Relembrando a Reforma Protestante

Áurea Emanoela

Semana da Reforma Protestante 2011

1. A importância da Reforma

Tendo em vista o contexto da época, pode-se dizer que a Reforma Protestante do século XVI foi responsável por trazer à sociedade um novo entendimento sobre a relação entre Deus e os seres humanos. Todavia, os fundamentos sobre os quais a Reforma se apoiou remontavam a verdades não tão novas (uma vez que sempre estiveram contidas na Palavra de Deus), mas que foram suplantadas pelo falso ensino da Igreja Católica Romana.

Os reformadores foram responsáveis por reedificar o “altar” que houvera sido derribado, trazendo à luz a necessidade de retorno à centralidade escriturística, à justificação somente pela fé e ao sacerdócio de todos os crentes.

2. O contexto religioso

Apostasia; imoralidade (na sociedade e no seio da própria igreja); falsos ensinos; cristãos frios, sem nenhum compromisso com as doutrinas bíblicas, voltados aos seus próprios interesses e verdades… À semelhança da nossa sociedade, era esse o cenário da Igreja  Católica Romana do século XVI.

A religião, no final da Idade Média, era eminentemente meritória, trazia em seu bojo a missa pelos mortos, a invocação aos santos – principalmente a Maria –, uma falsa crença naquilo que seria o purgatório, além de outras deturpações cujo principal intuito era “arrancar” dinheiro dos fiéis para manter a mordomia dos clérigos.

A sociedade vivia sob o pesado julgo do Papa e da Igreja, sem qualquer liderança espiritual e à mercê dos abusivos impostos eclesiásticos; vitimada por uma religiosidade em que a salvação estava baseada em obras (cujo alcance se estendia àqueles que pudessem pagar por ela). Por meio da venda de indulgências, a Igreja de Roma concedia o perdão das penas temporais do pecado, um comércio lucrativo e imoral.

3. Martinho Lutero

Sob o manto protetor da Igreja Romana e com o jingle “Assim que a moeda no cofre tilintar, a alma do purgatório irá saltar”, o dominicano Tetzer foi a Wittemberg com a vergonhosa promessa de que as pessoas poderiam obter a remissão dos pecados de seus entes queridos que já haviam falecido, mas que padeciam no  “purgatório” em razão do número e gravidade de suas ofensas.

Não demorou para que as informações acerca das atividades perniciosas de Tetzer adentrassem às salas da Universidade de Wittemberg e fossem recebidas com grande consternação pelo então monge e professor de teologia Martinho Lutero.

Inflamando de indignação, Lutero resolveu se pronunciar contra a venda de indulgências, afixando, em 31 de outubro de 1517, à porta da igreja do Castelo de Wittemberg, as suas Noventa e Cinco Teses (uma forma usual, à época, de convidar a comunidade acadêmica para debater determinado assunto). A sua firme posição em favor das verdades bíblicas fez de Lutero um inimigo de Roma, levando-o a excomunhão em 03 de janeiro de 1521.

Duramente perseguido, o ex-monge alemão encontrou refúgio no Castelo de Wartburg, onde começou a produzir uma obra-prima da literatura alemã: a sua tradução das Escrituras.

4. Nova perspectiva

Lutero falou corajosamente contra as indulgências e o ensino de que o perdão dos pecados seria alcançado através de “contrição, confissão e contribuição”: “aqueles que creem que podem garantir a salvação por terem cartas de indulgências serão condenados eternamente juntamente com seus professores” (Tese nº 32).

Para Lutero, apenas o arrependimento – e não as penitências sacramentais, pregadas pela Igreja Romana – levaria o homem a alcançar o favor de Deus. Esta foi a proposição que encabeçou as suas Noventa e Cinco Teses: “ao dizer: ‘Fazei penitência’, etc. (Mateus 4.17), o nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo quis que toda a vida dos fiéis fosse penitência” (Tese nº 01). Nesse mesmo sentido, o documento prossegue: “esta penitência não pode ser entendida como penitência sacramental, isto é, da confissão e satisfação celebrada pelo ministério dos sacerdotes” (Tese nº 02).

