que antecederam a Reforma, a igreja moderna vive um período de trevas, que tem como agravante uma profunda apatia espiritual daquilo que deveria ser o Corpo de Cristo, “no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para templo santo no Senhor” (Efésios 4.16).

494 anos após a Reforma Protestante, assistimos (não sem dores) a igreja “gemer”, sufocada por movimentos completamente destoantes da fé cristã (mas que ainda assim, identificam-se como Igreja do Senhor) e duramente perseguida por aqueles que, por não suportarem a sã doutrina, mas tendo comichão nos ouvidos, elegeram para si doutores conforme as suas próprias concupiscências (cf. 2Timóteo 4.3).

A nossa sociedade, tanto quanto àquela do século XVI, imersa em imoralidade e perversão, necessita de Deus, da sua Palavra e de uma transformação que abranja não apenas a sua vida espiritual, mas também a restauração da dignidade humana.

Vivemos tempos difíceis. Jesus parece ter virado uma figura distante, presa à história; a Bíblia, um livro velho de conceitos ultrapassados; os cristãos, pessoas radicais, intolerantes, completamente antiquadas; a mentira tomou o lugar da verdade, o errado passou a ser certo e o pecado uma questão de ponto de vista.

Aqueles que se opõem a Igreja, perseguindo-a vorazmente, parecem oferecer aos cristãos duas únicas alternativas: ou nos comprometemos com os valores obscurecidos de uma sociedade corrupta, entregue ao seu pecado, ou seremos “amordaçados”, perseguidos, lançados em grades; esquecem, porém, que a Palavra de Deus não se sujeita à aceitação dos homens. O esforço para calar a Igreja é inútil, pois, em todas as épocas, o Senhor sempre levantará pessoas dispostas a entregar suas próprias vidas por amor às Escrituras.

Ainda é possível acrescentar a toda essa problemática um tipo de “evangelicalismo” emergente que, embora lote templos, é completamente deficiente em confrontar as pessoas com a realidade de seu pecado pessoal. Os pregadores oferecem uma fé fácil, satisfação imediata e um “cristo” totalmente oposto ao das Escrituras. As pessoas são chamadas a “aceitar Jesus”, “optar por Jesus”, “escolher Jesus”, “deixar que Jesus seja o Senhor das suas vidas” (como se pudéssemos coroar quem já é Rei e Senhor de todas as coisas).

Devemos precaver-nos para que, cedendo ao desejo de adequar Cristo às nossas próprias invenções, não o mudemos tanto (como fazem os papistas), que ele se torne dessemelhante de si próprio. Não nos é permitido inventar tudo ao sabor de nossos gostos pessoais, senão que pertence exclusivamente a Deus instruir-nos segundo o modelo que te foi mostrado (Ex 25.40). (João Calvino, Exposição de Hebreus, p. 209)

A sã doutrina tem sido suplantada por falsos e perigosos ensinos que têm entrado sorrateiramente nas igrejas e “arrastado” pessoas ao engano. Os reformadores, à semelhança dos apóstolos (cf. Romanos 16.17; 1Timóteo 4.6; 6.3; 2Timóteo 4.3; Tito 1.9; 2.1, 10; Hebreus 6.1; 1João 2.24, Apocalipse 2.15), compreendiam esse perigo:

Não há nada que Satanás mais tente fazer do que levantar névoas para obscurecer Cristo; pois ele sabe que dessa forma o caminho está aberto para todo tipo de falsidade. Assim, o único meio de manter e também restaurar a doutrina pura é colocar Cristo diante de nossos olhos, exatamente como ele é, com todas as Suas bênçãos, para que Seu poder possa ser verdadeiramente percebido. (João Calvino, As Institutas da Religião Cristã)

Comentando Gálatas 5.9 (“Um pouco de fermento leveda toda a massa”), Calvino escreve:

Essa cláusula nos adverte de quão danosa é a corrupção da doutrina, para que cuidassem de não negligenciá-la (como é costumeiro) como se fosse algo de pouco ou nenhum risco. Satanás entra em ação com astúcia, e obviamente não destrói o evangelho em sua totalidade, senão que macula sua pureza com opiniões falsas e corruptas. Muitos não levam em conta a gravidade do mal, e por isso fazem uma resistência menos radical. […] Devemos ser muito cautelosos, não permitindo que algo (estranho) seja adicionado à íntegra doutrina do Evangelho. (João Calvino, Gálatas, p. 158-159)

Ao contrário do que acontece hoje em grande parte das igrejas emergentes, os reformadores primavam pela pregação teocêntrica, não usavam o púlpito para expor seu sucesso pessoal, tampouco empregavam tempo falando de suas experiências miraculosas e sobrenaturais (tão distantes da realidade da congregação). Aqueles homens, levantados e guiados por Deus, se emprenhavam em pregar a Cristo, pois estavam plenamente convencidos de que esse é o único meio capaz de conduzir o homem à salvação, a uma mudança radical de vida.

Os reformadores não ensinavam uma fé barata, meritória, não “apelavam” para que as pessoas viessem a Cristo, pois sabiam que o homem por si só – em seu estado natural (de completa miséria e rebelião) – é incapaz de “aceitar” a Jesus, o que ocorrerá apenas se o Senhor o atrair à Sua presença. Eles também não se calaram frente às ameaças dos paladinos que os perseguiam, por odiarem a verdade e aborrecerem a luz – “porque a luz tudo manifesta” (cf. Efésios 5.13, ARC) -, pois não temiam a fúria daqueles que, embora pudessem matar o corpo, de modo nenhum poderiam matar a alma (cf. Mateus 10.28).

Somente os crentes genuínos conhecem a diferença entre este estado transitório e a bem-aventurada eternidade, para a qual foram criados; eles sabem qual deve ser a meta de sua vida. Ninguém, pois, pode regular sua vida com uma mente equilibrada, senão aquele que, conhecendo o fim dela, isto é, a morte propriamente dita, é levado a considerar o grande propósito da existência humana neste mundo, para que aspire o prêmio da vocação celestial. (João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo, Parakletos, 2002, Vol. 3, (Sl 90.12), p. 440).

Por: Áurea Emanoela Holanda Lemos | PreciosoCristo | Original aqui.
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