Lutero acreditava que a penitência interior seria de nenhum valor (“nula”, em suas palavras), “se, externamente, não produzisse toda sorte de mortificação da carne.” (Tese nº 03). Para o reformador, o arrependimento verdadeiro perduraria por toda a vida, “até a entrada do reino dos céus.”. Martinho Lutero vociferava, convencido pelo Espírito, que “qualquer cristão verdadeiro, seja vivo, seja morto, tem participação em todos os bens de Cristo e da Igreja, por dádiva de Deus, mesmo sem carta de indulgência” (Tese nº 37), para completo desespero daqueles que faziam das indulgências um meio de vida.

5. A centralidade da Bíblia

Completamente cativado por Deus, Lutero trouxe à luz a necessidade de retorno à centralidade das Escrituras, cujos primeiros passos foram dados por alguns “pré-reformadores” dos séculos XIV e XV, os quais defendiam uma espiritualidade mais bíblica e se colocavam contra certos ensinos e práticas da Igreja medieval – entre eles, John Wycliff, John Hus (defendido por Lutero em um debate com o dominicano João Eck) e Jerônimo Savonarola.

Os reformadores reconheceram a Bíblia como a fonte por excelência da tradição cristã, o registro providencial da ação redentora de Deus na vida da humanidade. O grande compromisso da Reforma para com a Escritura enfatizava a inspiração, a autoridade e a suficiência da Bíblia, outrora suplantadas pela tradição católico-romana.

Homens como Martinho Lutero, Ulrich Zwinglio e João Calvino, cujas vidas foram impactadas pelo poder libertador de Deus, afirmavam convicta e apaixonadamente que a autoridade bíblica decorre de sua origem divina, sendo a revelação direta, viva e pessoal de Deus aos seres humanos. Eles ensinavam ousadamente que o evangelho contido nas Sagradas Escrituras é o pilar de sustentação da Igreja, e não o contrário: “… edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular; no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para santuário dedicado ao Senhor” (Efésios 2.20-21).

A consequência desses ensinamentos representou outro marco do protestantismo: o estudo da Bíblia passou a ser não apenas um direito, mas um dever de todos aqueles que professavam a fé reformada. A igreja que florescia à luz desses ensinamentos passou a refletir novas convicções e o foco central do culto passou a ser a pregação expositiva da Palavra, bem como a celebração dos sacramentos (o batismo e a ceia do Senhor).

6. Os solas da Reforma

Pouco a pouco, essa nova perspectiva cristã se consolidou em cinco princípios fundamentais da Reforma Protestante, conhecidos como os Cinco solas:

† Sola Fide (“somente a fé”): representava a convicção protestante quanto à exclusividade da fé como meio de justificação.

Sola Sciptura (“somente a Escritura”): para os reformadores, somente a Escritura Sagrada tem a palavra final em matéria de fé e prática. Tal convicção ficou consubstanciada nas confissões de fé de origem reformada, como a Confissão de Fé de Westminster:

“A autoridade da Escritura Sagrada, razão pela qual deve ser crida e obedecida, não depende do testemunho de qualquer homem ou igreja, mas depende somente de Deus (a mesma verdade) que é o seu autor; tem, portanto, de ser recebida, porque é a palavra de Deus.” (CFW, I.IV)

Solus Christus (“somente Cristo”): os reformadores defendiam a suficiência e a exclusividade de Cristo como Autor da salvação. “Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado” (1 Coríntios 2.2). Para eles, quando a Palavra de Deus é tomada como regra de vida, Cristo passa a ser o centro do nosso viver.

Sola gratia (“somente a graça”): a salvação não é, em nenhum sentido, obra humana; é, na verdade, ato da livre e soberana graça de Deus. “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus” (Efésios 2.8).

Soli Deo Glória (“somente a Deus a glória”): dar glória somente a Deus significa que nada nem ninguém podem ocupar o lugar que pertence apenas a Ele. Foi para esse fim que todas as coisas foram criadas: a glória de Deus. Essa verdade é belamente expressa na resposta à primeira pergunta do Breve Catecismo de Westminster:

O fim principal do homem é glorificar a Deus, e gozá-lo para sempre.

7. Conclusão

“Comemorar a Reforma não é uma questão de saudosismo ou apego à tradição, mas significa reafirmar os fundamentos bíblicos redescobertos e confessados pelos reformadores, sem os quais ficaremos à deriva no mar de incertezas que caracteriza a presente era” (Alderi Souza de Matos, Instituto Presbiteriano Mackenzie).

Por: Áurea Emanoela Holanda Lemos | PreciosoCristo | Original aqui.
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